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L’OBJET FRONTIERE

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PREMIERE PARTIE: LES RELATIONS ENTRE CONTROLE ET STRATEGIE : A LA RECHERCHE D’UN CADRE INTEGRE

2.2.2 L’OBJET FRONTIERE

A violência no âmbito familiar continua acontecendo apesar de algumas conquistas no campo institucional, político e jurídico. Mantém-se pela impunidade, pela ineficácia das práticas de intervenção e prevenção. Mantém-se também com a cumplicidade silenciosa dos envolvidos, o silêncio da vítima, cuja palavra é confiscada pelo agressor através de ameaças. O silêncio dos demais parentes não agressores que fecham os olhos e se omitem de qualquer atitude de proteção à vítima ou da denuncia do agressor, o silêncio dos profissionais que, em nome da ética e do sigilo profissional, se refugiam muitas vezes numa atitude defensiva, negando ou minimizando os efeitos da violência, contribuindo desta forma para a revitimização e à perpetuação do fenômeno por várias gerações (Furniss, 1993)

Para Gabel (1997), a violência sexual contra crianças e adolescentes é um dos tipos de maus-tratos que mais se ocultam, já que o vitimizado tem medo de falar e, quando o faz, o adulto tem medo de ouvi-lo.

Machado (2002) corroborando o autor acima citado, refere que a prática do incesto vitimizando crianças e adolescentes está entre os mais horríveis crimes que se pode cometer, mas também um dos mais fáceis de esconder, porque as crianças são ameaçadas, ocultando o ocorrido, tendo em vista que ninguém consegue acreditar que os pais, ou outros parentes possam executar o ato da violência sexual.

Desta forma, e conforme postula Furniss (1993), lidar com abuso sexual, sobretudo intrafamiliar, implica defrontar-se com dinâmicas fortemente fundamentadas em segredos que concorrem para manter a coesão do grupo familiar.

Assim, uma das caraterísticas do abuso sexual intrafamiliar é o secretismo que o envolve, pois o silêncio nestas situações poderá ser considerado um dos maiores, se não mesmo o maior, obstáculo à intervenção (Manita, 2003; Magalhães, 2010).

O abuso sexual é um fenómeno complexo e difícil de enfrentar por parte de todos os envolvidos. É difícil para a criança ou adolescente e para a família, pois a denúncia do segredo explicita a violência que ocorre dentro da própria família e também para os profissionais que, muitas vezes, têm dificuldade em agir diante do problema (Magalhães, 2010)

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O segredo também pode advir da censura, da vergonha em relação à sociedade, da autocrítica, do medo da rejeição e de perder os vínculos familiares, das ameaças, da ambivalência em relação ao autor do abuso, enfim, das mais variadas fontes e motivações, operando como importante regulador do equilíbrio familiar (Furniss, 1993). Silenciar o abuso, negando a sua existência, é uma forma de tentar manter a família intacta. O silêncio tem um impacto tão forte sobre todos os membros da família, que os faz acreditar que o que está acontecendo é tão terrível que não pode ser mencionado. Neste sentido, Furniss (1993) assemelha, assim, a síndroma do segredo à síndroma do campo de concentração, onde em ambos os casos a vítima interioriza a experiência traumática desenvolvendo, paradoxalmente, uma vinculação e uma lealdade muito fortes com o agressor.

A manutenção do segredo apresenta causas internas e externas ao âmbito familiar, além de questões psicológicas envolvidas (Furniss, 1993).

Como fatores externos, este autor destaca a inexistência de evidência médica, ameaças contra a criança abusada e suborno, falta de credibilidade da criança e consequências da revelação.

Apenas numa minoria dos casos há prova forense e evidência médica disponível, o que faz com que a família não revele o incidente, por falta de elementos para comprová-lo, principalmente quando a vítima é muito pequena. Um outro fator, a consequência da revelação, está ligado às ameaças, passando a criança a temer que o mal invocado se irá concretizar, fazendo com que não o revele. Junta-se a isso o facto de não querer, por exemplo, a prisão do pai ou o divórcio dos seus pais (Furniss, 1993; Magalhães, 2010). Fatores psicológicos como a culpa, a negação e a dissociação, têm um papel fundamental na manutenção do segredo. A criança abusada sente-se culpada por ter participado efetivamente da interação abusiva, pelo seu equivocado senso de responsabilidade pelo abuso.

Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, as mães, muitas vezes, silenciam o abuso por diversos motivos entre os quais a dependência afetiva e financeira com o agressor ou evitar a exposição da criança à vergonha; “andar nas bocas do mundo” (Furniss, 1993).

Neste sentido, Scodelario (2002 cit. por Rocha 2006) em relação ao silêncio dos envolvidos na dinâmica familiar, também apresenta algumas possibilidades. Em relação ao parceiro/cônjuge “não agressor”, destaca-se o medo do agente da agressão; o ataque às próprias perceções; vontade de manter o equilíbrio ou a unidade familiar, mesmo que

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de forma precária; não querer enfrentar as próprias perdas, pois tomar uma atitude pode implicar a perda do companheiro ou do filho; e fragilização do papel de protetora.

A criança, por sua vez, pode permanecer calada pois acredita que ninguém pode protegê-la, receia ser julgada como culpada pelo meio social em que vive; pelo medo de represálias como, por exemplo, agressões ou ser retirada à sua família e até perder o afeto do agressor (Scodelario, 2002 cit. por Rocha, 2006).

O discurso do agressor é quase sempre sedutor; com palavras carinhosas e elogios agradáveis exercido de uma forma delicada e dissimulada, de tal modo que as pessoas não acreditam que seja capaz de prejudicar alguém ou praticar os atos de violência e abuso.

O segredo, a culpa e a omissão continuam, portanto a ser os comportamentos usuais no âmbito da vítima, da família, e da sociedade em geral e traduzem, na prática, uma dificuldade de materializar a revelação e dar prosseguimento à desmobilização da ação do agressor da violência e proteção da vítima (Lorencini, 2002 cit.por Rocha, 2006). O abuso sexual em crianças e adolescentes no seio familiar, sempre foi, e ainda continua a ser um tabu, um assunto proibido, protegido pelo silêncio, pelo "medo", pela relação de dependência entre os envolvidos, apresentando diversas e inúmeras barreiras para os profissionais que atuam ou tentam atuar nesta área (Gabel, 1997; Rocha, 2006).

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