Existe, de fato? Uns afirmam, outros negam.
Na integridade do termo, não o possuímos ainda, mas não se pode contestar a grande verdade: já temos sólida base, isto é, autores e atores, elementos essenciais.
Temos bons originais, assim no velho, como no moderno repertório, não obstante o marasmo da desilusão da maioria de nossos escritores e artistas.
Tudo depende, para a vitória final, dos poderes públicos, da intervenção direta dos governos, do protecionismo oficial, já prestando auxílio material, pelas subvenções e outros meios, já assistência moral, saneando o palco, dignificando a cena.
Juntamente com as bambochatas e borracheiras dos revis- teiros e burleteiros, devem ser banidos do nosso teatro os tais espetácu- los por sessões, onde nenhum ator, por maior capacidade, pode fazer Arte, e esta degrada, degradando-se primeiro.
É outro caminho para a vitória.
A iniciativa particular pode muito, mas não pode tudo. Ela, há mais de vinte anos, já se vem manifestando em nosso país, por meio de algumas idéias concretizadas, mas efêmeras, quase todas, durando apenas o tempo da decantada rosa do poeta, por meio, ainda, da palavra e da pena, na tribuna das Conferências públicas e da imprensa, de nossos intelectuais, e também, por meio da ação de mui- tos artistas, soldados todos, aguerridos, sempre na brecha, na defesa patriótica do engrandecimento moral e literário do teatro; desde Ar- thur Azevedo, o saudoso “Palinúro”, seguindo-se-lhe Sylvio Roméro, Orlando Teixeira, Aderbal de Carvalho, Demétrio Toledo, Luís de Castro, Clóvis Beviláqua, Henrique Marinho, Mucio da Paixão, Pinto da Rocha,
Eustáchio de Azevêdo, e Gomes Cardim, até Coelho Neto, Paulo Barreto, Cláudio de Souza, Raul Pederneiras, Eduardo Victorino, Arão Reis, Monte Sobrinho, Mário Nunes, Manuel Monteiro, Guedes Miranda, Eustórgio Wanderley, Lafayete Silva, Leopoldo Fróes, Alexandre Azevêdo, Eduardo Vieira, Cândido Costa, Candido Nazareth, Azevedo Lima, Vieira de Mou- ra, Augusto Lima e tantos, tantos outros, em cujo número, figurando, embora, em último lugar, não pela soma de esforços, mas pela fraque- za do gládio, está incluído o obscuro teatrófilo que escreve esta Mono- grafia, e que, abroquelado, sempre, em sua couraça moral contra as nortadas do indiferentismo, aniquilador da coragem dos mais estóicos, segue para a frente, impávido e sereno, a rota do seu dever cívico, traça- da pela própria consciência, que não pede recompensas ao presente, porque trabalha para o futuro.
A Companhia Dramática Nacional, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, o Centro Artístico Teatral do Brasil, a Casa dos Artistas, todas fundadas e existentes, com vida promissora, na capital da Repúbli- ca, e, ainda, o Conservatório Dramático Musical, de São Paulo, fundado em 1906, pelo Dr. Gômes Cardim, são frutos da iniciativa particular.
Apenas a Escola Dramática Municipal é resultado da iniciati- va oficial.
Graças a elas, a essas utilitárias instituições, como que a cons- ciência nacional já vem despertando, parecendo que uma luz auroreal começa de espancar as trevas, alentando-nos o espírito de risonhas esperanças, confortadoras promessas de renascença do teatro nacio- nal, em toda pressão do pensamento que esse título traduz: afirmação de nossos valores literários e artísticos, na cena brasileira.
A 16 de abril de 1920, registra-se um fato de magna impor- tância para os neo-cruzados da gloriosa peleja. É uma data que relem- bra o dia da partida de novos argonautas, mares em fora, acastelados em sua Fé, que arma heróis, à conquista de um sublime ideal, guiados pela estrela de seus sonhos.
Naquela data, convidados pelo diretor da Escola Dramática Municipal, o Sr. Coelho Neto, reuniram-se na sede dessa instituição
diversos artistas, jornalistas e atores teatrais, com o objetivo de se per- mutarem idéias, a respeito do palpitante problema da criação do Teatro Nacional, resultando dessa reunião ser escolhida uma comissão, com- posta dos Srs.: Coelho Neto, Cláudio de Souza, Pinto da Rocha, Eduardo Vieira e Mário Nunes que ficou incumbida de organizar as bases de um projeto para ser, posteriormente, discutido.
Essa reunião foi, entretanto, considerada inútil pelo Dr. Pin- to da Rocha, que declinou da honrosa destinção, convidando, sem demora, todos os membros da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais para que se juntassem no seio dessa instituição, a fim de se iniciar a campanha.
De tal forma agiram, com tamanho valor e civismo, que a idéia chegou à curul presidencial da República, acolhendo o Exm. Sr. Dr. Epitácio Pessoa, carinhosamente, o grande desiderato de serem, a poucos lances, feitos os alicerces do teatro nacional, e decretada sua legislação, que tanto se impõe aos direitos e deveres de empresários e artistas, de autores e público.
E o pensamento não parou: vai marchando vitoriosamente. Em maio de 1920, no Conselho Municipal da capital Federal, o intendente Dr. Vieira de Moura, lançava, com alto descortino, a pedra angular, talvez, do Teatro Nacional fundamentando um projeto de Lei, que foi aprovado unanimemente, determinando acertado local para a construção do teatro brasileiro, e dando à Prefeitura meios para sua execução.
Antes, porém, por insinuação do Exm. Sr. Dr. Epitácio Pes- soa, esposando o pensamento da Sociedade Brasileira de Autores Tea- trais, vimos o ex-Prefeito, Dr. Sá Freire, a quem sucedeu o Dr. Carlos Sampaio, apoiar francamente a idéia da organização definitiva do nosso teatro.
Em 28 de junho, um mês após, no salão de honra da Prefei- tura, com toda a solenidade, realizava-se a cerimônia oficial da assinatura, pelo Prefeito, Dr. Carlos Sampaio, da Lei do Conselho Muni-
cipal, criando o teatro brasileiro, consoante o projeto aludido do Dr. Vieira de Moura.
Ao assinar o Decreto, o Dr. Carlos Sampaio julgou do seu dever declarar: que o ato em celebração não resolvia o magno proble- ma, mas a construção de um edifício para o teatro brasileiro era, sem dúvida, o caminho mais rápido e eficaz porque em Arte o teatro consti- tui o ensino prático.
Usando, então, de uma pena de ouro, ofertada para esse fim, pôs sua assinatura nos documentos, sob aplausos frementes, orando, na qualidade de Presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, o Dr. Pinto da Rocha, que se pronunciou sobre a significação da soleni- dade, vitória final em seu sentir, de uma luta profunda durante muitos anos.
A Resolução criando o teatro brasileiro tem a data 28 de junho de 1920 (sanção), e recebeu o n. 2.182.
É concebida nestes termos:
O Conselho Municipal resolve:
Art. 1º. - Fica o Prefeito autorizado a construir um teatro, exclusivamente destinado ao drama e a comédia, e que se denominará Teatro Brasileiro.
Paragrafo único - Na construção desse edifício deverá ser apro- veitada a estrutura metálica do antigo Teatro Apolo, doado à Prefeitura.
Art. 2º. - Para a localização desse novo teatro, o Prefeito apro- veitará as obras, disponíveis do prolongamento da avenida Gomes Freire, entre as do Visconde do Rio Branco e da Cons- tituição, e desapropriará os terrenos que forem necessários. Paragrafo único. - Fica o Prefeito autorizado a despender até a quantia de 500:000$000, para a referida construção, as desa- propriações necessárias, abrindo o respectivo crédito. Art. 3º. - Revogam-se as disposições em contrário.
Em 30 de junho, ainda do mesmo ano, o Dr. Vieira de Moura submeteu à consideração do Conselho Municipal um projeto, institu- indo a Companhia Dramática Normal do Teatro Brasileiro criando, e estabelecendo bases para seu funcionamento e regulamentação.
Na mesma sessão o intendente Dr. Azerêdo Lima fundamen- tou outro projeto, que foi derrotado, autorizando o Prefeito a subven- cionar com 240:000$000, anuais, a companhia de dramas e comédias nacionais que se organizasse para trabalhar no teatro a ser construído pela Prefeitura, sendo-lhe, também, concedido, gratuitamente, o tea- tro.
O novo projeto do Dr. Vieira de Moura foi convertido, em 24 de setembro de 1920, em Resolução do Conselho, negando-lhe, po- rém, sanção o Dr. Carlos Sampaio.
No seu veto, confessa ao Senado opôr-se a contragosto à refe- rida Resolução, não só porque desconvém aos próprios interesses da arte dramática, senão, também, porque, estudada financeiramente, considera-a sobremodo onerosa aos cofres municipais, desastrosa mesmo salientando, ainda, o - “inconveniente de roubar aos artistas brasileiros o estímulo, que é, aliás, o elemento dinâmico atuando sobre sua tendência artística, para desenvolvê-la e aperfeiçoá-la”.
Constitua-se uma Companhia Dramática, com caráter nacio- nal (diz, ainda, o Prefeito, ao finalizar as desenvolvidas razões do seu veto) e estou pronto a concordar em que se lhe dê, com o edifício do teatro, uma determinada subvenção, por parte dos cofres municipais.
O Senado, tomando em toda a consideração as razões do veto, deu-lhe sua aprovação.
Decorrido algum tempo, foi adquirido pela Prefeitura, em 1 de novembro de 1920, e pela quantia de dois mil contos de réis por compra feita ao Banco do Brasil, o tradicional Teatro São Pedro de Alcântara, para ser a sede do Teatro Brasileiro, evitando, assim, o peri-
go de ser arrematado por mãos profanas aquele histórico e augusto templo da Arte, onde pisaram muitos de nossos gloriosos artistas, desde João Caetano até Ismenia dos Santos.
Mais tarde, como derivante lógica da Lei criadora do Teatro Brasileiro, foi instituído o Conselho Consultivo de Arte Teatral, tendo por missão dar parecer sobre peças dramáticas e musicais que tiverem de ser exibidas no São Pedro e no Municipal.
Para compor esse Conselho foi nomeada uma comissão de literatos, juristas e musicistas: – Augusto de Lima, Pinto da Rocha, Coelho Neto, Abdon Milanez e Francisco Braga – homenageando-se, por essa forma, ao mesmo tempo, respectivamente, a Academia Brasi- leira de Letras, Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, Escola Dramá- tica, Instituto Nacional de Música e Sociedade de Concertos Sinfônicos. Cumpre, agora, como bem conceitua Coelho Neto, a todos os que verdadeiramente se interessam pelo progresso do Brasil mental, trabalhar porque nas festas do Centenário da nossa Independência
possamos dar aos que nos visitem, uma prova de que, ao lado das numerosas casas de espetáculos para companhias es- trangeiras, há uma, pequenina, para agasalho da poesia nacio- nal e palco das cenas da nossa vida e da história.
Citamos aqui a Companhia Dramática Nacional, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e a Casa dos Artistas, como exemplos elo- qüentes do muito que pode a iniciativa particular em prol do Teatro Nacional e dos artistas brasileiros.
Justo é, portanto, e a esse sentimento não nos queremos forrar, assinalemos nestas páginas, perfunctoriamente embora, gisan- do alguns traços, a vida utilitária e de apostolado dessas três instituições, irmanadas pela mesma crença, pela mesma fé.