Part III: Fibrous scaffolds
Chapitre 2 Objectifs et méthodologie
Para explicarmos as características gerais desse gênero textual, adotaremos a noção de tirinha postulada por Ramos (2009, 2011), que defende como característica composicional desse gênero um formato regular, geralmente horizontal e retangular, com diferentes aspectos, consolidados nos processos sociocognitivos de interação. O autor destaca quatro classificações: 1) tira cômica; 2) tira seriada; 3) tira cômica seriada; 4) tira livre. Os três últimos, por serem pouco divulgados nos jornais e na internet, tendem a ser pouco conhecidos pelos leitores. Antes de nos aprofundarmos de vez no tipo escolhido, vale apresentar uma rápida síntese das principais características de cada um.
O primeiro tipo, a tira cômica, é reconhecido pelo humor. Para Ramos (2011), esse tipo se tornou sinônimo de tiras no Brasil. Em estudo sobre o gênero e sobre sua circulação, o autor observou que tais produções se assemelham ao modo de composição das piadas.
apresenta formato fixo, de uma coluna;
a tendência é que o formato seja horizontal, de um (mais comum) ou dois andares; em revistas em quadrinhos, pode aparecer também na vertical; a tendência é de uso de poucos quadrinhos, dada a limitação do formato
(o que constitui narrativas mais curtas); em geral, fica entre um e quatro quadros ou vinhetas;
a tendência é de uso de imagens desenhadas; há registro de casos que utilizam fotografias, mas são mais raros; em jornais, é comum aparecer na parte de cima da tira o título e o nome do autor; em coletâneas feitas em livros e em blogs, essa informações são suprimidas das tiras porque aparecem em geral na capa da obra ou, no circuito de circulação virtual, nas informações sobre o autor em campo específico do site;
os personagens podem ser fixos ou não;
há predomínio da sequência narrrativa, com uso de diálogos; o tema abordado é humorístico;
há tendência de criação de um desfecho inesperado, como se fosse “uma piada por dia”;
a narrativa pode ter continuidade temática em outras tiras. (RAMOS, 2012, p. 749)
Esta tira da série Rango, de Edgar Vasques, ajuda a ilustrar esses pontos:
(5) Figura 2
(Tirinha. In: RAMOS, 2012, p. 749)
O final inesperado é o que induz o sentido de humor, característica da tira cômica e que a assemelha ao gênero textual piada. Esta também tem como marca a criação de desfechos que surpreendam o leitor/ouvinte no final da trama. Para Ramos (2011), embora parecidos, os dois gêneros diferem no processamento textual. O autor explica que, pelo fato de as tiras cômicas geralmente serem textos verbo-visuais, elas exigem a articulação das duas modalidades no mecanismo de leitura para a construção do sentido.
O segundo tipo, a tira seriada, é definida por Ramos (2009, 2011) como aquela que possui como característica peculiar a construção da narrativa por meio de capítulos. Cada tira apresentaria um episódio com um clímax no final, a exemplo de uma novela de TV. Na tira seguinte, a narrativa é retomada do ponto em que havia parado. A trama se desdobra um pouco mais e estabelece um novo suspense, a ser retomado no capítulo seguinte. E assim sucessivamente. Já a tira cômica seriada teria a característica de apresentar um final inesperado, com duas funções narrativas: criar um efeito de humor no leitor, tendencialmente na cena final, e um gancho para o capítulo da próxima tira. Na narrativa seguinte, a história é retomada e gera novo suspense e nova tirada cômica. Vejamos como isso ocorre nas tiras a seguir:
(6) Figura 3
(QUINO, Clube da Mafalda. Martins Fontes: São Paulo, p.28, 1999) (7) Figura 4
(QUINO, Clube da Mafalda. Martins Fontes: São Paulo, p.28, 1999)
O quarto caso, segundo Ramos, tem sido divulgado por meio dos trabalhos do cartunista Laerte Coutinho, no jornal Folha de S.Paulo. Trata-se da tira livre: um tipo relativamente recente no país, datando de meados da primeira década deste
século. O diferencial desse tipo é uma maleabilidade estética e temática. Tal qual o gênero textual crônica, o autor usa o espaço da tira para experimentação, elaborando nele desde uma narrativa com leitura aberta até produções que dialoguem com outras sequências textuais, como a descritiva. O exemplo seguinte ilustra esse caso:
(8) Figura 5
(Tira livre. In: RAMOS, 2010b, p.2)
Em nossa pesquisa, adotaremos a tira cômica como um dos objetos de nossas análises. Os outros casos definidos por Ramos (2009; 2011) foram apresentados aqui para mostrar as semelhanças e as diferenças entre os elementos apontados pelo autor para caracterizar cada tipo de tira. Doravante, chamaremos este gênero apenas por tirinha.
Neste gênero textual, a exemplo dos gêneros já conceituado nos tópicos anteriores, observaremos as formas e funções com as quais o enunciador apresenta os objetos de discurso e atende aos propósitos comunicativos da tirinha. Assim como na charge, acreditamos que os recursos verbais e/ou visuais cooperam nessa missão.
Se retomarmos os exemplos (6) e (7), veremos duas formas diferentes de introdução referencial. Em (6), logo no primeiro quadrinho temos as imagens de dois personagens. Essas figuras podem ou não ser reconhecidas pelos leitores como Miguelito e Mafalda, personagens de Quino. Notamos que não há nenhuma palavra no primeiro quadrinho, mas já é possível dizer que houve introdução de referentes. Em (7), os mesmos personagens são apresentados no primeiro quadrinho, mas de forma diferente. Miguelito é anunciado tanto pela imagem como pela palavra usada
na fala de Mafalda. Temos, portanto, distintas formas de introdução que precisam ser melhor descritas pelos processos de referenciação.
No tópico seguinte, tratamos, ainda que brevemente, da importância da multimodalidade na elaboração e compreensão de alguns gêneros textuais. Abordamos alguns conceitos que nos ajudaram a relacionar esse fenômeno ao processo de introdução do referente no texto/discurso.