O ecofeminismo surgiu como movimento social nos anos 70, com o objetivo de estabelecer uma relação direta e profunda entre a exploração e dominação da natureza com a opressão das mulheres pelo patriarcado, relacionando questões de gênero, natureza e sociedade (MELLOR, 2000 apud TAIT, 2015). De acordo com a autora, esse encontro não significa que “mulher” e “natureza” apresentam uma relação inerente ou mais profunda definida pelo sexo, e sim que existem relações de ética, cuidado e empatia sendo constantemente produzidas dentro de matrizes culturais e sociais. O termo foi cunhado pela primeira vez pela escritora francesa Françoise d’Eaubonne em seu livro “Le Feminisme ou la Mort” (Feminismo ou Morte) e posteriormente popularizou-se ao redor do mundo não só por teóricas, mas a partir de ações de grupos e movimentos. Uma forma fácil de definir o ecofeminismo pode ser, simplesmente, como “o encontro entre feminismo e ecologia”. O ecofeminismo parte do princípio de que todos os seres humanos são parte da natureza, em uma relação de inter/ecodependência, na qual a natureza também deve ser valorizada e considerada como portadora de direitos (HERRERO, 2014).
No contexto das coletoras, encontramos exemplos de mulheres que também concordam com a visão ecofeminista que interpreta a natureza de uma maneira não-simétrica e também de ecodependência, como é o caso de D. Vera, de Nova Xavantina, que reflete sobre o assunto ao ser questionada: “Se a gente usa a natureza, então a gente precisa cuidar dela, e você não pode machucar as árvores. Querendo ou não, eu sei que vivo da natureza e preciso dela pra viver”. Segundo ela, para realizar o trabalho de coleta, também é preciso uma conexão mais íntima e complexa com o assunto: “Eu acho que não adianta simplesmente ter vontade de coletar e
gostar de trabalhar; pra mim tem que ter um contato de alma mesmo”.
Para Ayaneko, coletora do Movimento das Mulheres Yarang, o trabalho como coletora propõem outros significados além de geração de renda, porque permite que ela e as outras
yarang reforcem o contato mais inerente que têm com a natureza. “A gente ama tudo isso,
porque a gente vive só na natureza. É a natureza que ajuda você a ficar forte, porque se a natureza morrer, a árvore morre, a água do rio seca, o peixe do rio também morre e a gente morre também”. Ao longo desses anos na Rede, a jovem Milene, coletora urbana de Nova Xavantina, passou a enxergar a natureza com um novo olhar. “Na correria do dia-a-dia, a gente não para pra ver as coisas simples da vida, como uma florzinha aberta, um fruto bonito, ou a valorizar um polinizador, tipo um morcego, que tem gente que só pensa em matar. Mas quando você sabe que você depende da natureza, começa a olhar de um jeito diferente pra ela. Os meus ideais, meus sonhos, tudo mudou, porque assim como a natureza se desenvolve em estágios, a gente também começa a viver por partes, sem querer tudo de uma vez”.
O sistema patriarcal, capitalista e antropocêntrico promove e amplia, nas palavras de Vandana Shiva, formas de um “mau desenvolvimento” e da privatização da vida, pelos quais a “crise civilizatória” é perpetuada, e que é fonte da violência e opressão tanto da natureza quanto de mulheres (SHIVA, 2007). Algumas coletoras também detêm um olhar crítico sobre o conceito de “mau desenvolvimento” em relação à natureza. Eliane é natural do interior de Santa Catarina, uma região dominada pela produção agrícola em grande escala e concorda com essa visão. “Meu irmão mora quase dentro da soja. Ele é caminhoneiro e puxa grão, e eu tenho certeza que ele tem uma visão diferente de nós sobre a semente, porque ele chega pra mim e pergunta ‘O que que vai fazer com tanta semente?’, e eu explico, só que ele não consegue entender a importância. Você olha pra cidade, com soja por todo lado, e é tudo muito triste, porque muda totalmente o lugar”. Muitas vezes, isso é conflituoso para as coletoras, pois grande parte dos municípios onde os núcleos coletores atuam, fazem parte de um modelo desenvolvimentista de agronegócio com pastagens extensivas e monoculturas de grande escala.
Dialogando com esse contexto, Ivone Gebara (1997) afirma que a postura ecofeminista aparece numa perspectiva político-crítica, relacionada com uma história complexas de lutas antirracistas, antissexistas e antielitistas, pois são as mulheres negras, indígenas, pobres e do Sul, as primeiras vítimas dos danos ao meio ambiente, por estarem tradicionalmente em contato direto com as tarefas do lar. As mulheres também são mais vulneráveis às mudanças climáticas, à escassez de água e aos desastres naturais porque, em muitos países, representam a maior força de trabalho agrícola, além de serem responsáveis pela alimentação e economia do lar, aos cuidados da família e tenderem a ter menores oportunidades de renda (GEBARA, 1997).
Para muito além de vítimas, nosso entendimento é o mesmo compartilhado por outras autoras (PULEO, 2011; HERRERO, 2014, TAIT 2015, SILIPRANDI, 2015), o de que as mulheres podem ser também grandes protagonistas na luta ecológica, o que contribui para o caráter de resistência do movimento e da militância em defesa do meio ambiente). No caso das mulheres coletoras, o Movimento das Mulheres Yarang, pode ser considerado como um movimento de caráter militante, como lembrou Makawá Ikpeng, traduzida pelo sobrinho Oremê: “A gente é ativista e defende a natureza, fala que não pode queimar, tacar fogo em qualquer lugar ou derrubar árvore, só o necessário pra nossa agricultura”. O método de monoculturas intensivas também é contestado pela coletora Makawá, segundo a tradução. “Quando vejo a cidade, enxergo uns desertos enormes de plantio de uma coisa só. Pra nós isso é uma coisa absurda, a gente repudia esse ato de ficar desmatando enormes áreas de mata só pra plantar soja e sem se preocupar com o futuro...”. Essa crítica vai de encontro ao pensamento de Shiva (2003), que condena o modelo “bioimperialista”, entendido como uma fonte de escassez e perpetuamento da pobreza, ao passo que propõe que o verdadeiro desenvolvimento só poderá ser ecológica e socialmente sustentável.
Todas as coletoras entrevistadas concordaram com o fato de que o trabalho de coleta pode ajudar a resolver os problemas do desmatamento e da mudança no clima, ainda que a pergunta, da maneira com que foi colocada, possa ter induzido a uma resposta positiva. No entanto, a coletora Roberizan, de Nova Xavantina, colocou uma ressalva quanto a essa questão: “Eu acho meio complicado, porque ao mesmo tempo que você tenta plantar e resolver o problema, tem o outro desmatando o que já tava pronto, né?”. Apesar dessa opinião, a maior parte das coletoras acredita que o trabalho pode ajudar a estimular outras pessoas a participarem, além de conscientizar outras para a preservação da natureza.
Durante uma das rodas de conversa realizadas no último encontro da Rede, em julho de 2019, Roberizan afirmou que, no início do trabalho na Rede, o marido dela, Vilmar, não queria trabalhar com plantio, apenas manter o pasto que tinha em um assentamento próximo da cidade. Ela conseguiu convencê-lo a plantar algumas árvores de jatobá-da-mata (Hymenaea courbaril) no local e, desde então, acabaram transformando o pasto em uma floresta. “Agora ele é o primeiro a plantar. Esses dias eu estava tentando achar um local pra fazer minha agrofloresta e vi que foi tudo plantado ao redor. Até falei pra ele, ‘mas como é que tu encheu tudo assim e eu nem percebi?’. Agora lá tem tanto pé de baru, um pertinho do outro, de pequi, de jatobá... foi muito difícil achar um espacinho pra mim”, brincou.
Uma de nossas hipóteses iniciais era de que o conhecimento ecológico e a consciência ambiental iriam variar de forma mais evidente conforme os diferentes grupos (indígenas, rurais
e urbanas) e realidades individuais das coletoras entrevistadas. Entretanto, observamos que as mulheres coletoras demonstraram, de maneira geral, ter entendimentos similares sobre a natureza e a importância de preservação da sociobiodiversidade. A participação efetiva e o engajamento na Rede, bem como os conhecimentos adquiridos ao longo da vida e do contato mais próximo que todas têm com a natureza, podem ter sido essenciais para a formação de uma consciência ecológica coletiva em torno de um bem comum.