Desde o início do século XXI, a América Latina vem acompanhando a ascensão e decadência de governos progressistas. Nesse tempo, fortaleceram-se correntes de pensamento aliadas a práticas coletivas populares de resistência territorial “para além do desenvolvimento”, especialmente o “Buen Vivir” (Bem Viver) e o “pós-extrativismo”, que promovem uma revisão sobre o passado colonialista, enfatizando a colonialidade persistente e seus aspectos sociais de desigualdade e discriminação (ACOSTA, 2016b). Nesse caso, de acordo com o referido autor, o Bem Viver critica a adoção de estilos de desenvolvimento insustentáveis (mesmo em governos progressistas) de características neoextrativistas, presentes tanto em setores clássicos como de mineração e hidrocarbonetos, como em práticas agroindustriais, na gestão de recursos hídricos e na exploração da biodiversidade. O crescimento dessa corrente de pensamento acompanha os conflitos em torno dos crescentes impactos sociais e ambientais de grandes empreendimentos e tensões sociais, notadamente de grupos atingidos mais diretamente, como indígenas e rurais (MARIMON; TAIT, 2019)
origem em uma definição de um tipo de extrativismo hegemônico, especialmente predatório, de megaempreendimentos (SVAMPA, 2016). Entretanto, há métodos de extração de recursos naturais extrativistas e de baixo impacto sobre a natureza, que são empreendidos por comunidades locais, como é o caso da coleta de sementes, que se encarados dessa forma, mostra-se como uma alternativa a esses modelos hegemônicos. Assim, a crítica ao neoextrativismo prevê tanto a sua superação, entendida como um “pós-extrativismo”, quanto a existência de momentos de transição. Para Gudynas (2016) uma primeira fase de uma transição ao pós-extrativismo seria sair urgentemente do extrativismo tal como o conhecemos, que desconsidera os limites ecológicos, e passar para um “extrativismo sensato”, que respeita e cumpre de maneira ética as leis e normas sociais e da natureza; e, por fim, seguir em direção ao “extrativismo indispensável”, em que apenas os empreendimentos essenciais à manutenção da qualidade de vida e às necessidades individuais e coletivas permanecerão. No caso das coletoras e coletores da Rede de Sementes do Xingu, verificamos que suas atividades podem ser enquadradas em uma categoria intermediária entre o extrativismo sensato e o indispensável.
Em relação ao neoextrativismo e ao agronegócio explorador claramente presentes na região de atuação da Rede de Sementes do Xingu (além do agronegócio, existem em regiões como Nova Xavantina, por exemplo, mineradoras mecanizadas de extração de ouro) podemos afirmar que as mulheres coletoras, à sua maneira, têm captado os reais impactos dos modelos do novo paradigma tecnológico, visto que tais práticas estão diretamente ligadas ao que autoras ecofeministas chamam de “masculinização do território” (HERRERO, 2014; PULEO, 2011). Além das coletoras, alternativas coletivas contra a expansão desenfreada do agronegócio podem ser notadas ao longo de toda a América Latina:
São vozes pessoais e ao mesmo tempo coletivas, cuja escuta atenta nos situa em diferentes níveis de pensamento e ação, pois atrás da denúncia e testemunho é possível ver a luta concreta e corporificada das mulheres nos territórios, mas também a dessacralização do mito do desenvolvimento e a construção de uma relação diferente com a natureza. Não poucas vezes vai surgindo a reivindicação de uma voz livre, honesta, uma voz própria, que questiona o patriarcado em todas as suas dimensões e busca recolocar o cuidado em um lugar central e liberador, associado de modo indiscutível a nossa condição humana. Em um mundo cada vez mais mercantilizado, onde a totalidade de nossos bens comuns naturais estão cada vez mais submetidos a pressão do capitalismo neoliberal, a ética do cuidado vem a ser uma pedra fundamental para repensar as relações de gênero, assim como as relações com a natureza (SVAMPA, 2019, p. 118, tradução livre nossa, apud MARIMON; TAIT, 2019).
Feministas comunitárias, como a indígena maya-xinka Lorena Cabnal (2010), falam sobre a cosmovisão e a reciprocidade entre corpo e natureza, complementaridade entre homens e mulheres, a comunidade entre todas e todos, incluindo natureza, dentro de uma cosmovisão mais ampla de bem viver. Esse tipo de feminismo tem atuado na resistência aos projetos
neoextrativistas. Outras questões colocadas são: 1) a complementaridade entre todos os entes do mundo; 2) um pensamento que mantém dualidade sem ser dicotômico; 3) um feminismo que parte da comunidade, da solidariedade, do comum e não do indivíduo; 4) a união “território-corpo-terra”, ou “corpos-territórios”; 5) a relação fundamental entre o pensar-sentir- agir; 6) que o modo de vida contemporâneo e ancestral se complementam e que o futuro depende da manutenção dos saberes ancestrais (TAIT; GITAHY, 2019).
Na opinião de grande parte das coletoras, se caso as práticas predatórias como as neoextrativistas não cessarem e o desmatamento e as mudanças climáticas continuarem se intensificando, as expectativas quanto ao futuro do planeta são pessimistas. Para Roberizan, o futuro é incerto. “Tem horas que a gente pensa que parece que vai pegar fogo de tanto calor que faz. Mas eu não sei ao certo o que vai ser daqui pra frente. Sei que temos que fazer alguma coisa. Se a gente quer um futuro melhor, nós não podemos ficar de braços cruzados. Agora o que vai acontecer, só Deus sabe. Não dá pra falar”. De acordo com Milene, “As pessoas que têm poder político e econômico, em vez de se preocuparem, estão tocando mais terror. Eu creio que o futuro do nosso planeta está condenado a um triste fim. Por mais que o nosso trabalho seja pra restaurar a floresta, ainda é um pequeno grupo de pessoas que faz isso. Mas eu sei da importância do nosso trabalho, e creio que se não tivesse sendo feito, seria pior ainda”.
Na América Latina como um todo, coletivos de mulheres indígenas vêm desenvolvendo práticas a partir de vivências comunitárias e políticas de ativismo populares. Essas contribuições também podem se inserir no denominado feminismo comunitário - que encaixa- se no contexto dos feminismos pós-coloniais e descoloniais - e ressaltam que o corpo das mulheres não pode ser pensado fora de sua relação com os territórios, a terra e a natureza, e que não existe possibilidade de manter os bens comuns sem as comunidades ou essas sem o respeito à autonomia de homens e mulheres, (TAIT et al., 2019; TAIT; GITAHY, 2019).
Exemplos como de coletivos que empregam elementos dessa visão foram observamos também durante os encontros da Rede de Sementes do Xingu, a exemplo do Movimento das Mulheres Yarang. Esse não é um grupo autodenominado feminista (aliás, as entrevistadas nunca tinham ouvido falar do termo feminismo, quando perguntadas em português), mas o fato de elas entenderem a si mesmas como mulheres ativistas e na linha de frente em defesa da natureza, além de serem críticas às práticas do atual sistema capitalista, são fortes indicativos de que suas ações têm efeitos práticos que vão de acordo com os pensamentos feministas indígenas/comunitários. Como um todo, as coletoras da RSX, em suas ações e discursos, apresentam semelhanças com o modo de resistência territorial e agrícola descrito por Svampa (2019). Elas têm protagonizado formas de resistência coletiva e mostrado a sua capacidade de
unir forças em direção a um novo tipo de extrativismo, sustentável e não predatório, que agrega laços familiares e comunitários, promove um protagonismo feminino singular, gera renda e colabora para um processo de emancipação econômica das mulheres contempladas na Rede.