• Aucun résultat trouvé

Numerical results

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 133-142)

Para estabelecer uma representação dos usos e funções dos provérbios na imprensa jornalística, identificamos as marcas textuais do gênero proverbial, as relações sociais mantidas entre escritores e leitores, considerando evidentemente que cada um apresenta uma postura ideológica, política e social, e que isto afeta decididamente na escolha do provérbio usado no texto do jornal. Desse modo, identificamos também diferentes contextos de uso dos provérbios, situando-os em relação à época em que foram usados e ao sujeito social que fazia uso deles e sua finalidade. Constatamos por meio da amostra de provérbios coletados em textos do jornal Diário do Pará que o uso de provérbios nos jornais impressos da atualidade é ainda uma prática bastante comum, ao contrário do que se costumava acreditar.

Ao analisarmos a inserção da retórica proverbial nos jornais do período de nascimento da imprensa, verificamos que o fazer jornalístico carecia de regras na execução desta atividade. Por isso a escrita que caracteriza o jornal deste período é espontânea, cheia de expressões populares, provérbios, rifões e palavras de efeito moral. Nesta fase inicial da imprensa jornalística, o que importa não é a notícia, mas o comentário feito pelo jornalista sobre o fato ou acontecimento.

Assim observamos que a preferência dos autores pela inserção de provérbios e máximas dá o tom aos textos dos jornalistas que não estavam muito preocupados com a erudição do texto, mas com o efeito da narração dos acontecimentos da sociedade. Tal observação é corroborada nas palavras de Lustosa (2000: 434) que afirma: “a campanha da Independência foi o campo de provas da imprensa brasileira, e muitas das características adquiridas por ela naquele período se cristalizariam como estilos.(...) Seu compromisso com o acontecimento, com o aqui e agora, exigia mais agilidade e menos cuidados estilísticos por parte de seus escritores”. A autora menciona inúmeros periódicos fluminenses que se utilizavam da estratégia do uso de provérbios nos títulos das matérias para estimular os debates políticos entre os jornalistas que rivalizavam-se entre si na disputa pela opinião pública. Dentre os quais se destacam: A malagueta, O Revérbero, O Espelho e Correio do Rio de Janeiro que costumavam ilustrar os títulos das matérias com perspicazes rifões e

provérbios do tipo: Quando vires as barbas do teu vizinho arder, bota as tuas de molho – (Malagueta, 01/05/1822)”; O teu inimigo é o oficial do teu ofício (O Espelho, 04/03/1822) para palavras loucas, orelhas moucas- (O Revérbero, 29/01/1822); Quem não tem padrinho morre mouro (Correio do Rio de Janeiro, 12/07/1823).

De fato percebemos que a relação do jornalista com o seu público permite um grau de liberdade de expressão inimaginável para nossa época atual. Mas as condições sociais e históricas do contexto de circulação desses periódicos criam o ambiente favorável para o surgimento do provérbio como ornamento de estilo nos textos de nossa embrionária imprensa paraense como foi constatado pelo material consultado no jornal O Paraense e Diário do Grão-Pará. Adotando-se certa cautela, podemos considerar que a escrita jornalística desta fase preliminar se caracteriza pelo gosto popular e nele se fortalece, daí porque afirmamos que o jornalista fez da retórica proverbial uma arma para ridicularizar, criticar e também moldar os costumes da sociedade.

Em relação a esse modo de comunicar que se tornou regra nos primeiros jornais do século XIX, verificamos ainda que a escrita do provérbio apresenta-se em destaque, o hábito de destacar o provérbio no texto com marcas em itálico e negrito é uma constante nos jornais O Paraense e outros desta fase preliminar. Ao analisarmos as condições da leitura e dos leitores desta época, é fácil entender porque o jornalista sentia a necessidade de destacar o provérbio em seu texto. O jornal O Paraense, por exemplo, é formado de um bloco de texto ininterrupto e as notícias não estão separadas por títulos, por isso a leitura era guiada pelas marcas impressas feitas com o intuito de tornar o texto mais inteligível.

Constatamos que estas marcas indicam que o jornalista/articulista imagina compartilhar com o seu leitor o saber coletivo designado pelo provérbio. Sendo assim, a intenção parece ser a de colocar o leitor em situação de concordância com o que está sendo dito. Por isso algumas vezes o artigo do jornal inicia com um provérbio que encerra a mensagem central do texto, em outras serve como argumento de conclusão ou simplesmente arremata um pensamento do jornalista. Deste modo o provérbio funciona como o ponto alto do texto. Posteriormente essa característica da marcação em itálico gradativamente desaparece, e o provérbio segue no texto sem marcas impressas em destaque, conforme constatamos nos dados coletados nos Jornais A Província, Folha do Norte e Diário do Pará.

Verificamos, ainda, em relação aos gêneros do jornal, que o provérbio se faz presente nos textos de notícias, notas, cartas e colunas. Estas se dividem em dois subtipos: a coluna de variedades e a coluna de opinião, sendo a última a que apresenta o provérbio com maior frequência. É preciso considerar, contudo, que o jornal do século XIX não apresenta a mesma diversidade de gêneros que figuram nos impressos da atualidade. Desse modo constatamos em nosso corpus, a predominância dos provérbios nos gêneros coluna de opinião e nas cartas, por ser o espaço do jornal onde os articulistas mais exercitam a argumentação e é, também, o lugar onde a crítica à sociedade é feita de forma mais direta.

Para cumprirmos com um dos objetivos desta pesquisa, que é identificar a fonte dos provérbios, observamos a presença das máximas e o destaque que elas receberam no texto das notas dos primeiros periódicos da imprensa paraense, confirmando as observações de Obelkevich (1997: 64-65), que afirma que na Europa do século XVIII, as máximas e os aforismos substituíram gradativamente os provérbios. Deste modo verificamos que os jornais paraenses analisados seguiram a mesma tendência, assim, as máximas dividiam o seu espaço privilegiado com os aforismos literários que viraram moda no início do século XIX.

A respeito das diferentes fontes dos provérbios, chegamos a identificar que várias são as fontes possíveis da cultura proverbial, no entanto em nossa pesquisa predominaram as fontes bíblica, folclórica e literária (ver anexo I e II). Como consequência de uma forte mentalidade cristã que impregnava a sociedade brasileira do século XIX, verificamos que a fonte da maioria dos provérbios coletados nos jornais da primeira fase da pesquisa são resquícios dos preceitos e regras morais instituídos na Bíblia, o que pode ser confirmado na expressiva presença de provérbios bíblicos nos textos coletados do Jornal O Paraense, por exemplo (ver anexo-I).

Observando os usos dos provérbios na atualidade, constatamos que a moda é dizer o contrário do que manda a tradição proverbial antiga. Tal afirmação se confirma nos dados coletados nos jornais contemporâneos, que existe neles uma tendência para a desproverbialização,ou como alguns autores preferem denominar a cultura antiproverbial.

A desproverbialização, segundo Fiorio (1995 : 53-56), é a forma de brincar com o provérbio, secularmente respeitado e venerado como depositário de uma verdade. Assim concordamos com o autor que aponta as seguintes razões que justificam a desproverbialização por parte dos nossos escritores modernos: provocar o riso descontraído do leitor ou ouvinte;

satirizar os costumes e hábitos de determinada classe da população; questionar as verdades tidas como infalíveis e imutáveis. Sobre este aspecto especificamente, verificamos que a tendência de desenquadrar o provérbio de seu enquadre original, modificando-o, se fez sentir de forma mais intensa nos provérbios encontrados nos jornais situados neste corpus entre os anos de 2008 a 2011, o que sugere uma mudança em relação ao uso que se faz do provérbio na sociedade atual.

Neste estudo percebemos que o discurso da imprensa atual ainda se reveste da tradição proverbial, logo ela que sempre buscou trabalhar com a inovação, com a novidade. Maingueneau (2010) usa o termo détournement para expressar a mudança de curso da palavra em proveito de quem dela se apropria. Este fenômeno ocorre quando se desvia uma expressão de seu curso regular para dela se fazer outro uso, como comprovam os exemplos 17, 18 e 25 analisados no capítulo 4.

Como qualquer pesquisa científica, muitas questões importantes ficaram de fora da nossa investigação. Assim sendo apontamos alguns caminhos que podem trazer importantes descobertas. O primeiro seria a realização de um estudo das potencialidades didáticas dos provérbios no ensino fundamental, já que o primeiro degrau da educação das crianças acontece no ambiente familiar, onde a convivência com provérbios é assegurada pelo contato com indivíduos como os pais e outros parentes mais velhos, reforçando as recentes tendências que abordam a valorização dos aspectos da oralidade no ensino. Outro caminho que pode constituir-se em um estudo bem produtivo é investigar as questões relacionadas à identidade cultural, uma vez que os provérbios têm a propriedade de ser o elemento que absorve as reminiscências culturais de cada povo.

Por fim, constatamos que é bastante amplo o universo em que se esconde o saber proverbial, no entanto, mesmo considerando a limitação do corpus desta pesquisa, uma vez que se restringe aos usos dos provérbios na imprensa escrita, é lícito considerar a importância desse estudo para a preservação e revitalização de nossa cultura, a confirmação de que o provérbio serve como elemento de identificação cultural, uma vez que cada comunidade possui um repertório próprio e singular, e principalmente, a negação de que a circulação dos provérbios é um fenômeno associado exclusivamente às camadas populares.

Sobre o papel ou função do gênero proverbial, reforçamos o que já foi dito antes no corpo do trabalho, que a situação retórica determina a escolha do provérbio, mas essa escolha

está relacionada ao contexto social, e é essa situação social que vai dar significado ao provérbio. Isso aparece nos dados analisados quando o provérbio foi usado assumindo as funções de advertir, criticar, denunciar, assim como também estabelecer julgamentos éticos e morais sobre fatos importantes na sociedade. Podendo ainda ser utilizado como arma retórica no jogo político do argumentar em favor de um grupo ou distanciar-se dos seus adversários.

Encerramos o nosso estudo com a certeza que o gênero proverbial foi corrigido, esquecido, modificado, parodiado, etc. Porém resistiu a prosa filosófica moderna, acadêmica e midiática. O gênero proverbial vive ainda na fala e na escrita contemporânea como se “a voz do povo fosse a voz imortal de Deus”.

REFERÊNCIAS:

ALTER, Robert & FRANK, Kermode. (1997). Guia literário da bíblia. São Paulo, Unesp.

ARANTES, Marilza Borges. (2008). Apólogos, fábulas e parábolas: confluências e

divergências. In: TRAVAGLIA, Luiz carlos; FINOTTI, Luisa Helena Borges; MESQUITA,

Elisete Maria Carvalho de; ROJO, Roxane et al.(orgs.). Gêneros de texto: caracterização e ensino. Edufu, Uberlândia.

BAKHTIN, M. (2003). Estética da criação verbal. S. Paulo: Martins Fontes.

BARBOSA, Marialva. (2010). História cultural da imprensa. Brasil 1800-1900. Rio de Janeiro, Mauad X.

BAZERMAN, Charles. (2006) Gêneros textuais, tipificação e interação. (orgs.) Ângela Paiva Dionísio e Judith Chambliss Hoffnagel Trad. Judith Chambliss Hoffnagel, Sao Paulo, Cortez.

BAZERMAN, Charles. (2006a). Cartas e a base social de gêneros diferenciados. In: DIONÍSIO, A. P.; HOFFNAGEL, J. C. (orgs.) Gêneros textuais, tipificação e interação. (orgs.) (tradução Judith Chambliss Hoffnagel), Sao Paulo, Cortez.

_________. (2007) Escrita, gênero e interação social. Trad. Judith Chambliss Hoffnagel. Sao Paulo, Cortez.

Biblioteca Pública do Pará. (1985). Jornais Paraoaras: Catálogo. SECDT, Belém.

BURKE, Peter. (1997). Os usos da alfabetização no início da Itália moderna In: Burke, P. e Porter, R. (orgs.).História social da linguagem. São Paulo: UNESP, p.15-41.

BURKE, Peter (2010). Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo, Companhia das Letras.

BRIGGS, Asa & BURKE, Peter. (2006). Uma história social da mídia: De Guttenberg à

internet. Rio de Janeiro. Jorge Zahar.

BRUNELLI, Anna Flora (2006). Aconselhamentos de auto-ajuda: um caso de captação

do gênero proverbial In: Revista Alfa, São Paulo, 50 (1): 113-128

CASANOVAS, Carlos Francisco de Freitas. (1973). Provérbios e frases proverbiais do

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 133-142)