Dar-se-ia o rompimento da intima amizade entre Orestes e Pylades? Entre o mestre e o discipulo?
O sr. dr. Thomaz Ribeiro votou na chapa hermista, mas no andar, no assentar-se, no escrever, mostrava que era um homem contrafeito, absorvido num pensamento cruel; parecia um homem contrariado e puxado por uma corda para votar naquella chapa! Ainda mais. Não consta que o sr. Thomaz Ribeiro seja canhoto, e no entanto, com espanto de todos, elle pegou as chapas coma mão esquerda e as deitou na urna...máo agouro... Livre-nos Deus de votos canhotos ou dados contra a vontade.
Medo da espada não é marimba que preto toca.
No fim da eleição apresentou-se um moço com um papel em que dizia que protestava contra as irregularidades do processo eleitoral e tudo isto em face de taes e taes artigos da lei.
- Mas diga e indique quaes as irregularidades, a que allude, observou-lhe um membro da mesa. - Nada allegou.
Tanto melhor.
Pelo mundo alem corre com insistencia que tudo esta nullo e vae ser anullado, mesas, eleições, votos e até as pessoas que serviram e votaram, por serem phantasticas e aereas, e pelos votos canhotos que cairam nas urnas e outras razões!
Olhe que é muita farofa tia Vituca.
O Brasil atravessa a quadra mais critica de sua existencia como nação, e a Republica vacilla em seus fundamentos per causa dos maus governos que temos tido até hoje, vivendo o povo numa escravidão peor que a dos negros antigos, ainda mais apertados pelas olygarchias dominantes e ferozes dos Estados.
O remedio a tudo isto é e será a espada...
Preferimos o rigor da espada ao terror vermelho dos Tyrannos que nos opprimem.
Frei Caneca
(Fonte: Jornal Folha do Norte, 19/03/1910, p. 1)
O conteúdo do texto apresentado, no exemplo 15, trata da análise da conjuntura política nacional e regional, mas com enfoque no resultado da disputa eleitoral realizada naquele ano. O caráter de texto opinativo deixa vestígios sobre o papel social do material impresso que circulava na sociedade. As denúncias relatadas pelo articulista revelam as artimanhas dos políticos na disputa eleitoral, os limites e as regras do jogo para assumir o poder, e mostram como os dogmas religiosos dos candidatos aparecem no jogo da exploração política.
O provérbio “quando a esmola é grande o pobre desconfia” normalmente é usado para expressar o cuidado que se deve ter em determinadas situações da vida. Deste modo, quando o provérbio é citado por alguém indica que a situação requer que se assuma uma postura de ‘desconfiança’ sobre aquilo que está sendo ‘ofertado’. O contexto de uso do provérbio aponta para o sentido de advertência, pois o enunciado veste-se sob o manto da sabedoria proverbial na intenção de alertar o leitor do jornal para o perigo de não enxergar a realidade dos fatos. O objetivo do artigo surge da necessidade de denunciar a “fraude eleitoral” que, segundo o jornalista, é aludida na identidade mascarada dos candidatos, pois tanto o Marechal Hermes da Fonseca, quanto o seu opositor (Ruy Barbosa) se utilizam de manobra de usar o véu do catolicismo para angariar o voto dos eleitores.
O referido provérbio foi usado para vestir e tornar atrativo o discurso do senso comum, ele foi citado no discurso para sustentar um argumento que se faz necessário para o propósito do dizer do particitador. Neste caso, o provérbio alerta para a falsidade dos candidatos. A ‘esmola’, citada no provérbio, refere-se ao caráter duvidoso dos candidatos envolvidos no pleito eleitoral. Consciente de seu valor como discurso de autoridade, o jornalista cita um dizer consagrado no seio da coletividade, por ser este especialmente carregado de credibilidade. Então, o valor de verdade do provérbio “quando a esmola é grande o pobre desconfia” passa a ser incontestável, daí porque a citação proverbial funciona como estratégia autopromotora, como diz (Maingueneau, 2008), pois reforça o ethos do ser individual que cita o provérbio (neste caso, o articulista do jornal) e legitima o seu argumento como verdade irrefutável.
Por conta de tal análise, a citação do provérbio, aqui revela a estratégia do articulista que expõe a situação de igualdade, em relação ao caráter dos políticos envolvidos nesta disputa eleitoral. O título do artigo “De palanque” já insinua, através de sua carga semântica, a disputa ideológica travada entre aqueles que disputavam o poder. As reticências que aparecem no título “De palanque...” corroboram nossa interpretação de que é um jogo abertamente marcado pelas disputas na tribuna política, onde se faz de tudo, onde tudo é permitido. A desconfiança aludida no provérbio se materializa no discurso através da caracterização irônica do perfil dos candidatos em questão, “são ambos maçons”, no entanto, juram defender os dogmas da religião católica, rezam aos domingos santos de guarda e defendem o catolicismo.
O teor de validade universal, incutido nesse provérbio, atesta a natureza fundamental do ensinamento do dizer proverbial, no que diz respeito à conduta social que todos da comunidade necessariamente devem seguir, isto é, “desconfiar quando o outro te oferecer facilidades demais”, a regra tácita se institui: “facilidade não rima com honestidade”. O provérbio hoje é muito produtivo, pois as regras da vida moderna giram em torno da competição desmedida, do vale-tudo na busca do espaço individual em detrimento do coletivo, então, a mensagem do provérbio acaba por servir de alerta, se alguém te oferece uma ‘esmola’ muito grande, é bom ter cuidado com o preço a pagar pelo “favor” oferecido. Além de que o provérbio funciona como resumo do tema do artigo assumindo função importante na construção do argumento do articulista, que se utiliza da capacidade de enunciado-síntese do provérbio, adotando a terminologia de (Melo, 2002), para indiretamente dar destaque ao tema discutido no texto, ou seja, o efeito moral das mazelas do pleito eleitoral para presidente da República.
Considerando a presença do provérbio Como legítimas lebres esses autênticos gatos políticos (Exemplo 16) abaixo, analisaremos o seu funcionamento neste texto do jornal. O Texto cujo título é votemos atesta o clima de rivalidade política que existia no estado do Pará, em 1912, e mostra a disputa verbal apimentada que se deu nas colunas A Gazetilha e Miscellanea, dos dois principais jornais deste período, respectivamente, Folha do Norte e A Província do Pará.
EXEMPLO 16 – JORNAL FOLHA DO NORTE
Votemos
Ha muitos annos não se tene em todo o Estado um comício eleitoral mas cheio de animação e de estimulo do que aquelle que hoje se realiza. E ha muitos annos tambem o eleitorado não se encaminha as urnas com maior e mais justo sentimento das suas responsabilidades democraticas do que nas eleições que se vão debater daqui a poucas horas. Pode-se e deve-se dizer que cada um de nós tem, no presente momento, a noção exacta do seu papel civico e experimenta, com conscientemente, orgulhoso do acaso politico que lhe propicia esta opportunidade, o jubilo patriotico de conferir o seu voto ao maior de todos os paraenses da geração contemporânea, tanto mas alviçareiramente quanto é certo que esta immensa felicidade não nos era concedida, há qua si tres lustros, senão a troco de (Continua na página seguinte)