Sabemos que, durante a viagem de De Lavaud aos EUA, Arens continuou a consolidação da Com- panhia Brasileira de Metalurgia, registrando sua patente em diversos países da América do Sul: negociou uma licença de fabricação com uma empresa na Argentina, em 1918.62 Por outro lado, continuou o desen- volvimento tecnológico do processo e, em 9 de abril de 1919 depositava uma nova patente relativa à aplica- ção de uma argamassa de cimento no interior dos tubos previamente fabricados, em fina camada de alguns milímetros de espessura, com o fim de protegê–los da ação agressiva de certos tipos de águas. Essa argamas- sa era depositada, também, por centrifugação, mas à frio, constituindo–se em um dos mais importantes a- perfeiçoamentos dos tubos de ferro fundido, até hoje universalmente adotado.63 A patente em causa recebeu o número 10.525.
Quanto aos aperfeiçoamentos mecânicos, de extração do calor do metal líquido e da regularização da vazão do metal líquido, conduzindo à regularidade da espessura dos tubos fabricados, foram cobertos por uma nova patente, requerida por Fernando Arens. Tratava–se da patente de n°6.047, pedida a 7 de dezembro de 1923 e com o título: “Novo processo e dispositivo para fabricação de tubos e a disposição de metais em fusão, em coquilhas rotativas. “64
Após o acordo de 17 de maio de 1919, Arens criou a empresa Arens Rohrem AG, com sede em Ham- burgo, na Alemanha, a qual negociava os direitos de exploração do processo Arens para a Suíça, Itália, Suécia, Luxemburgo, Uruguai e Paraguai. As máquinas correspondentes eram construídas pelo fabricante suíço Louis von Roll, com sede na cidade de Choindez, quando se tratasse de fornecimentos para o mercado europeu. Para o mercado das Américas, eram fabricadas em São Paulo, pela oficina Martins & Roll–Construtores, asso- ciação das empresas Martins & Barros, o antigo construtor das primeiras máquinas "Sensaud–Arens", com Louis von Roll, que aportava uma tecnologia de ponta nos procedimentos de engenharia mecânica e térmi- ca, ao mercado brasileiro.
A expansão do processo realizou–se rapidamente, sendo adotado na Suíça em 1924; ainda em 1924, a licença era fornecida a empresas do Paraguai, Uruguai, Suécia e Luxemburgo. Em 1926 o processo foi cedi- do à Itália, onde a empresa Ilva criou a usina de Cogoleto, próxima de Gênova, passando a contribuir para a engenharia do processo industrial, patenteando o primeiro forno de tratamento térmico, de enfornamento contínuo.
62- Na Argentina, a licença foi cedida à Sociedad Anónima Talleres Metalúrgicos situada em um subúrbio de Buenos Aires
63- A deposição de uma fina camada de argamassa de cimento no interior do tubo, por centrifugação, além dos efeitos de proteção contra o fenômeno da
“tuberculização” ocorrente quando são conduzidas águas ácidas, confere ao tubo uma superfície muito lisa, com efeitos de baixa perda de carga dinâmica durante a condução do fluxo. Isto queria dizer que, em igualdade de diâmetros internos, era o tubo de ferro fundido aquele que conduzia a maior vazão de água; logo era o mais econômico comparado aos materiais alternativos.
No Brasil, além de já operar a Companhia Brasileira de Metalurgia, fundada pelo próprio Arens, a li- cença foi cedida, em 1929,à Companhia Mineira de Metalurgia, que se instalou em Caeté, no Estado de Minas Gerais, para a exploração industrial do processo, como será abordado no sub–título 4.3–1, a seguir.
A tecnologia de centrifugação, como idéia de transformação metalmecânica, nas suas duas formas de processamento, o sistema Arens e o sistema De Lavaud, foi absolutamente vitoriosa. No período compre- endido entre 1915 e 1938 ela se difundiu pelo mundo, como mostra o quadro 4.1–I.
No ano de 1972, segundo informava o periódico de circulação interna do grupo Pont–à–Mousson, operavam em todo o mundo, 60 usinas de centrifugação. Destas, 50 operavam com o sistema De Lavaud e 10 com o sistema Arens. Não quer isso dizer que tenha havido uma superioridade tecnológica original, desen- volvida com o passar do tempo, de um sistema sobre o outro. Houve, efetivamente, maior credibilidade com relação ao sistema De Lavaud, posto que este era proposto por um tecnólogo que tinha um lastro de realiza- ções anteriores, podendo apresentar um histórico de várias patentes adotadas pela indústria pesada, princi- palmente na área naval. De outro lado, Arens provinha de um país sem tradições industriais, e seu único car- tão de visita era a sua Companhia Brasileira de Metalurgia que, como constataremos em breve, não era efi- cazmente conduzida. Por todas essas razões – e por outras, de ordem políticoindustrial – ao evoluir em suas técnicas de fabricações, o grupo francês, Pont–à–Mousson preferiu adquirir os direitos da patente De Lavaud, e sobre ela construiu o seu império de tubos centrifugados.
Contudo, os representantes do capital internacional não estavam desatentos quanto aos aconteci- mentos no Brasil: havia cerca de quase uma década que o grupo ARBED montara um eficiente centro de in- formações, funcionando em seus escritórios comerciais do Rio de Janeiro, de onde acompanhavam atenta- mente, entre outros, o “caso Farquhar,” outra denominação jornalística do Projeto Itabira Iron.
Quadro 4.2-1 – Distribuição mundial dos processos de centrifugação de tubos 1915-1938 Ano Empresa Local de implantação Características da célula de fabricação
1915 Companhia Brasileira de Metalurgia
São Paulo (Brasil) Sistema Sensaud-Arens três máq. de 4”x5’ e duas máquinas de 6”–12” x 10’
1917 International De Lavaud Mfg. Corp.
Toronto (Canadá) Sistema Sensau-Arens (modificado). 5 maq. de 6”-12”x 10’
1918 Rezzonico Ottonello y Compañia
Buenos Aires (Arg.) Sist. Sensaud-Arens Dados não conhecidos 1921 Canada Iron Foundry Canadá Sistema De Lavaud Dados não conhecidos 1921 U.S. Pipe & Foundry
Company
Birmingham (EUA) Sistema De Lavaud Dados não conhecidos 1922 Stanton Iron Works
Stanton-by
Dale (Inglaterra) Sistema De Lavaud Dados não conhecido 1923 Vereinigte Sthalwerke, AG Gelsenkirchen(Alemanha) Sistema De Lavaud Dados não conhecidos 1924 Usines de Louis Von Roll Choindez (Suíça) Sist. Arens. 10 maq. 60-200 mm x 4m 1926 Società Ilva Cogoleto (Itália) Sistema Arens. 3 maq. 60-200, por 2,3 e 4 m 1927 Soc.des H.F et Fies. De
Pont-a-Mousson
Liverdun (França) Sistema De Lavaud: 2 maq.”E”60x2,5m e 3 maq. “P”, 60 –80 mm x 2,5m
1928 Cia.Mineira de Metalurgia Caeté (Brasil) Sistema Arens: 9 máq. 1½”-20”x4m 1932 Kubota Japão Sistema De lavaud Dados não conhecidos 1938 Sté. Génerale de
Centrifugation
Bar-Le-Duc (França) Sist. Arens . Dados não conhecidos
Na medida em que o analisavam, adquiriam as jazidas de minérios de ferro da região do Rio Piraci- caba, em Minas Gerais; mas, agiam “sem bulha nem matinadas”, no expressivo dizer de Daniel Carvalho (CARVALHO, 1957; p.202)..65 Tratava–se, tal centro de informações, do pouco conhecido “Comité des Forges”, nada menos que uma extensão do “Comptoir luxembourgeois metallurgique”, braço europeu do cartel do aço gerido por ARBED e que, nas correspondências internas entre os seus dirigentes, era referido por “Colu- meta”. Por extensão, o “Comitê des Forges” era nomeado de “Socometa” e, através deles, fluíam as informa- ções relevantes para os seus negócios no Brasil(BAUDANT, 198?, p.212–nota 62)..
Desde 1926, a empresa francesa de fundições, AUBRIVES, associada à ARBED, fizera montar uma má- quina Arens, mas sem qualquer espécie de licenciamento para a exploração industrial; estudava–a com a fi- nalidade de desenvolver uma nova variante tecnológica patenteável. Contudo, por razões não compreendi- das completamente, a estratégia não foi feliz.
No ano seguinte, em conseqüência do insucesso de Aubrives, Pont–a–Mousson adquiriu uma licen- ça De Lavaud, montando uma célula de fabricação na velha fundição da cidade de Liverdun (BAUDANT, [198?], p.212–213).66.
Em realidade, este licenciamento constituiu–se em uma mudança na orientação estratégica de Pont–à–Mousson que, desde o início desse ano, procurava meios mais vantajosos para licenciar–se com o processo Arens, entre os quais a esperança nos resultados positivos dos estudos que eram desenvolvidos em Aubrives. Por esta razão, uma associação com ARBED era desejável. E assim, dentro de tal estratégia in- dustrial, também cogitaram, ARBED e Pont–a–Mousson, da compra da Companhia Brasileira de Metalurgia, a qual seria fechada após a transação, e as máquinas transferidas para um seu estabelecimento europeu; o mercado brasileiro seria aberto, em seguida, às importações provenientes das suas usinas européias.
Em entrevista no Brasil, com o Presidente da CBM, Caio de Souza (filho de Washington Luis, então o Presidente da República) e os representantes de ARBED, Caio lhes mostrara a impossibilidade da queda das proteções alfandegárias sobre os tubos de ferro fundido, o que fez ARBED desistir de qualquer tentativa de compra da CBM.
Desconhecendo essas estratégias do grupo ARBED, Fernando Arens viajou à Europa, em dezembro de 1927, para encontrar–se com Gaston Barbanson,67 no Principado de Luxemburgo, sede da ARBED; a finali- dade era a de propor negócios com aquele cartel. A proposta era a da cessão de suas patentes à ARBED que, em troca, conceder–lhe–ia um vultoso empréstimo, da ordem de 5.000 contos de réis, com o qual ele pensa- va sanear financeiramente a sua fábrica de Indianóplis. Barbanson comunicou–lhe não haver interesse no negócio, por considerar excessivo o valor pretendido, posto julgar que a usina não valeria tanto; além disso, completava: as patentes de Arens não interessavam ao seu grupo (BAUDANT, [198?]; p. 213).
Temos, pois, a visão do cartel que não pode agir senão com a total dominação do mercado. Neste caso, de um mercado que, em vista de uma nova tecnologia que o revolucionava, também perturbava pro- fundamente o seu poderio como produtor industrial;, deveriam subjugar tal mercado, por mais que imposi- ções internas dos países de origem viessem a obstar–lhes a ação. Veremos que a porfia continuaria por anos afora, mostrando que é da essência do cartel a ação de dominação total do mercado em que atua.
Mas, seja dito que, ao contrário do que sucedeu no Brasil, após o processo judicial de Arens contra De Lavaud, na Europa os grupos ARBED e Pont–à–Mousson deram continuidade às pesquisas tecnológicas pertinentes; dessa forma puderam desenvolver um padrão de eficiência de fabricação tornado inigualável desde os anos 30. Pont–à–Mousson, por outro lado, adotou a estratégia de adquirir o controle acionário das empresas européias que se haviam licenciado com o sistema Arens: tão logo os adquiria, trocava os equi-
65 - Quanto às jazidas de minérios aqui referidas, trata-se das minas de Candonga e Nhotim, no vale do Paraopeba; Gaia e Socorro, na Serra do Curral; Alegria,
Andrade e Monlevade, no vale do Rio Piracicaba. A mina de Alegria, por exemplo, foi adquirida em 1920, em nome de Gaston Barbanson, o executivo prin- cipal de ARBED, no Brasil.
66- Liverdun, no Departamento de Meurthe-et-Moselle, abrigava, ainda na década de 1990, o centro de centrifugação de tubos tipo “Esgoto”, de PaM, para
toda a Europa;
67 - Alto executivo do grupo ARBED, tendo sido responsavel por expressivos investimentos daquele grupo no Brasil.A usina de Monlevade-MG, da Cia Side-
pamentos por outros equivalentes, do sistema De Lavaud. Esterilizava, dessa forma, qualquer futura possibi- lidade de concorrências não desejáveis.