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Pour une éthique animale descriptive 91

A indústria de centrifugação de tubos foi, para o Brasil, a ocasião de desenvolver uma indústria na- cional de porte, mormente porque o seu mercado foi, desde o início da atividade, protegido por barreiras al- fandegárias adequadas. Ao contrário do que se passou na Europa – como, de resto, há que ser assinalado também para o caso da siderurgia a carvão vegetal – registrava–se a ausência de preocupações governamen- tais com a pesquisa tecnológica continuada no setor. Essa foi uma infeliz, lastimável e insensata conduta. Contudo, ela se viu praticada como decorrência do mercado de tubos se ter tornado em monopsônio dos governos estaduais e do federal, com os sucessivos diferimentos das quitações das suas faturas devidas, cri- ando por isso sucessivas crises de fluxos de caixa para o fabricante de tubos. Resultava daí o sacrifício da pes- quisa tecnológica privada nessa área, embora em momentos cruciais o fabricante a tenha suprido com seus recursos próprios (ver foto 4.2–1).

Essa situação impediu o desenvolvimento da plena autonomia da indústria brasileira, e nos tornou o locus privilegiatum da aplicação, socialmente inconsequente, dos capitais internacionais, sem compromissos maiores com a nacionalização dos seus frutos e sua permanência no país. Em suma, desde muito cedo era preparado o terreno, no setor de tubulações, para aquele estado industrial que, atualmente é referido como globalização.

FIGURA 4.2–1 – Máquina “De Lavaud” importada e instalada na usina da CBM, para estudos comparativos (1925). Comando de rotação por turbina hidráulica. À esquerda: grupo de técnicos, entre eles, Fernando Arens Jr.

Não obstante, houve quem tentasse a continuidade tecnológica do processo Arens mas, ironicamen- te, não foi um industrial brasileiro de nascimento – Baldomero Barbará – embora ele fosse comprometido com o Brasil como poucos, como veremos adiante.

Calculáramos, anteriormente, que a demanda do mercado brasileiro de saneamento, entre 1916 e 1930, era de perto de 371 toneladas de tubos para canalizações sob pressão, por mês (ver: Apêndice II, ítem II–3). Era um mercado contido, em termos das reais necessidades das populações, mas dependente dos or- çamentos públicos; habitualmente, eram obras ditadas pelo maior interesse político localizado, que pelas re- ais necessidades da população. Contudo, não ousaríamos avançar a hipótese da possibilidade de uma maior demanda, caso os sistemas de abastecimento estivessem em mãos da iniciativa privada: não havia renda su- ficientemente elevada da população, e que lhe permitisse arcar com tarifas realistas para um tal serviço pú- blico. Portanto, pequenas eram as possibilidades para um mercado mais importante, no médio prazo. Era si- tuação que inviabilizava, naturalmente, a implantação de uma indústria local de tubulações, conduzindo ao abastecimento através de importações. Não obstante, àquele mercado, acoplou–se um outro, que era o de tubos usados exclusivamente para o esgotamento sanitário predial. Os fabricantes dos tubos para água po- tável também fabricavam essa outra linha de tubos que não era empregada senão na construção predial, portanto em um mercado de economia privada. Esses tubos, que eram produzidos na faixa de diâmetros de 50 a 150 mm, nas mesmas máquinas centrifugadoras, mas com procedimentos mais simples e melhores rendimentos fabris, representavam, então, cerca de 50% da demanda total, em peso, dos tubos fabricados. Vale isso dizer que a produção total, média, de tubos era da ordem de 800 toneladas por mês, das quais cerca de 400 eram de tubos para a condução de água potável.

Com base nos preços correntes habitualmente praticados no mercado de importação do ferro– gusa.68 Porém, há que considerar que o preço do ferro–gusa produzido em Minas Gerais, nas condições FOB,Usina, era cerca de 16,0 a 20% mais barato que o importado, donde a lucratividade potencial da indús- tria de centrifugados. Como comparação, poderíamos considerar o faturamento da Cia Siderúrgica Belgo Mi- neira, com o aço produzido em 1930, com o correspondente faturamento da Companhia Mineira de Metalur- gia, no mesmo ano:

� Aço:

– Produção: 114.006 toneladas

– Valor total da produção: 5.206.000$000 – Valor unitário: 371$697 / ton.

� Tubo centrifugado: – Produção: 6.000 t

– Valor da produção: 5.000.000$000 – Valor unitário: 833$333 por tonelada

Fonte: (JORNAL de Niteroi,1938).

Constatamos que o preço de venda, no mercadode então, do tubo centrifugado, era de 2,24 vezes o do aço redondo; essa relação, por si só, poderia justificar o interesse potencial de outros interessados nesse tipo de indústria. Contudo, a indústria de tubos centrifugados não apresentou um caráter de prosperidade continuada, como sugerido pelos valores acima, mas por razões nem sempre administráveis por ela, em par- ticular pelas constantes flutuações do seu capital de giro. Sobre as razões dessas flutuações, falaremos opor- tunamente.

68- O preço corrente para o tubo de ferro fundido era de 4,5 vezes o preço corrente do ferro-gusa no mercado. Essa relação advinha do peso relativo das

matérias-primas no custo final dos centrifugados, da ordem de 22% . No período que estudamos, de 1915 a 1930, excetuados os anos de 1917 a 1921, quando os preços desse insumo foram notavelmente alterados por efeito da Primeira Grande Guerra, a tonelada de ferro-gusa custava entre 6 e 8 ₤. Desse modo, tomamos o preço médio de 7₤ para a tonelada do ferro-gusa importado. Ver: (GONSALVES, 1937, p. 48);

Podemos aferir os valores acima apresentados recorrendo a uma informação que nos é prestada por publicação da época, a qual transcreve dados obtidos em visita promocional na usina da CBM, em 1927. De- clarava–se, ali, que aquela usina tinha a capacidade de produzir até 70 toneladas por dia, de ferro centrifuga- do, operando com cinco máquinas de centrifugar. (REVISTA VIAÇÃO; março, 1927). Cálculos relativamente simples (Ver anexo 1) permitem–nos verificar a efetiva compatibilidade desses valores numéricos,sabendo– se que o faturamento médio proveniente de um tal mercado seria da ordem de 302.400 ₤ por ano. Também verificamos que, entre 1925 e 1930, a demanda pelos tubos para água potável crescera para cerca de 165 km por ano, equivalendo a 5480 t/ ano. Se incluirmos aí a demanda pelos tubos para esgotamento sanitário, em um momento em que já era sensível o movimento de urbanização, veremos que a projeção poderia atingir, facilmente, a expectativa de 10.000 toneladas por ano.

Constatamos, pois, que a usina de Indianópolis, da CBM, não teria capacidade para atender, sozinha, esse mercado emergente. A solução mais desejável seria a de um novo licenciamento Arens, no Brasil, por- quanto Fernando Arens, pelo menos momentaneamente, não tinha condições de investir em aumento da capacidade produtiva na sua usina de Indianópolis, como vimos.

Por outro lado, a impossibilidade do aumento de capacidade produtiva no Brasil levaria, fatalmente, a uma alteração da legislação protecionista para os fundidos, o que era politicamente inconveniente. Surgia, assim, a ocasião para um novo licenciamento, com a disposição de um grupo de investidores, com capitais nacionais e liderado por Baldomero Barbará. Esse grupo criaria a Companhia Mineira de Metalurgia, (CMM) cuja usina seria implantada na cidade de Caeté, em Minas Gerais.

Algumas questões sobre esse grupo e sua decisão quanto à localização da sua Companhia Mineira de Metalurgia (CMM) devem ser levantadas; dentre essas, podemos destacar três, das mais fundamentais: a) Quem constituía esse grupo, liderado por Baldomero Barbará, e quais eram as suas credenciais na indústria brasikeira daquela época? b) Quem, a rigor, era Baldomero Barbará? c) Porque Caeté, longínqua cidade situ- ada na atualmente denominada região metalúrgica, de Minas Gerais, e com poucas facilidades de comunica- ções com os centros consumiores da época, foi escolhida para sediar a usina da CMM, para a fabricação de tubos centrifugados? São questões que procuraremos esclarecer nos capítulos que seguirão.

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