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I

niciamos com a concepção de fenomenologia em Edmund

Husserl, a partir de seus conceitos e fases de pensamento. Vários filó- sofos foram influenciados pela proposta filosófica de Husserl, na elabo- ração de sua concepção de fenomenologia – Martin Heidegger, Merleau- Ponty, Max Scheler, Emmanuel Lévinas, Paul Ricoeur, Jean Paul Sartre, só para mencionar alguns dos mais proeminentes.

Edmund Husserl nasceu em Prossnitz, atual República Checa, em abril de 1859, e morreu em Freiburg (Alemanha), em 27 de abril de 1938. Estudou Física, Matemática, Astronomia e Filosofia nas univer- sidades de Leipzig, Berlim e Viena. Nesta última cidade, em 1883, es- tudou com o filósofo e psicólogo Franz Brentano, que exerceu intensiva influência no seu pensamento e na sua imersão na Filosofia. Husserl escreveu diversas obras, entre as quais destacamos algumas (traduzidas para o português), que serão citadas ao longo deste texto, com o intuito de compreender suas principais questões e o percurso do seu pensa- mento. São elas: Investigações Lógicas, publicada em duas partes: Prolegomena para uma lógica pura (1900) e Investigações sobre Fenomenologia e Teoria do Conhecimento (1901); A Filosofia como Ciência do rigor (1911); Ideias para uma Fenomenologia pura e Filosofia fenomenológica (1913); Conferências de Paris (1929); Meditações Cartesianas (1929) e A crise das Ciências Européias e a

fenomenologia transcendental (1936). A edição completa das suas obras está em Husserlianas, também chamada de Arquivos Husserl, que se encontra na Bélgica.

À medida que tais escritos são mostrados ao público, muitos pen- sadores afirmam a necessidade de rever suas versões sobre algumas das obras e conceitos de Husserl. Portanto, a obra de Husserl é de acesso difícil, sendo marcada por um continuum de revisitações que acarretam inúmeras possibilidades de invenções e reinvenções e, também, de mal-entendidos.

Husserl inicia seu pensamento com uma crítica à Metafísica, in- terrogando, principalmente, a ideia de unicidade da verdade, aspecto também característico do positivismo, pensamento criticado pelo filó- sofo. Para ele, a unicidade da verdade aponta para uma atitude natural e ingênua: a verdade como imediaticidade comprovada empiricamente, o homem se constituindo como substância fechada em si mesma e dico- tomizada em relação ao mundo (FEIJOO, 2011; WEISS, 2016). O autor propõe elaborar uma filosofia numa perspectiva epistemológica e onto- lógica fundamentada nas vivências da consciência pré-reflexiva do su- jeito cognoscente em sua relação com o mundo.

A proposta de Husserl dizia respeito à possibilidade de obtenção de um conhecimento objetivo, tomando-se como objeto de investi- gação a subjetividade. Desta feita, enquanto essas perspectivas apon- tadas há pouco – a metafísica e o positivismo – exprimiam a possibili- dade de conhecimento fundado na relação sujeito e objeto numa precisão metodológica, a fenomenologia alicerçava a possibilidade de formulação do conhecimento na ontologia humana com a proposição de abandono da atitude natural, substituída pela epoché, como sus- pensão da atitude natural.

Como desdobramento dessa ideia, Husserl fez novas críticas, agora direcionadas ao psicologismo, ao historicismo e ao pragmatismo; pensamentos que, segundo o filósofo, centralizavam suas compreen- sões em um dos aspectos implicados na produção de conhecimento, fosse a concepção de psicológico, de determinação da história ou de senso prático, respectivamente, o que relativizava os seus fundamentos (CRITELLI, 2006; DARTIGUES, 1992; FEIJOO, 2011; GIORGI;

SOUSA, 2010; GONÇALVES et al., 2008). Paisana (1992) acrescenta que a crítica de Husserl, mais especificamente ao psicologismo, su- cedeu não à psicologia como ciência, mas às suas pretensões filosóficas de fundamentação da Teoria do Conhecimento. Zilles (2007, p. 217) assinala que “o psicologismo defendia a tese de que a lógica compre- ende as normas que valem para todo o pensamento certo da mesma maneira como a engenharia apresenta as regras para construir bem”.

De início, é importante retomar uma influência de seu pensa- mento, destacando que Husserl recorre à noção de intencionalidade de Franz Brentano para tentar argumentar e sedimentar suas críticas ao psicologismo e ao naturalismo do comportamento científico, revelando uma natureza intencional dos fenômenos psíquicos. Brentano apresen- tou-lhe a problemática da intencionalidade e acusava a Psicologia de ser ingênua quanto à sua noção de consciência, propondo-lhe uma re- forma: uma investigação do que fosse específico do psíquico em con- traposição ao físico, e que o primeiro apresentasse uma intencionali- dade que o caracterizasse. Dessa forma, ele põe em relação direta a psicologia e as vivências da consciência. Na compreensão de Husserl, Brentano não supera efetivamente o dualismo, porquanto ainda situa a causalidade psicofísica como algo válido e o psíquico, ainda, subordi- nado ao físico (BORIS, 2011; DARTIGUES, 1992; FEIJOO, 2011; OLIVEIRA, 2008a, b; PAISANA, 1992; ZILLES, 2007).

Nessa aproximação com o pensamento de Brentano foi que Husserl despertou para o equívoco das ciências humanas, principal- mente, da psicologia à época: o de tomar como seu método o das ciên- cias da natureza e aplicá-lo sem a devida distinção entre seus objetos. Husserl entende que, quando a psicologia utiliza o método das ciências da natureza, objetiva e torna diretamente acessíveis os fenômenos da consciência – vivência intencional do objeto –, transforma, assim, a psicologia em uma ciência da consciência. Em Brentano, porém, so- mente o fenômeno psíquico contém intencionalmente um objeto. A psi- cologia, com a observação e mensuração dos fatos psicológicos, apro- xima-se do positivismo, ganhando cada vez mais seu estatuto de ciência. É o que ocorre, também, com a filosofia, que se direciona para um dis- curso especulativo da Metafísica.

O que Husserl propõe no que nomeia de “crise do domínio das ciências”, é uma via que situe a própria ciência em questão – o retorno às coisas mesmas –; via já suscitada por Descartes, com sua concepção da dúvida metódica, mas que não conseguira avanços por não resolver o problema da ciência na ciência, recorrendo à noção de Deus para ex- plicar a elaboração do conhecimento aprioristicamente constituído. Enquanto Descartes dirigiu sua filosofia para o Ego Cogito, o eu egoico como premissa, Husserl direcionou-se para o próprio ato de filosofar do filósofo (FEIJOO, 2011; GIORGI; SOUSA, 2010; HUSSERL, 2012; PAISANA, 1992).

Com o intuito de alcançar esse ato de filosofar, a fenomenologia de Husserl, com o princípio da intencionalidade, indica que a consci- ência é sempre consciência de alguma coisa, se revelando como tal en- quanto for dirigida a um objeto. Isso significa que consciência e objeto não se separam e que só se definem na correlação; portanto, consciência e objeto não existem fora dessa correlação, permitindo constituir o sen- tido da experiência, de uma experiência que é intencional. É pensar que, no processo de percepção do mundo e das coisas, não há duas imagens formadas. Por exemplo, quando percebemos uma casa, não temos uma casa que existe empiricamente e outra que há na nossa consciência, pois, para a fenomenologia, há uma casa como casa percebida, sendo que todo objeto tem sua existência para uma consciência, assim como toda e qual- quer consciência tem sua existência para um objeto, não existindo o ob- jeto em-si, tampouco a consciência em-si (DARTIGUES, 1992).

Com esse princípio, a fenomenologia de Husserl torna-se uma teoria da intencionalidade, pois a consciência, sendo sempre consci- ência de alguma coisa, impossibilita a redução da experiência a uma dimensão empírica; o que se alcança dela é tão somente seu compo- nente intencional. O que conhecemos do objeto é o seu sentido, é o modo como ele vem à presença, significando que é dado sempre em perspectiva e, por isso, pode ser transformado em outras perspectivas de si mesmo. Destarte, a fenomenologia tem o objetivo de interrogar sobre a experiência de ser no e do mundo e explicitar o sentido confe- rido por ela, tendo como tarefa o exame da significação das vivências da consciência (ZILLES, 2002).

Essa característica intencional da consciência tem força e radica- lidade, quando Husserl acentua que não há fenômeno que não seja para uma consciência e não há consciência que não seja determinada como uma maneira de visar ao mundo; é a indissociabilidade entre sujeito e objeto. É exatamente nesse solo fenomênico que se compõe o modelo ontológico da fenomenologia. Assim, ao invés de se retirar da consci- ência essa condição de fenomenalidade, parte-se dela para se conhecer o mundo (CRITELLI, 2006).

A condição de fenomenalidade pode ser explicada a partir do en- tendimento de que, para todo objeto visado (noema) ou conteúdo temá- tico do conhecimento, há uma forma de consciência correspondente (no- esis) ou o próprio ato da vivência. Dessa maneira, a fenomenologia é a ciência que busca elucidar a essência dessa correlação (DARTIGUES, 1992; GONÇALVES et al., 2008). Giorgi e Sousa (2010) asseveram que Husserl recupera esses termos gregos para explanar a correlação insepa- rável entre noesis5 e noema6 como estruturas dos processos mentais.

Para se alcançar o objeto visado, é necessária a redução fenome- nológica, tendo em vista que no ato de visar ou na relação, os objetos e as experiências de existência empírica, a percepção e o sentimento as- sociado são postos entre parênteses. Portanto, com a redução fenome- nológica, chega-se à correlação consciência e objeto, ou seja, à essência, então. Esta, então, é tomada como objeto de estudo válido. É essa pro- blematização do noemático que indica pela primeira vez o método fenomenológico.