Em Investigações Lógicas, um dos seus primeiros escritos, Husserl utiliza o termo fenomenologia em vez de psicologia descritiva, expressão anteriormente empregada para definir seu pensamento de
5 Desde Platão, o termo é utilizado na Filosofia e significa o pensamento intuitivo, captação
intelectual imediata de uma realidade. Ver discernindo. Intuir (FERRATER MORA, 1964)
6 Vocábulo grego que significa pensamento, ideias, as noções contidas no pensado. Ou,
oposição ao psicologismo (ZILLES, 2007). Nessa obra, Husserl ex- prime, pela primeira vez, sua ideia de fenomenologia, determinando, assim, o que entende como tarefa primeira da filosofia – a elaboração de uma teoria do conhecimento, somente possível se a filosofia se mos- trasse como fenomenologia (GIORGI, 2017; HEIDEGGER, 2005; PAISANA, 1992). Portanto, Investigações Lógicas se destinava muito mais a uma fundamentação da lógica e à doutrina da ciência (HUSSERL, 1980, 2007a, b).
Ainda nessa obra, Husserl aponta o psicologismo como doutrina filosófica, considerando a Lógica e a Teoria do Conhecimento disci- plinas subordinadas à psicologia experimental, sendo esta uma de suas críticas. Nesse sentido, propõe como objetivo da fenomenologia inves- tigar reflexivamente a consciência, inaugurando uma nova atitude pe- rante esse sujeito, assinalando, assim, a forma descritiva da fenomeno- logia (SINDOCHA, 2001).
Husserl entendia que a fenomenologia, tomando como objeto o fenômeno, poderia cair num novo psicologismo e, para que isso não ocorresse, deveria problematizar e alargar o conceito de intuição e ela- borar a ideia de epoché ou redução fenomenológica, propondo, inicial- mente, uma psicologia descritiva para refutar o psicologismo e o empi- rismo (MISSAGGIA, 2016; OLIVEIRA, 2008b). Para o filósofo, no entendimento de Paisana (1992), e sob esse aspecto, a fenomenologia deveria se caracterizar como reflexiva ou descritiva, posto que o que é descrito é considerado em si mesmo no ato intencional tal como é vi- sado e na ausência de pressupostos.
A obra citada é dividida em seis investigações, a saber: a pri- meira trata da significação baseada no ato expressivo. Significa dizer que o ato de expressar não está no expressado, mas naquilo que o ex- prime, sendo este múltiplo em sua significação, pois “[...] o acto, na medida em que é exprimido nesta ou naquela forma de discurso, tem de ser conhecido em sua determinação típica: a pergunta como pergunta, o desejo como desejo [...]” (HUSSERL, 2007a, p. 26). Acentua que a percepção realiza a possibilidade do ato de visar a algo, possibilidade que comporta a significação, implicando que é na percepção que se es- tabelece a relação sujeito e objeto. Há que se deixar bem claro que essa
relação não contém a significação, mas é somente o solo para que flo- resça. Portanto, é nessa vivência que o ato de conhecimento se funda- menta, entendendo-se, aqui, que conhecer é ato. Assim afirma que,
O exprimir do discurso não consiste, por conseguinte, em meras pala- vras, mas sim em actos de expressão; estes cunham os actos correlatos que devem ser exprimidos por si numa nova matéria, criam uma ex-
pressão pensante deles, cuja essência universal constitui a significação
do discurso correspondente (p. 26, grifos do autor).
A segunda investigação procede a uma análise fenomenológica da consciência, evidenciando o que a caracteriza, a intencionalidade. Husserl garante que o conceito de significação é correspondente ao de intenção de significação. Para Husserl (2007a, p. 42, grifos do autor)
Pelo facto de, então, fenomenologicamente, encontrarmos a unidade mais íntima e, na verdade, uma unidade intencional, em vez de uma mera soma, teremos, com perfeita razão, de dizer: ambos os actos, um dos quais constitui a palavra completa e o outro constitui a coisa, enca- deiam-se intencionalmente para uma unidade de acto .
O conceito de intencionalidade tornou-se fundamental para Husserl e para todo o seu pensamento na fenomenologia. Critelli (2006) refere-se ao conceito de intencionalidade como a possibilidade de se ver o que está exposto e, ao mesmo tempo, o que está oculto, sugerindo que é na intencionalidade da consciência que se perfaz o conhecimento, que é na constituição desse vínculo que ocorre o ato de conhecer. Nas palavras da autora, “Sem esse encontro do olhar e do mostrar-se do ente é impossível a própria manifestação” (p. 67).
A terceira apresenta os conceitos de objeto dependente e inde- pendente e suas relações. Demonstra a distinção entre mera identifi- cação ou atos flutuantes de significar e significações idealmente unas para estabelecer o conhecimento. Na mera identificação ou atos flutu- antes, as expressões mudam em sua significação, pois são subjetivas e ocasionais. No ato de conhecer, têm-se essas expressões como formas de constituir o conhecimento e que aproximam as pessoas do conheci- mento uno. Este ocorre com as significações idealmente unas, pois são
expressões que permanecem objetivas e fixas, e livres das significações flutuantes. Assim como nos indica Husserl (2007a, p. 43, grifo do autor)
A universalidade da palavra significa, de acordo com isto, que uma e a mesma palavra, por meio do seu sentido unitário, abrange (e, quando tal é absurdo, abrange “pretensamente”) uma multiplicidade de intuições possíveis idealmente delimitadas de forma fixa, de tal forma que cada uma destas intuições pode funcionar como base de um acto de conheci- mento nominal com o mesmo sentido .
Na quarta investigação, Husserl demonstra o que é significar e suas estruturas de formação e derivação; acrescenta às suas discussões, nas investigações anteriores, a diferença entre o teor psicológico e o conteúdo lógico das expressões, sendo o psicológico o que muda cons- tantemente e o lógico o que é fixo e objetivo. Em suas palavras
Poderíamos pensar, neste instante, que, por exemplo, no caso de uma relação, apenas os pontos da relação estariam presentificados e que o novo residiria num mero carácter psíquico, que enlaçasse ambos os fe- nômenos. Mas um enlace dos actos não é, sem mais, um enlace dos objectos; no melhor dos casos, ele pode ajudar no aparecimento de um tal enlace: ele próprio, todavia, não é o enlace que nele aparece (HUSSERL, 2007a, p. 173).
Com isso, Husserl assegura que a verdadeira teoria das significa- ções prescinde de um pensamento das relações lógicas e de proposições estabelecidas sistematicamente.
Na quinta, exibe uma teoria acerca do que constitui a consciência com arrimo em conceitos como intencional e qualidades do ato, afir- mando que “Cada acto em geral é, [...], ou ele próprio um acto objeti- vante, ou tem um tal acto por base” (HUSSERL, 2007a, p. 102). Esclarece que, até o momento, o que se falava era da possibilidade e da impossibilidade do ato de significar. Nessa investigação, problematiza as qualidades desse ato, assinalando que todo juízo que se tem das coisas é posicional, pois exprime somente as diferenças entre o que é e o que não é, e essa diferença é da ordem do intencional.
Na sexta e última investigação, aprofunda a relação dos atos in- tencionais com a correspondente intuição na conquista do conheci-
mento, no alargamento da ideia de experiência fazendo a distinção entre experiência singular e experiência universal e expressa a sua radical fidelidade à experiência direta (PAISANA, 1992). Apesar de consistir em uma obra inaugural da perspectiva fenomenológica, viria, ainda, a sedimentar a fenomenologia como campo de pesquisa e conhecimento, tendo sido objeto de revisão no ano de 1913, pois, segundo o próprio Filósofo, estavam inacabadas.
Paisana (1992) aponta alguns aspectos que dificultaram a expli- citação da ideia de fenomenologia de Husserl em Investigações lógicas, quais sejam: a imprecisão das leis empíricas da ciência experimental, acarretando, consequentemente, uma imprecisão das leis lógicas; a in- definição de uma matéria de fato das leis lógicas; e a insuficiência na explanação do que seja o caráter a priori como ordem metodológica.
Cada vez mais, a preocupação de Husserl era tornar a filosofia uma ciência rigorosa, adotando um método que pudesse lhe servir de base para esta ciência. Este era o tema central do livro A Filosofia como ciência do rigor (1911). Husserl entendia que “Desde os seus inícios, a Filosofia pretendeu ser ciência de rigor propriamente suscetível de sa- tisfazer às supremas necessidades teóricas [...]” (p. 1). Essa obra é con- siderada como intermediária entre a crítica ao psicologismo nas Investigações Lógicas e a instituição da fenomenologia no livro Ideias para uma fenomenologia pura e uma filosofia fenomenológica.