Lois et décrets
NOR : INTD0200114D
Traçado que está o pioneirismo de Achebe relativamente à caminhada para a descolonização literária, importa reconhecer também o papel, de certo modo paralelo, desempenhado por Ahmadou Kourouma nas letras africanas em língua francesa.
"Kourouma is considered as the Francophone Africans' answer to the Chinua Achebe of the Anglophones."1
"Il faut attendre près d'une décennie, après l'accession des Etats africains francophones à la souveraineté nationale pour que les romanciers suivent l'exemple du mouvement anglophone.[...]...ce n'est que vers 1968 que le changement se fera effectif: Ahmadou Kourouma et Les Soleils des Indépendances."2
Da mesma opinião é Albert Gérard que salienta a ruptura de Kourouma corn as convenções ocidentais:
"[Kourouma] délaissant les formes du roman européen traditionnel, a élaboré un style et une technique narrative dont l'originalité marque peut-être le débout de l'émancipation de la littérature franco-africaine par rapport aux conventions...du roman occidental du XIX ème siècle. Chez Kourouma cette libération semble être le fait d'un écrivain qui assume sa personnalité culturelle sans crainte ni complexes."3
Os pontos de contacto entre Ahmadou Kourouma e Chinua Achebe são notórios. Está presente neste autor marfinense a mesma preocupação em exprimir uma visão africana do mundo. Les Soleils des Indépendances (LSI), recusando ser mais um romance acusador do Ocidente, tem como cenário a África, as suas tradições, os seus problemas. A África que Kourouma evoca é referida sem reticências e sem falso pudor. O romance de Kourouma desembaraçou-se de um certo saudosismo que até aí tinha reinado na produção literária africana em língua francesa; abandonou a exaltação de uma negritude mítica e os ideais poéticos da primeira hora para se virar para a análise e crítica de situações existenciais que prevalecem realmente na África contemporânea. Mas se, por um lado, ele não tem complexos que o levem a esconder abusos e práticas cruéis e injustas,
OKOLI, Tunde - "Ivoirian Writer Ahmadou Kourouma Dies at 76", Africa News Service, December 15,2003.
DABLA, Séwanou - Nouvelles écritures africaines - romanciers de la deuxième génération, Paris, L'Harmattan, 1986, p.17.
"I have nothing to hide. I try to express whatever shortcomings or faults society presents in its realities, given that they are known and lived by the populations. I have nothing to hide."4
por outro, também não os tem quando se trata de sublinhar orgulhosamente a sua particularidade.
"Des idéologues de chez eux (les Occidentaux), pour justifier l'esclavage et la colonisation, avaient décrété que le nègre n'avait pas d'histoire parce que son histoire n'était pas écrite. Il s'est trouvé des Africains de chez nous qui pour le désir d'Afrique se sont armés de la plume. Ils ont démontré que l'Afrique, le premier continent de l'humanité, avait - écrites ou non écrites - de multiples traces de son passé multimillénaire. Ils (les idéologues de chez eux) avaient afirmé que nous étions sans culture. On leur a répondu que les Africains de la plus longue histoire de l'humanité avaient la culture la plus riche de l'univers."5
Outras afirmações proferidas por Kourouma no âmbito de uma entrevista também nos remetem automaticamente para o objectivo que Achebe pretendeu atingir com TFA: mostrar que a África pré-colonial, apesar dos seus defeitos, possuía sociedades viáveis, organizadas e culturalmente ricas.
"Les gens avaient une certaine vie, avaient un certain monde qui était peut-être fermé, qui n'avait pas que des avantages, mais qui satisfaisait à tous, qui avait sa cohérence politique et économique et qui, maintenant, a disparu. Avec la colonisation quelque chose a été cassé, et ce monde s'est diversié."6
A relação do tema de LSI com o de TFA foi inclusivamente salientada por Dorothy Blair.
"The true subject, of which Fama's sterility is only the individual symbol, is the collapse, with no hope of regeneration, of the only society in which he was fully integrated. This is an extension of the Things-Fall-Apart' theme, originally illustrating the catastrophic impact of colonization on African rural society."7
Pensamos, contudo, que esta poderá ser uma visão excessiva quando se faz uma apreciação de que a colonização teve um impacto catastrófico na África rural. Não foi no mundo rural que a colonização teve efeitos mais catastróficos, mas sim nas zonas de implantação do urbanismo, sobretudo em zonas litorâneas.Foi precisamente através da implantação do
4 OUEDRAOGO, Jean - "An interview with Ahmadou Kourouma" (November 24, 1997), Callaloo,
vol.23, n°4, Fall 2000, p. 1347.
5 Prefácio de Ahmadou Kourouma à obra de Boniface MONGO-MBOUSSA, Désir d'Afrique,
Collection Continents noirs, Gallimard, 2001.
6 FENOLI, Marc - "Kourouma, le colossal", Archives - culture et développement, 18 janvier 1999, p.3. 7 BLAIR, Dorothy - African Literature in French: a history of creative writing in French from West
urbanismo que a colonização trouxe consigo que foi possível atrair às cidades populações do interior rural que, na cidade, acabaram, de alguma forma, por alienar-se.
Também a opinião de Kourouma quanto ao papel do escritor se assemelha em tudo à do autor nigeriano: por um lado, combater o mito da virgindade cultural africana antes da chegada do Europeu (como já ficou claro através do prefácio acima citado) e, por outro, preservar as estruturas culturais tradicionais.
"The role of the writer! I believe that in modern day Africa, two things are worth noting. First is the need to clear our History of any myth, to free the people from the ancient myths.[...] But there is one other very, very important consideration, which lies in the process. It is simply that African history...bears certain realities, lessons that we must defend, preserve.[...] I believe that we need to maintain our structures, our cosmogony. There is no superior cosmogony. I do not believe that my cosmogony is inferior to those which say that God is made of three persons..."8
Aqui é abordada uma questão fundamental: as visões diferenciadas das cosmogonias, ou seja, da forma como a relação do homem com a natureza, com o mundo, com o outro, se posiciona. Nesta área, é que há uma atitude da colonização que é, de alguma maneira, niilista. Nas questões das culturas não pode haver absolutismos; tem de haver sempre uma relatividade e, portanto, um respeito pela diferença, um respeito pelo outro.
"Moi, je n'ai fait qu'écrire pour exprimer une situation autant sociale que politique propre au pays où je suis né...11 faut en finir avec ceux qui veulent bien nous accorder la grâce de l'innocence et de la virginité culturelle."9
Quando Kourouma afirma "je n'ai fait qu'écrire...", isso é, da parte dele, uma modéstia e, simultaneamente, uma ironia, porque o problema fundamental que aqui se coloca é saber qual a intenção (se de intenção podemos falar em termos literários) de um romance como
LSI. Consideramos haver essa intenção em determinadas obras do nosso corpus, a saber, em Things Fall Apart, Les Soleils des Indépendances e A Varanda do Frangipani. Trata-se de
obras de ficção que, de alguma forma, pretendem fazer uma certa apreciação global da história, dos contactos entre a África e os outros, entre a África e a Europa. Nenhum destes trabalhos, porém, é um romance anti-colonial; eles acabam por ser mais o que poderíamos chamar de romances-tese, romances que, perante todas as contradições de um processo
8 OUEDRAOGO, Jean, op.cit., pp. 1342-3.
BADDAY, Moncef - "Ahmadou Kourouma, écrivain africain", L'Afrique Littéraire et Artistique, n°10, avril 1970, p.6.
histórico que foi desenvolvido nos moldes que conhecemos, procuram encontrar a tese do que deve ser, em termos de futuro, a evolução da relação do escritor com esses fenómenos de colonização. O homem de cultura, e não aquele que foi a vitima directa da colonização mas também o seu beneficiário mais significativo, tenta interpretar ou analisar esses fenómenos de colonização. Estas obras acabam por ser um pouco obras de projecção, de prospecção, tentando, simultaneamente, fazer o balanço da história. É correcto dizer-se que a colonização cometeu diversos tipos de violência contra a África, mas, agora, que os colonizadores antigos foram substituídos pelos novos dirigentes africanos, verificamos que estes não foram capazes de usufruir, de forma adequada, dos bens, da cultura que foi trazida pelos outros, designadamente uma cultura que, não sendo africana, fez com que África desse passos significativos em termos da história da civilização.
Voltando concretamente a Kourouma, o desejo de escrever neste autor surgiria na sequência de uma decepção: a leitura dos estudos etnográficos e sociológicos sobre a África. Segundo Madeleine Borgomano, para este autor escrever romances equivalia a uma forma de fazer uma sociologia viva e activa10; uma sociologia devidamente credenciada, acrescentamos
nós, pois relativamente às fontes de informação que possibilitaram a Kourouma a apresentação do mundo tradicional africano, encontramos, de novo, a semelhança com Achebe: o relato chega-nos de alguém que conhece bem a sociedade de que está a falar.
"Je suis Africain. Je suis Malinké. Les informations, je les connais. Il y a beaucoup de rituels malinké que je connais, d'autres que je ne connais pas.[...] Il y a des rituels qui existent, que j'ai eu l'occasion de lire ou de voir un peu."11
O antigo mundo malinké é, assim, apresentado do interior por um escritor que o ama, mas que sabe reconhecer o que ele tem de negativo. O olhar crítico de Kourouma, para além de incidir sobre as novas instituições da Independência, observa sem complacência certas tradições malinkés bem como os seus representantes. Não compreendemos, por isso, a posição de Maria Teresa Santos quando fala em "defesa incondicional dos valores da tradição,
10 Cf. BORGOMANO, Madeleine - Ahmadou Kourouma, le 'guerrier-griot', Paris, L'Harmattan,
1998, p.8.
11 LE RENARD, Thibault e TOULABOR, Comi M. - "Entretient avec Ahmadou Kourouma",
de que é caso exemplar o romance Les Soleils des Indépendances de Ahmadou Kourouma." 12. Neste
romance, assumido pelo próprio como "uma descrição crítica do mundo malinké"13, faz-se uma
reflexão lúcida sobre uma certa África tradicional, condenada pela necessária evolução das instituições e mentalidades. Sem cair nunca no exotismo de outrora, Kourouma soube descrever os costumes, as crenças e os ritos malinkés, integrando-os coerentemente na acção. As descrições, os comentários e as explicações de ordem etnológica constituem um discurso didáctico e uma iniciação do estrangeiro à vida e à mundividência dos Malinkés.
1.2.1 Cosmologia e religião
Kourouma vai recriar a atmosfera em que vive o Malinké tradicional. Aqui o objectivo é a harmonia e, como tal, convém preservar o equilíbrio entre as forças visíveis e invisíveis que detêm também um papel determinante ("equilibre des forces invisibles qui sauvent le village", p.14114). A morte não é, assim, encarada como um fim, mas precisamente como a passagem
de um mundo ao outro. Os mitos antigos afirmam a continuação da vida para além da morte e a crença na reincarnação.
"Elle [l'ombre] a marché jusqu'au terroir malinké où elle ferait le bonheur d'une mère en se réincarnant dans un bébé malinké." (p.8)
O reconhecimento do mundo invisível manifesta-se pela crença em toda uma série de espíritos ("la brousse noire, mistérieuse d'esprits, de mânes", p.46; "la nuit déjà peuplée d'esprits"), de aimas errantes ("petite lumière qui veille et éloigne d'autres âmes errantes", p.99), de génios ("des génies...s'étaient ajoutés à la foule", p.150; "Favorable, on jette le sacrifice de deux colas blancs aux mânes et aux génies pour les remercier.", p. 151), mas, principalmente, pela crença nas almas ou espíritos dos antepassados:
"Génies des forets sombres et calmes...[...] Mânes des prestigieux aïeux, vertèbres de la terre nourricière, acceptez, attrapez ce sacrifice dans la grande volonté d'Allah le tout-puissant et éloignez de nous tous les malheurs, pulvérisez les mauvais sorts!" (p.74)
SANTOS, Maria Teresa - O universo oral na obra de Mia Couto, texto policopiado, dissertação de Mestrado em Literatura e Cultura dos Países Africanos de Expressão Portuguesa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1996, p.32.
13 BADDAY, Moncef, op.cit., p.8.
Seleccionámos esta citação, entre outras possíveis, dado que ela revela o sincretismo entre aquilo que é o animismo próprio dos povos africanos e a sua relação com o islamismo, e que desenvolveremos mais à frente. Nenhum islâmico invocaria Alá e, ao mesmo tempo, "les mânes".
Aprendemos ainda que cada homem tem o seu duplo, o seu dja (de certo modo equivalente ao chi de Achebe),
"Fama se pensa mort, sans saisissement, imagina son double, son dja sortir de son corps, s'asseoir au milieu des mânes, sans effarement, son dja le juger, le plaindre." (p. 120)
cujo poder, assim como o da alma, tem de ser preservado e reforçado na vida terrestre. "La colonisation, les maladies, les famines, même les Indépendances, ne tombent que ceux qui ont leur ni (l'âme), leur dja (le double) vidés et affaiblis par les ruptures d'interdit et de totem." (p.116)
Para se fazer face a todas estes infortúnios e infelicidades, é preciso descobrir a origem do mal (através de consultas ao féticheur15 e ao marabuto) e depois afastá-lo através de
sacrifícios.16 Estes são mencionados frequentemente, mesmo se, por vezes, não são descritos
com pormenores:
"tuer des sacrifices de toutes sortes..." (p.23), etc.
No sacrifício, é importante que corra o sangue, pois isso permite entrar em contacto com a fonte da vida:
"Mes conseils se limiteront à te recommender de tuer immédiatement un sacrifice. Les signes frais encore ouverts, là sur le sable, attendent du sang" (p.71)
"Mais le sang, vous ne le savez pas parce que vous n'êtes pas Malinké, le sang est prodigieux, criard et enivrant.[...] Le sang qui coule est une vie, un double qui s'échappe et son soupir inaudible pour nous remplit l'univers et réveille les morts." (p. 147)
O sangue, que para nós, ocidentais, constitui uma visão trágica, não assume uma dimensão de tragédia para o africano. Aqui, trata-se, apenas, de cumprir um ritual de ligação aos
15 Optámos por utilizar o termo francês, na medida em que o termo português "feiticeiro" não recobre
exactamente a acepção que a palavra tem no mundo africano. É também neste sentido que Gassama se pronuncia: "Le devin, le guérisseur, le féticheur, le «sorcier-mangeur-d'êtres», sont connus sous le nom de sorcier, terme extrêmement vague, voire ambigu. [...] Dans les ouvrages ethnologiques et dans nos romans, ce mot est abusivement employé bien que les langues africaines fassent des distinctions très nettes entre les différentes formes de sorcellerie." GASSAMA, Makhily - Kuma, interrogation sur la
littérature nègre de langue française, Dakar-Abidjan, N.E.A., 1978, p.288.
16 Séry faz alusão a realidades relativamente recentes quando acusa os estrangeiros de fazerem
sacrifícios humanos: "ils [les Dahoméens] égorgèrent nos enfants en offrande à leurs fétiches" (LSI, p.89).
antepassados. O sangue acaba por ser a fecundação dessa ligação, a seiva que consegue fazer essa ligação.
O sangue serve então para despertar os antepassados mortos e é condição sine qua
non para estes efectuarem um bom acolhimento ao recém-defunto. Irónica e criticamente,
aproveita-se para se dizer que "avant les soleils des Indépendances et les soleils des colonisations, le quarantième jour d'un Malinké faisait déferler des marigots de sang", mas agora "tous les morts des soleils des Indépendances vivaient au serré dans l'au-delà pour avoir été tous mal accueillis par leurs devanciers" (p.143).
A crença no poder do sacrifício, tanto como meio de combater a infelicidade já existente, como de a evitar, é recorrente ao longo do romance.
"Pourtant un destin dur comme fer, lourd comme une montagne, se dévie à coup de sacrifices, avec le concours des morts." (p. 121)
"...des sacrifices adoucissent le mauvais sort et même le détournent.[...] Or le voyage de Fama portait un sort très maléfique. Seuls de très bons sacrifices pouvaient l'adoucir, et pour le détourner, de très durs sacrifices." (151), etc.
Uma nítida dimensão crítica passa pelo facto das próprias personagens contestarem desrespeitosamente os costumes:
"Plus ça allait, plus ce monde devenait méconnaissable: un monde renversé! Voilà maintenant qu'adviennent des sacrifices dépassant les moyens du sacrificateur. Bientôt un sacrifice de matou incombera à la petite souris!" (p.74)
A par de uma certa glorificação da religião tradicional, há a consciência de que se verificou uma mutação no domínio religioso.
"Oui, tout tomberait inévitable, pour la raison simple que les républiques des soleils des Indépendances n'avaient pas prévu d'institutions comme les fétiches ou les sorciers pour parer les malheurs." (p.160)
"Il demeurait bien connu que les dirigeants des soleils des Indépendances consultaient très souvent le marabout, le sorcier, le devin; mais...ce n'était jamais pour la communauté, jamais pour le pays, ils consultaient toujours les sorciers pour eux mêmes, pour affermir leur pouvoir, augmenter leur force, jeter un mauvais sort à leur ennemi." (p.163)
O abandono das crenças ancestrais ao serviço da comunidade estará, assim, na origem das misérias da actualidade.
Em LSI, apresenta-se um mundo muçulmano: o nome de Alá, o louvor e o apelo a Alá, os costumes e as orações apontam para a presença constante de um Islão que pontua e dá ritmo à vida quotidiana. Com efeito, são raras as páginas desta obra em que não aparece
referido o nome de Alá. Afirma-se peremptoriamente a fé em Alá e no seu profeta Maomé ("Allah le miséricordieux! Et Mahomet son prohète!", p.29; "profonde foi au Coran, en Allah et en Mahomet", p. 109), mas, paralelamente, este mundo é marcado por práticas, crenças e superstições ligadas ao animismo. Kourouma chama a atenção para a interpenetração das religiões na África negra. Quando Alá não se mostra suficientemente eficaz, recorre-se ao animismo.
"Alors, au refus d'Allah, à son insuccès devant un sort indomptable, le Malinké court au fétiche..." (p.116)
Neste romance, praticamente ninguém escapa a este sincretismo religioso, principalmente em Togobala.
"Les Malinkés ont la duplicité... Sont-ce des féticheurs? Sont-ce des musulmans? Le musulman écoute le Coran, le féticheur suit le Koma; mais à Togobala, aux yeux de tout le monde, tout le monde se dit et respire musulman, seul chacun craint le fétiche." (p.108)
"Les Malinkés du Horoudougou...Parce que musulmans dans le coeur, dans les ablutions, le fétiche koma leur devait être interdit. Mais le fétiche prédisait plus loin que le Coran; aussi passaient-ils la loi d'Allah, et chaque harmattan, le koma dansait sur la place publique pour dévoiler l'avenir et indiquer les sacrifices." (p.161), etc.
Está aqui presente uma contaminação dos aspectos religiosos num território, num contexto cultural islamizado onde claramente se vê que este islamismo não é o fundamentalismo islâmico, mas sim um sincretismo que obriga o Corão a ter que conviver permanentemente com as práticas animistas e, consequentemente, com o ancestrismo.
O Islamismo não conseguiu, de facto, fazer desaparecer, em muitos africanos convertidos, as práticas mágicas e as crenças próprias do animismo. É neste sentido que Kane afirma: "L'Africain est souvent ou un musulman ou un chrétien. Il reste toujours animiste."17
Existe, então, um verdadeiro dualismo religioso, uma verdadeira convergência e não propriamente uma oposição.
Logo no episódio que inicia o romance, descreve-se uma cerimónia fúnebre que mistura práticas animistas e islâmicas. Segundo o calendário muçulmano, ela desenrola-se entre o sétimo e o quadragésimo dia após a morte, mas já a evocação das peregrinações da
17 KANE, Mohamadou - "L'actualité de la littérature africaine d'expression française - Les Soleils des
Indépendances", Présence Africaine, numéro spécial "Réflexions sur la première décennie des
sombra do defunto, assim como a futura reincarnação, obedecem a crenças malinkés que não têm nada a ver com o Islão. Também no episódio do cemitério em Togobala (cf.pp.119- 20), se a oração é islâmica, o ambiente é animista. Os antepassados é que são os destinatários das orações e todos os sons da natureza são interpretados como manifestações do além. Mas são as cerimónias fúnebres de quadragésimo dia de Lacina (cf.pp. 143-9) que melhor exemplificam o duplo clima espiritual. Por um lado, respeita-se o calendário muçulmano, encontram-se presentes dois marabutos (dois El Hadji) e a oração obedece ao Corão, mas, por outro lado, enquanto a assistência está a rezar devotamente a Alá, um turbilhão maléfico é desencadeado pelos génios indignados. O ambiente de piedade desvanece-se e, apesar de se continuar a rezar, o espírito, numa perspectiva irónica, já se