3 DESCRIPTION DES IMMEUBLES (1)
NOMENCLATURE DE L'IMMEUBLE
Já no que concerne aos projetos literários, filosóficos e artísticos dos intelectuais alemães dos fins do século XVIII até o século XIX, estes, enxergavam na cultura grega o manancial inspirador de suas criações. Os gregos serviam de modelo quando pensavam em criação de uma cultura voltada para a educação estética de uma nova humanidade, um exemplo dessa intenção com relação a esse novo projeto de educação foi Friedrich Schiller com sua obra Educação estética do homem, e é claro o próprio Nietzsche quando demonstra uma preocupação como destino da cultura (bildung) e da educação dos jovens alemães proferindo conferências na Basiléia sobre os estabelecimentos de ensino alemães. No entanto, havia por partes dos estudiosos de cultura grega uma filiação ao conceito de serenidade, harmonia e leveza das formas, que segundo esses estetas, filólogos e literatos, seriam o ideal próprio da cultura grega.
Os intelectuais alemães contemporâneos de Nietzsche, podemos citar como exemplos mais representativos Winckelmann e Lessing, acreditavam que a filosofia, a literatura, as figuras e estátuas gregas, eram manifestações desse ideal de beleza e serenidade que fora alçado por eles como ideal estético a ser seguido. Lessing chegou ao exagero de afirmar que o principal objetivo da tragédia era elevar nossa capacidade de sentir piedade como melhoria na sensibilidade moral: “Lessing tenta provar que a catarse não se destina a eliminar as paixões do expectador, mas em transformá-las em virtudes. Para Lessing, a
tragédia acaba sendo “um poema que provoca a piedade”; convida o espectador encontrar o meio termo (noção burguesa por excelência) entre os extremos da piedade e do terror” (PAVIS, 2008, p.40). O teórico alemão Winckelmann, pregava em seus escritos, a imitação dos antigos como melhor meio de renovação da arte do seu tempo, ele desenvolveu um método de descrição de obras de arte, que intencionava tornar a obra viva diante dos olhos do observador (enargea). A influência de Winckelmann e sua teoria estética foram de grande importância na Europa como estruturação da cultura neoclássica. Sua interpretação formal da cultura grega valoriza a ideia de uma beleza sublime desgarrada de sua materialidade.
Estes helenistas germânicos achavam que a arte grega derivava de um único princípio, o princípio de harmonia e serenidade dos rostos gregos das esculturas de Fídias. Havia sem dúvida por partes desses intelectuais uma tentativa de manter o domínio dos valores formais estabelecidos, uma chamada para a obediência à norma acadêmica como critério de competência que mais servia para manter uma hegemonia estética sobre a Antiguidade, gerando com isso, inevitáveis conformismos.
Embora o nome de Nietzsche esteja de maneira incontornável ligado à cultura grega, ele difere quanto à interpretação dos estetas, filólogos e literatos de seu tempo, ao contrário destes, ele privilegia uma Grécia pré-socrática e realiza estudos sobre Homero e Diógenes Laércio, em “A competição de Homero”, Nietzsche tenta demonstrar como a dimensão agonal da vida faz parte da estrutura fundamental da cultura grega arcaica. A estética nietzschiana considera os impulsos estéticos apolíneos e dionisíacos como duas forças antagônicas que continuamente elevam a vida à dimensão do jogo revelando uma alternância de forças como movimento próprio da existência. Para Nietzsche, o belo seria algo da ordem do pulsional. Já em seu primeiro livro publicado, o jovem professor de letras clássicas provoca polêmica quando discorda da concepção tradicional sobre a cultura grega como manifestação de pura serenidade apolínea, apontando no exacerbar dessa tendência o fim da tragédia grega, exatamente quando do desaparecimento da pulsão estética dionisíaca e o privilégio da racionalidade conceitual e do socratismo estético; “o elemento otimista que, uma vez inoculado na tragédia, há de infeccionar pouco a pouco suas regiões dionisíacas e levá-la necessariamente à autodestruição – até o salto mortal no espetáculo burguês” (NIETZSCHE, 1978, p.13).
Não é pouco complexo definir Assim Falou Zaratustra quanto à forma, sem dúvida trata-se de uma obra filosófica e contém os conceitos mais essenciais da filosofia nietzschiana que serão inclusive, retomados em obras posteriores. Eugen Fink afirma que “Quanto à forma, Zaratustra situa-se num intervalo que separa a poesia do pensamento.
Nietzsche exprime as suas intuições numa autêntica miríade de imagens, em inumeráveis metáforas, que ele próprio frequentemente interpreta”. (FINK, l983, pp. 67,68)
Parece evidente a intenção de Nietzsche em conduzir suas ideias poeticamente envolvendo-as numa atmosfera imagética onde a prosa ganha ritmo e os conceitos são distendidos multiplicando seus eixos de diálogo. É bastante relevante o fato de Nietzsche ter realizado em sua obra uma simbiose entre campos do conhecimento e da experiência estética, há uma ruptura com os modelos formais e suas regras de construção, a obra caracteriza-se pela fusão entre poesia, artes da cena, e filosofia de modo a estabelecer uma zona de ligação entre estes elementos. Patrice Pavis em seu Dicionário de Teatro afirma que:
Sem entrar na discussão da especificidade da linguagem poética, da diferença entre prosa e poesia, basta notar que a poesia normalmente é lida ou ouvida fora da situação teatral, ou seja, sem indicação concreta sobre sua enunciação. O que a diferencia, além do mais, do texto filosófico, ou romanesco, ou pragmático, é a insistência na forma, a condensação e a sistematização dos procedimentos literários, o distanciamento da língua e da comunicação cotidiana, a consciência do leitor ou do ouvinte, de estar às voltas com enigma que lhe fala de maneira individual (PAVIS, 2008, p. 294).
Zaratustra seria então, um poema cênico que ganha ação em torno de ideias
filosóficas, ou ainda um drama21 poético com feição filosófica. O conceito de drama poético segundo Massaud Moisés é: “um drama que se desenrola numa atmosfera poética ou que lança mão da linguagem inerente à poesia”. (MOISÈS, 2004, p. 356). Roberto machado em seu livro intitulado Zaratustra – Tragédia nietzschiana, afirma que a obra é uma “narrativa dramática que tem por principal objetivo apresentar as experiências do personagem central”. (MACHADO, 1999, p. 27).
Os estudos realizados sobre a tragédia e o seu efeito trágico tanto pela tradição filosófica grega, como pelos os literatos e filósofos do século XVIII, revelam muito dos preconceitos morais a que grande parte desses autores partilhava. Platão e Aristóteles assistem o declínio da polis junto com o declínio da tragédia enquanto estilo literário encenada nos palcos da Grécia.
Platão dá excessiva ênfase ao conteúdo de ordem moral como fundamento educacional, já Aristóteles se concentra nas questões mais formais e textuais dando maior relevância à lexis e a dinâmica do enredo, ignorando completamente os aspectos institucionais
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O vocábulo drama designa ação e tem relação direta com o teatro. Ação envolve choque entre personagens e por isso, o vocábulo “drama” assumiu o sentido de conflito, “atrito” e o adjetivo “dramático” o de “conflitivo”, podendo ser empregado no âmbito da prosa de ficção, conto, novela e romance. A origem do drama é o tema que Nietzsche desenvolve em seus primeiros escritos e palestras.
da tragédia e sua função política. Essas diferenças de foco mantêm ainda um enquadramento em comum, a saber, os dois filósofos encontram um antagonismo entre filosofia e poesia – poesia no sentido grego do termo – para ambos a poesia mimética é uma forma inferior de conhecimento em relação à filosofia, esta última é a única capaz de fornecer a verdadeira sabedoria. Com relação aos intelectuais do século XVIII, podemos assistir um debate, e Nietzsche participa desse debate, em que a estética grega é apreendida exclusivamente sob o viés apolíneo, sendo este critério elevado à categoria de universal. Estas opiniões têm como pano de fundo uma referência e uma reverência a moral socrático-platônica, ainda que algumas vezes revestidas de valores cristãos. Vejamos, portanto, o quanto os temas principais da filosofia de Nietzsche vão de encontro a esses modos valorativos e interpretação da arte.
Até aqui o nomadismo filosófico, poético, estético nietzschiano. Tomar lugar por algum tempo, depois partir e pousar metamorfoseado em outro lugar. Movido por um impulso que vai se realizando em contínuos estágios de ruptura e novos acoplamentos, ultrapassagens e incorporações. Já no Nascimento da tragédia, a crítica ao socratismo da moral com sua estética racionalista produtos da tradição socrático-platônica, também aí uma discordância da compreensão aristotélica da katharsis como teleologia da tragédia. O jovem Nietzsche enfatiza a presença do elemento dionisíaco pelo viés do espírito da música. Nesse ponto, também a discordância de Nietzsche em relação à estética socrática do mundo moderno, os intelectuais e eruditos de sua época elegeram a estética apolínea da sereno jovialidade como único princípio da arte grega, e esta, é alçada como modelo ideal em exclusão completa ao componente trágico-dionisíaco.
Revendo seus percursos, Nietzsche faz seu Ensaio de autocrítica em relação aos seus modos de expressão em o Nascimento da tragédia, segundo ele, poderia ter ousado “dizer como poeta”. Também sua filiação ao romantismo de Wagner e a estética metafísica de Schopenhauer. Já em Humano demasiado Humano ele revê suas antigas concepções e em
Ecce homo, ele afirma: “Humano demasiado humano é o monumento de uma crise. Ele se
proclamava um livro para espíritos livres: quase cada frase, ali, expressa uma vitória – com ele me libertei do que não pertencia à minha natureza. A ela não pertence o idealismo” (NIETZSCHE, 2008, p. 69). Daremos continuidade as intertextualidades a partir de agora, entre Zaratustra e A gaia ciência, onde o autor anuncia logo no Prólogo que “incipt paródia, não há dúvida...” (NIETZSCHE, 2004, p. 10).