O problema do combate entre paixões e razão é resolvido para responder à questão de saber que teoria da decisão e da ação adotar, e a da natureza do juízo moral. À primeira questão, Hume responde que a paixão é quem decide, apesar de poder ser guiada pela razão. Esta razão não é a demonstrativa, mas a que concerne a questões de facto: o entendimento, que é a imaginação no exercício dos seus princípios mais estáveis e necessários, que determinam existências reais.
Mas a razão não pode influenciar as paixões à ação se estas não se manifestarem de acordo com o curso que a razão sugere. Esse não é um verdadeiro combate, visto que são faculdades de naturezas distintas. O verdadeiro combate dá-se, então, quando as paixões, de alguma forma, não estão de acordo com o curso sugerido pela razão. E tal só é possível quando há várias paixões a influenciar a vontade. Na tentativa de responder à questão de saber como esse combate se resolve, Hume reserva uma secção do Tratado para distinguir paixões calmas e
133 violentas, fortes e fracas, e perceber de que modo se desfaz o combate entre elas, a fim de termos apenas uma paixão a definir a decisão dos agentes.
As paixões não influenciam a vontade de acordo com a violência com que surgem na mente, mas de acordo com a sua força. Quando uma paixão se estabelece como princípio da ação e é a inclinação que predomina num espírito, ela geralmente abandona a sua componente sensível, tornando-se muito semelhante e confundível com um conteúdo cognitivo (uma ideia). Uma vez tendo força e sendo, ainda, reforçada pelo costume, uma paixão é capaz de dirigir a ação sem que nenhuma emoção violenta, que é muito intensa apenas durante uns momentos, que acompanha todas as paixões violentas. Qualquer paixão procura o bem e evita o mal, e aumenta ou diminui proporcionalmente ao aumento ou diminuição desse bem ou mal. A diferença entre elas reside no facto de as violentas serem causadas por um bem próximo, e as calmas, por um bem mais longínquo.
Três circunstâncias podem avivar as paixões calmas, tornando-as violentas. A primeira é a qualidade da natureza humana segundo a qual uma emoção que acompanha ou aparece ao mesmo tempo que uma paixão, se converte, facilmente, nessa paixão, mesmo que sejam de naturezas diferentes, ou mesmo contrárias uma à outra. É necessária a dupla relação para operar uma união perfeita entre paixões. Quando duas paixões são produzidas por causas separadas, mas estão ambas presentes ao espírito, facilmente se misturam e se tornam a mesma, mesmo quando têm apenas uma relação entre si, ou mesmo nenhuma. Uma oposição de paixões causa, geralmente, mais emoção e desordem ao espírito do que o concurso de duas afeições que têm a mesma força. As tendências despertadas podem sofrer uma mudança de direção, que é definida pela paixão predominante. A paixão mais fraca é assimilada e absorvida pela mais forte ou dominante, que adquire uma força e vivacidade adicionais. A paixão fraca converte-se com facilidade na dominante, adquirindo uma nova força devido a esse acréscimo, aumentando a sua violência muito para além do que seria possível se a paixão dominante não encontrasse a oposição da mais fraca. Por exemplo, quando amamos alguém, as suas ações desagradáveis para nós conseguem fortalecer o amor que temos por ela; por vezes, um governante que pretende convencer o povo da verdade de alguma ideia, desperta a sua curiosidade e leva-os à impaciência, e atrasa a revelação do conteúdo, com o intuito de fazer com que a ideia, quando revelada, tenha mais força e vivacidade nos espíritos dos súbditos. Por isso desejamos o que é proibido: quando a noção de dever é oposta às paixões, raramente consegue dominá-las e, não tendo esse efeito, tende a aumentar a sua violência, opondo os seus motivos e os princípios: os esforços que o espírito faz para superar a oposição aumentam o seu vigor376.
134 A segunda circunstância é a incerteza. A agitação, as passagens rápidas que a imaginação opera de uma ideia para outra e a variedade de paixões que sucedem às observações, produzem uma agitação no espírito, que é transferida para a paixão predominante. É por afastar a incerteza que a segurança diminui certas paixões. Neste caso, o espírito fica esmorecido por não precisar de fazer nenhum esforço para transitar entre as ideias e paixões, necessitando de uma nova corrente de emoções para ser reavivado. A incerteza aviva as paixões precisamente porque a imaginação está associada a uma nova corrente de paixões, o que a reaviva devido ao novo esforço que aquela faz para operar a transição.
A terceira circunstância é a ocultação de uma parte do objeto das paixões. A sua obscuridade envolve um grau de incerteza, que possibilita um trabalho acrescido à imaginação para completar as ideias nele envolvidas, o que aviva a paixão. Mas a paixão já deve ter uma força considerável para que o obscurecimento do seu objeto provoque o seu aumento. As paixões fracas extinguem-se com o obscurecimento, e apenas as que já possuem força recebem uma vivacidade adicional377.
Esta análise permite completar as duas questões que se tratavam no ponto 2.3.4. Por vezes, Hume fala da razão como correspondente às paixões calmas, aquelas que operam calmamente no espírito e não provocam desordem. A sua tranquilidade torna-as confundíveis com as conclusões do entendimento mas, na verdade, o que acontece é que a paixão que era violenta se enraizou, pelo hábito e a repetição do seu surgimento, no espírito, exercendo força considerável e sobrepondo-se às paixões violentas. Como o prazer/mal-estar sensível se esmorece com a tranquilidade das paixões, esta torna-se quase impercetível, e por isso essas paixões confundem- se com ideias. Se estas paixões são realmente fortes, elas serão as que decidem a maioria as ações, em concordância com os conteúdos do entendimento. Se as paixões violentas decidirem em vez daquela, conclui-se que exerciam, pelo menos naquele momento, mais força do que ela. Devido à sua constância, as paixões calmas são o que define um caráter.
Por isso se conclui das palavras de Hume que alguém pode decidir de acordo com as paixões violentas que invadem o espírito, mas essas paixões podem não fazer parte do caráter da pessoa e, portanto, à partida, não terão muita força para despertar paixões nos outros. Se a ação for levada a cabo por um motivo correspondente a uma paixão calma, conclui-se que é um sinal do seu caráter, tendo mais força para despertar paixões nos outros. Veremos, nos pontos que se seguem, que na vida em sociedade os homens se verão obrigados a controlar as paixões violentas em favor das calmas, a olhar a bens mais remotos e a preferi-los aos mais imediatos, para satisfazer um interesse diferente daquele que advém da obtenção desses bens imediatos: obter as comodidades e benefícios da vida em sociedade. Essa mudança é encarada como uma
135 correção, já que se percebe que o interesse de viver em sociedade é, para todos os homens, maior que os interesses mais imediatos. Igualmente, é uma correção por ser levada a cabo pela reflexão: os bens remotos que advêm da sociedade não são visíveis imediatamente. É a conceção (do entendimento) desses interesses e da sua possibilidade de realização, mas também da sua impossibilidade, no caso de todos procurarem os bens mais imediatos, que vai permitir aos homens serem motivados e agirem de acordo com as paixões calmas, em vez das violentas.