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Hume preocupou-se, essencialmente e num primeiro momento, com a origem do juízo moral: onde se forma esse juízo, de onde é que ele brota. A ilação mais óbvia que se pode tirar da sua resposta é que ele é um subjetivista, afinal, a origem do sentimento moral é exclusivamente a mente, na forma como é afetada por qualidades dos objetos (ou, mais eminentemente, de pessoas). Se há, neste aspeto, veredito que não pode, jamais, ser feito em relação a Hume, é o de que ele é um realista em matéria de moral322.

Da nossa parte, parece fácil compreender que aceitar, com Norton, a ideia de que a teoria moral de Hume é, de facto, um realismo, sendo esta teoria uma teoria que separa as respostas acerca das questões de saber onde estão e de onde vêm as paixões, é pretender pouco para a questão metafísica que se coloca. Segundo Norton, apesar de se encontrar no campo subjetivo, o sentimento tem sempre um correlato objetivo, com qualidades realmente observáveis nos objetos (enquanto essas qualidades são as que têm a capacidade de causar o sentimento) e tem causas323. Mas isto não é mais do que aceitar que as paixões podem ser sentidas em relação aos outros, e não apenas ao eu, ou que não somos “moralmente esquizofrénicos”, se pudermos dizer assim. Tem também outra causa, que são as qualidades da natureza humana que determinam os homens a sentir de uma determinada forma, mediante a apreensão de determinadas qualidades324. São qualidades do mundo, com cujo contacto passamos a sentir um certo prazer ou mal-estar. Se não tivéssemos uma certa estrutura que nos determinasse a ter certos sentimentos e não outros, os objetos não nos afetariam. Mas o subjetivismo, certamente, não exclui o facto de os sentimentos terem um correlato com o mundo. Afinal, é da inserção no mundo que surgem os sentimentos.

Por outro lado, Ayer, defendendo uma posição de natureza subjetivista, direciona a sua atenção para as afirmações que fazemos sobre as qualidades morais de alguém (como “António é honesto”), apontando que, se pudermos atribuir a Hume uma formulação daquilo que são as nossas afirmações morais, a teoria moral de Hume é melhor considerada como um emotivismo, “segundo o qual essas afirmações se destinam mais a exprimir os nossos sentimentos morais do que [como uma] teoria segundo a qual são afirmações de facto acerca da condição mental de cada um ou de outras pessoas”325

. O subjetivismo, na sua aceção mais simples, parece ser uma

322

Flew, Antony, David Hume, Philosopher of Moral Science, p. 152.

323 Norton, David Fate, “Humes’s Moral Ontology”, p. 194-5. 324 Norton, David Fate, “Humes’s Moral Ontology”, p. 197. 325 Ayer, A. J., Hume, p. 162-3.

115 teoria acerca da origem dos sentimentos morais (a mente, e não o mundo), ao passo que um autor que defenda um emotivismo (como Ayer) se preocupa, mais do que em encontrar a origem dos sentimentos morais, na questão de saber o que está a acontecer quando se profere uma proposição sobre sentimentos morais. A expressão afirmações de facto, utilizada por Ayer, sugere, ainda assim, que este não está preocupado com o caráter real (ou realista) presente nas proposições morais.

Hume não se preocupou com questões de significado em moral, nem da forma como os sentimentos morais são dados a conhecer na vida pública326. J. Mackie e B. Stroud, assim como Ayer, procuram extrair conclusões acerca deste aspeto, segundo o espaço que a filosofia de Hume nos dá para tal, ou seja, tentando não subverter nenhuma das suas teses, elaborando uma interpretação compatível com as mesmas.

Parece-nos claro que a origem dos sentimentos morais e das paixões se encontra em aspetos dos objetos, mas também do homem, da mesma forma que exprimir um valor sob a forma de uma proposição é dizer algo sobre o que apenas existe na mente.

O projetivismo (que é também uma forma de subjetivismo), a nosso ver, permite, adicionalmente, conectar mais partes do sistema humeano do que as respostas do realismo e do emotivismo, teses que se concentram, respetivamente, apenas na origem do sentimento moral, e no sentimento moral enquanto existência fenoménica. O projetivismo, por seu turno, permite uma análise da filosofia do Tratado (pelo menos) que aproxima os dois principais tipos de juízos sobre o mundo das questões de facto, a saber, sobre a existência e sobre a moralidade ou, mais genericamente, o valor. Mais ainda, confere inteligibilidade a certas noções duplas que temos vindo a apresentar neste trabalho, como as de realidade e ficção ou necessidade e contingência. Esta interpretação tem a vantagem adicional de explicar o uso que damos aos valores, ou a forma como nos referimos a eles. É, em parte, sob este pano de fundo do projetivismo que vamos procurar responder à questão principal deste trabalho: qual, afinal, o lugar ou a importância das paixões no Tratado.

Mackie reclama uma abordagem da forma como nos referimos aos sentimentos que temos, a saber, por proposições, num contexto interpessoal. Tratamos a proposição moral, usamo-la na vida comum, como se ela fosse passível de atribuição de um valor de verdade, à semelhança das proposições que expressam raciocínios sobre questões de facto.

Este paralelismo não é, de longe, tão presente em Mackie como em Stroud, mas aquele faz apenas uma referência desse paralelismo327. Mackie propõe uma análise que supõe, de forma pacífica, a inferência como algo que respeita às qualidades dos objetos, que são identificáveis

326 Fogelin, Robert, Hume’s Skepticism in the Treatise of Human Nature, p. 145; HMT, p. 70. 327 HMT, p. 72.

116 por nós, ao passo que Stroud equipara os dois tipos de proposições sobre questões de facto, dando mais atenção e apelando à análise que a razão faz das operações da faculdade da imaginação: que não só os sentimentos morais, mas também a inferência, devem ser tidos mais propriamente como sentimentos da mente, pois que apenas existem no sujeito e advêm de uma afeção na sua mente. Uma comparação entre as suas análises, com os elementos de que dispomos, não nos pode levar a concluir que Mackie despreza as conclusões da razão, sendo Stroud o único a incorporar esta análise. Afinal, não é difícil perceber a mensagem de Mackie, até mesmo pelas palavras de Hume: só o que é suscetível de representação pode ter valor de verdade. Portanto, Mackie parece estar mais do lado de uma análise que já exclui a pertinência da atuação da razão, e Stroud parece estar mais inclinado para uma análise que está de acordo com as conclusões da razão. Tal não significa, porém, que as palavras de Mackie não sejam compatíveis com as de Stroud, assim como as palavras de Hume permitem, igualmente, esta dualidade de análises.

Para Mackie, é necessário dar conta da manifestação dos sentimentos morais a partir de uma abordagem, em parte prescritivista (pois que quando comunicamos um sentimento moral, manifestamos o seu poder motivador para a ação, expressamos uma prescrição ou proibição), em parte emotivista (porque, efetivamente, a origem dessa proposição é a origem do sentimento moral: uma paixão ou emoção). O resultado, para Mackie, é uma teoria disposicional descritiva, que dá conta do caráter descritivo da proposição (ao falamos de um sentimento moral, descrevemos um facto: que António é honesto, por exemplo), mas também da sua origem, a saber, a disposição (tendência) do homem para se referir aos sentimentos desta forma. Sob a sua perspetiva, a verdade que imputamos à proposição moral é fictícia, visto que, avaliando essa proposição em termos de valor de verdade, a proposição revela-se sempre falsa. Essa projeção faz-nos pensar, naturalmente, nessa qualidade como intrinsecamente motivadora: dizendo “António é honesto”, expresso a qualidade que me provoca um sentimento como se a honestidade fosse uma qualidade real de António e, como é comunicada, supõe uma compreensão (por parte do outro, a quem dirigimos o enunciado) dos termos que envolvem a proposição, o que implica a compreensão de que a honestidade é uma qualidade aprovável de António. Supomos que uma ação honesta deve ser seguida, porque a honestidade é uma “qualidade verdadeira” do objeto (segui-la corresponde a ver essa qualidade no objeto, portanto, a ter uma ideia correspondente na mente), e que o seu contrário diz do erro daquele que o pratica. Numa palavra, para Mackie, objetificamos aquilo que só existe nas mentes dos sujeitos. É enquanto é objetificada que a moral permite a influência mútua, por isso, serve um propósito social. Também Flew concede que, de alguma forma, projetamos reações individuais e coletivas (o que sugere a intersubjetividade dos sentimentos morais) no mundo, que não possui

117 características valorativas intrínsecas. Estas projeções são falsas328. Mackie acrescenta que, para nós, o imperativo para a ação é encarado como categórico, devido ao valor de verdade que atribuímos à proposição moral329.

Stroud acrescenta considerações em conformidade com a tese de Mackie. Aponta para a impossibilidade de identificar a apreensão de uma qualidade agradável ou desagradável noutra pessoa com a crença de que a pessoa possui, intrinsecamente, uma qualidade que é, em si mesma, agradável ou desagradável, ou que a sua agradabilidade ou desagradabilidade reside no próprio objeto (que é uma pessoa). É por isso, diz Stroud remetendo para Hume, que o vício e a virtude nos escapam quando simplesmente consideramos as questões de facto como tais, e é também por isso que o entendimento é incapaz de descobrir o valor330.

Considerando uma aceitação do padrão do entendimento, de que falámos no ponto 1.4, num certo sentido, os objetos de crença possuem efetivamente as qualidades que lhes atribuímos. Nesse sentido, descobrimos, de alguma forma, essas qualidades. No caso da atribuição das qualidades morais aos outros, é algo mais que é postulado, que não uma qualidade apenas referente à sua existência331. A ideia de que reportamos um sentimento que uma determinada qualidade nos provoca, quando proferimos uma proposição moral, deixa de lado aquilo que Mackie considerou, e que Stroud também considera importante: o que acontece quando alguém diz que “X é bom”. Também não dizemos que, apesar de atribuirmos ao objeto uma qualidade, nós é que sentimos um determinado efeito dessa característica na nossa mente, porque o objeto não possui intrinsecamente essas qualidades. Antes, quando comunicamos essa proposição, falamos da ação e do agente, e não dos nossos sentimentos. Mesmo que, na realidade, estejamos a reportar um sentimento, a nós parece-nos que a ação e o agente possuem uma determinada característica332.

Mas analisando a questão a fundo, Stroud nota que, para Hume, as qualidades morais estão tão ausentes dos objetos como a conexão necessária. Apesar disso, nós transformamos os sentimentos que temos, provocados por essas qualidades, em qualidades dos objetos eles mesmos333. Esta consideração traz a dificuldade de explicar a diferença entre essas duas considerações, visto que a ciência experimental supõe a exterioridade do mundo. Mas não nos esqueçamos que Hume não se preocupou com a questão do uso das proposições morais, mas o mais longe a que chega é a um padrão no que toca aos enunciados sobre questões de facto (pelo

328 Flew, Antony, “Three questions about justice in Hume’s Treatise”, p. 3. 329 HMT, p. 70-2. 330 H, p. 178, 179. 331 H, p. 179. 332 H, p. 181. 333 H, p. 182.

118 seguimento das regras gerais), mas também em moral (dada a uniformidade da natureza humana).

Stroud acrescenta que a virtude e o vício não são qualidades apreendidas apenas pelo sentimento interior, mas, para gerar o sentimento moral, devem ser concebidas como causas desse sentimento. Ter o sentimento não chega para acreditar nessa relação, mas deve ser-lhe acrescentado um raciocínio causal. Afinal, o juízo moral depende da apreensão de qualidades morais que são consideradas constantes na pessoa. Isso remete-nos para o modo como chegamos a um raciocínio sobre questões de facto. E, de facto, Hume refere que uma ação levada a cabo por uma qualidade que não é observada constantemente no indivíduo (em mais ações) , não tem força suficiente na imaginação para gerar uma relação entre ideias suficientemente forte para exercer influência nas paixões. Apesar de os objetos não conterem intrinsecamente as qualidades que lhes atribuímos, os sentimentos que temos determinam-nos a fazer essa atribuição, mediante a contemplação dessas qualidades. Expressamos esse sentimento por uma proposição/frase, não pretendendo descrever conteúdos da nossa mente, mas uma qualidade que o objeto possui. Deste modo, os juízos morais são, tal como os juízos causais, projeções, e são naturais. A diferença entre eles é que distinguimo-los: aquilo em que acreditamos é definido pelas ideias que associamos, e a aprovação/reprovação é definida por um sentimento diferente relativamente à qualidade do objeto (que ele, supostamente, nos transmite), relativamente ao contacto entre nós e esse objeto, que não a sua existência. Stroud reitera que apesar de Hume não ter concebido este paralelismo entre os juízos morais e causais, nem esta diferença, que nós notamos, entre eles, estas teses podiam ter sido defendidas pelo autor sem beliscar as restantes teorias334.

Fogelin concorda com Mackie e Stroud. Proposições acerca de sentimentos morais são acerca deles mesmos, mas também da natureza disposicional dos homens para sentir, uma vez que os valores não residem intrinsecamente nos objetos. O projetivismo cumpre a necessidade de uma explicação associacionista para a moralidade, e está de acordo com a ideia de que a mente se “espalha a si própria nos objetos”. Fogelin concorda ainda com Stroud em relação ao paralelismo que este estabelece entre as proposições que expressam relações causais e proposições morais, pelas quais damos a conhecer os nossos sentimentos (de crença e de aprovação/reprovação). O mesmo tipo de falsidade que afeta as crenças que temos relativamente aos objetos (a sua exterioridade e independência da mente) afeta os juízos morais335. Refere-se, ainda, a um ponto importante: Hume afere que as ficções que forjamos em relação às questões

334

H, p. 183-6.

335 Provavelmente, Fogelin concorda com Mackie no que toca à pretensão à verdade na expressão de uma

proposição moral, mas também do seu real valor de verdade: o falso. Mas tal não é dito clara nem explicitamente.

119 de facto não trazem qualquer dificuldade à vida humana (acrescentamos: bem pelo contrário), pois são universalmente partilhadas336.

O projetivismo aplica-se às noções de realidade (R1 e R2) e ficção (que correspondem a R1 e a R2) que propusemos no primeiro capítulo deste trabalho, na exata medida em que os raciocínios causais são sujeitos a elas, por uma análise da razão. Não só as relações causais simples, por assim dizer, são acompanhadas de crença, mas também o sentimento moral, pelo menos enquanto é proferido publicamente. Mas a referência de Hume à necessidade de haver uma qualidade constante no caráter sugere que não é necessário tornar público o sentimento para a crença existir na mente. Afinal, podemos concentrar a nossa atenção nessa relação sem a tornar pública. Este aspeto será salientado na conclusão como algo que não é claramente definido pelos autores projetivistas. Apesar de as relações causais e o sentimento moral não residirem nos objetos eles mesmos (mesmo tendo um correlato objetivo, como pretende Norton), mas terem origem na mente, e serem ficções, sob o ponto de vista da razão, eles recaem sob a definição R2, e sob a noção de necessidade de facto.

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