Uma outra perspetiva, que vai contra as posições de Castells, é a de Kevin Doogan,
o qual não concorda com a visão de que a pressão da competitividade opera fora do controlo dos Estados-nação, determinando o padrão de desenvolvimento industrial e a
estrutura social, tanto nacional, como internacional. A perceção pública de que o mercado de trabalho está condenado à adaptabilidade e flexibilidade é posta em causa, ainda mais quando elas são narrativas socialmente enraizadas. Assim, o desenvolvimento tecnológico, a restruturação corporativa e a adaptação institucional, através da sua capacidade transformativa, são apresentados como fatores menores na inseguridade e individualização do trabalho. O autor faz uma ligação teórica às perspetivas da sociedade pós-industrial de Daniel Bell, as quais não se prendem tanto ao desenvolvimento tecnológico, mas mais a uma nova era de conhecimento que se baseia nas estruturas sociais e políticas.
“O conceito de sociedade pós-industrial enfatiza a importância do conhecimento teórico como eixo a cujo redor se organizarão o desenvolvimento económico e a estratificação da sociedade. Empiricamente, pode- se tentar demonstrar que esse princípio axial tem adquirido predominância sempre crescente nas sociedades industriais avançadas” (Bell 1973, 60).
Assim, crítica o novo capitalismo quando este associa a restruturação do mercado de trabalho, como mecanismo de transmissão entre a inovação tecnológica e a adaptação institucional, e desvaloriza a transformabilidade das formas de engajamento entre o capital e o trabalho, expressando uma existência precária. Baseia-se nos argumentos de David Harvey para demonstrar que o neoliberalismo representa mais do que uma mudança política com o objetivo de desregular e liberalizar, tronando-se uma reavaliação dos interesses económicos das elites e a restauração de uma direta expressão do poder de classes. Defende também que a relatividade das teorias pós-modernistas constroem um mundo abstrato, onde os processos tendem a conformar-se com uma perspetiva de “self- sustaining” social, pondo de lado atores estratégicos como o governo, corporações ou classes.
Ora, Doogan defende a materialidade em contraponto às meta-narrativas em que os conceitos são apresentados de modo ambíguo, visto que qualquer avaliação da transformação social formulada em termos de processos tecnológicos, globais e organizacionais isolados, abstraídos dos discursos de classe, corporação, governo ou resultados económicos, inevitavelmente promove uma visão do mundo que é super- móvel, precária e para além do controlo. A autonomização dos processos sociais, a qual encara fenómenos autossustentáveis e auto-geradores, fortemente exagera o ritmo e o significado dos seus impactos. O novo capitalismo é então visto como uma quebra com o passado através de uma representação imaterial da mudança, com a desmaterialização das
possibilidades tecnológicas. A posição teórica de Doogan é, por outro lado, que a produção e o consumo do conhecimento e informação permanecem materialistas, mesmo que a sua circulação seja imaterial. Onde e como os serviços e mercadorias são produzidos continuam centrais na compreensão das atividades económicas e argumentar o contrário, segundo o autor, é distorcer a transformação social.
Assim, a autonomia do desenvolvimento tecnológico parece dúbia teoricamente, emergindo, segundo o autor, da necessidade de estabelecer uma estrutura social dirigida por impulsos e dinâmicas distintas do modo industrial de desenvolvimento. Crítica, portanto, a posição de Castells quando este tende a afirmar a indução tecnológica como fator principal em relação às determinantes sociais, visto que o autor da cidade informacional, ao colocar a lucratividade e competitividade como determinantes da inovação tecnológica e produtividade, parece aceitar a restruturação corporativa, isto é, a mudança institucional como prioritária. Transparece, assim, uma racionalidade organizacional que tende a difundir a informação e a comunicação e não o oposto. Mais ainda, Doogan afirma que esta inversão de acontecimentos serve de sustentação a um interesse particular. Entre os interessados estão os gestores de fundos, consultores, banqueiros, negociadores, os quais tentam passar a crença na tecnologia, na mudança de paradigma e ímpeto de inovação.
Doogan defende então o mercado de trabalho como centro estratégico de regulação, situado nas transformações sociais contemporâneas, através da análise da sua mercantilização e dos seus ajustamentos. Tal fator contrabalança em relação às perspetivas de transformação que dão ênfase à descentralização, desconcentração e fragmentação do mercado de trabalho. As necessidades de reprodução da força de trabalho e os requerimentos infraestruturais implicam, portanto, a influência de algo mais que o sector privado, pois historicamente tanto o trabalho assalariado, como o mercado livre são características laborais e económicas sustentadas e impulsionadas pelo Estado. À crítica do laissez-faire de Polanyi, Doogan refere que o Estado é um forte sustentador do sector privado e que o próprio sistema de estado social tem como fundamento sustentar um potencial laboral elevado (Doogan 2009, 120).
Posto isto, o novo capitalismo é visto como um modo de representação socioeconómico e não uma realidade. É caracterizado como uma plataforma ideológica, ou seja, uma abstração preocupada com fluxos de capital, comunicação, conhecimento e tecnologia (Doogan 2009, 209).
em primeiro lugar, porque as operações das corporações transnacionais estão em grande parte nas economias domésticas e, por outro, porque um número reduzido de Estados e alianças de Estados institucionalizam o mercado global (Doogan 2009, 75).
“There are strong synergies between the domestic and global economies which challenge the idea of globalization as and exogenous force compelling domestic policy adaptation. Neoliberalism has rendered denationalization as privatization, liberalization and state withdrawal from social protection, but this is predicated on an understanding of global as exotic. The economic evidence, when closely scrutinized, provides the opposition to neoliberalism with strong grounds for contesting the denationalization of political and economic life” (Doogan 2009, 210).
O mercado de trabalho é visto como o meio possível através do qual os processos sociais são transmitidos. Ele é olhado como condicionador da mudança, quando a reprodução e produção são tomadas em conta (Doogan 2009, 210).
A função do novo capitalismo, e das teorias que o sustentam, é, para Doogan, a criação de ansiedade e incerteza nos trabalhadores, procurando a sua complacência.
“A very different bargaining environment might pertain if unions accepted that capital is relatively immobile and not inclined to relocate overseas in search of cheap labour. In addition to reducing the threat of withdrawal, if bargainers recognized the high value that companies actually place on labour retention, as witnessed by persistence of job stability and the widespread increase in long-term employment, more favourable environment for negotiation would arise. That fact that this does not occur suggest that the weaknesses on the side of labour are not structural but ideological” (Doogan 2009, 214).