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O trabalho pioneiro realizado por Cobra (1970) identificou dois pacotes distintos de rochas seccionados pela falha de Taiobeiras (Jardim et al. 1980), que eram entendidos como pertencentes ao Grupo Macaúbas. As rochas xistosas intrudidas por pegmatitos e localizadas a leste da falha receberam a denominação de Grupo Salinas.

Karfunkel et al. (1985) reclassificam o Grupo Salinas e o incorporam ao Grupo Macaúbas sob a denominação de Unidade Salinas. Posteriormente, Pedrosa-Soares et al. (1992) denominam o Grupo Salinas como formação, caracterizando-a como uma porção distal do Grupo Macaúbas. A Formação Salinas era, a este tempo, descrita como constituída por metapelitos e metapsamitos bandados e laminados, originados por correntes de densidade e depositados na região externa dos leques submarinos em ambiente de planície batial com uma fácies vulcanossedimentar particular (fácies Ribeirão da Folha) associada ao ambiente de assoalho oceânico.

O primeiro trabalho de detalhamento petrográfico e sedimentológico sobre a Formação Salinas foi realizado por Pedrosa-Soares (1995), no qual esta unidade figura como uma sucessão monótona de quartzo-mica-xistos, com bandas que refletem o acamamento e as variações composicionais e

Unidades mais velhas

PENíNSULA SÃO FRANCISCO

Aulacógeno do Paramirim

Crosta oceanica Grupo Macaúbas e correlativos

B B’ A A’ CONGO A A’ B B’ B B’ B B’ A A’

A Formação Salinas A’

CONGO

PENíNSULA SÃO FRANCISCO

a

b

Arco Rio Doce Arco

Costa, F.G.D. Controles tectônicos na sedimentação e empilhamento estratigráfico da Formação Salinas ...

38 granulométricas rítmicas.

Pedrosa-Soares et al. (2001) formalizam a divisão da Formação Salinas em duas unidades: a proximal, constituindo o registro sedimentar de margem passiva com caráter transgressivo, após o fim da glaciação Macaúbas (Formação Salinas propriamente dita); e a distal, vulcanossedimentar, formada por meta-pelitos de águas profundas, chert, sulfetos maciços, formações ferríferas bandadas e basaltos de assoalho oceânico (atual Formação Ribeirão da Folha). Estritamente sedimentar, a unidade proximal seria definida por uma associação entre grauvacas, quartzo-grauvacas, pelitos carbonáticos, margas, rochas carbonáticas e ortoconglomerados metamorfisados.

O estudo de detalhe mais recente sobre a estratigrafia da Formação Salinas foi realizado por Lima et al. (2002). Estes autores caracterizaram nove fácies sedimentares nos afloramentos da unidade próximos à cidade de Salinas. Estas fácies comporiam uma sucessão rítmica de meta-arenitos, metapelitos e metaconglomerados com uma grande variedade de estruturas sedimentares em ótimo grau de preservação, que teria sido depositada em ambiente uma plataforma marinha estreita associada a talude e bacia profunda, na qual os agentes de transporte sedimentar dominantes foram correntes de turbidez e fluxos gravitacionais.

Evidências de uma discordância angular entre as rochas da Formação Salinas e as unidades do Grupo Macaúbas e o contraste metamórfico observado entre as rochas Salinas em fácies xisto-verde, zona da biotita, e os metapelitos Macaúbas, na zona da granada, levaram Lima et al. (2002) a propor a retirada da Formação Salinas do Grupo Macaúbas. A Formação Ribeirão da Folha, entretanto, é mantida como a fácies mais distal do Grupo Macaúbas.

Santos (2007), com base em observações de campo e dados da literatura, propôs para as rochas da Formação Salinas um empilhamento característico de um complexo de leques turbidíticos amalgamados com tendência geral de assoreamento com sedimentos cada vez mais grossos para topo. De um modo geral a sucessão seria composta, da base para o topo, por: pelitos, arenitos com estruturas convolutas, arenitos com ripples, gradação e estratificação cruzada, arenitos maciços e conglomerados. O colapso gravitacional do Orógeno Araçuaí registrado por estruturas na Zona de cisalhamento Chapada Acauã pode ser o responsável pela preservação da Formação Salinas no registro geológico. Este movimento colocou lado a lado rochas de baixo grau metamórfico e pouca deformação junto a rochas do núcleo do orógeno (Santos et al. 2009, Marshak et al. 2006, Alkmim et al. 2006) resguardando parte da Formação Salinas dos processos erosivos.

A determinação do arcabouço estrutural e história deformacional das rochas da Formação Salinas na sua área-tipo é apresentada por Santos (2007) e Santos et al. (2009), que caracterizaram na área de ocorrência da formação três compartimentos tectônicos (Fig. 3.8) e uma história deformacional marcada por quatro gerações de estruturas (DD, D1, D2 e DG). Dentre estas, a primeira geração

Contribuições às Ciências da Terra – Série M, vol. 77, 165p.

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compreende estruturas sin-deposicionais caracterizadas como dobras decimétricas, falhas normais centimétricas isoladas ou em arranjos em dominó, camadas convolutas, brechas intraformacionais, estruturas de escape de fluídos e pseudonódulos, refletindo um ambiente no qual atuavam processos sedimentares de alta energia, como fluxos de massa e de densidade. O panorama estrutural da região é dominado pela fase D1, caracterizada por um quadro tectônico compressional E-W no qual nuclearam- se principalmente dobras, falhas, zonas de cisalhamento dúcteis e estruturas menores de dupla vergência.

O compartimento oeste (W) (Santos 2007, Santos et al. 2009) é caracterizado por um antiforme com vergência para oeste e eixo exibindo duplo caimento e orientado na direção NNE-SSW. O limite entre os compartimentos oeste e central (C) é marcado pela Zona de cisalhamento Chapada Acauã, caracterizada por um trem de dobras vergentes para leste, superimposto às estruturas mais antigas que mostram vergência para oeste (Fig 3.9). A Falha de Taiobeiras marca o limite noroeste entre os compartimentos W e C por uma descontinuidade de alto ângulo, formando um leque divergente entre as foliações do Grupo Macaúbas e da Formação Salinas. As rochas do compartimento leste (E) estão deformadas e metamorfisadas devido a intrusões graníticas que limitam a ocorrência da Formação Salinas.

No que tange ao significado tectônico, a Formação Salinas foi interpretada por Lima et al. (2002) como uma sucessão tardi-orogência devido ao baixo metamorfismo observado e livre da deformação regional, enquanto estudos mais recentes interpretam-na como uma sucessão sin-orogênica

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Figura 3.8- Mapa geológico modificado de Santos et al. (2009), contendo as principais vias de acesso, domínios

estruturais W, C e E e, o contorno da Formação Salinas na sua área-tipo. Indicação do posicionamento de seções geológicas (A-A’, B-B’ e C-C’) (Fig. 3.9) em mapa.

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Figura 3.9- Seções geológicas apresentando o estilo de dobramento observado por Santos et al. (2009) para a

Formação Salinas e unidades adjacentes.

Os primeiros dados geocronológicos relativos à Formação Salinas foram apresentados por Siga Jr. (1986), que obteve as idades de metamorfismo das rochas da formação entre 660 e 600 Ma, através do método Rb-Sr em rochas localizadas nos arredores da cidade de Araçuaí. Idades em torno 477±16 Ma obtidas através do método de K-Ar foram interpretadas como idade do resfriamento das rochas envolvidas na orogenia Brasiliana ocorrida por volta de 575 Ma (Pedrosa Soares et al. 1992).

Lima et al. (2002) realizaram análises isotópicas pelo método U-Pb SHRIMP em um conjunto de 13 grãos de zircão detrítico, tendo obtido um conjunto de idades mais jovens compreendidas entre 568 e 599 Ma. Em releitura dos dados obtidos por Lima et al. (2002), Pedrosa Soares et al. (2008) admitem 588±24 Ma como a idade máxima para a sedimentação da Formação Salinas.

Investigações realizadas também em zircões detríticos da Formação Salinas por Peixoto et al. (2015) pelo método U-Pb (SHRIMP e LA-MC-ICP-MS) apontaram a idade de deposição sedimentar máxima de 579±11 Ma. Interpretada por suas características petrológicas como um granito sincolisional, a intrusão Santa Rosa secciona a Formação Salinas e possui idade de 544±10 Ma, restringindo toda a sedimentação da sequência flysch para o intervalo entre 579 e 544 Ma. (Peixoto et al. 2015).

Kuchenbecker (2014) separou 84 grãos de zircão detrítico de grauvacas da Formação Salinas e 4 destes apresentaram uma idade modal ao redor de 548 Ma, representando para o autor a idade máxima de sedimentação. Granitos intrudidos nas rochas da Formação Salinas analisados por Paes et al. (2010) foram alvo de estudos geocronológicos e revelaram idades ao redor de 520 Ma, levando Kuchenbecker (2014) a postular o intervalo de deposição das rochas sedimentares entre 548 e 520 Ma.

Duas propostas são apresentadas por Kuchenbecker (2014) como tentativa de solucionar o impasse entre as idades de sedimentação da Formação Salinas por volta de 530 Ma e os modelos que

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indicam que o Orógeno Araçuaí já estaria completamente edificado a este tempo (Pedrosa-Soares et al. 2007, Alkmim et al. 2006): i) alongar o tempo dos estágios finais da orogenia para a manutenção de um espaço deposicional ativo a esta época, mantendo assim a característica autêntica flysch da Formação Salinas; ou ii) considerar que a sedimentação ocorreu em estágio tardi- a pós-colisional do Orógeno Araçuaí. De acordo com esta última hipótese, os sedimentos Salinas seriam correlativos das unidades do Grupo Bambuí, acumuladas em bacia foreland no interior do Cráton do São Francisco.

A assinatura geoquímica das grauvacas (Lima et al. 2002) que compõem a Formação Salinas revelou proveniência a partir de fontes sedimentares de arco magmático de margem continental ativa. Da mesma forma, as idades dos zircões detríticos caracterizados por Peixoto et al. (2015) se mostraram concordantes àquelas relacionadas ao Arco magmático Rio Doce. Além disso, Pedrosa-Soares et al. (2008) dataram os zircões extraídos dos clastos vulcânicos félsicos de metaconglomerados da Formação Salinas, os quais forneceram em idades de cristalização magmática entre 630 e 600 Ma.

Considerando este cenário, pode-se afirmar que o Arco magmático Rio Doce instalado durante os estágios iniciais de formação do Orógeno Araçuaí atuou juntamente com a margem passiva Macaúbas situada a oeste como fonte de sedimentos para o sistema de deposição turbidítica da Formação Salinas (Lima et al. 2002, Pedrosa-Soares et al. 2008, Santos et al. 2009, Peixoto et al. 2015).

3.3 – ARCABOUÇO ESTRUTURAL DA ÁREA DE TRABALHO E OS INTERVALOS

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