Routing Optimization in Optical Burst Switching Networks: a Multi-path Routing
6.3 Network Modeling
As doenças cardiovasculares (DCV), etiologia multifatorial, são a causa principal de morbilidade e mortalidade a nível mundial. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, em 2015 morreram 17,7 milhões de pessoas, o que representa 31% das mortes a nível mundial. No caso particular de Portugal as DCV são responsáveis por cerca de 30% de mortes, das quais 55,7% são mulheres e 44,3 % homens [16-17].
As DCV, principalmente o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral podem ser prevenidas controlando os fatores de risco. Estes podem ser divididos em duas categorias, os fatores de risco modificáveis e não modificáveis. De entre os diversos fatores de risco modificáveis (hipertensão arterial, diabetes mellitus, hipercolesterolémia, dislipidémia, obesidade, tabagismo, sedentarismo, hábitos alimentares, alcoolismo, stress e outras) e não modificáveis (sexo, idade, história prévia e história familiar), a hipertensão arterial (HTA) é considerado como o fator de risco major para o desenvolvimento de DCV sendo, contudo, considerado como mais facilmente modificável e reversível [18].
No entanto, todos eles contribuem para o início, evolução e prognóstico das DCV, estimando- se, contudo, que 75% das DCV possam ser atribuídas a fatores de risco modificáveis, ou seja, aqueles que são passíveis de serem prevenidos e controlados.
Tendo em conta que a HTA desempenha um papel de extrema relevância no desenvolvimento das DCV, a deteção precoce da HTA, particularmente nos indivíduos com risco cardiovascular acrescido, torna-se prioridade de intervenção [16].
Assim, de forma a detetar precocemente casos de HTA e a sensibilizar a população na adoção de um estilo de vida saudável, decidi realizar rastreios mensais na freguesia de Airães.
1.2 Introdução
Segundo a Fundação Portuguesa de Cardiologia, em Portugal, existem cerca de dois milhões de hipertensos. Todavia, deste número, apenas 50% sabe que sofre desta patologia, 25% está medicado e 11% tem a tensão efetivamente controlada [19].
Hoje em dia sabemos que ao controlar os fatores de risco modificáveis estamos a controlar a HTA e, desta forma, o risco de incidência de DVC. Assim, a monitorização da HTA é uma mais valia. A medição da HTA em contexto fora do consultório, garante um diagnóstico preciso e possibilita identificar melhor os pacientes com “síndrome da bata branca”, para além de proporcionar a monitorização dos pacientes que recebem terapia anti-hipertensiva [20].
1.3 Hipertensão arterial
A HTA é uma condição médica crónica em que a pressão arterial nas artérias é elevada, exigindo que o coração trabalhe mais do que o normal para fazer circular o sangue pelos vasos sanguíneos.
Um individuo é considerado hipertenso quando apresenta um valor de pressão arterial (PA) repetidamente superior ou igual a 140mmHg para a sistólica e/ou 90mmHg para a diastólica. No entanto, para certos doentes, como diabéticos, doentes renais ou com elevado risco cardiovascular (RCV), recomenda-se que tenham valores inferiores a 130/80mmHg [20,21].
Em 90% dos casos a HTA é essencial ou primária, ou seja, não tem causa aparente. Atualmente, acredita-se que a hipertensão arterial se deve a uma combinação de fatores hereditários, ambientais e de erros no estilo de vida.
De ressalvar que os factores hereditários não são modificáveis, mas o estilo de vida é. A HTA secundária, 10% dos casos de HTA, surge como consequência de uma doença ou condição como a síndrome da apneia obstrutiva do sono, a doença renal crónica, a síndrome de Cushing, gravidez, entre outros [19,21,22].
A hereditariedade e a idade também são dois fatores a ter em conta, pois em geral com a idade, maior a probabilidade de desenvolver a HTA.
Portanto, existem diversos fatores de risco que aumentam a probabilidade de desenvolver HTA, fatores de risco esses que também estão associados a doenças como a Diabetes.
Os fatores de risco classificam-se como não modificáveis e como modificáveis. Os fatores de risco não modificáveis são atributos ou características do indivíduo que não podem ser alterados ou ajustados, tais como idade, sexo, raça, história familiar, composição genética. Os fatores de risco modificáveis são características, padrões de estilo de vida que podem ser ajustados ou alterados para impedir o desenvolvimento da doença. Esses fatores de risco modificáveis incluem; obesidade, ingestão excessiva de sal, inatividade ou falta de exercício, dieta rica em gordura, uso de tabaco, consumo de álcool. De salientar, porém, que a presença simultânea de
vários factores de risco tem um efeito sinérgico e multiplicativo. Eles interagem e potenciam- se, pelo que o risco cardiovascular global é muito mais do que a soma do risco dado por cada um dos factores isolados.
O RCV depende da presença de fatores de risco e varia de acordo com o valor de HTA do individuo [19,21]. (ANEXO 11)
De acordo com os valores de PA de um individuo, torna-se possível classificar a HTA, como podemos verificar na Figura 1 abaixo indicada.
Figura 1: Definição e classificação do nível de PA (adaptada das Guidelines de 2013 da ESH/ESC)
1.3.1 Sinais e sintomas
Nos primeiros anos, a HTA não provoca geralmente quaisquer sintomas, sendo apenas possível detetar os valores da tensão arterial através da medição da PA. Ao longo do tempo, a HTA pode manifestar-se através de sintomas como cefaleias, tonturas, mal-estar e visão desfocada, para além de poder causar lesões nos vasos sanguíneos de órgãos vitais.
1.3.2 Diagnóstico
A avaliação inicial de um doente com hipertensão deve seguir alguns passos, de acordo com a Sociedade Portuguesa de Hipertensão arterial, que são:
• Confirmar o diagnóstico de hipertensão; • Detetar causas de hipertensão secundária; • Avaliar o risco cardiovascular;
Para o diagnóstico da HTA são necessárias pelo menos duas medições com valor de PA elevados em momentos diferentes. A medição deve ser realizada por um profissional de saúde treinado,
e as recomendações devem ser cumpridas. É essencial que os dispositivos utilizados sejam avaliados e validados de acordo com os protocolos e regularmente calibrados [20, 23].
1.3.3 Tratamento
A adoção de medidas não farmacológicas como a alteração do estilo de vida proporciona geralmente uma descida significativa da pressão arterial, podendo atrasar ou prevenir a hipertensão em indivíduos não-hipertensos. Além do efeito de descida da PA, as alterações do estilo de vida contribuem para o controlo de outros fatores de RCV.
Tais medidas incluem [19,23,24,25]:
▪ Intervenções na dieta, incluindo restrições de sódio (através da diminuição de sal para cerca de 5 g/dia), diminuição da ingestão de calorias e a opção pela dieta de tipo Mediterrânico (efeito protetor CV).
▪ Moderação de consumo de álcool (Homens hipertensos devem limitar o seu consumo a não mais do que 20-30 g, e mulheres hipertensas não devem beber mais de 10-20 g de etanol por dia)
▪ Exercício físico aeróbico pelo menos 30 minutos de intensidade moderada (caminhada, corrida, ciclismo ou natação) em 5-7 dias por semana
▪ Cessação tabágica
▪ É recomendada a redução de peso para IMC de 25 kg/m2 e perímetro de cintura <102 cm nos homens e <88 cm nas mulheres, a menos que contra-indicado.
Quando as medidas não farmacológicas não são suficientes é necessário recorrer a medidas farmacológicas. A adoção de medidas farmacológicas tem como objetivo reduzir os eventos Cardiovasculares (acidente vascular cerebral fatal e não fatal, enfarte do miocárdio, insuficiência cardíaca e outras mortes). Portanto, existem diferentes grupos de anti- hipertensores (ANEXO 12) que se classificam pelo seu mecanismo de ação.
Os fármacos anti-hipertensores considerados de primeira linha são os diuréticos, IECAs, ARA, bloqueadores da entrada de cálcio. A decisão de iniciar o tratamento anti-hipertensor baseia-se em dois critérios:
▪ Indivíduos com TA normal-alta (TAS 130-139 mm Hg ou TAD 85-89 mm Hg) e caso tenham um RCV global elevado;
No caso de doentes com hipertensão de grau 1, mesmo na ausência de outros fatores de RCV ou lesão nos órgãos vitais, recomenda-se a aplicação de tratamento anti-hipertensor desde que o tratamento não-farmacológico, usado como primeira opção, não se tenha revelado bem- sucedido [26,27].
1.4 Rastreio Cardiovascular - Intervenção Farmacêutica
Os farmacêuticos são profissionais de saúde bastante acessíveis que mantêm uma relação de proximidade com a população, desempenhando um papel fulcral na educação do doente no que respeita à prevenção e tratamento de doentes hipertensos. Portanto, os rastreios cardiovasculares permitem ao farmacêutico ter a oportunidade de identificar precocemente indivíduos com risco cardiovascular, bem como acompanhar a longo prazo doentes com terapêutica estabelecida [28]. Desta forma, decidi ter uma intervenção ativa no projeto que envolve a Junta de Freguesia de Airães e a FS - “Farmácia de proximidade”, através de visitas mensais à Junta de Freguesia, com o objetivo de realizar rastreios cardiovasculares à população residente. Estes rastreios, para além de permitirem avaliar a pressão arterial e alguns parâmetros de risco cardiovascular possibilitaram, também, acompanhar a população com terapêutica estabelecida e, nestes casos, o aconselhamento adequado de como fazer a correta utilização dos medicamentos. É de salientar que, como os rastreios foram realizados ao longo de seis meses consecutivos, tentei motivar a população para a adoção e modificação de estilo de vida, mostrando-lhes que pequenas alterações no seu dia-a-dia podem contribuir fortemente para diminuir o risco de DCV.Os rastreios são divulgados mensalmente pelas redes sociais. Após os primeiros meses, apercebemo-nos que a divulgação, apesar de importante, já não era essencial, pois para a maioria das pessoas tornou-se um hábito. (ANEXO 13)
Os rastreios realizaram-se aos sábados de manhã das 9h às 11h.
1.4.1 Objetivo
O objetivo principal do rastreio foi a identificação, numa população da freguesia de Airães, dos fatores de risco cardiovascular, através da avaliação da tensão arterial, do colesterol total, da glicemia e do peso corporal, bem como monitorizar a sua evolução ao longo do tempo. A recolha destes dados tem como objetivo final aconselhar e incentivar a população na adoção de um estilo de vida saudável, minimizando os fatores de risco modificáveis.
Esta monitorização, num dado período temporal, permite não só avaliar os parâmetros estudados em indivíduos considerados saudáveis mas, ao mesmo tempo, desempenha um papel fulcral na monitorização e avaliação da eficácia terapêutica em indivíduos com diagnóstico prévio de HTA, dislipidémia e diabetes.
1.4.2 Métodos
Neste rastreio participaram 33 pessoas no total (24 mulheres e 9 homens) com idades compreendidas entre os 33 e os 88 anos, residentes na freguesia de Airães. Apesar da amostra ser elevada, resolvi cingir os resultados às pessoas que acompanhei ao longo destes seis meses, de forma a apresentar resultados mais precisos. Assim, irei apenas apresentar resultados de uma amostra de 9 pessoas (6 mulheres e 3 homens).
Os dados foram recolhidos entre fevereiro e julho de 2018. Os parâmetros analisados referentes aos fatores de RCV modificáveis foram a pressão arterial, a glicemia, o colesterol total e o peso. Para além desses parâmetros, também considerei relevante questionar os indivíduos acerca da terapêutica crónica que fazem.
O tratamento dos dados foi realizado com recurso ao Excel 2016®.
1.4.3 Resultados e discussão
No que diz respeito à HTA, pela análise do gráfico 1, podemos avaliar que as mulheres apresentam PA diastólica mais elevada que os homens e que o valor médio da PA das mulheres é considerado normal a alto (130-139 mmHg). A média do valor da PA nos homens é considerado normal, segundo a Sociedade Portuguesa de Cardiologia.
0, 35, 70, 105, 140,
homens mulheres total
129,7 134,13 130,66 80,56 80,48 80,51 PA (m m H g) PAS PAD
Figura 2 : Pressão arterial
Dentro dos participantes, 67% estavam medicados com anti-hipertensores e destes, 83% mesmo estando sob terapêutica, apresentavam valores de PA (PA diastólica e/ou PA sistólica) considerados acima do normal, como é possível observar pela análise do gráfico 2.
A estes indivíduos, reforcei a importância da medição frequente e, assim que possível, apresentarem os resultados ao médico, uma vez que poderá haver necessidade de revisão de terapêutica.
Sempre que possível, relembrei a necessidade da alteração de hábitos alimentares, reduzindo o consumo de sal e optando por uma alimentação variada, rica em legumes e frutas. Tentei trabalhar na consciencialização dos participantes e, com o tempo, muitos deles já me confidenciavam algumas “asneiras” alimentares.
Pela análise dos resultados, 55 % dos indivíduos apresentaram um valor de Ct >180mg/dl e desses, 60 % são hipertensos, portanto apresentam mais do que um fator de RCV modificável. Todos os participantes que estavam medicados para a hipercolesterolemia, apresentaram o valor de Ct >180mg/dl. A estes participantes tentei enfatizar a importância de iniciar e manter um estilo de vida saudável.
No que respeita ao valor de glicose em jejum, 33 % dos indivíduos apresentaram valores superiores a 126 mg/dl, pelo menos em três medições. Relativamente ao hábito de tabagismo ativo, nenhum dos participantes se identificou como fumador, o que representa algo de positivo na saúde cardiovascular de cada um. Quanto à prática de exercício físico, 25% dos participantes afirmaram praticar algum tipo de exercício físico, com as senhoras a preferir as caminhadas e
0, 40, 80, 120, 160, 1 2 3 4 5 6 Normal PAS PAD
Figura 3: Pressão arterial dos indivíduos medicados com anti-hipertensores Legenda: PAS-Pressão arterial sistólica PAD- Pressão arterial diastólica
um senhor encontrava-se numa fase de perda de peso com recurso ao ginásio. Os restantes participantes foram incentivados a iniciar a prática de exercício físico, não só de forma a reduzir os fatores de RCV, mas também de forma a reduzir o sedentarismo e o isolamento (que senti que alguns dos idosos passavam).
1.5 Conclusão
O farmacêutico, como profissional de saúde, tem um papel essencial no controlo do RCV, na promoção de hábitos saudáveis e, muitas vezes, é a ponte entre o utente e as unidades de saúde. A importância crescente da mortalidade e da morbilidade por doença cardiovascular aterosclerótica torna a avaliação do risco cardiovascular uma prática essencial para a deteção, monitorização e controlo dos seus fatores de risco. Desta forma, a realização de rastreios realizados em ambiente não hospitalar desempenham um papel extrema importância [29]. De salientar, portanto, a importância da realização deste tipo de rastreios por parte da Farmácia de Proximidade uma vez que há uma parte da população que não se consegue deslocar à farmácia e, portanto, o facto da farmácia se deslocar à Junta de Freguesia é essencial. Por outro lado, este controlo periódico executado por farmacêuticos, em farmácia e/ou rastreios, permite um escoamento dos doentes na enfermaria dos centros de saúde, permitindo um uso mais efetivo do tempo de trabalho. No caso deste estudo, a população da freguesia de Airães aderiu de forma bastante positiva e entusiasta, com os pacientes a fazerem de forma regular os seus controlos, o que indica que a população não só estava preparada para uma iniciativa assim mas reforça também a necessidade deste tipo de iniciativas.
Os resultados deste trabalho demonstram que a maior parte dos participantes não cumpria os valores recomendados para os fatores de RCV, principalmente em relação aos valores de dislipidémia. De enfatizar, contudo, que para mim, o mais importante ao longo destes rastreios, foi a oportunidade de partilhar com as pessoas alguma informação sobre a sua condição de saúde, explicando e explicitando possíveis alterações no estilo de vida que podem ser fundamentais na redução do RCV.