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A análise das relações entre pontos de vista parece ser o fio condutor no conjunto da obra rabateliana, e, por isso mesmo, é muito cara à abordagem desta pesquisa. A esta primeira característica soma-se uma segunda, contida nas duas primeiras obras rabatelianas acerca do ponto de vista: ainda que o interesse inicial do autor tenha se detido no texto literário, seu quadro de análise das relações entre os pontos de vista é igualmente aplicável a outros textos29.
Estas ferramentas para análise das relações entre pontos de vista são descritas por um “tópico enunciativo” (RABATEL, 2004a). Tomando-se a disjunção entre locutor e enunciador como ponto de partida, a definição de enunciador é compatível com aquela proposta por O. Ducrot (1984). Todavia, sobre a proposta ducrotiana de definição conjunta de enunciador e ponto de vista, A. Rabatel observa que:
Ducrot define conjuntamente o enunciador e o pdv. No entanto, por trás da implicação recíproca dos termos (nao há enunciador sem pdv e tampouco pdv sem enunciador) , os dois conceitos não funcionam no mesmo nível, a noção de pdv serve à definição de enunciador (disjunto do locutor) como a fonte de um conteúdo proposicional exprimindo um pdv – este útimo se manifesta não apenas no modus mas também no dictum [Ducrot, 1993:128] (RABATEL, 2004a, p.6)
O autor justifica a disjunção com a instância locutor pelo fato de que se, por um lado, todo locutor é também enunciador (em virtude do princípio de sinceridade), por outro lado nem todo enunciador é necessariamente um locutor (cf. RABATEL, 2004a, p.5) usando exemplos semelhantes ao que se apresentou neste trabalho para se introduzir a questão da polifonia, bem como outros exemplos, tais como o discurso indireto livre, os enunciados irônicos, dóxicos ou ainda os pontos de vista narrativos.
29 Tal como realizado pelo próprio autor em vários outros trabalhos, como, por exemplo, um artigo de 2002
acerca da produção escrita de alunos e um de 2004 acerca das entradas do dicionário filosófico de ComteSponville
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De modo geral, observa-se que, contrariamente a Ducrot e à ScaPoLine, a reflexão sobre a relação entre os pontos de vista assumidos num enunciado e sua prise en charge por um sujeito falante - produtor efetivo da enunciação – não é descartada nos trabalhos de Rabatel.
Este é um ponto particularmente importante no quadro da abordagem proposta nesta pesquisa: desta relação chega-se à apreensão dos modos pelos quais autores de textos acadêmicos mobilizam textos teóricos de outrem em seus textos, estabelecendo-se relações de adesão ou contraposição, e mais ainda, quais pontos de vista dominam em determinados segmentos textuais.
Voltando à abordagem rabateliana, o locutor é definido como uma instância que “profere um enunciado embreado ou desembreado, em suas dimensões fonéticas e fáticas ou escriturais”, enquanto enunciador designa a instância das atualizações operadas pelo sujeito modal, que “assume o enunciado em um sentido estritamente menos abstrato que a prise em charge decorrente da ancoragem dêitica” (RABATEL, 2004a, p.6).
Se se compreende o locutor como uma dimensão textual, será conveniente a compatibilidade do quadro de análise proposto por Rabatel com o da ScaPoLine: o locutor é uma instância que se apresenta como responsável por um ato de enunciação, enquanto o enunciador traz à tona a questão da responsabilidade do ponto de vista.
Assim como na ScaPoLine, objetivando analisar o jogo polifônico no nível do texto, Rabatel30 observa que
(...) em vez de considerar que existam tantos enunciadores quanto conteúdos proposicionais, parece cognitivamente mais vantajoso agrupar os que tem conteúdos temáticos diversos, mas reunindo a mesma origem e a mesma visada enunciativa, sobretudo, se os enunciadores são encarnados. (RABATEL,2004b, apud 2004a, p.6)31.
Tais considerações confrontam diretamente disposições ducrotianas, contrariando-as. Manifesta-se, ainda, a proximidade desta questão do reagrupamento com a abordagem da ScaPoLine: Rabatel observa que esta questão considera como a ScaPoLine leva em conta o preenchimento semântico dos enunciadores pelos seres discursivo, em função daquilo que ele chama de grau de encarnação. Isto reflete, provavelmente, o fato de que os seres
30 Em nota de rodapé, o autor menciona, a respeito do termo “encarnado”, a questão do preenchimento da
variável “enunciador” pelos seres discursivos na ScaPoLine.
31 (...) plutôt que de considérer qu’il y a autant d’énonciateurs que de contenus propositionnels, il paraît
cognitivement moins coûteux de regrouper ceux qui peuvent avoir des contenus thématiques divers, mais que rassemblent la même origine et la même visée énonciative, surtout si les énonciateurs sont incarnés” (Rabatel,2004b, apud 2004a, p.6)
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discursivos podem apresentar-se, na perspectiva escandinava, como não-locutores ou não atualizados, de acordo com o modo como se apresentam no texto.
Além disso, lembre-se também o fato de que a questão do reagrupamento das instâncias enunciativas é abordada, por um lado, sob a perspectiva da hierarquização dos pontos de vista e dos enunciadores, e, por outro, das relações entre enunciadores e locutores. Atenta-se, prioritariamente, à instância L1/E1, ou mais especificamente, sobre o ponto de vista e seu enunciador como o ponto de partida para as análises, associando-se o enunciador com o locutor enquanto tal ou enquanto ser do mundo.
Esta noção de sincretismo é um modo de se considerar a possibilidade de um ponto de vista ser atribuído como fonte ao locutor (LOC), pelo intermédio de seu enunciador. Isto vale para L1/E1 que se refere ao locutor primeiro, mas também para outros locutores que se manifestem no texto, no caso onde a fonte enunciativa de um ponto de vista é “encarnado”, ou seja, é um locutor, como no discurso reportado.
Observa-se que este tipo de análise se aproxima bastante do projeto da ScaPoline, embora detenha-se preferencialmente sobre o locutor via diferentes enunciadores, incluindo- se as relações que permitem o preenchimento da instância “enunciador” pelos seres discursivos (significando, eles mesmos, não apenas as imagens do LOC como também a de alocutário ou, ainda, terceiros). O objeto difere um pouco, pois leva em conta a maneira pela qual se constroem L1/E1 a partir do jogo enunciativo.
Na perspectiva rabateliana o objetivo tem duplo aspecto: por um lado, parece se propor a compreender melhor a noção de sincretismo, a fim de verificar em que medida um enunciador pode ser concebido amalgamado ao locutor, bem como em que medida os reagrupamentos são possíveis, ou não, em função das características textuais. Por outro lado, parece se deter na hierarquização das instâncias enunciativas analisadas, levando-se em conta a maneira pela qual, possivelmente, se constrói uma instância tal que possa ser nomeada L1/E1: a hierarquização dos pontos de vista e, assim, das instâncias à sua fonte está na base da possibilidade de se considerar, no nível do texto, uma instância do tipo “locutor” no sentido ducrotiano (LOC) que se apresenta como um responsável pelo enunciado, ou mais precisamente na perpectiva de Rabatel, que se apresenta como uma instância capaz de referenciar as operações dêiticas (e responsável pelo ato de enunciação no aqui e agora) e, às vezes, como referência das operações modais (responsável pelos pontos de vista circulando no enunciado por meio dos enunciadores).
Esta hierarquização é analisada por Rabatel sob o ângulo de três possíveis relações entre pontos de vista e enunciadores: a co-enunciação, a sobrenunciação e subenunciação
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(2003, 2004a, 2007). Nestes trabalhos o autor trata das interações e desigualdades dos pontos de vista em termos de posturas enunciativas.
Apresenta-se, aqui, brevemente as definições de Rabatel para esses conceitos, de cuja descrição mais detalhada tratar-se-á nos subtópicos seguintes. A coenunciação, obviamente rara na medida em que o conjunto dos pontos de vista demonstram efeitos de desigualdade, corresponde ao caso em que duas vozes se sobrepõem, momentaneamente, ou seja, ocorre a co-construção, pelos enunciadores, de um ponto de vista que se configura como comum e partilhado. A sobrenunciação caracteriza um ponto de vista interacionalmente dominante de um enunciador sobre outro, enquanto a subenunciação caracteriza o caso em que um ponto de vista se apresenta, no texto, como interacionalmente dominado.
A originalidade deste quadro de análise é de buscar perceber o jogo dos pontos de vista em textos extremamente diversos, incluindo-se os textos orais das conversações, por exemplo. É, sem dúvida, o que explica as ambiguidades que as noções podem levantar se se oculta a disjunção primeira entre enunciador (instância modal ligada ao ponto de vista) e locutor (responsável pela produção do enunciado). Desta forma, Rabatel se empenha em definir precisamente o que é o jogo interacional dos pontos de vista visado pela análise, e não o jogo interacional dos atores empíricos da atividade linguageira32.
Mais uma vez, essas são as características textuais descritas, sob a perspectiva da interação dos pontos de vista, que tornam tangível todo texto, seja o fato de um único produtor efetivo (contexto monologal nos termos de Rabatel) ou de dois produtores, ou ainda mais interlocutores co-presentes (contexto dialogal)
Outra questão que estas noções suscitam é a questão da marca das posturas de co-, sobre e subenunciação. Observa-se que tal problema não é específico para estes conceitos, mas se coloca a qualquer abordagem enunciativa em linguística. As posturas enunciativas, tais como propostas por Rabatel (2004a), são, de fato, marcacadas nos textos. Todavia, as marcas são inúmeras, abrangendo, inclusive, o caso da gestualidade na conversação oral, e podem ser polissêmicas, de modo que um “eu” não remeta apenas ao locutor, e que o locutor não se manifeste apenas por um “eu”:
Mas esta resposta, malgrado sua precisão, somente faz ressaltar a imensidãode problemas relacionados que se sobressaem na problemática do PDV, como por exemplo, a relação entre percepção, discurso reportado e asserção. No nível didático as dificuldades não seria, menores, em primeiro lugar, por causa da multiplicidade de complexidade dos saberes relevantes, em seguida, por causa de
32 Ainda assim, não se pode afirmar, incautamente, que as relações entre ambos seja excluída por A. Rabatel,
69 representações equivocadas que perturbam a reflexão, especialmente a tentação de estabelecer uma equivalência entre a origem do PDV (uma subjetividade ou um sujeito) e sua expressão (subjetivante):ou um “eu” que não implica nem um PDV pessoal nem uma expressão subjetivante. - não mais que o PDV, que também não deveria ser nem objetivante nem dóxico. (RABATEL, 2005, P.58)33.:
Além disso, a dificuldade aumenta no decorrer da análise do texto, pois as posturas podem se suceder uma à outra, assim, uma subenunciação, por exemplo, pode ser apenas provisória e estar a serviço, finalmente, da sobrenunciação.
Estas noções introduzidas por Rabatel permitem abordar a polifonia não apenas em termos de multiplicidade de vozes, mas, sobretudo, em termos de hierarquização dos pontos de vista, ou em diferentes formas de dialogismo encontradas em Brés e Vérine (1999, 2002), lembrando-se o que já se disse anteriormente, que os autores preferem designar dialogismo em vez de polifonia ao focar sobre esta hierarquização enunciativa.
Se os dados textuais, que dizem respeito ao tópico enunciativo na perspectiva rabateliana, se encontram já descritos nas abordagens do autor – e mesmo em outros autores – seu interesse parece ser, como na ScaPoLine, centrado em compreender a construção de uma postura de L1/E1 em certos gêneros, cuja construção de tal postura possa ser delineada, acrescentando-se o fato de que o objeto permitirá definir as dificuldades de sua construção em outros.
Além disso, o tópico, assim descrito, fornece uma base linguística e das ferramentas de análise da construção da visada argumentativa de projetar e de modificar as representações de um leitor pressuposto, como bem observou Rabatel (2004a) sobre os efeitos argumentativos resultantes da argumentação na língua, no sentido ducrotiano, ou os efeitos argumentativos indiretos subjacentes às esquematizações, sob os topoi que orientam a interpretação independentemente da presença de formas argumentativas lógicas (cf. AMOSSY, 2011).
O conjunto da obra rabateliana proporciona assim, uma melhor compreensão da relação entre enunciação e argumentação, fornecendo, assim, uma base enunciativa à construção do ponto de vista no texto e sua legitimidade, bem como permite considerar a visada argumentativa num texto.
33 Mais cette réponse, malgré sa justesse, ne fait que souligner l’immensité des problèmes connexes qui relèvent
de la problématique du PDV, par exemple le rapport entre perception, discours rapporté ou assertion. Sur un plan didactique, les difficultés ne sont pas moindres, d’abord en raison de la multiplicité et de la complexité des savoirs concernés, ensuite du fait des representations erronées qui perturbent la réflexion, notamment la tentation d’établir une équivalence entre l’origine du PDV (une subjectivité ou un sujet) et son expression (subjectivante) : or le je n’implique ni PDV personnel ni expression subjectivante – pas plus que les PDV en il ne devraient être objectivants ou doxiques.(RABATEL, 2005, P.58)
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Segue-se no próximo subtópico, uma descrição um pouco mais detalhada dos tipos de pontos de vista para, em seguida, focar-se nas relações entre enunciador e locutor delineando-se alguns conceitos-chave da pesquisa.