A questão que ainda se coloca é saber como abordar a relação entre os pontos de vista no nível do enunciado e no nível do texto. Observa-se, nesta etapa, que o encadeamento de enunciados, mencionados por Nølke 17, não é uma ferramenta à serviço da análise da
16 La ScaPoLine est une théorie discursive. Si son domaine (immédiat) est l'énoncé, elle n'oublie jamais que
l'énoncé ne trouve sa raison d'être que dans le fait qu'il fasse partie d'un discours. Ce fait se reflète entre autres dans les outils heuristiques dont elle se sert. C'est ainsi que les tests d'enchaînement différents servent comme son outil heuristique primordial. Il semble donc naturel d'essayer d'élaborer la ScaPoLine de manière à la faire fonctionner au delà de l'énoncé. Nous avons déjà fait quelques propositions concernant le développement d'une application proprement textuelle de la ScaPoLine et cet aspect va occuper une place centrale dans nos investigations à venir. Cette élaboration est en effet strictement nécessaire dans le cadre du projet des polyphonistes scandinaves, car ce n'est qu'au niveau textuel que peuvent se rencontrer linguistes et littéraires. (NØLKE, 2001, p.65)
17 Note-se, primeiramente, que o encadeamento de enunciados é considerado pela ScaPoLine como uma
ferramenta para determinar se se está ou não lidando com um ponto de vista, conforme descrito em Coco Noren (2000) que, de todo modo, demonstrou os limites deste critério, como se vê: La présence des deux PDV, l 'un affirmatif et l 'autre négatif, est confirmée par le fait que l 'on peut enchaîner sur les deux. Les suites 1a. et 1b. enchaînent sur le PDV négatif, alors que 2a., 2b. et 2c. enchaînent sur le PDV positif. Deux remarques peuvent être faites à ce sujet. Premièrement, on devrait préciser ce qu'on entend par « enchaînement » . Pris dans un sens large, il n'est guère opératoire pour identifier les PDV, puisque la catégorie d'enchaînements potentiels est ouverte. Il faudrait alors préciser de quel type d'enchaînement il est question, pour ne pas
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polifonia textual, na medida em que os pontos de vista não são a questão central: como sublinha Nølke (2004) todo o problema da análise polifônica no nível do texto remete à questão da instanciação das variáveis que são os enunciadores. Para explicar como as variáveis da estrutura polifônica, analisadas em um enunciado restrito à uma frase ou numa sequência de enunciados, poderiam ser preenchidas no nível de interpretação do texto, a ScaPoLine tenciona determinar as relações entre os pontos de vista e os seres discursivos (NØLKE et al., 2004).
Os pontos de vista são o objeto de uma definição semântica na teoria escandinava: eles são compreendidos como uma unidade semântica decomponível em dois componentes: um conteúdo e um julgamento. Esta análise do ponto de vista faz eco à proposta de C. Bally (1965) para o enunciado (não para o ponto de vista), já mencionada em tópicos anteriores, em cujo princípio se postula que o enunciado compreende um dictum, o dito e um modus, que remete à atitude daquele que diz sobre o que é dito. Noren (2000) demonstra que a definição do ponto de vista em conformidade com o estabelecido por Nølke na ScaPoLine se aproxima claramente da concepção de Kronning (1996, p.44), cuja proposta encontra um modus e um dictum no ponto de vista. Os limites desta distinção são conhecidos no nível do enunciado: embora seja pertinente é pouco operatória, na medida em que se torna muito difícil distinguir os dois componentes na materialidade linguística, pois o modus nem sempre é marcado ou se confunde com o dictum.
A unidade denominada ponto de vista ainda traz à tona o mesmo problema que se coloca em relação ao ‘ponto de vista simples’ da ScaPoLine, no caso de um enunciado monofônico ou em que apenas um ponto de vista intervem (como, por exemplo: “Está tudo bem”). Neste caso, dizer que o ponto de vista se compõe de um julgamento ou de uma atitude sobre o ponto de vista se torna uma tarefa de difícil descrição.
A dificuldade pode ser visualizada já na distinção de Bally se se considerar que o modus remete a um LOC, como, por exemplo, a instância que no enunciado se apresenta à questão da prise en charge enunciativa. Neste caso, pode-se conceber que, mesmo não marcado num enunciado como “Está tudo bem”, o modus dá conta da presença de um enunciador (na ocorrência de um LOC, isto é, como a instância que se apresenta como o produtor do enunciado).
accepter « le coq à l 'âne ». Dans l 'absolu, tout enchaînement peut recevoir un sens, à condition de trouver le contexte, peut être exceptionnel, dans lequel ceci serait possible.
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Entretanto, no nível do enunciado, tal como é analisado na ScaPoLine, não parece se colocar a questão da prise en charge modal do conteúdo que é visado por outro componente, o julgamento: este problema é resolvido, definitivamente, de modo diferente, usando-se enunciadores e relações de variáveis (chamadas enunciadores), permite-se que o preenchimento discursivo seja esta variável, como se verá mais adiante.
Ao tomar-se como exemplo o enunciado “Está tudo bem” se está lidando com um ponto de vista monofônico, em que a variável “enunciadores” é preenchida pelo ser discursivo que corresponde ao locutor (LOC), o que significa dizer que o locutor está ligado a este pdv “Está tudo bem” por uma relação enunciativa: ele é considerado como uma instrução correspondente a uma regra de acordo com a qual na ausênca de um comentário contrário, o valor padrão estabelece que o locutor (ou, mais precisamente na perspectiva da ScaPoLine, um locutor do enunciado) seja a fonte deste ponto de vista, o que quer dizer, na perspectiva da ScaPoLine, o responsável pelo ponto de vista. Aprofundando-se a questão do modus e enquadrando-o a partir do ponto de vista, em vez do enunciado, a ScaPoLine relaciona o modus a este tipo de enunciados monofônicos.
Se o componente ‘modus’ do enunciado monofônico é regrado pela questão do preenchimento da variável ‘enunciador’, relacionada ao ponto de vista, resta ainda a questão de como interpretar a dupla conteúdo-julgamento que definem o ponto de vista – e assim o enunciado monofônico, em que um ponto de vista simples se manifesta. A tarefa é possibilitada trabalhando-se com a premissa de que, de alguma forma, o componente julgamento do ponto de vista possa ser considerado como o nó que torna possível a relação entre ponto de vista e prenchimento por seres discursivos na perspectiva escandinava, ou a ligação entre uma fonte ou de uma instância que se responsabiliza pelo ponto de vista.
Ao seguir-se essa idea, num enunciado monofônico como “Está tudo bem” haverá que se considerar:
-um ponto de vista ou a associação de um julgamento e de um conteúdo;
-a variável enunciador, a relação que permite o preenchimento dessa variável por um ser discursivo (na ocorrência do locutor, instância que se apresenta como responsável pelo enunciado). Mais precisamente, dir-se-á que o locutor de um enunciado é o responsável pelo ponto de vista. Ainda, junta-se, no caso dos enunciados monofônicos, uma descrição simples do ponto de vista: “Está tudo bem” enuncia um ponto de vista que por sua vez tem um conteúdo (o que quer que tenha sido dito) e qualquer coisa que seja dita ou pensada.
No entanto, soa um pouco redundante analisar a estrutura interna do ponto de vista em termos de conteúdo proposicional e julgamento sobre o conteúdo, ainda que a prise en
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charge do ponto vista seja resolvida, também, em termos de relações enunciativas no início e na evolução da ScaPoLine , com a variável enunciador e seu preenchimento, pois as relações enunciativas caracterizam a dimensão “julgamento” atribuída a todo ponto de vista.
A redundância justificaria, num primeiro momento, a recusa da ScaPoLine em aceitar a noção de enunciador tal como se encontra elaborada em Ducrot (1984) como bem observou Norén (2000, p.4), a noção é, de fato, considerada “ (...) supérflua, pois o PDV exige obrigatoriamente que qualquer um veja. Em Linguística, é suficiente que se identifiquem os diversos PDV num enunciado ou em um microtexto e que se o designe como o PDV assumido pelo locutor. ”18
Tratada em termos de relações enunciativas, a questão da prise en charge dos pontos de vista não abarca completamente o problema da redundância, sem contar que a variável “enunciadores” é finalmente reintroduzida a fim de melhor se compreender a proximidade e a compatibilidade do quadro de análise proposto pela ScaPoLine com aquele proposto por Ducrot (1984). Nølke (2001, p. 47) demonstrou que este objetivo reflete melhor a analogia entre a ScaPoLine e a abordagem de Ducrot, sublinhando, em nota de rodapé, que a reintrodução da noção de enunciadores é uma “complicação inútil na economia do sistema” Se se propõe ver na componente do pdv denominada “julgamento” um nó que torne possível a relação com aquele ponto de vista ligado a um ser discursivo e que pode preencher a variável “enunciador”, então, considerar-se-ia que o aparato conceitual assim constituído pareça um pouco redundante, mas, de todo modo, tem o mérito de insistir no fato de que o pdv comporta uma dimensão modal relacionada à sua dimensão referencial , como já evidenciado por Kronning (1996, p.44) ao contrário de Ducrot (1984) para quem a questão da referência é excluída de uma análise na língua.
Observa-se, novamente, que a oposição língua e enunciado tende a opacificar as teorias polifônicas. Sua vantagem parece ser a de tomar o texto como objeto, em sua materialidade linguística, demonstrando as relações entre o que é observável no nível do enunciado restrito ao quadro frástico e o que é observável em sua sequência de texto.
A ideia de que o pdv, enquanto unidade semântica, associa alguma coisa do dito (um conteúdo proposicional) e uma componente modal remete ainda a uma ideia largamente admitida em Linguística, ainda que em graus variados, de que a língua não poderia ser
18 superflue puisque le PDV implique obligatoirement que quelqu’un voit. En Linguistique, il suffit donc que
l’on identifi les divers PDV dans un enoncé ou un microtexte et que l’on designe le PDV pris en chare par le locuteur.” (NORÉN, 2000).
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considerada apenas em termos de proposições sobre uma realidade empírica existente independentemente da língua.
2.4.2 Os objetos discursivos e o preenchimento dos pontos de vista no texto na