9. Appendix A: Protocol Examples
9.5 Print-URI Request
As Ganhadeiras de Itapuã trata de grupo de mulheres que cantam suas histórias que bem retratam um período que remonta a fins do século XIX e início do século XX, assim como à Itapuã de antigamente, considerada um bairro-balneário (ligado ao turismo e lazer) e “centro vital” da região onde está inserida. Além disso, enaltecem os aspectos da beleza
natural da praia de Itapuã, da região do Abaeté (Lagoa) e tantas outras tradições ligadas às suas microcomunidades, partes da comunidade itapuãzeira e adjacências.
As músicas compostas pelo e para o grupo descrevem bem suas histórias de vida, sobre o local onde habitam e as personagens desta particular ex-vila de pescadores.12 O que se percebe é que o grupo valoriza a terra e suas personalidades itapuãzeiras, mostrando que não só a natureza e o lado idílico devem ser salientados, de tal sorte que o enaltecimento das pessoas e dos recantos de seu lugar parece sempre estar sendo respeitado, assim como suas produções protegidas. Na visão das ganhadeiras (coristas), as “versões dos itapuãzeiros” seriam as mais fidedignas tanto ao contexto retratado quanto à legitimidade autoral de suas produções artísticas no que tangiam à divulgação do que era Itapuã em outras épocas.
Para cantar e contar sobre Itapuã e sobre seus antepassados, surgiram as músicas do grupo que relatam e dão conhecimento ao povo baiano e a todos sobre quem foram as ganhadeiras, tornando-as registros vivos de sua própria história, dentre elas: Estória das Ganhadeiras, de Amadeu Alves; Com a Alma Lavada, de Jenner Salgado; Passado e Presente, de Eunice Jorge; História de Itapuã, de Reginaldo Souza (Seu Reginaldo ou Seu Regi); e Canto das Lavadeiras, de Marcos de Oliveira (v. CD Sons das Ganhadeiras de Itapuã13 e Anexo C3 – Letras coletadas durante a pesquisa).
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Itapuã se imortalizou nas músicas de Toquinho, em parceria com Vinícius de Moraes, Tarde em Itapoã, e de Dorival Caymmi, ainda que, para muitos nativos de Itapuã, este não seja um exemplo de itapuãzeiro. Caymmi, na ótica de alguns, não seria um autêntico nativo nem era morador de Itapuã. Na verdade, conta-se que era um veranista que passava períodos e que produziu, dentre outras canções, como O Mar, Maracangalha, algumas que falavam de Itapuã, mas que tal(is) música(s) pode(m) ser fruto(s) de uma “apropriação indevida” de músicas de artistas da terra itapuãzeira. Este comentário teve reflexos no contexto ora estudado, todavia, este é um aspecto polêmico que não nos cabe aprofundar.
13 Todas as músicas mencionadas neste trabalho encontram-se no Anexo C1 – Lista das músicas cantadas pelas
História de Itapuã – Letra e música: Reginaldo R. Souza
Refrão:
Meu Itapoan14 moço, Tempos atrás, Meu Itapoan moço, Não volta mais Água na cabeça Eu peguei na cacimba Com minha mulher E as minhas meninas Num instante eu enchia Tonel e porrão
Tempo como aquele Não volta mais não Puxada de rede Toda hora tinha O meu pai pescava Minha mãe dizia O peixe é muito Não dá pra guardar Eu vendo um tanto Outro tanto vou dar Os brancos da cidade Vinham passear Às vezes inventavam Tomar banho de mar Se com roupa de banho Não estava não
Muquim alugava Maiô e calção Canoa na praça Lotada de peixe Se tocava o búzio Seu moço me deixe Era tanto peixe
Sem ter quem comprar O jumento levava Até no caçuá Dona Francisquinha Uma moça festeira Com todos falava E não tinha besteira E Osvaldo Cunha Era um curandeiro O doutor da gente Era Nelson Ribeiro15 A prosa tá boa Mais já to chegando O moço desculpe Se to lhe empatando Tem muitas histórias Para te contar
Eu pagava a loba Pra ir trabalhar
Amadeu Alves, um dos idealizadores do grupo (à época, ainda inominado), juntamente com Anamaria das Virgens (presidente do grupo de 2009-2010), Dona Denise e o filho “Cuca” (percussionista), logo seguidos por Jenner Salgado, Salviano Almeida, Seu Reginaldo, Maria de Xindó, Mariinha, dentre outros integrantes, tinha como função precípua definida para o grupo fazer parte de um movimento para reavivar a memória da comunidade itapuãzeira para manifestações que estavam sendo alijadas e esquecidas, bem como valorizar
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Várias formas de grafia podem ser encontradas: Itapoã, Itapuã, Itapoan e Itapuan. Ver complemento de informações que discutem essas variantes, no Glossário.
15 Foi uma das personalidades itapuãzeiras mais famosas, médico e tio dos Ribeiro, ou seja, de Amadeu Alves
Ribeiro e de Carlos Ribeiro (irmãos). Ficou conhecido por seus feitos beneficentes, de cura, tratamento, caridade e por sua simplicidade, seu amor ao povo itapuãzeiro e, principalmente, pela ajuda enquanto médico e condição de humanitário que, até hoje, é reconhecida por grande parte da população de Itapuã. Relatos sobre Nelson Ribeiro podem ser encontrados nas entrevistas de Geane Guimarães (21/05/2010) e Carlos Ribeiro (23/05/2010) a esta pesquisadora.
os(as) filhos(as) da terra e os defensores(as) da cultura local, dentre elas: Dona Francisquinha “da chegança”; Dona Helena, “rezadeira”, irmã de Dona Francisquinha; Dona Áurea (que dá nome à praça do lado da Delegacia de Itapuã); e Dona Niçú (assim, com acento), todas já falecidas; Dona Cabocla, mulher de “Arlindo Boi”; Dona Petu, mãe de Anamaria das Virgens (ou Anamaria de Petu); Lucinha das Virgens (ou Lucinha de Petu); e Rachel das Virgens (ou Rachel de Petu)16. Personalidades e personagens que foram fomentadoras da cultura itapuãzeira, cujas memórias são imortais dentro desse meio. Essas mulheres fazem parte da memória cultural de Itapuã que o grupo faz questão de estar sempre reavivando. Por isso, todos os anos, homenageiam uma de suas mais ilustres filhas, Dona Francisquinha. Assim, é relevante que conheçamos um pouco da história dessas mulheres itapuãzeiras.
Dona Niçú e Dona Leonice
Em 2008, por exemplo, tive oportunidade de presenciar o cortejo, momento de congraçamento da vida, do samba e união entre os moradores do bairro de Itapuã, que costuma anteceder à lavagem de Itapuã17, uma manifestação que acontece todos os anos em Itapuã e que possui dois momentos – um profano e outro religioso, uma manifestação afro- católica. Algumas das ganhadeiras e pessoas que compõem o grupo, como Seu Regi e Amadeu Alves, na noite anterior à lavagem, saem pelas ruas de Itapuã, em bando (Bando Anunciador), acordando os moradores do bairro ao som do violão, acompanhados por uma kombi antiga e que, com seu alto-falante e muitos seguidores, anunciam a lavagem e convidam os moradores a participar do evento.
16 Fotos dessas pessoas citadas encontram-se no trabalho da neta de Dona Cabocla, Rosenilda dos Santos Sousa
(SOUSA, 2007).
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“Lavagem de Itapuã completa 105 anos de tradição afro-católica. Mais um dia santo na terra de Todos os Santos. Dia 4 de fevereiro é o dia de se reverenciar Nossa Senhora da Conceição de Itapuã. Com muito misticismo e fé, a Lavagem de Itapuã completa 105 anos e leva católicos, adeptos do candomblé e turistas a participar da última festa popular de Salvador antes do carnaval.” (BLOG HISTORIANDO, 2010).
Inicia-se na Praça do Oiti (“Geraldão”) e todos terminam o percurso na Praça Dorival Caymmi, em frente à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia de Itapuã, próximo à casa da falecida Dona Niçú, que até então fora responsável pela saída do cortejo religioso da lavagem. Atualmente, o cortejo é comandado por sua filha, Leonice.
De sua antiga morada, sai uma carroça, puxada por uma mula, com uma espécie de tonel de madeira sobre a carroça, enquanto as mulheres, munidas de vassouras, água de cheiro, com baldes de flores e alfazema (planta), rumam à Igreja principal do bairro. Em 2009, algumas das ganhadeiras presentes à lavagem acompanharam o cortejo, por volta das 5h da matina, para lavar as escadarias da Igreja, de frente à praça.
Com o sol já alto, o cortejo entra na segunda etapa – “profana” – da lavagem, dirigindo-se “a pé” ou “de péis” (como costuma se falar no Nordeste do Brasil) até Piatã18, pela avenida principal que margeia a praia, uma das principais vias de acesso ao bairro de Itapuã, para de lá partir para uma carreata, com vários trios elétricos, até chegar novamente à Igreja, por volta do meio-dia. O que impressiona é a disposição das senhoras, entre os cinquenta e setenta anos, que conseguem fazer este percurso, todos os anos. Como era para Dona Niçú, a fé dessas senhoras nos preceitos católicos e sincréticos é muito forte. Portanto, as ganhadeiras sempre participam destas festas e rendem homenagens às personalidades de Itapuã que mantêm esta tradição viva, tomando parte ativamente em tais manifestações até o presente.
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Nome recebido pela relação com a Festa de São Tomé, na praia vizinha à Itapuã – Piatã, nome indígena, nome de caboclo, nome que, na língua tupi, significa “o pé firme”, “a firmeza”. In: Sampaio. O Tupi na Língua Nacional, p. 293 (apud GANDON, 1997, p. 152). “Os itapuãzeiros evocam sempre a imagem de uma pedra em seus relatos, e de uma forma bem particular a Pedra de São Tomé. Segundo a lenda, este apóstolo de Cristo teria deixado a marca de seus pés nesta pedra quando por aí passou. Atualmente a Pedra de São Tomé se encontra submersa na praia de Piatã, onde aparece somente em ocasiões raras de marés muito baixas” (GANDON, 1997, p. 151).
Foto 11 – Lucinha das Virgens lavando as escadarias da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã , no dia da Lavagem de Itapuã. Fonte: Acervo do grupo.
Na verdade, entendendo quem eram as ganhadeiras de antigamente e, hoje, como elas continuam sendo filhas das atividades de ganho, compreende-se bem de onde vem tanta disposição e resistência e como elas, no seu cotidiano, vivenciam e sempre homenageiam as mulheres que mantiveram suas tradições culturais, como Dona Niçú, Dona Francisquinha e Dona Helena, e invariavelmente acompanham aquelas pessoas que procuram perpetuá-las, como a filha de Dona Niçú – Dona Leonice.
Dona Francisquinha e Dona Helena
O grupo das Ganhadeiras surgiu pensando em dar continuidade aos baluartes da cultura popular itapuãzeira, como as irmãs Francisca de Passo e Helena Nazaré, e valorizá- los.
As ganhadeiras de Itapuã era uma ala, dentro do terno [de reis]19 de Dona Francisquinha, que era a ala das ganhadeiras. Aí, hoje, por exemplo, as (...) fazemos parte do grupo ‘As Ganhadeiras de Itapuã’,
19 Santos faz menção em seu artigo sobre a aquarela de Carlos Julião que retrata “negras com ofício de música”
tocando vários instrumentos musicais: flauta de madeira, trompa de postillón, viola, reco-reco, tambor, pandeiro, castanhola e uma espécie de maestrina. O cortejo de musicistas segue “a rainha negra na festa de Reis”, cuja elegância e o intenso colorido de sua pele e roupas contrastam com seus passos coreografados ao ritmo da música executada pelos seus instrumentos musicais (SANTOS, 2002, p. 351).
homenageando exatamente um terno, quer dizer, nós somos um pedacinho de uma coisa que era deste tamanho, que era gigante. A ala das ganhadeiras era um pedacinho, uma parte de um todo. (SALVIANO, entrevista, 15/03/2010)
Inicialmente, o grupo das Ganhadeiras surgiu como parte de um movimento que visava à revitalização do bairro de Itapuã (Grupo de Revitalização de Itapuã – GRITA), tendo, posteriormente, se direcionado para uma trajetória autônoma com uma proposta artística que almejava teatralizar parte da atividade de ganho, ao som, predominantemente, de samba de roda.
A força de manter a memória de Itapuã, suas histórias e principalmente sua cultura fez de mulheres da comunidade, de vida simples, referência para a população de Itapuã. Dentre elas, Dona Cabocla, as irmãs Francisquinha e Helena, Dona Áurea, Dona Badu e Dona Petu.
O primeiro contato que tive com o grupo em foco, com o intuito de pedir permissão para estudar o grupo e suas manifestações, foi por ocasião do aniversário de oito anos de morte de Dona Francisquinha20, que estava acontecendo no Largo do Jenipapeiro, em Itapuã, próximo à casa onde residi, durante dois anos, vizinho à ex-Vila dos Sargentos. Vi que a alegria em comemorar as tradições populares deixadas e transmitidas para suas filhas, bem como a memória dela, era carregada de muita emoção, mas naquele momento não fazia ideia do que ela representava para o grupo. Desde a morte de Dona Francisquinha, todos os anos, o grupo das Ganhadeiras participa de comemorações como estas, sempre cheias de simbolismos, em homenagem à memória de alguém que muito significou não só para o grupo das Ganhadeiras, mas para toda a comunidade de Itapuã; alguém que ensinou os valores e a necessidade de aprender a viver neste mundo, na opinião dela, “tão conturbado e cheio de violência” (RIBEIRO, entrevista, 23/05/2010).
Em um rico depoimento, Carlos Ribeiro21 contou sobre traços da personalidade e características de Dona Francisquinha:
(...) Ela tinha uma memória fantástica, uma memória privilegiada. Ela conhecia com detalhes tudo da história do bairro, desde os períodos mais antigos, da pesca da baleia, quem eram os pescadores, quem eram as figuras interessantes do bairro. Ela tinha um conhecimento da toponímia, né? Dos nomes dos lugares, o que é que era... Porque quando eu vim morar aqui, ainda era um lugar mágico, né? Muito interessante! Mas, já era um lugar bastante transformado. E eu tive uma experiência interessante em relação a isso porque eu era membro da Associação de Moradores de Itapuã (AMI). A AMI funcionou três anos em minha casa, então eu era uma pessoa muito ativa e dentro da AMI tínhamos uma vertente da preservação da memória. Tinha um jornal que circulava no bairro e dentro do jornal tinha uma parte em que a gente entrevistava os moradores do bairro, falando sobre a história do bairro, tal. (...) mas, eu vim ter uma experiência muito interessante, porque uma vez eu saí com Dona Francisquinha, Dona Áurea e se eu não me engano, Dona Badu. E nós fomos para onde hoje é a Vila dos Sargentos, que é justamente essa área já chegando no bairro de Itapuã que é onde tem a vila militar e o pessoal chamava de Vila dos Sargentos. (...) É um exemplo de que quando você conhece o lugar você, às vezes, não percebe a feiúra do lugar, né? (...) Você não sabe que tipos de crimes foram cometidos ali, aquilo ali passou a ser natural. (...) Fomos andando pela Vila dos Sargentos e ela foi dizendo o que era cada coisa daquele lugar ali. Ela dizia assim: ‘Meu filho, tá vendo aqui essa casa? Aqui tinha uma lagoa’. E dizia o nome da lagoa, ‘Tinha um cajueiro aqui que os meninos pulavam pra lagoa’. ‘Aqui tinha uma duna’, ‘Aqui pousavam os pássaros que vinham’ e num sei o quê, tal... E nessa caminhada que a gente fez naquela área já urbanizada eu vi, de uma forma mágica até, ressurgindo aquela paisagem, ou seja, a gente percebendo que ali tinha sido um lugar de uma beleza extraordinária. Então, eu acho que o ponto principal de Dona Francisquinha é isso. Ela mantinha, ela guardava. Ela era guardiã dessa memória. Mas tinha além de ser guardiã, ela tinha uma generosidade enorme de gostar de falar sobre aquilo. Ela gostava de dar um depoimento... (RIBEIRO, entrevista, 23/05/2010)
Para muitos, ela permanece a centelha que reaviva a lembrança daqueles que porventura esquecem o que foi Itapuã no passado, suas tradições e manifestações. Para outros,
21 Nasceu em 1958, é jornalista, professor, ficcionista, ensaísta e doutor em literatura pela Universidade Federal
da Bahia. Define-se como um homem de grande sorte por ter nascido em Salvador e por ter passado a infância e a juventude no bairro de Itapuã, tão presentes nos seus textos. Autor de nove livros, entre contos, ensaios, romances e resenhas literárias, é professor adjunto do curso de jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia (RIBEIRO, 2010).
ela sempre será uma senhora que tinha uma memória fantástica, imensa sabedoria no viver, mulher de palavras e gestos inesquecíveis. Em 2010, Carlos Ribeiro escreveu uma crônica intitulada Dona Francisquinha em seu livro Contos de Sexta-feira e Duas ou Três Crônicas (transcrita no Anexo D2).
Dona Cabocla
Atualmente, com cerca de 94 anos de idade (desconhece-se a data precisa), ainda, continua a residir perto da Baixa do Dendê (onde mora a maioria das ganhadeiras do grupo), considerada uma das personalidades mais populares do bairro. Sua casa foi palco de reuniões de pessoas que pensavam sobre a preservação histórica e cultural de Itapuã, dentre elas, o grupo que depois se denominou Ganhadeiras de Itapuã, ou seja, foi no bar de Cabocla que foram gestadas as primeiras ideias sobre o surgimento do grupo, para depois passar ao “terreiro de Mariinha”. Dona Cabocla, mulher de voz invulgar, indo para os seus quase 100 anos, mantém um bar, na frente de sua pequena casa, transparecendo manter suas convicções à moda antiga. Perguntei-lhe o que a irritava e, logo incentivada pela neta (que apontou uma das coisas que ela não admitia em seu bar), ela disse, um tanto ranzinza, que não gostava que as pessoas ficassem se beijando e se “agarrando” no bar dela. “Eu também fui moça, não nasci velha não, eu nasci ‘muderna’, também namorei, mas não andava me ‘esfregando’ no meio do povo não. E andava em festa e tudo” (DONA CABOCLA, entrevista, 25/01/2009). Conhecida também pelos quitutes22 que preparava (moqueca de folha com peixe chicarro), foi uma das personalidades procurada pelo grupo que pensava em manter a memória cultural de seu bairro, como a AMI e o GRITA. A participação de Dona Cabocla foi importante nos
22 “A moqueca temperada com sal, pimenta e limão. Tem umas folhas no Abaeté que a gente tirava, quando
num tem botava folha de coqueiro, mas eu gostava mais era das outras folha (sic). A gente botava os peixes ali, quando acabava, a gente virava a ponta das folhas, amarrava de um lado, de outro. Fazia aquele fogo de carvão, viu, aquele fogo, botava aquela grelha [pronunciou, grélha].” (DONA CABOCLA, entrevista, 25/01/2009).
primórdios do grupo, não apenas por ser uma personalidade local conhecida pela bela voz que embevece os ouvintes quando canta sambas, boleros e modinhas23, mas também por manter um comportamento, crenças e a culinária de uma Itapuã dos tempos antigos e preservar traços característicos de sua educação e cultura mestiça.
Gandon (1997), na pesquisa baseada em fontes orais, a partir de entrevistas realizadas com o fim de captar o discurso de pessoas da comunidade de Itapuã sobre a cultura local, observou que a palavra “caboclo” era frequentemente empregada pelos habitantes do lugar ao descreverem seus “mais velhos”, falecidos ou ainda vivos. Com efeito, Gandon localizou, entre os itapuãzeiros, algumas personalidades com o apelido Seu Caboclo, Dona Cabocla, Dona Cabocolinha, o que, para a pesquisadora, caracterizava uma forte presença indígena na mentalidade local. Além disso, Gandon marcou não só a presença nos traços físicos das pessoas como o testemunho de alguns itapuãzeiros, dentre eles: Dona Ana, Seu Miguel e, mesmo, Dona Cabocla, Dona Francisquinha e Dona Helena, além de outros.
Minha bisavó foi ‘pegada’ nas matas de num lugar que se chama Malhadas, pra lá de Praia do Forte. Diz que essa velha – chamava-se Juliana – não conversava com ninguém; era na cozinha fumando cachimbo e tudo, e minhas tias pareciam umas índias mesmo, as irmãs de minha avó. A minha avó era tão bonita mesmo, minha avó tinha a pele mesmo vermelha. (DONA HELENA, entrevista, 1987)
Na minha vivência entre as ganhadeiras e alguns itapuãzeiros, foi comum ouvir o relato sobre os ascendentes de inúmeras mulheres e ganhadeiras de Itapuã, relatando histórias semelhantes. Daí, inclusive, reconhecer que o apelido de “Cabocla” advém dessa herança étnica que, como outros legados, influenciaram-na em sua história de vida, refletida pelos traços da miscigenação étnica inscritos na cultura passada pelos pais, pelo contexto social, pelo incentivo ao canto retratado em sua performance de cantora, sobretudo por ser dona de uma personalidade determinada e austera. Por fim, pelo próprio entorno local.
Foto 12 – Dona Cabocla e o sambista Pedrão, no “Samba no Mercado de Itapuã”, em 13/11/2007. Em 02/04/2009, Pedro Abib lançou o CD Samba de Botequim e Dona Cabocla participou do show de lançamento, na Casa da Música.