3. Encoding of the Operation Layer
3.12 Data
As participantes do grupo estudado, moradoras do bairro de Itapuã (a maioria da comunidade da Baixa do Dendê), arraigadas às suas tradições e à sua terra, tiveram, dentre outras preocupações, a perpetuação de suas raízes no que tange às heranças, musical e cultural, e uma imensa necessidade de transmitir seus valores, saberes, história, música e dança. Por isso, diante da maciça participação feminina na cena cultural itapuãzeira, não poderia me furtar a relatar um pouco sobre essas mulheres itapuãzeiras, principalmente, entendendo que estar a estudar um grupo predominantemente de mulheres, neste contexto, não consistiu uma mera casualidade.
O grupo existe ativamente desde 200424. Na época da pesquisa, contava efetivamente com 14 vozes femininas, formado por mulheres, a maioria entre 08 e 80 anos de idade, dentre elas, 05 adolescentes e apenas um jovem de 16 anos de idade, além de 07 músicos (homens).
Uma das propostas das Ganhadeiras, por conseguinte, era enaltecer a figura da mulher itapuãzeira, o que acabava por estimular a participação das mulheres participantes nas
decisões e rumos do grupo. Sendo assim, no entender da maioria e, principalmente, dos homens que dele participavam, eram as mulheres que deveriam se responsabilizar e ocupar os cargos administrativos. Deste modo, durante a pesquisa, foram indicadas consecutivamente duas presidentes: Verônica das Virgens e Anamaria das Virgens. Na visão dos coordenadores, a presidenta deveria ser alguém emergido do seio do grupo, precisamente, do coro.
Pode-se dizer, todavia, que mudanças de ordem estrutural, de gestão administrativa e renovação na diretoria musical não pareceram ter afetado os participantes atuais que tenderam a lidar com as transformações de modo tranquilo e agregador. Perguntado às ganhadeiras quais eram os desafios futuros e presentes que elas detectavam dentro do grupo, a maioria respondeu, em tom de otimismo, que o maior desafio era a manutenção das pessoas e do núcleo existente e a consolidação das propostas pensadas para o grupo, como já mencionadas anteriormente.
O importante, apesar de haver momentos de divergências e opiniões, era a noção de que o entendimento e a busca pelo engrandecimento do grupo, bem como a manutenção das propostas iniciais, como a transmissão e valorização de sua música e cultura, deveriam permanecer no topo das intenções. Essas bases estruturais parecem não ter sido abaladas, de acordo com os depoimentos das mulheres. Entretanto, as crianças e adolescentes, sensíveis a quaisquer mudanças ou desentendimentos entre os adultos, confessaram que foram tomadas por algumas incertezas quanto à permanência no grupo. Todavia, logo que as situações pareciam se estabilizar e “os ventos mudavam”, voltavam a crer que a manutenção do grupo estava em parte nas mãos delas. Isso ficou comprovado pelas entrevistas, pela participação nos eventos, pela visível interação social entre os(as) companheiros(as) e a forte crença de que todos conjuntamente superariam os problemas do cotidiano. A boa vontade e a motivação para crescer, melhorar e “fazer bonito” nas apresentações, bem como a aquiescência de que as
adolescentes seriam suas futuras sucessoras, estavam sempre sendo respeitadas e acordadas por todas as mulheres e homens participantes. E todas as observações estiveram voltadas ao que era bom para o grupo e para o seu futuro. Mesmo as discordâncias ocorriam em detrimento de se estar sempre em busca do que era mais adequado para o grupo, que desse maior visibilidade ao grupo e sobre o que caracterizaria realmente uma ganhadeira (indumentária, acessórios, o timbre da voz, sobre os pregões, sobre a música e a letra serem mais fiéis possíveis à memória de todas, etc.). Enfim, eram discussões construtivas. Havia verdadeiramente uma grande família de ganhadeiras a trabalhar conjuntamente. Além disso, eram vizinhas, possuíam netas, bisnetas e/ou filhas também participantes do grupo ou com quem, de algum modo, eram aparentadas, cunhadas, comadres ou amigas de muitos anos.
O estudo vislumbrou, sobretudo, os aspectos da educação e da arte que estavam imbricados nessas relações e que fizeram parte, de modo umbilical, deste grupo que acredito ter vida longa, pela fé que todos têm no grupo e pelos firmes e tenazes propósitos contidos no projeto Ganhadeiras de Itapuã.
Foto 13 – Ganhadeiras no “Samba no Mercado de Itapuã”, em 13/11/2007. Fonte: Acervo do grupo. Fotógrafo: Salviano Filho.
A fé religiosa também foi um fator marcante no grupo. Após cada apresentação e cada ensaio, todos, sem exceção, entre homens, mulheres, adolescentes, de credos distintos (candomblé, espiritismo, catolicismo, etc.), reuniam-se para rezar e pedir bênçãos para os participantes e seus familiares, agradecendo por mais um dia de ensaio e rogando saúde aos presentes e também aos ausentes àqueles momentos. E quando alguém tinha um problema ou parentes e/ou amigos enfermos, as orações eram direcionadas também para essas pessoas com especial atenção. Uma demonstração, portanto, de fé, otimismo e tolerância à diferença de credo.
As mulheres desse grupo pensam em ir sempre adiante, gravar um compact disc25, viajar, divulgar sua cultura, seu canto e, para a maioria, participar do grupo não corresponde apenas a um lazer e relaxamento, mas faz parte de um compromisso que ajuda em tudo, até na recuperação da saúde delas (conforme o depoimento de algumas).
Hoje, as mulheres que vivem dentro do grupo encenam o que, para muitas delas, durante boa parte da vida, foi uma realidade árdua, entretanto, amenizada pelo canto. Destarte, suas histórias de outrora são lembradas com carinho e certo saudosismo, fazendo-as se renovarem a cada apresentação, com muitas histórias para contar e muitas lembranças que levam consigo, pois o canto parece sempre ter sido o sustentáculo para as atividades que desempenharam no passado, sendo atualmente a força motriz que anima e dá vazão às suas performances.