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LA MUTUALISATION DE LA FONCTION ACHATS SUR L’ACHAT DE FORMATION ?

No estudo em questão, investigamos interações discursivas no Espaço Ciência, tomando como referência videogravação de visita monitorada a essa instituição (LEITÃO 2009), da qual participaram 27 estudantes de 7ª série de uma escola estadual do Recife e um estudante de licenciatura em Física, monitor da visita.

Cientes de que o corpus construído numa pesquisa ‘não fala por si só’, pois, a depender das teorias que embasam o objeto de estudo e dos objetivos defendidos, este pode ‘dizer outras coisas’, adquirir novas perspectivas, optamos por trabalhar no doutorado com o corpus empírico construído em visita monitorada da nossa pesquisa de mestrado, agora com outro enfoque e novos aportes teóricos. Compreendendo que os participantes da pesquisa são produtores de discursos, os quais emergem com suas singularidades a partir de um determinado contexto ideológico discursivo, e tendo em vista os objetivos que nos mobilizaram, apoiamo-nos principalmente nos pressupostos da abordagem sócio-histórica para o estudo da linguagem, de Bakhtin e seu Círculo, assim como no que nos trazem Sasseron (2008), Sasseron e Carvalho (2008) , Cerati (2014) sobre a Alfabetização Científica e seus indicadores, para interpretarmos o referido corpus.

Assim, nosso objetivo geral se constituiu em compreender como as especificidades dos enunciados, que emergem da interação discursiva monitor /visitante no Espaço Ciência, promovem a Alfabetização Científica. Nesse sentido, procuramos mais especificamente:

 caracterizar os enunciados veiculados entre monitor e visitante do Espaço Ciência, recorrendo à teoria da enunciação, incluindo os conceitos de vozes, polifonia, dialogismo, gênero do discurso, interação verbal, discurso autoritário e discurso interiormente persuasivo ;

 compreender os papéis sociais desses interlocutores;

 analisar os enunciados produzidos na interação discursiva monitor/visitante, na perspectiva dos indicadores de Alfabetização Científica (SASSERON, 2008; SASSERON e CARVALHO, 2008; CERATI, 2014).

Adotamos nesta investigação a abordagem qualitativa, por ser esta “uma abordagem que se aprofunda no mundo dos significados das relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas.” (MINAYO, 1999, p. 22), caracterizada

sob a perspectiva do investigador e do ambiente real; pelo seu caráter descritivo e processual; pela forma indutiva quando se trata da análise do corpus empírico, e pelas perspectivas significantes. Consideramos nesse caso que os enunciados circunscritos à interação monitor/visitante no Espaço Ciência apresentam dimensões pessoais que podem mais adequadamente ser pesquisadas por essa abordagem.

Para Bogdan e Biklen (1994), na investigação qualitativa o investigador vai buscar os seus dados diretamente no ambiente natural, no mundo real; eles frequentam os locais de estudo porque entendem que as ações dos sujeitos podem ser melhor compreendidas no ambiente natural em que ocorrem, locais que precisam ser vistos no contexto da história das instituições a que pertencem.

No nosso caso, para a construção do corpus da pesquisa, realizada durante o mestrado, estivemos em contato com o Espaço Ciência durante aproximadamente oito meses, entre observação, escuta, registros, interação com funcionários e visitantes (LEITÃO, 2009). Na abordagem qualitativa, interessa ao investigador compreender em que circunstâncias se dá o comportamento humano, pois na sua compreensão “divorciar o ato, a palavra ou o gesto do seu contexto é perder de vista o significado (BOGDAN e BIKLEN, p. 48).

Para Esteban (2010), o próprio pesquisador é o instrumento principal nos estudos qualitativos, de quem se espera uma formação específica em nível teórico e metodológico para o trato de questões que demandam sensibilidade e percepção.

Ainda segundo Bogdan e Biklen (1994), algumas outras características podem ser observadas, quando se trata da abordagem qualitativa: o investigador qualitativo busca dados em forma de palavras ou imagens, nunca em forma de números. Esses vão se traduzir em notas de campo, fotografias, vídeos, transcrições de entrevistas, memorandos, outros. Nessa abordagem, o mundo deve ser examinado minuciosamente, pois tudo é pista em potencial para esclarecer o objeto de estudo; a descrição do que foi avaliado funciona para que não escape nenhum detalhe ao exame. Nesse caso, a palavra escrita é fundamental para o registro de dados e disseminação dos resultados.

Por essa abordagem, os resultados ou produtos na investigação qualitativa não são a prioridade para o investigador. Seu interesse maior, nesse caso, é muito mais para o processo. Como são negociados os significados pelas pessoas? Qual a história natural dos acontecimentos que se pretende estudar? Ainda mais: o investigador qualitativo, na análise dos dados, vai construindo suas abstrações no envolvimento com os sujeitos, e na medida em que os dados coletados vão sendo examinados e agrupados; não define os

resultados a priori. “Não presume que se sabe o suficiente para reconhecer as questões importantes antes de efetuar a investigação.” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 50).

Os autores supracitados lembram ainda que o sentido que as pessoas dão às suas vidas é de fundamental importância para os investigadores qualitativos, pois é através desse entendimento, desse diálogo que ocorre com os respectivos sujeitos, que estes podem fazer “luz sobre a dinâmica interna das situações, dinâmica esta que é frequentemente invisível para o observador exterior.” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 51). Adotamos as considerações de Bogdan e Biklen (1994) na perspectiva do que se compreende por corpus no campo da linguística e das ciências humanas e sociais, particularmente: um conjunto de informações, produzidas em função de um objeto de estudo, que vão ancorar a descrição e análise de um fenômeno. “Nesse sentido, a constituição do corpus é determinante para a pesquisa, pois trata-se de, a partir de um conjunto fechado e parcial, analisar um fenômeno mais vasto que essa amostra.” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 137).

A esses aspectos que tradicionalmente caracterizam a abordagem qualitativa, acrescentemos-lhes outros aspectos de igual relevância, a partir do que nos traz Esteban (2010), quando lembra que nos últimos anos, questões de poder, controle, construção e representação da realidade, legitimidade dos textos e o papel desempenhado pela classe, raça, gênero e etnia dentro da pesquisa têm sensibilizado os pesquisadores dessa abordagem, provocando um repensar do seu papel e da própria atividade investigativa. Assim, as atenções se voltam agora também para os elementos linguísticos, sociais, culturais, políticos e teóricos pela sua influência no processo de desenvolvimento do conhecimento, na linguagem e na narrativa, e na forma como marcam a produção dos textos. Segundo esse autor, trata-se da característica da reflexibilidade, que demanda um “olhar para a pessoa que pesquisa, o reconhecimento das premissas teóricas e também pessoais que modulam sua atuação, assim como sua relação com os participantes e a comunidade em que realiza o estudo.” (ESTEBAN, 2010, p. 130).

Na esteira dessas considerações, a pesquisa qualitativa deve se revestir também de “sistematicidade e rigor nas técnicas e nos procedimentos de pesquisa; esclarecimento da primazia da interpretação, consciência do caráter político-ideológico da pesquisa; e reflexão sobre o problema da representação e da autoridade.” (ALVESSON; SKOLDBERG, 2000, apud ESTEBAN, 2010, p. 130). Mas como ocorre o processo de pesquisa qualitativa? O que de fato caracteriza esse processo? Segundo Olabuénaga e Ispizua (1989 apud ESTEBAN, 2010) alerta que a pesquisa qualitativa, igualmente à quantitativa, está submetida

a um processo de desenvolvimento que percorre 5 fases: definição do problema, projeto de trabalho, coleta de dados, análise de dados, validação e relatório, entendendo-se que cada uma das estratégias de coleta de informação e cada um dos principais métodos qualitativos vão imprimir uma marca particular a cada uma dessas fases30. Defendendo uma concepção menos restritiva que o da visão tradicional, através da qual se superaria um processo de pesquisa que acontece de forma linear, que vai da formulação do problema até a geração de conclusões, Esteban (2010) acata o modelo interativo, que destaca a efetiva ligação entre as fases do processo e entre os componentes do projeto.

O referido autor nos remete a algumas características do projeto de pesquisa qualitativa, que relacionamos a seguir:

flexibilidade, não linearidade – na construção da proposta, há espaço para mudanças e redefinições, que podem ser do próprio problema de pesquisa ou da metodologia e das estratégias de investigação para abordá-lo;

holismo – a situação deve ser compreendida em sua totalidade;

contextualização – o projeto acontece em um contexto e cultura próprios;

relação pessoal e imediata – constata-se uma interação muito próxima entre pesquisador e sujeitos pesquisados;

compreensão – o pesquisador se volta para compreender o fenômeno social, não para predizê-lo;

permanência do pesquisador - é de fundamental importância, durante um certo tempo, a presença do investigador no local de estudo (como visto com os autores anteriormente citados);

desenvolvimento de uma teoria ou modelo – a situação social investigada deve proporcionar essa construção;

instrumento de coleta de dados – como instrumento principal, o pesquisador deve possuir habilidades para observar e entrevistar, e fazer análise contínua da informação;

ética – a ética é imperativa na negociação das decisões; papéis do pesquisador/preferências ideológicas – o projeto incorpora espaços para a sua descrição.

Vários são os pesquisadores a reconhecerem a amplitude do alcance da abordagem qualitativa no campo da educação, com reflexos para as pesquisas realizadas em museus (HOOPER-GREENHILL, 1994; McMANUS, 2000; STUDART et al, 2003; RUIZ, 2005;

30 Respeitamos a terminologia adotada por esses autores (ESTEBAN, 2010) quando usam a expressão ‘coleta de dados’, mas preferimos concordar com os mesmos quando assumem ‘coleta de informações’, e no sentido de que como pesquisadores produzimos informações em torno de um objeto de estudo.

MARANDINO, 2006; MARANDINO et al, 2009).

Ao retomar a trajetória dessas pesquisas, lembra-nos Hooper-Greenhill (1994 apud GRUZMAN, 2012) que, à luz da psicologia behaviorista, as primeiras pesquisas em torno das exposições em museus eram marcadas por uma visão positivista de análise social e cultural, pois se referendavam na aparente conduta do visitante, para identificar se estas alcançaram ou não os objetivos pretendidos pelos seus conceptores. Por essa via, os dados da pesquisa eram parciais, pois o investigador, salvo em alguns casos, atento apenas ao que fazia o visitante, ao seu comportamento, perdia de vista as motivações comportamentais deste, os seus processos interpretativos; não alcançavam, pois, os significados de suas condutas. Tratava-se de mensurar o comportamento e conhecimentos adquiridos pelo visitante com a exposição.

A pesquisadora vai chamar atenção, também, para o fato de outras perspectivas se abrirem no campo da pesquisa em educação em museus, afora aquelas que consideravam o conhecimento exterior ao aprendiz. São pesquisas de abordagem mais qualitativa e cunho mais sociológico, apoiadas nos estudos construtivistas, que concebem a construção do conhecimento como resultado da interação do indivíduo com o seu meio social. Nessa perspectiva, interessa aos pesquisadores as experiências, expectativas e necessidades dos visitantes, para que possam compreender os processos de interação que se dão entre os diversos sujeitos da ação educativa. É pautada nessa dimensão processual da educação que Hooper-Greenhill (1994) parte em defesa das pesquisas qualitativas no museu.

Na pesquisa que ora empreendemos, quando nos dispusemos a entender as interações discursivas no Espaço Ciência nos dispusemos também a acatar, na medida do possível, a máxima de Anfara Jr., Brow e Mangione (2002, p. 29): “uma boa investigação naturalista deve mostrar ao leitor o que há nas mãos e na cabeça dos pesquisadores.”

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