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16. DISCRETE ELEMENTS AND MASSES
16.9 Muscle Model
Forçar um país em desenvolvimento a se abrir a produtos importados, a submeter determinados setores da economia, vulneráveis à concorrência de produtos semelhantes, provenientes de outros países bem mais fortes, teve conseqüências desastrosas tanto do ponto de vista econômico quanto do prisma social, pois as elevadas taxas de juros impostas pelo FMI impossibilitaram criação de novos empregos, eliminando os já existentes, jogando os recém-desempregados na miséria, ante a falta de redes de segurança sociais adequadas. Logo,
24 Hot money são aplicações em títulos ou no câmbio atraídas por taxas de juros elevadas ou diferenças cambiais
significativas, de curtíssimo prazo, podendo deslocar-se de um mercado para outro com grande agilidade de flutuações de preços.
a liberalização não veio, em geral, acompanhada do crescimento prometido, porém, do crescimento da miséria em todo o mundo.
O FMI impôs aos países em desenvolvimento a liberalização do mercado de capitais, a qual deixou um rastro de devastação econômica e social, oriunda da violência do dinheiro volátil, da especulação financeira, tendo Stiglitz assim se manifestado:
Os pequenos países em desenvolvimento são como pequenos barcos. Uma liberalização rápida do mercado de capitais, da maneira imposta pelo FMI, equivale a fazer com que eles façam uma viagem em mares revoltos antes que os furos em seus cascos tenham sido consertados, antes que o capitão tenha recebido treinamento, antes que os coletes salva-vidas tenham sido colocados a bordo. Mesmo na melhor das circunstancias, há uma grande probabilidade desses barcos afundarem quando forem atingidos no costado por uma grande onda.25
Mais uma vez aflorou a hipocrisia dos países industrializados, visto que as suas economias foram montadas protegendo alguns dos seus setores com seletividade, até que estivessem fortes o bastante para concorrer com as empresas estrangeiras.
Como já se abordou algures, a aplicação de teorias econômicas equivocadas não representaria um problema se o final, primeiro do colonialismo, depois do comunismo, não tivesse propiciado ao FMI e ao Banco Mundial a oportunidade de ampliação das suas respectivas competências originais, tornando-se participantes dominantes da Economia Mundial.
3.1.5 O papel do investimento estrangeiro.
Poder-se-ia dizer que o papel do investimento estrangeiro poderia facilmente se constituir um quarto pilar do Consenso de Washington, visto ser fundamental para o entendimento da nova globalização.
A privatização, a liberalização e a macroestabilidade supostamente criam um clima que atrai investimentos, incluindo os provenientes do exterior.
25 STIGLITZ, 2003, op. cit. p. 44.
Os investimentos estrangeiros, em tese, gerariam empregos, bem como as empresas multinacionais com filiais nesses países trariam especialização técnica, acesso aos mercados estrangeiros e a fontes de financiamentos internacionais.
Contudo, quando uma empresa estrangeira aporta em um país em desenvolvimento, trata de destruir os concorrentes locais, aniquilando as ambições de pequenos empresários que, até então, esperavam desenvolver setores domésticos. Citem-se como exemplos as entradas da Coca-Cola, da Pepsi e da Univeler, em alguns países, impossibilitando os empresários locais de competirem.
Normalmente essas empresas, num primeiro momento, atraem os consumidores através de preços mais baixos, porém isso dura apenas até a eliminação da concorrência. Os benefícios dos preços baixos têm vida efêmera, ante a falta de leis rígidas e efetivamente fiscalizadas, a propiciar uma real concorrência. Em suma, temos apenas uma falácia da melhoria das condições dos consumidores em decorrência dos investimentos estrangeiros.
Em regra, tais investimentos florescem apenas em virtude de privilégios especiais conseguidos com o governo. Embora a economia padrão se concentre nas distorções dos incentivos que resultam de tais privilégios, existe um aspecto muito mais traiçoeiro: em geral, esses privilégios são resultado da corrupção de funcionários do governo.
O setor bancário é uma das áreas onde se constata o atropelo das instituições locais. Os grandes bancos norte-americanos podem oferecer maior segurança aos clientes do que os pequenos bancos locais (a menos que o governo local conceda garantias aos depósitos). A insistência americana para a abertura do setor bancário ao capital estrangeiro, funda-se na justificativa de que uma maior concorrência pode gerar serviços melhores e o que o poder financeiro poderá otimizar a estabilidade financeira.
Ainda assim, a ameaça que os bancos estrangeiros representam ao setor bancário local é muito presente. A Argentina mostra o perigo que os bancos estrangeiros representam. Antes
do colapso de 2001, o setor bancário argentino havia sido dominado pelos bancos estrangeiros e apesar desses bancos fornecerem recursos financeiros com facilidade para as multinacionais e para as grandes empresas locais, recusavam-se a fornecê-los às pequenas e médias empresas argentinas que não podiam contar com nenhum capital.
Essa experiência Argentina ilustra algumas lições básicas: o FMI e o Banco Mundial vêm enfatizando a importância da estabilidade bancária. É fácil criar bancos sólidos, que não percam dinheiro em decorrência de empréstimos ruins. É só exigir que invistam em títulos do Tesouro dos Estados Unidos. O desafio, todavia, não é só criar instituições bancárias sólidas, mas criar instituições que forneçam crédito para o crescimento. O exemplo argentino mostra que não fazer isso pode gerar macroinstabilidade, visto que, por falta de crescimento, o Estado argentino acumulou déficits fiscais e, por pressão do FMI, foi forçado a cortar despesas e aumentar os impostos. Assim, uma espiral viciosa decrescente de declínio econômico e social foi posta em movimento.
As instituições financeiras internacionais tendiam a ignorar os problemas supramencionados. As recomendações do FMI para gerar empregos eram simples: eliminar a intervenção do governo na forma de uma regulamentação opressiva; reduzir impostos; fazer com que a inflação ficasse no nível mais baixo possível e atrair empreendimentos estrangeiros, refletindo uma política colonialista, de maneira que os países em desenvolvimento teriam que depender sempre dos investimentos estrangeiros.
Instalou-se na economia “um darwinismo social e político”, patrocinado pelo FMI e pelo Banco Mundial. Nesse diapasão, Bandeira de Mello assim se manifesta sobre a globalização.
Por meio dela, fantasiadas de análises político-econômicas, foram vendidas como os mais sofisticados ingredientes de merchandising, as “palavras de ordem”: “reforma do Estado”, para reduzir-lhe a atuação ao mínimo; “privatização”, para passar a mãos privadas a titularidade ou meramente a prestação de serviços; “flexibilização” da legislação protetora dos economicamente hipossuficientes e irrestrita abertura dos mercados dos países subdesenvolvidos para que não houvessem peias algumas tanto
à ocupação de seus mercados pelos países cêntricos quando ao fluxo do capital especulativo internacional [...]26