A coleta de dados foi feita pelo próprio pesquisador com nove (09) das doze (12) entrevistadas. As outras três entrevistas foram executadas por bolsista voluntária treinada e supervisionada à distância pelo autor da tese. Realizada entre os meses de junho a outubro de 2015. Foram agendados hora e local, sempre procurando privilegiar os interesses dos sujeitos. Não houve recusas em participar do estudo, contudo, uma (01) entrevista foi removida acidentalmente do aparelho gravador.
No contato inicial foram explicitados: a justificativa, os objetivos, a metodologia, informados os aspectos éticos envolvidos na investigação, bem como, agendado dia, horário e local da realização da entrevista, solicitada a participação do indivíduo no processo, bem como, a disponibilização do acervo de fotos, objetos e documentos pessoais que julgasse interessante para o entendimento da sua vida de militante na Enfermagem.
Para Alberti (2005), nesse contato pode ser solicitado ao entrevistado documentos pessoais, currículo, fotografias e outros registros de seu passado, que serão considerados quando da preparação do roteiro individual de entrevista. Foi adotado esse procedimento na pesquisa em questão, tendo em vista que as entrevistas na pesquisa qualitativa não são rigorosamente estruturadas.
Nesta direção, para esta autora, o contato inicial é muito importante porque constitui o primeiro momento de avaliação recíproca, base sobre a qual se desenvolverá a relação de entrevista. Cabendo, nesse estágio inicial, a explicitação sobre o método de história oral, colocando o entrevistado a par dos propósitos de pesquisa, dando destaque para:
tornar o depoimento do entrevistado claro;
mostrar franqueza na descrição dos propósitos de trabalho e na condução das entrevistas e;
evidenciar o respeito que nutre pelo entrevistado, enquanto sujeito produtor de significados outros que os dos pesquisadores.
Meihy (1996) discorrendo sobre a história oral, destacou três aspectos: o entrevistado, o entrevistador e o aparelho de gravação. Alberti (2005) acrescenta que o gravador permite a produção do documento, no retorno à fonte, na montagem dos acervos de depoimentos, na autenticidade dos trechos transcritos e na análise das entrevistas.
Dada à importância dessa ferramenta, os mesmos autores apontam para a escolha e características técnicas do aparelho escolhido, destacando a presença de microfone embutido, a capacidade de captação da voz e da eliminação de ruídos do ambiente. Além de considerar as características dos entrevistados da pesquisa, bem como, a idade e a tonalidade da voz.
Alberti (2005) aponta para as desvantagens do uso do aparelho, destacando que inicialmente, ele pode constranger o sujeito entrevistado e causar uma preocupação com a linguagem, o peso de suas palavras, podendo resultar em discursos laboriosos e/ou uma inibição exacerbada.
Na execução da etapa de coleta dos dados pudemos observar que em um primeiro momento, ocorria certa inibição com o uso do aparelho, mas, após o entendimento da
importância deste para o registro fidedigno da fala do entrevistado e com o decorrer da entrevista, a ferramenta era esquecida e muitas vezes, o entrevistado dizia: “ó está gravando, podia falar isso não”. Explicávamos, em seguida, que a entrevista iria passar pela validação do entrevistado e que este poderia suprimir ou modificar qualquer parte que não concordasse com a publicação.
Em muitos momentos percebemos medo nos entrevistados, quando escapava algo que não podia ser dito no discurso oficial, na visão deles, quando afirmavam: “não divulgue isso não”, “você vai tirar isso”, “desligue o gravador para eu te contar”.
Durante a execução da entrevista ficamos atentos ao manuseio do gravador, à qualidade, ao volume e à interrupção da gravação. Como precaução, em algumas entrevistas, foram utilizados dois aparelhos gravadores: um do aparelho celular e outro do aparelho de gravação Sony.
Tentamos sempre manter como local de gravação ambientes fechados, com o mínimo de ruído possível, garantindo a disponibilidade do entrevistado na data, local e horários marcados, na intenção de evitar ou diminuir interrupções da entrevista. Porém, em uma das entrevistas, a depoente disse que preferia que fosse realizada em sua casa, e ao chegarmos, ela pediu que ficássemos numa parte reservada do playground, e durante a audição da entrevista percebemos muito ruído.
As entrevistas duraram em média duas horas e trinta minutos e após o término desta, pactuamos o processo de validação da transcrição da fala dos participantes, conforme descrito abaixo.
Esta fase da pesquisa demanda muito tempo, atenção e dedicação, sendo que em muitos estudos, cada hora de gravação equivale a seis (06) horas de escuta e transcrição, sendo imprescindível muita atenção para inserção das questões apontadas no caderno de campo, na entrevista em si, como a entonação de voz, as pausas e outros sinais emitidos pelo entrevistado.
No caso do estudo, a transcrição foi realizada pelas bolsistas e esta etapa demorou muito, pois, cada entrevista levou mais de quarenta (40) dias para ser transcrita, segundo elas, pela dificuldade na audição de algumas, o que foi necessário muita atenção e compreensão de termos distantes da realidade das mesmas.
O referencial teórico estudado apontou para a transcrição das entrevistas logo após a sua execução, afim de que os aspectos subjetivos sejam mais fáceis de serem recuperados pelo pesquisador e/ou a detecção precoce da necessidade de retorno ao investigado, caso os dados transcritos assim exijam.
Para Alberti (2005) as etapas do processamento devem ser realizadas sucessivamente, de modo que a qualidade de cada uma delas influencie na realização das posteriores. Destaca que na etapa de transcrição devem ser observados os seguintes aspectos: quem faz, sendo recomendado transcritores treinados, inteirados da pesquisa; como fazer, cabendo inserção do cabeçalho, da indicação das mídias, as iniciais dos falantes e a compreensão da importância de inserir tudo o que foi dito, sem fazer acréscimos ou cortes, bem como, a inserção de marcações, que são baseadas nos registros do caderno de campo.
Nesta tese, como dito anteriormente, contamos com bolsistas que se aproximaram da temática em inicial, estudaram a metodologia da tese, discutiram em duas reuniões sobre a pesquisa, acompanharam algumas entrevistas, quando ficaram responsáveis pelo manuseio dos recursos e preferencialmente, transcreveram as entrevistas que acompanharam.
Portanto, esta pesquisa contou com uma equipe treinada de transcritores e foram encaminhadas por e-mail às participantes a entrevista transcrita para validação das falas, dado prazo para revisão, possibilitado a alteração do texto, com prazo para consecução da atividade, sendo que três (03) entrevistadas alteraram o texto e as demais não se pronunciaram e só depois disso as entrevistas foram transcritas.
Por fim, afirma Thiollent (1982) que é muito difícil retratar no texto transcrito o clima da entrevista, os gestos, a voz, a entonação, as ênfases do entrevistado. Assim, uma pontuação errada, uma vírgula deslocada, mudará o sentido do que foi dito e interferirá no resultado do estudo.
6.6 REGISTROS DE CAMPO: sentimentos do entrevistador
Nesse tópico e por questões de construção textual apontarei os sentimentos e as reflexões que fiz a cada entrevista, apesar de perceber que havia certa repetição e ao mesmo tempo o novo em cada coleta de dados.
A primeira entrevista, do rol das selecionadas como sujeitos do estudo que implementei, após o meu casamento civil, estava ansioso para ver como iria ser a entrevista, uma vez que do pré-teste para o momento de coleta de dados, foram modificadas várias questões, inclusive pelas leituras de Foucault.
Estava com uma bolsista, fomos muito bem acolhidos pela militante e vi ali aspectos da vida, da minha vida e das minhas preocupações de modo geral com o futuro, refleti sobre a solidão, o envelhecimento e as mudanças e transformações marcadas pelo tempo.
Não vi ali em minha frente uma militante, aliás, ela mesmo assumia isto, vi uma cidadã implicada com a profissão, que contribuiu para a categoria por um momento da vida e nessa entrevista percebi uma militância afastada da rua. E saí preocupado, será que a militância, o ativismo político de rua não existiam na profissão?
Depois de muito refletir, vi que ali estavam as minhas expectativas como pesquisador-pessoa, contudo, teria que deixar o fenômeno aparecer como de fato é. Assim prossegui a segunda entrevista e lá encontrei uma militante acolhedora, espiritualizada. Porém, como ela se definiu, aposentada e implicada em questões outras.
Segui para a terceira entrevista, desta vez com uma bolsista, que fora tomada por grande ansiedade, pois ela havia desmarcado três vezes e era considerada uma expressividade da militância na Enfermagem e foi quando eu encontrei o fenômeno. Era uma mulher com vida nos olhos, com senso de humor, motivada com a oportunidade de contribuir com a pesquisa, trouxe várias fotos, placas e certificados.
Esta entrevista foi bastante demorada, mas, contudo, percebi no transcorrer da coleta, uma militância individualizada, centrada na pessoa. Entendi que à minha frente estava uma liderança política e apaixonada pela Enfermagem.
Já na quarta entrevista, percebi o incômodo da militante em falar, pois, ela passava por um momento profissional difícil, havia sido transferida de setor e vi que ela concedeu a entrevista muito mais por uma amizade; senti que não havia uma expressão militante visível, contudo, assumiu um cargo diretivo pelo projeto de um grupo em específico e por questões da falta de candidatos para concorrer ao cargo. Essa entrevista foi inutilizada, ou seja, por um acidente, a bolsista que me acompanhava apagou o conteúdo.
Não refiz esta entrevista pelo atendimento do critério de exclusão durante a tentativa de remarcar e dando prosseguimento, fui ao encontro do quinto sujeito do estudo, uma expoente da Enfermagem, uma mulher muito atuante, com prática militante de fato, que assumiu diversos cargos de poder e pela amizade que tenho com a mesma, ela se abriu durante a entrevista.
Ouvi coisas que me chocaram e me fizeram perceber a fragilidade das instituições representativas da Enfermagem. Sobre uma das coisas que ouvi: que tal instituição, era um vazio [palavras dela]. Fiquei tomado e triste com essa frase e fui para casa pensando o que seria dessa profissão com tanta fragilidade política e representativa.
Durante o período preparatório da sexta entrevista, fui tomado por medo de entrevistar uma militante de personalidade marcante, uma mulher muito culta e que admiro demais. Essa entrevista me causou exaustão total, foi de muita profundidade e aprendizado.
Contudo percebi que a minha frente estava uma militante extremamente intelectualizada, com uma trajetória profissional condizente com o título de militante e saí dessa entrevista com a certeza de que ali estava tudo que eu procurava e vou destacar três coisas que me chamaram a atenção: apesar de ser da ABEn, ela afirmou que a Associação não tem a dimensão política, não foi criada para esse fim, nem tem isto em seus regulamentos; em segundo lugar, ela afirmou que não existe carreira militante e por último o fato da ABEn ter se tornado uma Organização Social.
Já na sétima entrevistada percebi que a militante tinha se afastado das questões da Enfermagem e fiquei a pensar, como a militância poderia se revestir, militância como um campo subjetivo, atrelado a uma conjunção de forças, com diversas nuances e marcada essencialmente pelo tempo e pelas paixões.
A oitava foi a coleta dos desencontros. Estava para excluir a entrevistada do rol da amostra – era o quarto contato – quando finalmente fui respondido. Essa mulher foi e é um expoente nacional da Enfermagem e poderia contribuir muito com o estudo. Fui surpreendido com a disposição da mesma, que se preparou para sua entrevista. Foi uma coleta extensa, ela falava de modo muito sereno, porém, muito firme e implicado com a profissão, dando diversas sugestões para fortalecer a militância na profissão. Sendo uma entrevista em profundidade, a mesma chegou a dizer: “mas isso é uma terapia ou uma pesquisa?”. Enfim, foi muito gratificante e motivador entrevistá-la.
Na nona entrevista percebi a militante com a agenda com muitas atividades profissionais e por isso conseguimos uma agenda muito próxima da minha viagem para o doutorado sanduíche. Fui com uma bolsista, observei nesta entrevista uma mulher intelectualizada, extremamente polida, com posições firmes e muitas vivências de perseguições no campo da Enfermagem.
Outro estranhamento foi com relação à dificuldade de entendimento das entrevistadas frente à pergunta sobre a militância política e poder, se a militância na Enfermagem estava atrelada ao poder ou ao não-poder, houve uma dificuldade generalizada. Este achado tem consonância com o apontado por Melo e Santos (2007) ao identificarem uma visão restrita das enfermeiras quanto ao seu papel político, de uma participação política incipiente, de pouca valorização quanto a esta forma de participação, embora elas ocupem espaços diferentes, relevantes e de caráter político-técnico.
Em outro cenário e após essa etapa, me permitindo uma licença poética, percebo a militância como rosas abertas, que toda dimensão está incutida no ser, inerente ao humano. Mas, quando deixam de exercer-se politicamente ficam como botões que não desabrocham e
morrem fechados, quer pela falta de coragem, quer de capacidade, deixam de experimentar suas belezas e o mundo lá fora e por assim dizer alienados.
Do mesmo modo que tive a ideia de nominar as entrevistadas com o prenome de Rosa dos Ventos, pois, ao mergulhar no seu universo tive a impressão de fazer contato com Iansã, um orixá das religiões de matriz africana. Uma deusa que rege os raios, ventos e as tempestades, conhecida como mãe do entardecer, mãe do céu rosado. Símbolo de feminilidade, coragem e força.
FIGURA 4 Iansã
Outro motivo está vinculado a uma interprete e cantora brasileira, Maria Bethânia, que canta a canção nominada Rosa dos Ventos, composta por Chico Buarque de Holanda, que para mim fala do caos que gera a força e a esperança:
E do amor gritou-se o escândalo Do medo criou-se o trágico No rosto pintou-se o pálido E não rolou uma lágrima Nem uma lástima para socorrer E na gente deu o hábito De caminhar pelas trevas De murmurar entre as pregas De tirar leite das pedras De ver o tempo correr Mas sob o sono dos séculos Amanheceu o espetáculo Como uma chuva de pétalas Como se o céu vendo as penas Morresse de pena
E chovesse o perdão E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores A calma dos lagos zangou-se A rosa-dos-ventos danou-se O leito do rio fartou-se E inundou de água doce A amargura do mar Numa enchente amazônica Numa explosão atlântica E a multidão vendo em pânico E a multidão vendo atônita Ainda que tarde
O seu despertar
Por esses motivos e por outros tantos que venho descobrindo, mantive esse prenome para as participantes do estudo.