3.1 CONTROLS AND INDICATORS
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A tese está estruturada em quatro referenciais. Dois metodológicos, a pesquisa histórica e a Hermenêutica Dialética. Um filosófico, proposto pelo acervo literário e científico de Michel Foucault, abrangendo as diversas perspectivas da constituição de sujeitos militantes e por fim, o referencial das bases teóricas e filosóficas da Enfermagem.
O objetivo central desta tese é analisar a constituição de enfermerias militantes, sendo que para tal foram utilizados o acervo teórico de Foucault, que para muitos estudiosos e para o próprio, tem como cerne central o sujeito, que se fundamenta na discordância da divisão das três etapas epistemológicas de Foucault: a arqueologia, a genealogia e os estudos da ética com as técnicas de si.
Resgatando a definição de sujeito baseando-se na obra de Revel (2011), podemos afirmar a existência de três tipos de sujeitos: os do conhecimento, marcados por uma ontologia histórica de nós mesmos em nossas relações com a verdade; os sujeitos políticos, representados por sujeitos que agem sobre os outros, sujeitos que estabelecem relações de poder; e por fim, os sujeitos éticos, representados nas nossas relações com a moral, a qual permite que nos constituamos como agentes éticos.
Nesta tese nos debruçamos no sujeito político, que exerce algum tipo de poder e ou contra-poder, constituindo uma análise vertical, entrelaçada com uma compreensão horizontal do sujeito, passando pelos saberes, poder, dispositivos e técnicas de si.
Contudo, considerando que o objeto de estudo de Foucault sempre foi o sujeito, seja na fase arqueológica, genealógica e na etapa dos estudos relacionados à ética, nos respaldamos nos enunciados de alguns autores que estudam a obra de MF, em destaque para as assertivas encontradas na literatura:
a) de acordo com Fonseca (2012), fica explicitado que tanto as práticas de saber, como as de si e de poder, vão constituir esse sujeito, sua subjetivação ou assujeitamento, que se conforma na hermenêutica do sujeito, sendo constituído na circularidade dos processos de objetivação e subjetivação;
b) a problematização de Foucault (2000), ao discutir as ciências humanas, trazendo a complexidade do objeto e contexto, a positividade dos saberes, o encadeamento dedutivo linear, a relação de elementos descontínuos, mas análogos e reflexão filosófica, do homem alienado, das formas simbólicas;
c) para Pez (2016), a constituição do sujeito acontece através de mecanismos de objetivação e subjetivação, tendo como um dos eixos dos mecanismos de objetivação, descritos em processo e recursos de adestramento para tornar o homem/mulher dócil e útil. Já com relação aos mecanismos de subjetivação podemos destacar quando o sujeito tem uma identidade atribuída como sua;
d) conforme Brunni (1989), o homem é concebido como sujeito ativo, autor que tem seu próprio ser destinado à revolução, à liberdade e à conquista da natureza. O sujeito não está dado nem acabado; o conceito de sujeito não é estático; não há dominação absoluta, existindo práticas de liberdade constituídas em meio às lutas políticas.
Desse modo, é perpetrada uma análise foucaultiana e hermenêutica das histórias orais das enfermeiras militantes, para analise da sua constituição, buscando identificar os enunciados discursivos, os dispositivos genealógicos e as técnicas de si para composição analítica da tese.
Isto posto, a partir da pré-análise das histórias orais, realizadas com o software N- Vivo e da análise com a Hermenêutica e Dialética emergiram as seguintes categorias analíticas:
ARQUEOLOGIA DISCURSIVA: os saberes constitutivos de enfermeiras militantes.
Em específico, nesta categoria, a arqueologia discursiva, os saberes constitutivos de enfermeiras militantes, nos detemos a aspectos do enunciado discursivo, buscando identificar aspectos como a tradição, intencionalidades e temporalidade das falas. Tal decisão está ancorada, de modo central, em duas obras: Arqueologia do saber (FOUCALT, 2014) e As palavras e as coisas (FOUCAULT, 2000).
Segundo Foucault (2014, p.27):
em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos conjurar seus poderes e perigos, dominar o acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.
Porém, Revel (2011) complementa que a arqueologia se concentra em recortes históricos precisos a fim de descrever, não só a maneira pela qual os diferentes saberes locais se determinam, a partir da construção de novos objetos que surgiram em um determinado momento, mas também, como eles se correspondem entre si e descrevem de maneira horizontal uma configuração epistêmica coerente.
Para essa autora, no interior da arqueologia encontram-se, tanto a ideia da arca, centrada na ideia dos objetos de conhecimento, como a ideia de arquivo, centrada no registro desses objetos. Por isso, é de importância a leitura horizontal das discursividades por meio da análise vertical, direcionada ao presente das determinações históricas de nosso próprio regime de discurso.
Em uma direção mais operativa, Muchail (2004) afirma que nas análises de MF, os discursos são tomados em sua positividade como “fatos” e trata-se de buscar sua origem ou seu sentido secreto, mas, as condições de sua emergência, as regras que presidem seu surgimento, seu funcionamento, suas mudanças, seu desaparecimento, em determinada época, assim como as novas regras que presidem a formação de novos discursos. Todos esses apontamentos provocam a indução da análise da constituição de enfermeiras militantes a partir dos seus discursos, na identificação vertical de uma temporalidade e na análise horizontal na construção das discursividades e na identificação de saberes.
O PANÓPTICO NA HISTÓRIA DE VIDA DE ENFERMEIRAS MILITANTES
Duas das categorias analíticas versam sobre os dispositivos genealógicos de enfermeiras militantes, o panóptico na história de vida e as práticas de liberdade de Enfermeiras, pela construção de outras modalidades de objetivação da Enfermagem, configurando-se no desfecho teórico aplicado das obras de MF ao objeto desta pesquisa: Microfísica do Poder (1998), A ordem do discurso (2014) Vigiar e Punir (1999) e Estratégia, Poder-Saber (2012).
Em uma perspectiva conceitual, Revel (2011) apresenta quatro núcleos teóricos: genealogia, poder, disciplina e libertação.
A genealogia entendida como uma investigação histórica, que se opõe ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teologias. O qual se opõe à unicidade da narrativa histórica e à busca da origem.
Nesta perspectiva, segundo Foucault (2014), é preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, na pontualidade em que aparece e na dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até os menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, na poeira dos livros.
O método genealógico é a tentativa de desassujeitar os saberes históricos, isto é, de torná-los capazes de se opor e de lutar contra a ordem do discurso. Isso significa que a
genealogia não busca somente no passado a marca dos acontecimentos singulares, mas que ela se questiona a respeito da possibilidade dos acontecimentos dos dias de hoje. Ela nos resgatará da contingência que nos fez ser o que somos e da possibilidade de não ser mais.
Por fim, a genealogia trata de uma história que tenta descrever uma gênese no tempo, onde os discursos são lidos e analisados, mas isso é feito de modo a mantê-los em constante tensão com as práticas de poder. A genealogia busca descrever a antítese das essências (as ascendências – uma investigação que não busca terrenos firmes, senão areias movediças, fragmentos, omissões e incoerências deixados de fora pela história tradicional).
Tal perspectiva agrega validade interna à opção metodológica da análise de dados fundamentada na Hermenêutica Dialética, bem como, a tipologia do estudo ser baseado no método de história oral.
Quanto ao poder, para MF só existe em ação, é exercido. Não se troca, não se vende, não retorna. O poder é relação de força. O poder é que reprime a natureza, os indivíduos, os instintos e uma classe. O poder é essencialmente repressivo. O poder não deve ser analisado dentro de uma perspectiva teórica e contratual, mas em termos de combate, de confronto e de guerra.
Diante desta direção, da análise do poder, para Revel (2011) é necessário que sejam firmados pontos como: sistema de diferenciação, objetivo dessa ação sobre a ação dos outros, modalidades instrumentais, formas de institucionalização e grau de racionalização em função de alguns indicadores.
Enfim, para MF o poder constitui uma história dos diferentes modos pelos quais, em nossa cultura, os seres humanos tornaram-se sujeitos, resumindo em três modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos: o primeiro é determinado pelo saber, o segundo está representado nas práticas de dominação/libertação dos sujeitos e o terceiro é o modo pelo qual um ser humano torna-se sujeito-ético.
No estudo em questão, a partir da pré-análise dos dados, adotamos o modo de objetivação das práticas de dominação e libertação reveladas no cotidiano das militantes, o que tornou imprescindível discutir módulos conceituais chaves, disciplinas e técnicas de disciplinarização que confluem para a alienação e no outro módulo, as práticas de libertação.
Sobre os processos regionais de disciplinarização que se desenvolveram na época clássica em escolas, exércitos, prisões e nos hospitais, que apesar de possuírem especificidade tais disciplinas têm características comuns como: a distribuição dos indivíduos no espaço; o controle da atividade; a vigilância perpétua; a sanção normalizadora; o registro das observações.
Para Revel (2011), o regime disciplinar caracteriza-se por um regime de técnicas de coerção, exercidas segundo um esquadrinhamento esquemático do tempo, do espaço e do movimento dos indivíduos e que abrangem, particularmente, as atitudes, os gestos e os corpos. Observamos nos discursos as técnicas de disciplinarização e alienação das enfermeiras, no âmbito da formação universitária, familiar e do trabalho.
AS PRÁTICAS DE LIBERDADE DE ENFERMEIRAS PELA CONSTRUÇÃO DE OUTRAS MODALIDADES DE OBJETIVAÇÃO DA ENFERMAGEM
Essa foi a segunda categoria de análise, relacionada aos dispositivos genealógicos de enfermeiras militantes, às práticas de liberdade de enfermeiras pela construção de outras modalidades de objetivação da Enfermagem, configurando-se no desfecho teórico divergente dos processos de disciplinarização, também fundamentado nas obras de MF, tais como: Microfísica do Poder (1998), A ordem do discurso (2014), Vigiar e Punir (1999) e Estratégia, Poder-Saber (2012).
Nesta direção, identificamos as práticas de liberdade nos discursos das enfermeiras, que para MF é no interior das relações de poder, invertendo-as, dobrando-as e reapropriando- se delas que se afirmará sua própria liberdade, que se afirmará a partir de uma relação ética – constitutiva e criadora com o si.
A partir da categoria analítica: as práticas de liberdade de Enfermeiras pela construção de outras modalidades de objetivação da Enfermagem foi necessário enveredar para os estudos da ética de MF, em especial a ética do cuidado de si como prática de liberdade, ao discutir uma série de procedimentos que pretendem registrar a verdade do indivíduo.
Em especial, tendo como pontos de articulação, entre a preocupação e a luta política pelo respeito dos direitos, entre a reflexão crítica contra as técnicas abusivas de governo e a investigação ética, permite instituir a liberdade individual e o imperativo socrático: “ocupa-te de ti mesmo”. “Constitua-te livremente, pelo domínio de ti mesmo”.
AS TECNOLOGIAS DE PRODUÇÃO DE SUJEITOS MILITANTES NA ENFERMAGEM
Por último, este núcleo de sentido emergiu da análise de dados, as tecnologias de produção de sujeitos militantes na Enfermagem, aqui entendidas como a maneira pela qual os indivíduos se relacionam consigo e tornam possível a relação com outrem.
Em uma perspectiva teórica, as técnicas de compreensão do sujeito são classificadas em:
técnicas de produção graças às quais podemos produzir, transformar e manipular objetos, que para análise de dados, ficaram explícitos os aspectos constitutivos de militantes na Enfermagem em sua dimensão formativa;
técnicas de sistemas de signos, que permitem a utilização de signos, de sentidos, de símbolos ou de significação. Representado no estudo através da categoria: aspectos constitutivos de militantes na Enfermagem: os sistemas e signos;
técnicas de si, que permitem aos indivíduos efetuarem, sozinhos ou com a ajuda de outros, certo número de operações sobre seus corpos e suas almas, seus pensamentos, suas condutas, seus modos de ser; de transformarem-se a fim de atender um certo estado de felicidade, de pureza, de sabedoria, de perfeição ou de imortalidade. Representado no estudo através da categoria: a cultura de si de enfermeiras militantes.
E por isso, configuramos três sub-categorias de análise:
A. Aspectos constitutivos de militantes na Enfermagem: a produção de sujeitos políticos;
B. Aspectos constitutivos de militantes na Enfermagem: os sistemas e signos; C. A cultura de si de enfermeiras militantes.