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MULTI-PROTOCOL ARCHITECTURES

As inovações tecnológicas da medicina colaboram no aumento da expectativa de vida e consequentemente despertam estudos na melhoria da qualidade, para além da quantidade. O crescente aumento da população idosa com doenças crônicas desperta o olhar dos profissionais de saúde para a promoção, prevenção, tratamento e reabilitação para manutenção de uma vida digna diante das limitações presentes.

Visando melhorar também a qualidade de vida conjunto a esse aumento de expectativa de vida quantitativo, crescem as pesquisas sobre o tema. Porém, qualidade de vida é um termo subjetivo de difícil conceito geral, pela singularidade que afeta a cada indivíduo, de acordo com suas experiências, histórias de vida dentre outros.

Estar em situação de rua é uma condição imposta que inviabiliza o exercício dos direitos humanos fundamentais e com isso, interfere na qualidade de vida. A vivência do preconceito, estigma e violência que sofrem, além do desafio de tentar suprir suas necessidades humanas básicas a cada instante, é uma violação de direitos que dificilmente não afetará suas condições de saúde física e mental.

Qualidade de vida é:

Uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. O termo abrange muitos significados, que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo, portanto, uma construção social com a marca da relatividade cultural (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2000, p. 10).

Fundamentado nessa compreensão de qualidade de vida, parte-se para a análise do significado do termo para as pessoas em situação de rua. Em seus relatos, conceituam qualidade

de vida como saúde, alimentação e moradia, conforme pode ser observado nas transcrições abaixo:

Minha qualidade de vida é boa porque eu tenho bastante saúde, o resto é de menos. E graças a Deus eu tenho bastante saúde. (homem, 70 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016).

Ter saúde, alimentação e um lugar para morar, é uma qualidade de vida boa... (homem, 70 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016).

Está certo que a gente já morou na rua, agora não estou mais morando na rua, estou me considerando mais feliz, graças a Deus. (mulher,80 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016).

Considerando que a expectativa de vida para essa população é menor se comparada à população geral, da mesma forma os acometimentos à saúde e as limitações são maiores, em consequência da condição de vida que levam. Observa-se que a saúde foi mencionada como um preditivo para ter qualidade de vida por eles inúmeras vezes, bem como o desejo de estar com a saúde restaurada para voltar a fazer as atividades que fazia anteriormente, principalmente o trabalho que lhe garantia a alimentação diária e o sentido de vida (de acordo com a sociedade capitalista, como já discutido).

Para outro grupo de pessoas idosas em situação de rua, a qualidade de vida está pautada na família.

Qualidade de vida, só se eu estivesse com a mulher, aí ia ser outro... ia ser diferente, ia ter mais força. (homem, 62 anos, rua, entrevista realizada no dia 7 de maio de 2016). Qualidade de vida se eu tivesse um familiar que me cuidasse. (homem, 62 anos, rua, entrevista realizada no dia 7 de maio de 2016).

Aqui exprimem o desejo e a necessidade de um vínculo e/ou um apoio familiar para lhe cuidar e dividir as experiências vivenciadas no envelhecimento. Com o passar dos anos, o aumento das limitações de atividades de vida diária (AVDs*24), bem como as patologias e as dores no corpo que acometem essas pessoas, levam à autorreflexão sobre a necessidade social de apoio e de vínculo afetivo para enfrentar as dificuldades dessa fase da vida.

O grupo de especialistas em QDV da OMS elaborou um instrumento genérico de avaliação de QDV, usando um enfoque transcultural (THE WHOQOL GROUP, 1995) e

24 Atividades básicas de vida diária (ABVDs), relacionadas ao autocuidado, e as instrumentais (AIVDs), relacionadas à capacidade de administração do ambiente de vida dentro e fora do lar. Como o estado funcional é uma dimensão base para a avaliação gerontológica, muitos questionários específicos para determinação da avaliação das AVDs são propostos e amplamente utilizados, com destaque para o Índice de Katz (ABVDs), o Índice de Lawton-Brody e o Índice Pfeffer (MARRA et al., 2007).

considera que, embora não haja definição consensual de QDV, há concordância considerável entre os pesquisadores acerca de algumas características do construto, sendo três as principais: subjetividade, multidimensionalidade e bipolaridade (FREITAS et al, 2002).

Assim, disponibilizar maneiras de avaliar como as pessoas estão vivendo esses anos ganhos passa a ser de grande importância. A introdução do conceito de qualidade de vida podendo ser mensurado quantitativamente através de um instrumento surgiu na década de 1970, auxiliando na avaliação de saúde e com algumas vertentes que contribuíram para o desenvolvimento da base conceitual (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2000). Devem-se fazer questões que envolvam a avaliação global de comportamentos, estados emocionais e capacidades das pessoas e de sua satisfação/insatisfação (WHOQOL GROUP, 1995).

A bipolaridade considera dimensões positivas e negativas que podem ser aplicadas a condições tão diversas como o desempenho de papéis sociais, a mobilidade, a autonomia, a dor, a fadiga e a dependência. A multidimensionalidade está representada pelos instrumentos mais abrangentes possíveis, que permitem avaliar um indivíduo, por exemplo, em seus aspectos físicos, sociais, psicológicos e ambientais (MINAYO; HARTZ; BUSS, 2000). Além da qualidade de vida ser representada por essa variedade de domínios, para cada indivíduo a subjetividade da qualidade de vida ou o valor de um domínio diferem do outro, dando mais importância ou peso para uma determinada área, como nos relatos abaixo, que exprimem o sonho de ter uma moradia.

Qualidade de vida é ter uma casinha, onde eu pudesse viver normalmente. Seria maravilhosa [...] a vida seria boa, alugaria uma peça e ficaria muito bem. Aí sim eu seria feliz. (mulher, 80 anos, albergue, entrevista no dia 7 de maio de 2016).

[...]quando eu sair daqui, alugar umas pecinhas pra mim, com um banheirinho, daí vou viver a minha vida, comprar minhas coisinhas, não depender de ninguém, aí vai ficar ótima minha qualidade de vida. (mulher, 61 anos, abrigo, entrevista no dia 9 de setembro de 2015).

O desejo de liberdade e autonomia permeia as pessoas idosas em questão. Nota-se que, para muitas delas, qualidade de vida é aquilo de que mais necessitam, bem como um local para morar, onde possam exercer sua cidadania, atender aos seus próprios desejos e vontades regrados por elas mesmas e envelhecer sossegadamente e com dignidade.

Para Freitas et al (2002), o estudo e a avaliação de QDV têm se mostrado importante em vários segmentos e disciplinas e também para a população idosa. Considerando que o processo de envelhecimento é heterogêneo, cada indivíduo pautará sua vida de acordo com padrões,

normas, expectativas, desejos, valores e princípios diferentes, demandando, assim, instrumentos multidimensionais, sensíveis à variabilidade dessa população.

Minha qualidade de vida é ruim. Muito ruim! (homem, 65 anos, abrigo, entrevista realizada no dia 30 de outubro de 2015)

Péssima... passando fome e frio a rua. (homem, 70 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016).

Horrível, intranquila. Droga, droga, temerária. (homem, 61 anos, Casa Lar do idoso, entrevista realizada no dia 25 de abril de 2016).

A partir dessas falas, é importante destacar que os conceitos ou “rótulos” dados pelo senso comum às pessoas idosas em situação de rua não condizem com a realidade. Quando não se usa uma reflexão crítica, e sim um posicionamento de senso comum, nota-se que nas discussões sobre o tema emerge que a condição de estarem em situação de rua é uma opção, quando na verdade é a falta de outra opção que os mantém nessa condição.

Dentre os fatores negativos relatados que resultam na falta de qualidade de vida, destacam-se a vulnerabilidade e a violência. Muitas das pessoas participantes do estudo apontam o frio e a fome como grandes dificuldades diárias e incapacitantes dessa condição de vida nas ruas. Outras falam também da invisibilidade perante a comunidade, sobre o preconceito e o estigma que resultam nas múltiplas expressões de violência vivenciadas, mantendo-as temerosas sobre seu futuro.

Minha qualidade de vida não é nem boa nem ruim. Aqui eu tomo o meu banho, eu durmo e tudo, mas eu não gostaria de tar aqui. (mulher, 61 anos, Abrigo, entrevista realizada no dia 9 de setembro de 2015).

As percepções positivas de qualidade de vida estão associadas ao fato de estarem acolhidas na Casa Lar do idoso com suas necessidades básicas supridas e com assistência em saúde. Cabe destacar aqui a importância desse equipamento de acolhida da assistência social para essas pessoas, restaurando-lhes a dignidade de vida; porém, as vagas ainda são poucas para toda a demanda de pessoas idosas em Porto Alegre.

Assim, conclui-se que qualidade de vida para as pessoas idosas em situação de rua é o resgate de seus direitos humanos fundamentais. Embora a qualidade de vida delas melhore, quanto mais os equipamentos de acolhimento da Assistência Social suprem suas necessidades humanas básicas (um exemplo disto é a casa lar do idoso), ainda prevalece nessas pessoas o desejo de conquistar o seu espaço com autonomia, liberdade e dignidade, para que possam

vivenciar seu envelhecimento com uma vida simples, mas independente dos regramentos e aparatos sociais.

5.4 VIOLÊNCIA ESTRUTURAL E INSTITUCIONAL E SEUS IMPACTOS NO

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