4 put in port back in in set
4. Routing Protocol
4.3 MRP in the Context of the ISO OSI Reference Model
Sobre a urbanização no período colonial, pode-se assegurar que a cidade de Salvador refletia o espaço racionalizado para a articulação das funções administrativas de uma produção de âmbito rural. A diferença socioespacial mantinha no campo a matriz econômica assentada na monocultura, no latifúndio e no trabalho escravo, ao tempo que a cidade se revelava como um espaço de “não-produção” (OLIVEIRA, 1987). Deste modo, Salvador funcionava como ambiente de controle do comércio e do território, que mesmo não produzindo para exportação, ao longo dos anos, assimilou novas atividades em sua reprodução.
Na virada do século XVIII ao XIX, a cidade ganha outro movimento no comércio e com os ideais liberais. A abertura dos portos brasileiros em 1808 faz deste um comércio de âmbito internacional, inclusive com a instalação de negócios por
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estrangeiros. Ainda neste ano, três companhias de seguro e uma indústria de vidro são inauguradas. Funções autônomas do capital tem lugar na esfera de circulação, com a ascensão das frações bancária e comercial. Em 1817, é fundada a associação comercial, mesmo ano em que é aberta a filial do Banco do Brasil (VASCONCELOS, 2012). Em termos gerais, aspectos modernizadores emergiam na dinâmica produtiva da cidade.
Difícil até deduzir movimento de extensão da economia, quando em uma sucessão de acontecimentos, Salvador perdia a condição de capital da colônia (1763), findava o tráfico de escravos (1850) e a estrutura fundada na produção do açúcar decaía diante da concorrência com as Antilhas. Pode-se enunciar uma crise de longa duração. No entanto, justamente esses fatores que apontam para o declínio da cidade como principal centro econômico do país impulsionam alguma reconfiguração do desenvolvimento, o que reflete na cidade a implantação de novos equipamentos, novas instituições e maior complexidade no uso do espaço urbano (SANTOS J., 2013).
A primeira reestruturação urbana da cidade abre alas para as mudanças que vinham com novos bairros, as fábricas têxteis, as companhias de seguro e transportes. Uma Salvador diferente surge com a Biblioteca Pública (1811), o Teatro Real de São João (1812), as novas praças (da Piedade em 1786, Passeio Público em 1810), a Iluminação publica (1829), a ampliação do sistema viário e de transporte por bonde, elevador e ferrovia, que, por sua vez, expande a circulação de pessoas e mercadorias no espaço urbano e regional. Para se ter em conta a importância relativa a urbanização, segundo Bastide (1978, p. 56): “A casa da cidade torna-se a residência mais importante do fazendeiro ou do senhor de engenho” (apud SANTOS, 2013, p. 21).
No período anterior, entre o meio e o fim do século XVIII, a população da cidade praticamente não havia crescido em função da perda de primazia para o Rio de Janeiro e do alargamento de sua zona de influência sobre o interior. No campo, a Bahia abre-se para a emergência da ocupação do sertão com as fazendas de criação de gado (que abasteciam a exploração mineira), da região da Chapada Diamantina com a descoberta do ouro e da economia de subsistência.
Na passagem ao século XIX, as oligarquias tradicionais buscaram reagir aos sinais de decadência produtiva, investindo seu enorme excedente em diferentes atividades, tais como a produção de tabaco e café, a indústria têxtil e outros empreendimentos propriamente capitalistas urbanos (SANTOS, 2012; OLIVEIRA, 1987). Somente a
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partir dessas iniciativas a evolução demográfica de Salvador é alavancada, o que Francisco de Oliveira anuncia como a “emergência de um processo burguês”:
Nos meados do século XIX, Salvador e o Recôncavo contam com uma multitude de engenhos de açúcar e rapadura, engenhos de aguardente, fábricas de tecidos, fábricas de selas e arreios, fábricas de velas, de beneficiamento de produtos alimentícios, de charutos, bancos e uma companhia de seguros. Passa de 50.000 habitantes em 1800 para 129.000 em 1872 e 144.000 em 1890 (OLIVEIRA, 1987, p. 26) Vale ressaltar que o efeito mais drástico na reestruturação da cidade foi precisamente a sua diferenciação socioespacial, que demarcou com mais nitidez a separação do centro para com os bairros residenciais. O processo de urbanização provoca um decréscimo da proporção de habitantes na área central. Segundo Vasconcelos, em 1799, 54,5% da população habitava as quatros freguesias centrais e 22% estava situada nas três freguesias ao sul da cidade; em 1872, a população do centro encurta para 30% (VASCONCELOS, 2002).
Esse adensamento populacional da cidade, que expandia o tecido urbano para além dos limites dos bairros centrais, respondia à imigração de retirantes dos ciclos da seca e de outros tantos em busca das oportunidades proporcionadas pela concentração econômica de Salvador (SANTOS, 2012, p. 45). Entretanto, este não era um efeito meramente circunstancial. As reestruturações de Salvador a partir de então seriam consecutivas, parte de um continuo processo de urbanização. Uma nova lógica de estruturação do espaço começa a tomar forma, à medida que as bases do modo de produção colonial escravista diluíam-se.
O principal sinal das mudanças estava no declínio expressivo da proporção da população escrava em relação à população livre. O alicerce da produção naquela sociedade metamorfoseava-se. Se na passagem do século XVIII ao XIX cerca de 40% da população total era de escravos, com a proibição do tráfico essa proporção cai para 27,46% em 1855 e 11,6% em 1872 (ANDRADE, 1988:p.29. apud. MATTOS, 2008: 27). As crescentes oportunidades de emancipação alteram a base de sustentação das relações sociais em uma cidade cuja população negra era estimada em 70% dos habitantes (conforme censo de 1872) (MATTOS, 2008: 27).
No cotidiano, a cidade dependia por completo do labor dos negros escravizados, livres e forros. Um alemão chega a reconhecer em Salvador que “tudo que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega é negro” (GRAHAM, 2013: 39). A vida comercial era viabilizada por essas mãos; vendedores ambulantes forneciam uma
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variedade de produtos entre gêneros alimentícios, roupas, sapatos e tanto mais, de porta em porta, nas ruas ou em quitandas. No trabalho no mar havia negros marujos, mestres de embarcação, bem como outros carregavam, faziam frete no porto. Eles realizavam todo o tipo de transporte, de pessoas e mercadorias, e de ofícios urbanos (pedreiros, marceneiros, ferreiros, sapateiros, pescadores, barbeiros). As atividades que exerciam eram tão básicas para a manutenção da vida urbana, que proviam até mesmo a comida, a limpeza das casas e roupas, recolhiam dejeto, mantinham a iluminação pública e o transporte da água tirada das fontes. É possível imaginar qual a dimensão do temor de uma rebelião negra.
Ponto alto das tensões sobre a ordem senhorial, o sistema escravista seria muito enfraquecido durante a guerra de independência na Bahia. Negros e mulatos tiveram papel destacado nas milícias e alistamentos ao exército no combate aos portugueses. Escravos fugiram do domínio dos senhores para enfileirarem-se as tropas, outros rumaram para quilombos. O conflito, a desordem do status quo da cidade com a ameaça da fome, colocam em questão a liberdade e a escravidão diante da experiência comum dos negros, o que produziu insubordinações, revoltas, inclusive de soldados no pós- guerra, e proliferação de quilombos (GRAHAM, 2013). Um clima de temor entre os senhores que se amplifica com a revolta dos Malês em 1835.
As elites agrarias e a burocracia do Estado tem sobre si a precipitação das mudanças sociais. Sob pressão e a reboque das potencias econômicas europeias, entre o século XVIII e XX, o arrojo industrial e urbano do capitalismo mundial conduziu por sobre as velhas estruturas do Brasil uma derradeira modernização capitalista (FERNANDES, 2009). Para tanto, ao menos duas transições fundamentais foram gestadas: primeira, a hegemonia da burguesia como classe (e a constituição da antagônica classe trabalhadora), destituindo o poder das oligarquias agrarias e suprasumindo as formas de reprodução social e espacial; e relacionada a esta, a constituição do Estado-nação como agente modernizador das relações de produção, o que inclui a reestruturação da espacialidade. A fim de entender essas transições como processo histórico, destacamos entre diversos autores à contribuição de Florestan Fernandes (2006), que expõe algumas condições para o caminho da modernização expressa nas cidades brasileiras.
Como já foi ressaltado, um vetor essencial à constituição das práticas e das ideias burguesas em Salvador decorreu do dinamismo comercial. O porto aberto à circulação
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sobre este grande centro urbano estimulou a reconfiguração da economia, da política e da sociedade. O comércio também gerou a complexificação do meio urbano, que se pôde reconhecer nas novas formas de produção, de consumo e de transporte de pessoas e mercadorias.
Porém apenas se fez possível esse movimento pelo marco da independência política que rompe com o pacto colonial. Mesmo com toda a força conservadora da classe agrário-exportadora, a estruturação do Estado nacional já nasce sob a influência dos ideais de modernização e progresso europeus, abrindo alas para a reprodução capitalista que “ganha corpo” em intervenções estatais com obras e reformas urbanas nas grandes cidades.
Mundo afora, as cidades passam a concentrar o comando da sociedade, à medida que a organização social rural torna-se continuamente mais urbana. As transformações nos modos de vida e de organização decorrem do crescimento da ocupação territorial e do âmbito da influência da cidade industrial, que se expande e atrai a concentração de riquezas, pessoas e ideias. O processo de urbanização contemporâneo tem a industrialização como propulsora da importância das cidades no cerne das relações capitalistas, sendo produto e ao mesmo tempo condição desse novo urbano.
O que se expande, entretanto, não são apenas as alterações nas estruturas físicas, mas o próprio modo de produção da realidade humana, instaurado sob a lógica da contratação da força de trabalho, da reprodução do capital e da produção de mercadorias. Tal metamorfose, a despeito de realizar-se na sociedade soteropolitana e Brasileira, como foi exposto até aqui, engendra uma sociabilidade muito diferente daquelas constituídas nos países centrais, o que se acentua em Salvador – uma “periferia da periferia” do capitalismo – condicionada por heranças históricas das relações de dominação colonial.
Nesse processo de incorporação à emergente estrutura reprodutiva, Salvador revela especificidades no quadro de desenvolvimento nacional. Os setores dominantes da economia e da política baiana precisavam se adaptar aos novos tempos. E, de fato, houve iniciativas empreendedoras no comércio, na indústria, no setor bancário, assim como o poder político regional também realiza esforços para a modernização da cidade. Mas, a despeito dos méritos, os empenhos encontram nas arraigadas relações de produção e reprodução social a dificuldade de composição dos novos valores e práticas para a acumulação de capital.
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