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A partir da afirmativa de que o racismo coloca o outro aquém da condição de humanidade, nos vem o questionamento: de que maneira essa ideia se estabelece e ganha força no imaginário social, sendo compactuada inclusive em espaços midiáticos? Para responder a esta questão, recorremos às contribuições teóricas de Foucault (1995), tomando como central as suas análises sobre o poder/saber e discurso em interface com as análises da filosofa Sueli Carneiro (2005).

Foucault quando discorre sobre o poder e o saber, nos apresenta que os saberes estão dispostos para atender o poder, funcionando a serviço desse poder. Ele questiona “[...] a maneira pela qual o saber circula e funciona, suas relações com o poder. Em resumo, o régime du savoir” (FOUCAULT, 1995, p. 235, grifo do autor).

Assim, nos apoiamos na teoria foucaultiana para explicar que as relações étnico-raciais brasileiras se constroem a partir da atuação dessa força (o poder) nos sujeitos, tecendo de que forma estes mediam suas ações, aqui cabe ressaltar que o poder não está apenas em atos coercitivos e violentos, ele incide na vida dos sujeitos inclusive em formas de prazer. Sobre esse aspecto, Veiga-Neto (2007a, p. 119) destaca que

[...] o poder é uma ação sobre ações. Ele age de modo que aquele que se submete a sua ação o receba, aceite e tome como natural, necessário. Se na violência há dois pólos antagônicos -um sujeito que a pratica e um objeto que a sofre, cuja única alternativa é a resistência ou a fuga-, no poder não há propriamente dois pólos, já que os dois elementos não são antagônicos, mas sim sujeitos num mesmo jogo. E para que isso seja possível, o saber entra como elemento condutor do poder, como correia

transmissora e naturalizadora do poder, de modo que haja consentimento de todos aqueles que estão nas malhas do poder. No interior das relações de poder, todos participam, todos são ativos.

Vale aqui o destaque que é do poder que emerge o discurso, compreendendo o discurso como práticas sociais que vão formar os sujeitos e “[...] que se condicionam, se deslocam, se multiplicam ou invertem posições” (CARNEIRO, 2005, p. 51) a partir dos seus desejos em saber/produzir verdade sobre o sujeito e de se lançar como o lugar da verdade. Uma discussão que exemplifica muito bem essa afirmativa é sobre o elemento racial no contexto brasileiro.

A raça pode ser entendida como um elemento de busca dessa verdade do sujeito, como vimos anteriormente é a partir da distinção por raças que é agregado valor a cada grupo racial, onde aos negros fica reservado um menor valor, ou realizando uma releitura das afirmativas de Foucault, “o saber sobre o negro é então aqui considerado como prática discursiva de diferenciação social segundo a racialidade, que permite a distinção social de cada indivíduo por discursos de raça, produzidos no interior de relações de poder[...]” (CARNEIRO, 2005, p. 51). Aqui cabe lembrar que a discussão sobre poder está vinculada a de discursos, onde esses discursos são formados no interior dos saberes, assim a produção da “verdade” que está a serviço do poder, atua diretamente no processo de exclusão e marginalização da população negra e como Foucault (1995) pontua, o procedimento de poder se faz presente inclusive na hierarquia piramidal, modelo representativo da sociedade brasileira, que pode ser analisado principalmente a partir do aspecto racial31.

Carneiro (2005) traz que o termo raça possui uma dupla perspectiva, a política e a teórica. Segundo ela,

Enquanto instrumento metodológico, pretende compreender as relações desiguais entre os diferentes grupos humanos mais especificamente as desigualdades de tratamento e de condições sociais percebidas entre negros e brancos no Brasil. Enquanto prática discursiva, os estudos nele inspirados visam a modificação das relações sociais que produzem as discriminações e assimetrias raciais (CARNEIRO, 2005, p. 52).

Ou seja, estudar o discurso sobre as relações raciais brasileiras compreendendo que ele promove a articulação poder-saber, nos possibilita além de uma discussão sobre as desigualdades postas ao grupo racial não branco, mas também analisar ações que visem a mudança dessa lógica pautada na desigualdade racial. Sobre esse aspecto, Carneiro (2005) nos

31 Na pirâmide social brasileira, encontram-se na base as mulheres negras, logo acima estão os homens negros. Na

prática, isso representa que esses sujeitos sofrem desigualdades de oportunidades nos diversos setores. No topo da pirâmide, está o homem branco e a baixo, a mulher branca, representando no campo das relações étnico-raciais, os sujeitos com maior domínio das oportunidades.

alerta que o saber que é produzido sobre o negro o foi em grande parte distante desse sujeito, ele esteve ausente dessas práticas discursivas, ausência essa que segundo ela vem se alterando muito timidamente.

Nesse processo, são criadas áreas de conhecimento com o objetivo de “conhecer o outro”, onde a diferença se torna um objeto de produção de saber, ou seja, de poder, produzindo saberes que emergem da resistência na busca de entrar na disputa pela “produção da verdade” sobre a racialidade (CARNEIRO, 2005). A racialidade está no campo do poder, porém é importante atentar que “[...] a resistência ao poder não é a antítese do poder, não é o outro do poder, mas é o outro numa relação de poder [...]” (VEIGA-NETO, 2007a, p. 125).

Por fim, ainda sobre essa discussão, cabe recorrer a Foucault, quando ele afirma que “viver em sociedade é, de qualquer maneira, viver de modo que seja possível a alguns agirem sobre a ação dos outros. Uma sociedade ‘sem relações de poder’ só pode ser uma abstração” (FOUCAULT, 1995, p. 245-246). Essa afirmativa é importante inclusive para a entendimento de que a compreensão sobre a raça nos exige uma abordagem que vá além da própria raça, sendo necessário um diálogo com outras categorias como gênero e classe, por exemplo.

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