O debate sobre a raça e as opressões raciais como já sinalizado anteriormente não emerge de maneira separada com outras categorias, muito pelo contrário, elas estão interligadas exigindo de nós, análises a partir de uma perspectiva interseccional que realize um diálogo entre essas opressões. Uma autora importante que em suas análises realiza esse exercício é a filósofa Angela Davis. Em seu livro “Mulheres, raça e classe” (2016) ela realiza a intersecção entre as opressões de raça, gênero e classe, a partir de um posicionamento pautado no feminismo, no antirracismo e na luta de classes.
Para Davis, se nos propomos o exercício de interseccionalizar as opressões, isso significa que não devemos hierarquiza-las. Podemos observar essa defesa, no artigo publicado no Portal Geledés – Instituto da Mulher Negra, onde a autora afirma:
Claro que classe é importante. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é a maneira como a raça é vivida. A gente precisa refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mutuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras (DAVIS, 2011, s/p.).
Ou seja, não há como se pensar nessas categorias de forma independente, pois elas encontram-se subordinadas a uma estrutura comum.
Antes de discorrer sobre as interconexões entre as categorias de opressão, cabe aqui uma breve explanação sobre qual perspectiva adotamos sobre o debate de gênero, assim como antes delimitamos nosso debate sobre o elemento racial. Nos centramos nessas duas categorias (gênero e raça), pois acreditamos que elas são centrais nas experiências vivenciadas pelos homens negros, nosso principal foco de análise.
3.2.1 Gênero: Um debate sobre identidades
As relações de gênero são construídas a partir de representações sobre os sexos, onde para entender como se estabelecem as relações entre homens e mulheres na sociedade, o importante não é observar o sexo desses sujeitos, mas o que se construiu socialmente sobre eles (LOURO, 1997). Aqui destacamos que embora o conceito de gênero esteja em diálogo com corpos sexuados, o centro da discussão não é o elemento biológico, mas sim qual a representação social que se tem sobre esses corpos.
Temos aqui um diálogo estreito com o corpo, pois compreendemos que esta é uma categoria central para se pensar no debate sobre identidades de gênero, sexuais e de raça. O corpo, segundo Butler (2003) é representado de forma passiva, como se nele se instaurassem significados culturais ou como como um canal desses significados culturais. Porém, essa é uma visão reducionista sobre o corpo, ele assim como as identidades, é uma construção. A complexidade e grandeza dos corpos “[...] constitui o domínio dos sujeitos com marcas de gênero” (BUTLER, 2003, p. 27).
Embora os estudos de gênero realizem em sua maioria, análises sobre as mulheres, estes contemplam análises sobre as relações que também envolvem os homens. Os estudos de gênero, compreendem análises que dão conta inclusive das “[...] múltiplas formas que podem assumir as masculinidades e as feminilidades, como também as complexas redes de poder que (através das instituições, dos discursos, dos códigos, das práticas e dos símbolos...) constituem hierarquias entre os gêneros” (LOURO, 1997, p. 24). Assim, entendemos que se a categoria gênero, assim como a categoria raça, constitui a identidade dos sujeitos, os estudos de gênero, consideram a identidade de gênero como uma discussão central, não se limitando a um dualismo: feminino/masculino como categorias fixas. Sobre essa discussão, Judith Butler (2003) afirma que nas relações de gênero é importante a compreensão de que o poder opera na construção dessa estrutura binária.
Retomando as contribuições dos Estudos Culturais, lembramos que as identidades dos sujeitos são múltiplas e que estas não são fixas. Nesse sentido, “ao afirmar que o gênero institui a identidade do sujeito (assim como a etnia, a classe, ou a nacionalidade, por exemplo) pretende- se referir, portanto, a algo que transcende o mero desempenho de papéis, a idéia é perceber o gênero fazendo parte do sujeito, constituindo-o” (LOURO, 1997, p. 25).
Nessa discussão, Louro (1997) ainda destaca que as diversas instituições e práticas sociais se constituem pelo gênero e constituem ele ao mesmo tempo. Assim, são essas instituições e práticas sociais que constroem os sujeitos. Quando falamos de instituições e práticas sociais, estamos nos referindo por exemplo, à igreja, a escola, a mídia e todos os outros dispositivos que se produzem inclusive a partir das relações de gênero.
Uma observação é válida a respeito das identidades de gênero, diz respeito à relação de proximidade com as identidades sexuais, embora estejamos falando de coisas distintas. As identidades de gênero referem-se às identificações com o masculino e/ou feminino, por exemplo, já as identidades sexuais giram em torno das experiências sexuais do sujeito, ou seja, quem são ou não, seus/suas parceiros/parceiras.
Voltando às identidades de gênero, é importante pensar que elas encontram-se num movimento de mudança, construção e reconstrução constante, onde “[...] os sujeitos vão se construindo como masculinos ou femininos, arranjando e desarranjando seus lugares sociais, suas disposições, suas formas de ser e de estar no mundo” (LOURO, 1997, p. 28). Essas mudanças são acompanhadas inclusive pelas mudanças que ocorrem nas outras identidades dos sujeitos.
Butler (2003, p. 39), nos lança o seguinte questionamento: “Se a ‘identidade’ é um efeito de práticas discursivas, em que medida a identidade de gênero — entendida como uma relação entre sexo, gênero, prática sexual e desejo — seria o efeito de uma prática reguladora que se pode identificar como heterossexualidade compulsória?”. Ela explica que essa heterossexualidade compulsória acaba por regular o gênero, como se esse só pudesse existir nessa relação binária fixa entre o feminino e masculino, onde estes se diferenciam através práticas do desejo heterossexual.
A partir dessa discussão vimos que a norma é heterossexual e condena toda identidade de gênero que não se enquadre no padrão binário do que se espera socialmente para o masculino e feminino. Aqui realizamos um diálogo com as identidades sexuais, pois no caso dos homossexuais, é como se houvesse um medo da perda do gênero desses sujeitos, ou seja, existe um temor de que esses não são considerados homens ou mulheres “de verdade” (LOURO,
1997). Nesse caso, temos identidades sexuais que são moldadas pelas relações de gênero pautadas na heteronormatividade.
O que foi dito até então aponta para a necessidade de desconstrução da polaridade rígida dos gêneros (LOURO, 1997). A partir dessa desconstrução, é que avançamos no debate sobre as diferentes masculinidades e feminilidades existentes. Ou seja, estabelecemos discussões sobre as construções de masculinidades e feminilidades postas até então em condição aquém das masculinidades e feminilidades hegemônicas, um bom exemplo, é o caso das masculinidades negras.