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Nessa seção, discutiremos as contribuições teóricas sobre o lazer e o tempo livre, pois constituem os elementos fundamentais a compreensão do nosso objeto – a política de esporte e lazer do Recife, no período compreendido entre 2001 a 2012. Inserida no bojo das experiências do setor que consideram o lazer e o esporte enquanto direitos sociais (apresentados no Plano de Ação 2001-2004, analisados no capítulo 5), a política destaca-se ao propor uma intervenção pedagógica de educação no e para o tempo livre em suas ações. Sendo assim, além da compreensão do lazer propriamente dito, mas a sua relação com o tempo livre faz-se necessária nesse estudo.

A maioria dos autores que trabalham a concepção de tempo livre defende que essa problemática surge na modernidade, apresentada na dicotomia entre trabalho e tempo livre. A modernidade, representada pela ascensão da burguesia e pela consolidação do novo modo de produção do capital, trouxe um ritmo frenético que será uma característica dessa sociedade, interferindo diretamente no controle do tempo (seja no tempo de trabalho ou no tempo livre) pelos donos do meio de produção impondo nova rotina ao ser humano.

Na reestruturação do capital essa nova rotina torna-se evidente e a nova dinâmica estabelecida econômica e socialmente através do processo de globalização e do avanço tecnológico permite uma nova perspectiva da luta pela redução da jornada de trabalho, que defendida por Marx, no século XIX, visava o tempo livre como tempo de desenvolvimento humano.

Para Harvey (1992), essa nova reestruturação é apontada pela transição do modelo fordista de produção para modelo que denomina de “acumulação flexível”. Este se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e de padrões de consumo, pois se relaciona ao contexto de inovação comercial, tecnológica e organizacional. Tal flexibilidade gerará um movimento denominado pelo autor de “compressão do espaço-tempo”, resultante da nova ordem que possibilita cada vez mais a difusão imediata de decisões descentralizada, impactando, num mesmo tempo, diferentes espaços. Essa seria a lógica baseada no processo de globalização, que permite a ampliação do capital e sua interferência no tempo livre dos indivíduos, pois sob a noção da “acumulação flexível” o tempo também se tornará “flexível” e intensamente marcado pela aceleração e pela lógica de que o “tempo é dinheiro” e “tempo não para”.

Noutra análise, Rifkin (1996) aponta que tal processo (de globalização), extremamente influenciado pela incorporação das tecnologias, será responsável, em última instância, pelo desemprego de milhares de pessoas. Esse processo, em sua face perversa, provoca o aumento da precarização das relações de trabalho e, consequentemente, o crescimento da desigualdade de renda aumentando também a diferença entre ricos e pobres. Isso acontece desde a década de 1970 e, juntamente com essa nova organização do capital, volta à questão da redução de jornada de trabalho. Para o autor, essa seria uma das soluções de modo que o mercado de trabalho. (Ele fala tomando por referência os Estados Unidos) pudesse proporcionar com a redução da jornada mais tempo livre para o lazer e o entretenimento. Em nossa análise, o autor faz uma leitura correta dos impactos da reestruturação do capital na sociedade pós- industrial, mas a sua solução denota, na verdade, a necessidade do capital em incorporar o tempo livre dos trabalhadores, buscando completar o ciclo de reestruturação do capitalismo, como bem percebido por Marcellino (1996), levando à ideia do mercolazer, que se trata da mercadorização do lazer como um bem de consumo.

Na sociedade onde tudo é tratado como mercadoria, inclusive o homem, o tempo livre não fugirá à regra, assim, longe de representar um tempo para o desenvolvimento intelectual e cultural dos indivíduos, o tempo livre, será um espaço de consumo daquilo que é produzido no tempo de trabalho, gerando um ciclo que reforçará as relações de trabalho capitalistas.

A partir dessas questões, as doutrinas sociais do século XIX irão analisar tempo livre a partir do tripé filosófico, econômico e sociológico. De um lado, teremos as doutrinas pautadas no pensamento liberal e, de outro, as teses subsidiadas no pensamento marxista que colocará, em termos de lutas de classes, a disputa do tempo livre sob a “moral burguesa”.

A corrente de pensamento liberal – com grande expressão nas obras de John Locke, considerado o seu principal representante – fundada sobre os ideais da liberdade e da igualdade, terá um olhar sobre o ócio como um tempo subjetivo, inerente ao indivíduo, contudo, negativo. Em Locke (1978), a ideia de liberdade se relaciona com o direito de posse e é vista sob duas visões: a liberdade natural e a política. Para o autor, liberdade natural consiste “em estar livre de qualquer superior sobre a terra e não estar submetido à vontade ou autoridade legislativa do homem, mas ter por regra apenas a lei da natureza42”. Além disso, defende a propriedade como um direito desse homem nesse estado de natureza, pois a propriedade representa o direito à própria liberdade, à vida, e aos bens. A liberdade política, por sua vez, refere-se à liberdade do homem que, em sociedade, não está submetido a nenhum outro poder legislativo senão àquele estabelecido no corpo político (governo) mediante consentimento (dos próprios homens); deste modo, a liberdade dos homens sob um governo consiste em viver segundo uma regra permanente, comum a todos, portanto, a liberdade política, em Locke (1978), faz referência à sociedade mediante contrato social estabelecido entre os homens (representada pelo Estado).

Essa perspectiva de liberdade associada à propriedade privada instituirá a base econômica do pensamento liberal, aprofundada por Adam Smith, ao defender que a riqueza das nações resultava da atuação interessada dos indivíduos. Para ele, o trabalho tem origem na propriedade privada e dela se promove o crescimento econômico e a inovação tecnológica.

Assim, associada à questão filosófica e econômica, a perspectiva religiosa, sob influência do pensamento de Santo Agostinho e da teoria escolástica de Tomás de Aquino, de onde o progresso do homem não dependia da vontade de divina, mas de seu próprio esforço, construíram um lastro importante para o liberalismo fundamentar o trabalho e a acumulação como a finalidade da vida humana. Sob esta lógica, a crítica ao tempo livre. (Entendido como tempo de ócio) será um elemento central nos debates sobre o desenvolvimento.

De acordo com Lanfant (1978), na visão de que o progresso social estava atrelado ao trabalho e à acumulação de capital, o tempo de ócio/livre será encarado como um obstáculo a

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42 Compreende-se lei da natureza aquela que rege o “estado de natureza”, estado em que os homens vivem

esse progresso, pois seu estilo de vida se opõe à logica acumulativa. Abertamente condenado, o ócio toma forma de protesto contra as formas parasitárias de atividades sociais. E aquele que está num estado de ociosidade, que se refere ao simples fazer nada e, portanto, socialmente inútil, configura uma sobrecarga para a sociedade.

Em outra ótica, a corrente do pensamento marxista vai de encontro à lógica acima. Sua ideia de tempo livre encontra-se como um prolongamento das categorias econômicas do trabalho, onde a principal análise está referenciada nas obras de Marx. Para ele, o que diferencia o homem do resto dos seres vivos é o trabalho humano que transforma a natureza. Ao modificar a natureza, o homem se transforma, com a sua produção e natureza transforma- se em obra do homem. Mas, quando essa relação toma por base a acumulação, esse trabalho perde as características humanas, pois o homem produzirá objetos que não lhe pertencem, daí o produto do seu trabalho será algo estranho para ele. Essa “estranheza”, por sua vez, representa a alienação do homem pela sua própria atividade, o trabalho.

O objeto que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor. O produto do

trabalho é o trabalho que se fixou num objeto, fez-se coisa, é a objetivação do trabalho (MARX, 2004, p. 80, grifo nosso).

O homem que vende sua força de trabalho torna-se economicamente escravo de sua produção, e se aprofunda cada vez mais a diferença daquilo que ele produz e o que pode possuir. E, nessa condição, ele fica cada vez mais próximo de uma mercadoria.

O homem se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz [...] O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a

si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que

produz, de fato, mercadorias em geral (MARX, 2004, p. 80, grifo nosso).

Nessa condição de mercadoria, Waichman (1997) nos leva a refletir que há uma inversão na própria essência do homem, pois o trabalho alienado ensina ao indivíduo que ele deve viver para produzir, assim, o homem torna a sua essência um meio de existência, de forma que a luta pela existência aliena a consciência de sua essência. E, nessa situação, o homem não se reconhece como livre.

Já Lafargue (2003), em O Direito à Preguiça, obra que representa uma ruptura ideológica do pensamento revolucionário no século XIX, indica que “uma estranha loucura

dominou as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista” e essa loucura é o “amor ao trabalho”. Sem dúvida, uma das mais importantes contribuições para a reflexão sobre a consciência de classe dos trabalhadores, na época, assim como uma crítica ao “amor ao trabalho” – como ideologia do trabalho. Em sua obra, afirma, consciente de sua tarefa, mas aponta a dificuldade de:

Convencer o proletariado de que a palavra que lhe impingiram é perversa, que o trabalho desenfreado a que se dedica desde o início do século é o mais terrível flagelo que já se atingiu a humanidade, que o trabalho só se tornará um

condimento de prazer da preguiça, um exercício benéfico para o organismo humano quando for devidamente regulamentado e limitado a um máximo de três horas por dia (LAFARGUE, 2003, p. 43, grifo nosso).

Essa reflexão parte do entendimento de que os trabalhadores, envolvidos na lógica do trabalho, exigiam direito ao trabalho em suas pautas reivindicatórias, ao invés, de lutar pela redução da jornada de trabalho, por exemplo. Para Lafargue (2003), os trabalhadores não se davam conta de sua condição enquanto indivíduos alienados pelo processo de divisão do trabalho e, que a cada dia perdia sua humanidade ao inserirem-se nos perversos processos e relações de produção.

O Direito à Preguiça, não representa, pois, uma apologia ao não fazer nada, como a se constituía socialmente o ócio na modernidade. O ócio, representado pela “preguiça”, em seu texto, constituía um tempo/espaço de dignidade humana, onde o homem poderia encontrar-se consigo e atuar na ação revolucionária. Dessa forma, Lafargue (2003, p. 45) evidenciava as virtudes da preguiça:

Ao proporcionar um tempo livre do trabalho a preguiça gera virtude: o fortalecimento do corpo e do espírito da classe operária, preparando-a para a ação revolucionária de emancipação do gênero humano. A principal virtude da preguiça é ensinar a maldição do trabalho assalariado e a necessidade de aboli-lo.

Diametralmente oposta à perspectiva de Lafargue, De Masi (2000), ao defender o ócio criativo, elabora a ideia de superação de tempo de trabalho e tempo livre. Para o autor que carrega a famosa frase “o homem que trabalha perde um tempo precioso” não quer dizer com isso que os indivíduos devam priorizar o seu tempo livre, ou propõe uma redução da jornada de trabalho. Mesmo considerando que a sociedade industrial supervalorizou o trabalho em detrimento de outras esferas da vida humana; para ele, há uma necessidade de transformação dessa lógica. Pela sua análise, esse processo de transformação foi iniciado com a globalização

e o avanço da tecnologia com a destituição de milhões de postos de trabalho, em sua maioria priorizando o trabalho físico. Nesse sentido, a transformação também estaria atrelada à natureza da atividade que cada vez mais passa a ser intelectual. Assim, os indivíduos que buscam trabalho devem priorizar as atividades intelectuais de criação. É por esse ângulo que consideramos certa seletividade na solução proposta por De Masi, pois julga que todos teriam a mesma condição de desenvolver trabalhos intelectuais. Além disso, avança na sua proposta de ócio criativo indicando que os indivíduos deveriam criar valor em todas as suas atividades e, nessa acepção, o ócio criativo representa a mistura do trabalho, tempo livre e entretenimento (o que chamará de jogo). Com isso, o autor procura estabelecer uma lógica de contentamento e sentimento de satisfação dos indivíduos que, no seu tempo livre, serão chamados (sem perceberem) a compor a força de trabalho para o capital.

Voltando a Lafargue (2003), sua concepção de tempo livre é apresentada como uma das consequências do sobretrabalho e, que após a superprodução, esse tempo será convertido numa das molas dos processos de produtividade. Aqui o tempo livre surgirá como uma contradição do capitalismo, pois, ao passo que o sistema produtivo necessitava de mais horas de trabalho para produzir mais mercadorias, ao mesmo tempo, era necessário de consumidores para esses produtos. Assim, a relação produção vesus consumo será instalada, e o ócio, que culturalmente é condenado como tempo improdutivo, será cada vez mais necessário para que o capital possa compor a força de trabalho. Sobre isso, Lafarque (2003, p. 47, grifo nosso) nos indica que:

A classe operária com sua boa fé simplista, deixou-se doutrinar, porque, com a sua impetuosidade natural, precipitou-se cegamente para o trabalho e, para a abstinência, a classe capitalista achou-se condenada à preguiça e ao prazer forçado, à

improdutividade e ao superconsumo.

Daí, enfatizamos a questão levantada pelo autor quanto ao ócio irá se converter numa das principais molas do processo de produção e consumo de mercadoria. Se, de um lado era visto como um tempo improdutivo, um tempo dos preguiçosos, agora o ócio será necessário como um tempo disponível para os trabalhadores consumirem aquilo que produzem. Por isso, Lafargue irá condenar o ócio burguês, nascido das tradições do sistema capitalista, cujo objetivo é assegurar a vantagem do capital em detrimento do gozo e humanização do trabalhador.

Esses autores levantaram questões sobre o tempo livre que nos leva a analisá-lo em sua dimensão ideológica, quando evocam a classe trabalhadora a refletir sobre a sua condição

de trabalhadores alienados com a necessidade de um tempo para a sua humanidade; em sua dimensão filosófica, quando consideram que tempo livre reflete num espaço/tempo para o gozo da liberdade do homem; em sua dimensão econômica, quando consideram tempo livre como um fator de desenvolvimento da economia quando gera consumo e, acrescentaríamos, em sua dimensão cultural, quando o tempo livre passa a ser vivido seguindo algumas “regras sociais” de determinada classe.

Esse conjunto de ideias será muito significativo para o debate teórico que surgirá no século XX, pois há um grande interesse pelo estudo do lazer, culminando na formação de uma disciplina, a Sociologia do Lazer, que aborda as transformações do mundo do trabalho e os gêneros da vida cotidiana, putada em sua maioria, por estudos de conotação empírica (LANFANT, 1978). Identificamos nesses estudos, as três dimensões no entendimento do lazer e do tempo livre: a dimensão liberal, com filiação dos autores norte-americanos e anglo- saxões; a dimensão marxista, com filiação dos autores soviéticos, alemães e alguns autores europeus; e uma dimensão que a denominaremos de socialdemocrata, com autores europeus, tendo como expoente o francês Jofre Dumazedier, que influenciou o pensamento mundial na concepção sobre o lazer.

A Dimensão liberal possui seus primeiros estudos realizados nos Estados Unidos, na década de 1920, a partir de várias pesquisas empíricas que trabalham o lazer/tempo livre como mais uma fonte de consumo do sistema capitalista. Nesse primeiro momento, o principal problema dessas pesquisas era saber como os trabalhadores utilizavam o seu tempo livre do trabalho, o que consumiam e como se comportavam. Considerando as relações de trabalho do sistema capitalista como uma realidade dada, esses estudos traziam em seu bojo, uma concepção burguesa de lazer, que passou de algo moralmente condenado como tempo improdutivo, à tábua de salvação na resolução dos problemas econômicos do capitalismo. Desvencilhando-se cada vez mais da polaridade trabalho vesus não trabalho, o lazer passa a ser investigado a partir do estilo de vida norte-americano e os costumes do tempo de não- trabalho são reveladores de uma “nova” cultura.

Não podemos afirmar, com isso, que o estudo estadunidense trace uma linha comum entre os seus autores, sendo necessário apontar os vários períodos e correntes: década de 1930, com o acesso da classe média ao lazer; o período de grande prosperidade econômica no pós Segunda Guerra, com o desenvolvimento da sociedade de consumo, e as teorias da personalidade, finalizando com o tempo livre da sociedade de massas e cultura de massa.

No que se refere à dimensão teórica, destacamos a influência do pensamento de David Riesman (1971), em A Multidão Solitária, quando analisa a nova classe média da sociedade

americana depara-se com três estágios da história moderna, com representação no comportamento do homem. No primeiro estágio encontra o homem tradicional, fundado nos valores da família; no segundo estágio, quando a sociedade passa pelo processo de industrialização do sistema capitalista, para se proteger das inúmeras mudanças, o homem desenvolve um comportamento autodeterminado, centrado em si mesmo; e o terceiro estágio, representado pela sociedade de consumo, gerando um comportamento heterodeterminado, pois, nesse formato de sociedade, os meios de comunicação de massa se tornam uma das maiores expressões da ocupação do tempo de não-trabalho, formando novas necessidades e falsas relações sociais. Com essa reflexão sobre o comportamento heterodeterminado, constituirá numa pedra angular da problemática do “novo lazer”, compreendido como um tempo liberado da produção para o consumo.

Além da escola norte-americana, a escola anglo-saxônica, filiada à perspectiva liberal, desenvolve pesquisas que têm como principal objetivo mostrar o comportamento dos trabalhadores em seu tempo de lazer. As contribuições teóricas mais significativas foram a de Karl Mannheim (1972), com Liberdade, poder e planificação democrática que tentou abrir uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo, indicando que a democracia planificada como solução para as crises do século XX e Stanley Parker em O The future of work and

leisure (1971)/ Sociologia do lazer (1978), que defende o lazer como uma atividade livre,

exercida pelo homem, contudo, possui relações ora de identidade, ora de oposição ao trabalho. Atualmente, as principais correntes dos estudos nas áreas da administração, marketing, turismo, hotelaria e entretenimento, consideram o tempo livre e o lazer como uma oportunidade de negócios e, portanto, um campo aberto para o consumo de novos produtos e serviços.

A Dimensão marxista foi tradicionalmente representada pela escola soviética, composta por autores dos países do leste europeu e sua produção foi pouco difundida no mundo, por questões políticas, tal o contexto de Guerra Fria que vivenciou esses países na segunda metade do século XX. Mesmo filiados à tradição marxista, muitos tecem críticas ao sistema totalitário socialista e uma peculiaridade dos seus estudos está na terminologia para designar o fenômeno equivalente ao lazer, considerado por eles, uma representação burguesa da organização do tempo. Em contraposição a essa nomenclatura, os marxistas utilizavam o termo “tempo livre”.

O tempo livre, nesse contexto, possui uma noção socialmente valorizada, como uma conquista do socialismo. Apesar de representar um tempo de liberdade dos indivíduos, o

tempo livre também aparecerá como um espaço para a elevação do nível de cultura socialista junto aos trabalhadores.

Contemporaneamente à escola soviética, os integrantes da Escola de Frankfurt utilizando-se das teorias freudianas e marxistas, desenvolveram estudos sobre o lazer e o tempo livre. Sob forte influência do pensamento marxista e frankfurtiano, Frederick Munné (1980), defenderá a possibilidade do exercício da liberdade no tempo livre como uma ação autocondicionada do indivíduo como uma forma de desequilibrar a lógica do sistema capitalista. Essas ideias desenvolvidas pelo autor influenciarão o referencial teórico- normativo da proposta pedagógica da política estudada, conforme veremos no capítulo 5.

A Dimensão social democrata, sem dúvidas, foi a que mais influenciou o pensamento sobre o lazer no mundo, tendo Jofre Dumazedier como um dos seus expoentes. Personalidade com larga produção na temática, além de acadêmico foi um ativista do setor. No tocante a sua produção acadêmica, influenciado pelo pensamento de Georges Friedmann (1902-1977) e Karl Mannheim (1893-1947), Dumazedier (1915-2002) constrói uma trajetória, tornando-se

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