O gás canalizado é utilizado, já há muito tempo, em países da Europa. Seu emprego para o aquecimento interno das residências e para a utilização no cozimento de alimentos e aquecimento de água têm sido comum nesses países. No Brasil, no entanto, seu uso ainda não é muito difundido, mais recentemente alguns esforços têm sido feitos para a instalação de redes de fornecimento de gás para residências em grandes cidades brasileiras. As questões de segurança e de economia são apontadas como principais razões para a utilização de gás natural canalizado.
As características gerais do gás natural são utilizadas como referências para o seu emprego, não só para uso doméstico, mas também para a geração de energia elétrica. Segundo a agência reguladora o gás natural se constitui da seguinte forma:
De modo similar aos demais combustíveis fósseis, o gás natural é uma mistura de hidrocarbonetos gasosos, originados da decomposição de matéria orgânica fossilizada ao longo de milhões de anos. Em seu estado bruto, o gás natural é composto, principalmente, por metano, com proporções variadas de etano, propano, butano, hidrocarbonetos mais pesados e também CO2, N2, H2S, água, ácido clorídrico, metanol e outras impurezas. Os maiores teores de carbono são encontrados no gás natural não-associado.
As principais propriedades do gás natural são a sua densidade em relação ao ar, o poder calorífico, o índice de Wobbe, o ponto de orvalho da água e dos hidrocarbonetos e os teores de carbono, CO2, hidrogênio, oxigênio e compostos sulfurosos. Outras características intrínsecas importantes são os baixos índices de emissão de poluentes, em comparação a outros combustíveis fósseis, rápida dispersão em caso de vazamentos, os baixos índices de odor e de contaminantes. Ainda, em relação a outros combustíveis fósseis, o gás natural apresenta maior flexibilidade, tanto em termos de transporte como de aproveitamento.
Além de insumo básico da indústria gasoquímica, o gás natural tem se mostrado cada vez mais competitivo em relação a vários outros combustíveis, tanto no setor industrial como no de transporte e na geração de energia elétrica. Nesse último caso, a inclusão do gás natural na matriz energética nacional, conjugada com a necessidade de expansão do parque gerador de energia elétrica e com o esgotamento dos melhores potenciais hidráulicos do país, tem despertado o interesse de analistas e empreendedores em ampliar o seu uso na geração termelétrica. (ANEEL, 2005, p. 127)
Dessa forma o gás natural é utilizado para geração de energia elétrica, mas também como combustível para a geração de calor. Além desses usos o gás natural, também serve como matéria prima em várias indústrias, dentre elas a química, petroquímica e de fertilizantes e nas indústrias de base como a siderúrgica.
Sua utilização também foi ampliada para a frota nacional de veículos automotores podendo ser empregado em substituição aos combustíveis fósseis mais comuns, como gasolina e diesel ou em substituição ao álcool. De acordo com o portal Gasenergia estas formas de utilização do gás natural constitui-se como uma vantagem econômica pois
para obter o mesmo desempenho de qualquer quantidade de gás, o gasto em dólares é 10% maior com óleo combustível e 85% maior com óleo diesel industrial, desconsiderando, nesses valores os custos de transporte, estocagem e distribuição, que no caso do gás natural são bem mais baixos.
Embora exista no Brasil desde 1940, foi apenas na década de 80, com a exploração da Bacia de Campos, no estado do Rio de Janeiro, que o país entrou de fato na era do gás natural. Disponível por meio de uma rede de gasodutos em franca expansão, o gás natural vem galgando um espaço cada vez mais relevante na matriz energética brasileira33.
A utilização do gás para uso público data do século XIX em Londres, sobre isso Mascaró e Yoshinaga (2005) afirmam
A primeira fábrica de gás para uso público data de 1812 e foi instalada em Londres. Alimentava uma rede de iluminação pública que servia às principais ruas da cidade e começou iluminando a ponte de Westminster. Dois anos depois, operavam na capital britânica três usinas produtoras de gás, abastecendo uma rede de 25 km para iluminar quase 1000 pontos da cidade.
No Brasil, a iluminação a gás é usada inicialmente em São Paulo quando o governador autoriza Afonso Millet a instalar esse serviço em 1847. Em 1860, 200 lâmpadas do bairro da Sé iluminavam todas as ruas da zona. Em 1872, os serviços são transferidos para a empresa inglesa “The São Paulo Company’. (p.147).
A constituição de 1988 permitiu que a distribuição de gás passasse a ser controlada pelos estados, antes esta era de competência municipal. No Brasil existiam duas tradicionais companhias distribuidoras de gás, a Companhia de Gás de São Paulo – COMGÁS e a Companhia Estadual de Gás que atuava no Rio de Janeiro. A Constituição indicava que a gestão deveria ser estatal, o que ia de encontro a um processo mundial de desregulamentação dos setores antes sob o controle do estado, daí os estados constituíram suas companhias de gás das quais o estado mantinha a maioria das ações, a Petrobrás uma outra parte menor e o restante das ações ficavam com empresas privadas.
De acordo com a Associação Brasileira de ABEGAS (Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado) existem, atualmente, 26 empresas que podem explorar os serviços de gás canalizado no Brasil em 22 estados e no próprio Distrito Federal. Isto é resultado de uma mudança na constituição através de uma Emenda que possibilitava às empresas privadas
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REDE GAS E ENERGIA. Principais usos do gás. Disponível em: <http://www.gasenergia.com.br/ portalge/port/ gn/ principais_usos.jsp>. Acesso em: 19 de abril de 2006
entrarem na concorrência oferecendo serviços de gás canalizado. O Estado passa a ser, então, o Poder Concedente. Ainda de acordo com a ABEGAS34 dentre as 26 empresas existentes 21 delas são estatais e 5 são empresas privadas. A rede de gás no Brasil já conta com mais de 13 mil km de extensão e em torno de 1,2 milhão de clientes.
A produção brasileira de gás natural, por estado, tem aumentado significativamente e a participação da Bahia corresponde hoje a 7,7% conforme dados da Agência Nacional de Petróleo e que podem ser visualizados na Figura 17.
São Paulo; 24,1 Amazonas; 15,2 Bahia; 7,7 Espirito Santo; 6,8 Outros; 3,2 Rio de Janeiro; 36,5 Rio Grande do Norte; 6,5
Figura 17 - Distribuição percentual das reservas provadas de gás natural, segundo
Unidades da Federação - Brasil - 2006. Fonte: ANP. 2006.
A infra-estrutura de uma rede de gás canalizado, de acordo com Mascaró e Yoshinaga (2005), é constituída pelos seguintes elementos:
a) usina de produção ou jazida de gás natural, com os respectivos sistemas de extração;
b) instalações de armazenamento, compressoras, odorizadoras, misturadoras, filtradoras, etc;
c) a própria rede de suporte d) estações reguladoras de pressão; e) rede de distribuição (p. 147)
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ABEGAS. Números do gás natural. Disponível http://www.abegas.org.br/aniver_abegas/index.htm#>. Acesso em: 15 de fevereiro de 2006.
Estes elementos estão presentes na distribuição. Pensar em termos da constituição desta rede é pensar que, em termos de infra-estrutura, os nós são constituídos pelas usinas de produção, estações reguladoras, de medição, compressão, redutoras e assim sucessivamente. O esquema da Figura 18 demonstra uma rede-suporte que alimenta outras redes na distribuição do gás, constituindo-se, em termos gerais um esquema organizacional que revela um nível mais geral da info-estrutura.
US INA DE PRODUÇÃO
ESTAÇÃO REGULADORA E DE MEDIÇÃO DAS LINHAS DE TRANSMISSÃO
ESTAÇÕES COMPRESSORAS
ESTAÇÕES REDUTORAS
RE DES DE DISTRIBUIÇÃO
Figura 18 – Esquema de rede suporte que alimentam outras redes de gás. Fonte: MASCARÓ e YOSHINAGA (2005, p. 150)
As redes suporte normalmente trabalham com pressões diferentes daquela das redes de distribuição. A intenção é gerar uma redução no custo do equipamento necessário, uma vez que a primeira opera com tubulação com diâmetros menores. Estas redes vão ter desenhos variados de acordo com as áreas em que vão ser instaladas. Segundo Mascaró e Yoshinaga (2005) elas podem ter a forma de uma espinha de peixe ou em anel. A diferença é de que ao primeiro formato estariam ligados consumidores que suportariam ter uma interrupção no serviço. No segundo caso, o inverso, estariam ligados consumidores que não pudessem ter interrupção. Assim o gás é canalizado por uma rede de alta pressão até encontrar estações de rebaixamento que reduzem a pressão para o consumo. As Figuras 19 e 20 demonstram a organização das redes em espinha de peixe e em anel.
Linha de transm issão Linha de transm issão Linha de li gação com ERP Consumidor
Estação redutor a de pressão - ERP Estação regulad or a de pressão
Figura 19 – Distribuição de gás canalizada para
micro-áreas em forma de espinha de peixe. Fonte:
MASCARÓ e YOSHINAGA, 2005. Adaptação nossa.
Linha de transmissão de al ta p ressão Linha de liga ção com consumidor Later ais de distribuição de alta pressão Usina
Figura 20 – Distribuição de gás canalizada para grandes áreas
em forma de anel. Fonte: MASCARÓ e YOSHINAGA, 2005..
Adaptação nossa.
A distribuição de gás nas cidades chega a quatro tipos de consumidores de acordo com Mascaró e Yoshinaga (2005):
a) Indústrias: a geração elétrica e os processo produtivos precisam de calor. As indústrias de artefatos de vídeo, por exemplo, são grandes consumidores de calor. As indústrias de grande porte podem receber gás até em alta pressão o que reduz os custos;
b) Comércio: shopping-centers, lavanderias e restaurantes recebem o gás natural em média ou baixa pressão;
c) Transporte: o gás natural veicular, através de alguns centros de distribuição, chega aos veículos que geralmente o recebem em média pressão;
d) Habitações: para cozinhar, aquecer água e ambientes, as habitações recebem o gás a baixa pressão. (p. 152)
Estas formas de uso, como pôde ser visto até o momento, poderiam contribuir significativamente para a redução dos custos de acessibilidade aos equipamentos domésticos e aos veículos nos quais, o menor preço do combustível, poderia ser um fator de ampliação do número de consumidores, melhoria da qualidade de vida e redução das diferenças, no entanto, o fornecimento e distribuição do gás têm custos, e nem toda faixa de renda tem condições reais de aceder a este serviço.