• Aucun résultat trouvé

Moyens de mesure et d’observation

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 63-70)

2.3 Dispositif exp´erimental

2.3.3 Moyens de mesure et d’observation

Para comprovar como as questões teológicas são uma constante nas obras de Borges, vale a pena mencionar que desde seu prematuro aparecimento, ainda de forma desordenada em Fervor de Buenos Aires, elas seguem sendo apresentadas, de forma mais trabalhada, em Historia

de la eternidad, livro de ensaios que antecede as duas grandes

publicações da literatura borgeana, Ficciones e El Aleph, principais responsáveis pela fama internacional do autor.

O ensaio “Historia de la eternidad”, que dá nome ao livro, trata da questão do tempo e da eternidade. Através dele, pode-se acompanhar a explicitação de algumas teorias a respeito da eternidade e, principalmente, verificar como a teoria cristã é analisada.

Ao mencionar a teoria cristã, ainda que seja apenas como arcabouço teórico para que possa, posteriormente, refutá-la e, assim, tecer o seu próprio conceito de eternidade, o narrador aponta para as divergências de opinião que ela encerra em sua formulação.

Ao dar sua opinião sobre a Santíssima Trindade, Borges (2008, V.I, p. 426) diz que:

Imaginada de golpe, su concepción de un padre, un hijo y un espectro, articulados en un solo organismo, parece un caso de teratología intelectual, una deformación que solo el horror de una pesadilla pudo parir.

A não aceitação da Santíssima Trindade em “Historia de la eternidad” é apenas o princípio daquilo que pode ser encontrado em outros textos borgeanos.

Além de não crer na figura de Jesus Cristo como “auditor

imperecedero, continuo, de nuestra devoción” (BORGES, 2008, V.I, p.

426), não por desconhecer sua existência, mas por não aceitar que ele é o filho de Deus, parece que Borges também não acredita na Trindade, porque para ele “esa eternidad coercitiva fue mucho más que un vano parámetro sacerdotal o un lujo eclesiástico: fue una resolución y fue un arma” (BORGES, 2008, V.I, p. 425). A falta de sincronia entre teoria e prática daqueles que deveriam seguir à risca o que pregam é, em parte, o motivo da crítica exposta acima.

Após refletir sobre alguns conceitos de eternidade e de não aceitar nenhum deles, Borges (2008, V.I, p. 433) acaba ficando com sua própria ideia de eternidade: “una pobre eternidad ya sin Dios, y aun sin outro poseedor y sin arquetipos”.

Embora afirme não crer na eternidade cristã, ou tente refutar essa ideia, ele ressalta um aspecto positivo em sua formulação ao mencionar que “no cabe duda de la grandeza del resultado, siquiera para alimentar la esperanza” (BORGES, 2008, V.I, p. 425).

Parte dessa visão crítica de Borges em relação ao Deus bíblico também está presente nas entrevistas que concedeu ao longo de sua vida. Algumas dessas declarações, conforme será exemplificado, mostram a oscilação de seu discurso entre o crer e o não crer. Por exemplo, quando um entrevistador da revista Sur lhe questiona: “¿Por qué escribe Usted? Borges responde:

Escribo, sin embargo, porque para mí no hay otro destino. Para mi salvación, de nada me serviría ganar batallas como mi bisabuelo Suárez, ni morir en la cruz como el Redentor, ni traicionar por treinta dineros al Redentor como Judas Iscariotes lo hizo; Judas, cuyo misterioso destino era traicionar […] (VACCARO, 2006, pp. 434-435). Através dessa resposta, Borges aponta tanto para a figura do redentor quanto de seu delator.

Em outro momento de sua vida, após ter publicado El lenguaje de

los argentinos e Otro poema de los dones y tres sonetos, Borges, em

outra entrevista, comenta: “Como yo no estoy muy seguro del límite que existe entre lo real y lo irreal me parece lógico confundir este límite” (VACCARO, 2006, p. 595). Posteriormente, lhe interrogam sobre sua posição diante da morte, ao que responde Borges:

Creo que no le temo, pero creo que las circunstancias de la muerte, los preliminares de la muerte, pueden ser atroces… No tendría miedo de morir, mientras que por el contrario tendría miedo del dolor físico. […] Aquello en lo que no puedo creer es en la idea del castigo o del premio, porque no creo que mi conducta personal pueda interesar al Ser Divino, si existe. Pero acaso todo esto es solamente un error mío, porque si suponemos que alguien me dijera que tengo que

morir me sentiría lleno de miedo (VACCARO, 2006, pp. 595-596).

Em sua resposta, percebe-se que Borges trata de duas questões ao mesmo tempo: da morte e de seu efeito no sujeito; e da possível existência de um “Ser Divino”. Mediante a primeira declaração, Borges revela que seu temor não está concentrado no medo de morrer, senão no fato de sentir dor física. Mas ao final de sua colocação, e por tratar-se de uma entrevista oral, dá indícios de que repensou a questão e refuta o que disse ao afirmar que se estivesse diante da morte, com ou sem dor física, sentiria medo.

Essa reorganização de pensamento, comum no discurso oral, mostra que nem sempre as colocações feitas refletem com toda certeza aquilo que realmente se passa na mente humana.

E, nesse sentido, vale a pena mencionar que a ideia de um “Ser Divino”, apresentada como uma incógnita, mediante a segunda declaração de Borges, dá força ao argumento de que esse assunto é intrigante ao ser humano por não estar totalmente claro, assim como para o autor argentino.

Ao dissertar na Biblioteca Nacional no dia 13 de setembro sobre “El libro”, ainda que de forma irônica, Borges diz que “todos los libros dignos de ser leídos han sido escritos por el Espíritu Santo, incluso los míos... Esta casa de los libros, lo es de los libros nobles, de los libros escritos por el Espíritu Santo” (VACCARO, 2006, p. 700).

Em outro momento de sua vida, desta vez em Madrid, quando é indagado sobre o poema, Los conjurados, sobre a crucificação, dá a seguinte resposta:

Creo que se nota que no soy cristiano. Bueno, Cristo fue el hombre más extraordinario de la historia. Pero, ¿la Trinidad? Yo no puedo creer en ese monstruo teológico… Extraordinario fue el estilo de Cristo, que trató de innovar la metáfora. Él pensaba por medio de metáforas, como los primitivos griegos pensaban por medio del mito (VACCARO, 2006, p. 750).

Ao ser questionado por Barone sobre o que pensa sobre Deus, Borges responde: “(Solemnemente irónico) ¡Es la máxima creación de la literatura fantástica! Lo que imaginaron Wells, Kafka o Poe no es nada comparado con lo que imaginó la teología. La idea de un ser

perfecto, omnipotente, todopoderoso es realmente fantástica” (BARONE, 1996, p. 28).

À complexidade que os ensaios e os contos de Borges apresentam, em decorrência do excesso de relações textuais, tanto internas quanto externas, bem como de suas entrevistas, deve-se elencar também o fato de que, como diz Echavarría (2006, p. 26),

No sabemos con certidumbre cuándo Borges está hablando en calidad de comentarista fidedigno de su propia obra y cuándo está asumiendo la máscara del Borges que aparece em “El hombre de la esquina rosada”, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” o “El Aleph”. Ignoramos, en fin, si en algunas de sus entrevistas Borges está apuntando hacia la posibilidad de convertir la entrevista de escritores en un género literario.

As afirmações proferidas por Borges em suas entrevistas parecem estar mais bem explicitadas pelo narrador do conto “La memoria de Shakespeare” quando relata que:

La memoria del hombre no es una suma; es un desorden de posibilidades indefinidas. San Agustín, si no me engaño, habla de los palácios y cavernas de la memoria. La segunda metáfora es la más justa. En esas cavernas entre (BORGES, 2008, V.III, p. 478).

Percebe-se, ao longo da história da humanidade, que crer ou não crer em Deus e em seus desígnios não é tarefa tão fácil assim; mesmo em épocas anteriores, as pessoas também passavam com dificuldade pelo momento da tomada de decisão entre aceitar ou não as histórias bíblicas como sendo um relato verdadeiro.

É possível acompanhar esse conflito do ser humano na prática através do que consta em “O espírito do capitalismo”, um dos capítulos do livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, quando pode ser lido que:

Por ocasião da morte de pessoas endinheiradas somas formidáveis afluíam para os institutos eclesiásticos à guisa de “legado de consciência”, vez por outra eram também restituídas a antigos

devedores como usura sacada injustamente. Postura diversa – para não falar das tendências heréticas ou vistas com suspeição – tinham somente os círculos de patrícios já em seu íntimo rompidos com a tradição. Entretanto, mesmo naturezas céticas e sem religião costumavam por via das dúvidas comporem-se com a Igreja à custa de donativos, porque isso afinal era melhor para se precaverem das incertezas quanto ao que lhes estava reservado após a morte e porque, afinal de contas, a submissão exterior aos mandamentos da Igreja bastava para o acesso à bem-aventurança eterna (WEBER, 2004, pp. 65-66).

Assim, no que diz respeito ao peso de consciência daquelas pessoas que se desviaram da vontade de Deus, pode-se entender que ainda que o ser humano afirme não se preocupar com as questões bíblicas que gravitam em seu entorno, num momento futuro de sua vida possivelmente sentirão um desejo profundo de se reconciliar com Deus ao se depararem com a morte iminente, conforme sinalizou Max Weber.

Nesse sentido, a frase “El universo requiere la eternidad”, presente em “Historia de la eternidad”, também pode ser entendida como o desejo de que essa eternidade, ansiada pelas pessoas, conforme relatou Max Weber, realmente exista e, por conseguinte, que tudo finalmente faça sentido.

O diálogo entre a teoria cristã de eternidade e o entendimento de Borges sobre tais questões, presente em “Historia de la eternidad”, mostra a relevância do assunto. A reflexão sobre a questão da eternidade que se desdobra no ensaio não deve ser entendida como o estabelecimento de uma verdade, senão como um questionamento.

Ainda que seja como forma de ilustração, o ensaio “Historia de la eternidad” representa a ponte entre o que o escritor Borges esboçou em suas primeiras poesias sobre Deus e aquilo que escreveu, posteriormente, em seus contos.

Na obra Historia de la eternidad, incluindo o ensaio homônimo, Borges retoma a ideia do conceito de “deus” em minúscula e de “Deus” em maiúscula, mas parece que, desta vez, inclina-se para a rejeição tanto de um quanto de outro ao afirmar que sua teoria pessoal de eternidade é “una pobre eternidad ya sin Dios” (BORGES, 2008, V.I, p. 433).

Antes de finalizar esta primeira etapa de ponderações sobre a questão da Trindade, vale ressaltar que Borges veicula as referidas reflexões através do “ensaio”. E este gênero literário, segundo o filósofo

espanhol José Ortega y Gasset, se caracteriza por ser “la ciencia sin prueba explícita”31.

Portanto, as opiniões, os pontos de vista e até certa hierarquização das diferentes teorias sobre a questão da eternidade não devem ser entendidas como conceitos inalteráveis, senão como esboços literários em relação à tradição herdada.

Após terem sido diagnosticadas as questões teológicas que frequentemente perpassam a obra de Borges, no próximo capítulo procura-se verificar como são engendradas nos contos selecionados as intertextualidades bíblicas e como devem ser interpretadas sob a ótica de quem deseja encontrar qual a representação de divindade que o “autor textual” devolve ao leitor, e consequentemente, os seus comentários a respeito do relato bíblico.

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 63-70)