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Montages exp´erimentaux

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2.3 Dispositif exp´erimental

2.3.5 Montages exp´erimentaux

O conto “La biblioteca de Babel” mostra ao leitor um vasto universo constituído de livros. Nele, o narrador-personagem fala da biblioteca como sinônimo de universo. Isto porque os livros que ela contém abrangem tudo aquilo que pode ser escrito e/ou lido. Tal analogia permite que se faça uma varredura na descrição desta biblioteca a fim de que sejam encontrados os fundamentos que a sustentam e que, por sua vez, consubstanciam o universo.

Segundo Monegal (1980, p. 98), “em vários de seus mais famosos relatos, Borges desenvolve o tema do universo como Livro. O mais conhecido é, sem dúvida, ‘La biblioteca de Babel’”. A primeira linha do conto, ainda segundo relata Monegal (1980, p. 98), “é suficientemente explícita: O universo (que otros chamam biblioteca) [...] A partir dali, a descrição de uma biblioteca total converte-se em alegoria do universo”.

A paixão de Borges, conforme entende Souza (2009, pp. 97-98) “pelas enciclopédias, catálogos, atlas e antologias resultou na construção da complexa poética borgeana e do futuro lugar ocupado pelo escritor no cânone literário”. Borges,

Ao se posicionar a favor de um saber que se nutre das culturas clássicas e popular com o objetivo de transformar a erudição em vertigem e mimá-la no interior de seu próprio discurso, cumpre o papel de tradutor, divulgador e popularizador, em perfeita sintonia com o seu projeto artístico, que

se vale da condição do escritor como leitor assíduo de enciclopédias. No desejo deliberado de se apropriar da cultura alheia como contraponto à afirmação de autoria e originalidade, o escritor arma uma estratégia de escrita, pautada pela “política da modéstia”, como assim o nomeia Nicolás Helt e Alan Pauls. Essa política consiste na formação da imagem de escritor clássico, por meio de protocolos enunciativos visando o reconhecimento público. A impessoalidade como estilo e a criação de personagens dotadas de um “saber menor” e da gratuidade de existir concorrem para a consagração ilimitada de Borges, por ter-se convertido em escritor mundialmente citado e eleito como precursor da estética pós-moderna (SOUZA, 2009, p. 98). O reconhecimento de Borges,

Se configura abrangente e reduplicador, em virtude ainda da associação operada pela crítica entre a “Biblioteca de Babel”, tema de um de seus contos mais famosos, e a word wide web, em que se procede à leitura da biblioteca como metáfora do universo inalcançável e labiríntico da internet (SOUZA, 2009, p. 98).

Devido às inúmeras leituras realizadas por Borges, pode-se dizer que é recorrente em sua ficção a criação de uma história que serve como metáfora de questões mais profundas que incitam o leitor perspicaz a tentar uma segunda leitura do conto que flui paralelamente ao conto base.

Assim, “La biblioteca de Babel”, ao descrever uma biblioteca nos seus mínimos detalhes, permite que sejam feitas várias leituras a partir de uma única história. Ela pode ser vista como uma antecipação do que viria a ser conhecido como a word wide web, conforme apontou Souza; como símbolo do inconsciente, conforme entende Anzieu (apud MONEGAL, 1987, p. 28); mas também pode ser vista como uma ânsia do ser humano por encontrar respostas para suas indagações existenciais.

A busca pelo livro dos livros pode representar por sua vez a busca pelo Deus dos deuses, aquele que detém a resposta para todas as perguntas. À medida que a biblioteca vai sendo caracterizada e descrita

também é possível ver o desenrolar dos questionamentos que o narrador-personagem faz para essa segunda leitura metaforizada.

Embora o primeiro parágrafo do conto apresente uma descrição bastante acurada da biblioteca, passando para o leitor a sensação de que já se sabe tudo sobre sua estrutura e seu funcionamento, o parágrafo seguinte mostra que o verdadeiro motivo de sua existência parece ainda não ter sido decodificado, segundo informa o narrador-personagem, ao dizer:

[…] como todos los hombres de la Biblioteca, he viajado en mi juventud; he peregrinado en busca de un libro, acaso del catálogo de catálogos; ahora que mis ojos casi no pueden descifrar lo que escribo, me preparo a morir a unas pocas leguas del hexágono en que nací (BORGES, 2008, V.I, p. 558).

Assim, o que resulta conflitante para o narrador-personagem é o fato de não saber exatamente o que rege todo esse universo, não apenas o da biblioteca, mas o do mundo no qual os homens estão inseridos e do qual fazem parte. Sabe-se algo sobre seu funcionamento e sobre suas características, mas o livro dos livros, aquele cujo conteúdo revela tudo para todos, não pode ser encontrado. Aqui o livro não deve ser entendido como sendo sinônimo da Bíblia, mas pode-se inferir que o narrador-personagem se refere a esse livro fazendo uma analogia a Deus.

O narrador-personagem descreve a biblioteca, sabe de sua existência, compreende seu funcionamento e espera encontrar o livro que não consta nas prateleiras, mas que somente pode ser encontrado diluído na essência de outros livros. Assim, é possível entender que a biblioteca se revela para o narrador-personagem da mesma forma que Deus, segundo o relato bíblico, se revela aos homens. Conforme o livro de Salmos 19:1 “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (BÍBLIA APOLOGÉTICA, 2006, p. 542). Porém, o homem endureceu seu coração de tal forma que deixou de perceber Deus na criação, segundo pode ser lido em Romanos 1: 19- 21:

Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua

divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis; porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu (BÍBLIA APOLOGÉTICA, 2006, p. 1126).

De fato, o livro dos livros, aquele que o narrador-personagem pretende encontrar, não será achado na biblioteca, pois ela pertence ao plano terreno, ao plano no qual os homens vivem, e não é nesse local que esse livro será encontrado, pois as características dele, segundo descritas pelo narrador-personagem, destoam das que os homens estão acostumados a ver em bibliotecas.

O livro que o narrador-personagem pretende encontrar está fora da biblioteca e jamais será visto nela, assim como o Deus que está metaforizado por trás deste livro. Esse livro ou esse Deus, segundo João 1:18, “nunca foi visto por alguém. O filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (BÍBLIA APOLOGÉTICA, 2006, p. 1040). O narrador-personagem dá a entender que sabe da existência de Deus ao dizer, “Ese libro cíclico es Dios” (BORGES, 2008, V.I, p. 559).

Após conhecer os axiomas que o narrador-personagem utiliza para descrever a biblioteca, é possível inferir que os mesmos viabilizam o entendimento de uma paráfrase onde se diz que Deus é “ab eterno” (BORGES, 2008, V.I, p. 559) e que cada pessoa, embora diferente em seu proceder, possui características comuns a todas as demais.

Para discorrer sobre o primeiro axioma, menciona que a biblioteca – entendida como universo – “solo puede ser obra de un dios” (BORGES, 2008, V.I, p. 559) devido a sua extrema perfeição e sincronização; por outro lado, o segundo axioma, no qual a matéria que consta em cada um dos tantos livros é abordada – pessoas –, remete para a complexidade da criação humana, mostra a perplexidade diante do fato de que a mesma essência que conforma cada um dos tantos livros possibilita tamanha diversidade.

Tendo como base a ideia de que essa vasta biblioteca encerra todas as possibilidades de leituras, o narrador-personagem menciona que:

Cuando se proclamó que la Biblioteca abarca todos los libros, la primera impresión fue de extravagante felicidad. Todos los hombres se

sintieron señores de un tesoro intacto y secreto. No había problema personal o mundial cuya elocuente solución no existiera: en algún hexágono. El universo estaba justificado, el universo bruscamente usurpó las dimensiones ilimitadas de la esperanza (BORGES, 2008, V. I, p. 562).

A ideia de que a resposta para as questões que pululam a respeito do misterioso universo no qual os homens estão inseridos pudesse ser encontrada em algum livro, em alguma prateleira, trouxe uma aparente sensação de que tudo estava solucionado, mas suprimiu a esperança de um futuro transcendente. Ao imaginar ser possível encontrar respostas para as questões existenciais no mundo terreno, os homens se lançaram em busca de respostas objetivas.

Consequentemente, a origem da biblioteca e do tempo passou a ser objeto de estudo e investigação como tentativa de dar a conhecer a origem de tudo mediante provas palpáveis e irrefutáveis. Como resultado de tais buscas, teorias e mais teorias foram criadas e abandonadas, e muitos investigadores enlouqueceram na tentativa de encontrar seu destino, tarefa impossível, ou como o próprio narrador- personagem diz, “computable en cero” (BORGES, 2008, V. I, p. 562).

O narrador-personagem, a partir de uma segunda leitura que o conto permite, parece não ter dúvidas de que a esperança do ser humano repousa naquele que é “ab eterno”. E aponta, inclusive, para o descrédito das vãs teorias propostas pelos homens que tentam dar respostas aos questionamentos existenciais.

Ainda que seja encarado como uma superstição, o narrador- personagem crê na possibilidade de que um livro – um homem – possa servir como ponte para um mundo transcendental. Um livro que não aponte para o mundo terreno, mas para o mundo sobrenatural. Esse livro encerra todos os demais e é o compêndio “perfecto de todos los demás” (BORGES, 2008, V. I, p. 563).

Sobre o livro perfeito diz o narrador-personagem:

No me parece inverosímil que en algún anaquel del universo haya un libro total; ruego a los dioses ignorados que un hombre – ¡uno solo, aunque sea, hace miles de años! – lo haya examinado y leído. Si el honor y la sabiduría y la felicidad no son para mí, que sean para otros. Que el cielo exista, aunque mi lugar sea el infierno. Que yo sea

ultrajado y aniquilado, pero que en un instante, en un ser, Tu enorme Biblioteca se justifique (BORGES, 2008, V. I, p. 564).

A aceitação da existência de um mundo sobrenatural, mediante um intercessor, pode ser contemplada através da citação acima.

Além de expor seus questionamentos sobre o propósito de Deus, o narrador-personagem pretende que o leitor entenda o que ele ambiciona através de seu texto quando questiona: “Tú, que me lees, ¿estás seguro de entender mi lenguaje?” E como se tal pergunta não fosse suficientemente objetiva, demonstra que o vocábulo “biblioteca admite la correcta definición ubicuo y perdurable sistema de galerías

hexagonales, pero biblioteca es pan o pirámide o cualquier otra cosa, y

las siete palabras que la definen tienen otro valor” (BORGES, 2008, V. I, p. 565).

Sobre o fato de a biblioteca ser infinita, o narrador-personagem diz que sua “soledad se alegra con esta elegante esperanza” (BORGES, 2008, V. I, p. 566); assim, a esperança de que tudo não tenha fim no mundo dos homens é o que de fato importa.

Segundo o livro de Gênesis 2:16-17, esse desejo pelo infinito, reportado no conto, é algo inerente ao ser humano, pois o homem foi criado para ser eterno, assim como Deus o é (BÍBLIA APOLOGÉTICA, 2006, p. 6).

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