Como vimos, além dos modos cinestésico e discursivo, também percebemos o mundo através do modo emotivo. Perceber o mundo pelas lentes da emoção (emotive mode - Glaeser, 2011) é apreendê-lo em termos afetivos, ou seja, a partir daquilo que afeta o indivíduo desde fora. Quando se trata de
memórias episódicas, muitas delas carregam certa carga emocional. Datas
especiais como o primeiro beijo ou a primeira vez que vimos o mar geralmente são apreendidas por nós de forma emocional. Da mesma maneira, quando sofremos alguma situação desagradável ou até mesmo violenta também há uma
experiência emocional envolvida. É claro que esses exemplos não são universais, mas variam de acordo com a percepção de cada um em cada situação específica.
De acordo com a Psicanálise freudiana (com a qual a Sociologia da Memória está em confronto desde os seus primeiros escritos pelas mãos de Halbwachs em 1923), o trauma está diretamente ligado aos processos de memória e como eles se relacionam com os supostos sistema consciente,
sistema inconsciente e subconsciente (Freud, 1914). Freud (1990 [1920])
entende que as experiências que temos podem ser estocadas em cada um desses sistemas, e que, de acordo com sua alocação em cada um dos sistemas, essas representações terão diferentes naturezas. Basicamente, Freud (1914) divide as representações em dois grandes tipos: representação-coisa (Sachvorstellung) e representação-palavra (Wortvorstellung). O fato é que, segundo ele, o consciente abarcaria a representação-coisa e a representação-
palavra, ao passo que o inconsciente abarcaria apenas a representação-coisa,
que seria algo reprimido. A representação-palavra está encarregada de dar sentido aos estímulos presentes no consciente, articulando-os a uma rede de sentidos. A representação-coisa é uma imagem mnemônica direta da coisa (evento/objeto) que carece de interpretação/elaboração e que, portanto, permanece como a representação de uma energia pulsional. São representações sensoriais e, portanto, distinguem-se do traço mnemônico uma vez que elas passam a se reinvestir, isto é, repetir-se constantemente apenas como uma impressão do evento passado.
Uma representação-coisa pode receber uma sobreinvestidura pelo sistema consciente e a linguagem acaba por dotar de sentido uma experiência reprimida. Esse processo de sobreinvestidura e significação da representação-
coisa seria facilitado pelo processo terapêutico (um trabalho de elaboração - Durcharbeiten) que estimula o acesso ao inconsciente e faz uso da fala para
elaborá-la. Nesse sentido, o processo de rememoração é o processo de criação de sentido que acontece através da representação de palavras e de sua expressão narrativa que “busca uma articulação coerente das experiências
passadas no presente e uma apropriação do passado para transformar a ação presente” (Feierstein, 2012, p. 66).
Mas o que acontece para que haja uma representação-coisa retido no inconsciente? E, o que acontece quando não há processo terapêutico que pode levar representação-coisa a ser elaborada e dotada de sentido linguístico?
Processos de descarga de tensão com altas cargas emocionais percebidos pelos indivíduos estão inscritos em uma miríade que vai do prazer ao desprazer. Esses estímulos desprazerosos podem ser reprimidos no insconsciente como forma de defesa da psique. Aquilo que é traumatizante justamente está associado ao rompimento dessa estrutura que tem sua atividade psíquica ativada a partir de uma patogênese, o trauma. Nesse caso, há uma cisão entre afeto e representação. De um lado, há o afeto suscitado pelo evento, na forma de um quantum de excitação correspondente, que permanecerá retido em parte da psique (o inconsciente) pela incompletude de um movimento psíquico (o movimento de ab-reação) que deveria ter descarregado aquele excesso de estímulo recebido.
Freud tem um modelo simples para a memória em que o consciente arquiva “cópias” de eventos passados que podem ser posteriormente recuperados, enquanto eventos de alta carga emocional, que ultrapassam o limite da psique, são reprimidos (Verdrangung) no inconsciente. São esses deslocamentos reprimidos para o inconsciente que podem vir a formar o trauma. Nesse sentido, o trauma seria uma antimemória, já que não poderiam ser reelaborados ao longo do tempo, uma vez que aparecem de forma compulsoriamente repetida sem se integrar-coerentemente ao Ego e, consequentemente, ao resto das lembranças conscientes passíveis de representação linguística (Freud, 1990 [1920]). As consequências da repressão são a compulsão à repetição que atualiza a experiência traumática e permanece inacessível, pois não alcança a possibilidade de representação linguística. Assim, "é lícito afirmar que o analisando não se recorde absolutamente o que foi esquecido e reprimido, mas sim o atua. Ele não o reproduz como lembrança,
mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber que o faz” (Freud, 2010 [1914], p. 149).
O processo de reelaboração presente na rememoração se opõe à
repetição que aparece de outras formas que não discursivas ou linguísticas: em
sonhos, tiques, atos falhos, lapsos ou memórias encobridoras (Über
Deckerinnerugen).
O que nós permissivamente chamamos de apresentação consciente do objeto pode ser dividido em representação da palavra e representação da coisa [...] o último consiste na catexia, senão na imagem-memória da coisa, pelo menos consiste em uma memória remota que deriva dela. Sabemos que há diferenças entre uma representação consciente e uma representação inconsciente [...] a representação consciente compreende a representação da coisa somada à representação da palavra que a pertence, enquanto a representação do inconsciente é a representação isolada da coisa. A representação de algo que não é posto em palavras […] permanece consequentemente no inconsciente em estado de repressão (Freud, 1914, p. 3022 - tradução nossa).
A propriedade do consciente é justamente ligar as representações da coisa (Dingvorstellungen) às representações da palavra (Wortvorstellungen). Nesse sentido, o sistema inconsciente absorve mimeticamente determinadas cenas, imagens e impressões que permanecem sem organização da linguagem ordinária. Alternativamente, o processo de reelaboração operado pela rememoração trabalha com as experiências conscientes que se tornam lembranças passíveis de veiculação social através da linguagem. Até mesmo afetos, que correspondem a processos de descarga, podem ou não serem percebidos conscientemente como emoções (a depender do recalque, ou não, do mesmo).
Contudo, seria possível classificar os eventos como potencialmente traumáticos considerando apenas sua natureza (como violenta, por exemplo)? Teriam todos os eventos a mesma carga emotiva para todos os indivíduos? Uma criança, por exemplo, que jamais sofreu uma violência, poderia vivenciar um evento violento com grande carga emocional a ponto de ultrapassar o limiar psíquico e o inconsciente reprimi-lo, o que levaria a formação de um trauma? No caso dos ex-internos, observamos, no entanto, que eles lembram e contam com clareza eventos ligados a violências físicas, psicológicas e morais,
que embora lhes causem sofrimento, não parece lhes terem formado um trauma no sentido freudiano. Em conversa, Uta relata:
Não quero ser dramático não, mas é uma lembrança que veio, não posso esquecer, quando um fio de ferro quebrou no meu pé, apanhava porque eu mijava na cama. O nome do cidadão eu não preciso nem falar, porque se eu encontrasse ele hoje, eu falaria. Seu Naza! Já falei! É essa dai! Essa simplesmente não tem como esquecer. Simplesmente porque eu mijava na cama, o fio de ferro que ele batia no nosso pé, quebrou no meu. Então não dá pra esquecer. A dor que a gente sentia que nem conseguia andar depois (Uta, entrevista coletiva, abril 2017).
Nesse sentido, primeiramente, devemos relativizar a relação entre determinados eventos, como os de violência, e sua suposta alta carga emocional. A percepção que alguém tem de um evento não é a mesma que outro possa vir a ter do mesmo evento. Nesse sentido, não é possível classificar um evento como genericamente “traumático”. Além disso, a presença de uma entidade, como o inconsciente, capaz de bloquear a representabilidade de determinados eventos nos parece uma hipótese um tanto determinista e sem fundamentação em outras áreas do conhecimento. Estudos (do que denominam de) “Neurociências Psicanalíticas", por exemplo, que demonstram que eventos “chocantes” que podem causar sofrimento se tornam memórias com o mesmo
status ontológico do que as memórias regulares (Bohleber, 2007, p. 163). Seria,
portanto, o modelo emocional freudiano o mais adequado para tratar a relação entre um “trauma" e sua relação com processos de rememoração?
A relação entre eventos com forte carga emocional e sua consequente não representação também está presente em trabalhos utilizados pela Sociologia da Violência, como os da antropóloga Veena Das (1999). Ela utiliza o conceito de formas de vida de Wittgenstein, seguindo a suposição que a existência dos seres-humanos repousa na linguagem. Como consequência para os indivíduos, incorre-se na afirmação de que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” (2007 [1921], 5.6). A linguagem que nunca é privada permanece viva enquanto há uma comunidade que consegue entender tais representações. Isso pois, "é mediante a objetivação linguística, mesmo quando estou falando comigo mesmo no pensamento solitário, que um mundo inteiro pode apresentar-se a mim a qualquer momento […] a linguagem torna
presente a mim não somente os semelhantes que estão fisicamente ausentes no momento, mas indivíduos no passado relembrado ou reconstituído” (Berger & Luckmann, 2008, p. 60).
Esse raciocínio leva a duas possibilidades: a) a relação de aceitação ou rejeição do que pode ser expresso por meio da linguagem (incluindo as experiências subjetivas) depende da comunidade de falantes que o indivíduo está inserido, b) as experiências extra cotidianas não seriam expressas pela linguagem ou, ao menos, só o seriam com muita dificuldade, pois não há compartilhamento prévio de representações de experiências e significados entre um conjunto de pessoas para as quais tais experiências fariam sentido. Sob a ótica da segunda possibilidade, Veena Das acredita que a linguagem estabeleceria a fronteira para a definição do que seria “humano” e “não humano", incluindo nisto a ideia de violência, como uma negação dessa condição humana. Assim, frente a situações extra cotidianas e “não humanas”, teríamos dificuldade em expressar tais experiências por meio da linguagem. Há, portanto, uma situação de ‘não representação’ ou uma ‘sub-representação’ como uma expressão “traumática” de eventos fora do contexto ordinário de uma determinada comunidade. Isso, pois não haveria a expressão em palavras do reconhecimento social de determinadas experiências ditas extraordinárias para uma dada comunidade.
Em diálogo com a hipótese do trauma, é possível encontrar na obra de Sandor Ferenczi (1929; 1932; 1934) uma explicação distinta da freudiana. Diferentemente de Freud que entende que eventos como esses investem uma carga psíquica tão grande que o evento é recalcado e relegado ao domínio do inconsciente, Ferenczi (1992 [1934]) entende que os eventos extraordinários não estão necessariamente ligados a uma alta carga psíquica, mas sim podem tornar-se incompreensíveis ao indivíduo, caso não faça parte do universo de possibilidades/referências do mesmo. Ou seja, Ferenczi tem uma concepção mais contextual do trauma, levando em conta o "background" do indivíduo e o contexto social dele.
A construção de sentido para Ferenczi é intersubjetiva, tal como em Wittgenstein. Ferenczi desenvolve seu argumento a partir de um relato de caso clínico em que uma criança abusada sexualmente busca um adulto - que não é seu agressor em si, mas alguém reconhecido como uma autoridade ou referência no círculo imediato da criança- a fim de atribuir sentido ao que aconteceu, já que ela sozinha não entende aquele evento extraordinário. Ao não reconhecer, creditar ou legitimar o relato da criança, esse interlocutor colabora para a formação de um trauma, ou seja, aquela experiência permanece no âmbito do incompreendido e, portanto, do silenciado. Ferenczi propõe uma releitura relacional do conceito de trauma em que o não reconhecimento da narrativa de sofrimento por um terceiro implica na desautorização/descrédito da sua experiência no campo social. Essa desautorização, ruptura no reconhecimento no campo das relações sociais e políticas, está na base da constituição do que ele vem a denominar de “trauma”. A falta de crédito decorre do fato de o interlocutor assumir que o evento não passa de um acontecimento irreal ou fantasioso (Ferenczi, 1931). Se a autoridade não reconhece o que a criança relata, o evento fica desprovido de sentido, podendo causar sofrimento futuro.
Durante uma entrevista em setembro de 2017, Tom descreve uma situação que aconteceu com um colega que ilustra o que estamos debatendo:
Eu posso imaginar o quanto doloroso deve ser pra uma criança ser abusada. Você consegue imaginar um filho da puta estuprar o moleque e o moleque não poder falar nada? Sem poder falar, porque o funcionário ou o diretor não acreditariam na criança…? (Tom, entrevista em profundidade, setembro de 2017).
É frequente o relato de episódios de violência seguidos de incompreensão ou invalidação do que aconteceu. No trecho abaixo, Luca descreve o sofrimento oriundo não apenas dos eventos vividos (no caso abaixo, ele trata de trabalho forçado dentro da instituição), mas sobretudo da impossibilidade de validar com alguém que ele considerava autoridade, aquilo que ele entendia como errado (imcompatível com a sua condição de criança):
Você simplesmente é uma criança, então quem era você? Era uma época que os direitos não valia. Não tinha esse negócio. Tanto que com 7 ano, volto a falar, em vez de eu estar jogando bola eu tava carpindo pomar num sol de rachar mamona. Você não podia levar o caso a quem quer que fosse lá na direção (Luca, entrevista em profundidade, junho de 2017).
Pensar o trauma na chave da compreensão/interpretação/entendimento em vez de pensá-lo na chave da memória nos permite entendê-lo muito mais como um sofrimento psico-emocional do que como uma interdição à possibilidade de rememoração. A ideia de trauma como uma crise do sentido não é exclusiva ao pensamento ferencziano. O que Ferenczi propõe vai além e em direção do que vamos discutir mais a diante: de que o entendimento de algo se dá no âmbito da interação social. E de uma interação social permeada por relações de autoridade e validação do que está sendo dito. O “trauma" de Ferenczi aponta para um sofrimento que advém do descrédito e consequente incompreensão de um evento. Esse evento, portanto, pode ser relembrado e reinterpretado no futuro, mesmo que não tenha podido ser interpretado no presente.
A falta de entendimento desses eventos acaba por desconectá-los das narrativas mais complexas. Geralmente são eventos que não encontram nas estórias de vida, mas são trazidos de forma desconectada, ora espontaneamente, ora quando o indivíduo é questionado. Essa dinâmica aconteceu muitas vezes na pesquisa empírica. Após contarem sobre toda sua vida e ao final questionados, relatos de eventos incompreendidos e que causam sofrimento vêm à tona.
Pesquisadora: Agora que você já me contou toda a sua estória de vida,
você quer contar qual a pior e melhor lembrança que você tem?
Luca: {Pesquisadora: Qual a pior e melhor lembrança que você tem? Luca: [silêncio] Bom, acho que a pior lembrança …. Foi quando eu
apanhei .... Eu apanhei sem saber o porquê! Por que você tá apanhando? Não sei, tô apanhando, não sei, se perguntassem pra mim [silêncio]. Foi bem assim, tinha um funcionário do lar 4, hoje falecido também que gostava muito de fazer brincadeira. Imitava a Gretchen, imitava cantor. A gente chegava e quando ele ia fazer imitações, o palco era o dormitório. 40 camas, alternado com criado e todo mundo sentado no criado. Até então o pessoal tudo correndo e brincando. Aí ele passou e disse: "o Seu fulano vem chegando, fica quieto que vai ter brincadeira". AÍ todo mundo ficava quietinho. Ele entra com as mãos para trás. E o pessoal achando que vai ter brincadeira. Ele chegou na primeira fileira e o silêncio era
tamanho que ele não precisou falar duas vezes. Ele tava com um conga na mão escondido. "São duas, uma em cada. Perdeu uma, a terceira é na cara". Ele falou desse jeito e aí, pá! Isso é que me deixou assim. Bateu em todo mundo e éramos todos, era o lar menor, sabe? E se for levar o caso na direção, era pior que você. O diretor ia embora e quem ficava lá? Você tinha que ficar lá, não podia fugir. Você tinha que encarar a situação. Essa é uma.... uma... pequena mágoa que eu tenho.
Esposa: Eu tô sabendo agora isso, por que você nunca contou? Enteada: E o caso do telefone que você já contou?
Luca: É, mas na verdade teve dois casos. Eu te contei o da Lar da
Infância. Que embora não foi uma coisa legal, essa pelo menos eu soube o porquê eu tava apanhando [risos]. Nunca contei o que aconteceu no instituto. Teve outras vezes e eu nunca entendi. Eu tinha 7 anos, eu tava trabalhando na cozinha, é barulho de máquina, panela, aquela barulheira. O Seu Antônio, forte, alto, aquela voz "Luiz Carlos" e com aquele barulho eu não ouvi. Ele tinha pedido para eu pegar uma lata de extrato de tomate. Eu ouvi mais ou menos. Pra você obter uma certeza, você pergunta né? Mas eu simplesmente eu.... "Luca, vai na dispensa e pega uma lata". E eu.... não ouvi, e eu "o quê?". Daí ele "vem cá". Aí ele levou eu até a dispensa, "ó, pedi isso aqui ó, mas deixa". Ele olhou pra mim e fez isso! Pá, deu um telefone na minha orelha (Luca, entrevista em profundidade, junho de 2017).
No caso acima, o evento lembrado não foi compreendido pelo ex-interno. Sua esposa e sua enteada que estavam ao seu lado nunca tinham ouvido ele falar sobre esse evento, embora já soubessem de outras violências que ele havia sofrido na primeira instituição (Lar da Infância) onde foi internado. Aqui, ele explica que entendeu o motivo de ter sofrido uma violência no Lar da Infância, mas que nunca tinha compreendido por que foi agredido no Instituto anos mais tarde. Possivelmente, como descreveu Tom na citação anterior, era improvável que os meninos recebessem crédito daqueles que eles consideravam como “autoridades” e, portanto, vários eventos como esse citado permaneceram incompreendidos ao longo dos anos, possivelmente causando- lhe sofrimento.
Como podemos ver, Luca falou explicitamente sobre a violência que ele sofreu. Não há uma formação de trauma no sentido freudiano em que há uma repressão psíquica que impõe uma interdição discursiva. Há eventos que geraram sofrimento, que podem ser lembrados, mas que, por serem incompreendidos, acabam não sendo integrados em suas narrativas autobiográficas em um primeiro momento. São lembrados e relatados porque
provavelmente também não se trata de eventos excepcionais em suas vidas. Como discutimos no subcapítulo 1.2 "As condições sociais desse passado:
reflexões sobre abandono, institucionalização e estigma", muitos deles viviam
em condições de violência em suas famílias, portanto, situações de agressão faziam parte de seu universo de possibilidades antes e dentro do instituto. Eventos de violência que ainda lhe causam sofrimento e que são anteriores à vida deles no Instituto aparecem na mesma maneira. Um relato direto, explícito e incompreendido, como o a seguir:
Têm coisas que você não esquece, você não guarda rancor, mas você não esquece, por exemplo, minha mãe me acusou que eu estuprei minha irmã, quer dizer, sem fundamento nenhum. Eu fiquei sabendo disso no prontuário. Baseado em que? Isso me magoou muito, de você acusar uma pessoa, não sei da onde ela tirou. Isso me magoou muito, porque eu lembro como se fosse hoje, eu fiquei de castigo, eu fiquei pelado, ela me deixou pelado, o pessoal passando, porque a gente morava num cortiço, as pessoas passando no corredor e eu lá pelado com nove anos (risos). Isso me marcou muito, sem eu ter feito nada, ela me acusou. Até hoje eu não entendo (Tom, entrevista em profundidade, maio de 2017).
Como veremos, muitos desses eventos que envolvem violência (moral, psicológica ou física) são trazidos pelos ex-internos em uma tentativa de interpretar o que aconteceu, dar sentido aquilo que ficou incompreendido. Como veremos também, esse movimento de compreensão está ligado à própria construção identitária dos ex-internos que buscam alinhavar os eventos passados de suas trajetórias de vida: "entendimento é uma tentativa de voltar a alcançar algo que foi perdido ou tirado do self através do uso de força emocional” (Denzin, 2009, p. 284).
Esse processo se dará a partir de suas falas sobre o sofrimento. A maneira como eles classificarão suas emoções fará parte de um processo contínuo de atribuição de sentido sobre o que passaram e como isso deve se integrar às suas narrativas de vida. Como veremos no capítulo 4, no curso da análise, a questão da violência converter-se-á em uma questão atribuição de sentido às suas emoções, em como eles validam e modulam elas no curso de sua interação com seus pares, e no curso da construção de suas narrativas
mnemônicas. Pensar a rememoração de eventos violentos passados pela via da interpretação da emoção, em vez de fazê-lo pela via clássica do trauma, é um caminho empiricamente possível e sociologicamente interessante.
Assumimos, portanto, que se houver trauma, no sentido psicanalítico,