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DESCRIPTION DU MILIEU

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ÉVALUATION ENVIRONNEMENTALE DU PROJET

3.2. DESCRIPTION DU MILIEU

A Sociologia, embora tenha explorado o universo de fenômenos da memória logo em suas primeiras décadas de existência, nunca a tornou um tema central e amplamente desenvolvido, tais como a modernização, o trabalho, a estratificação social, entre outros. Foi o trabalho do sociólogo francês Maurice Halbwachs, na década de 1920, que inaugurou uma perspectiva sociológica da memória. Ele foi importante não apenas para a Sociologia, mas para as Humanidades como um todo, já que promoveu uma cissiparidade nas abordagens da memória, a qual vinha sendo tratada a partir de uma perspectiva estritamente subjetiva. Isso pois, por séculos, a Filosofia explorou questões relativas à ontologia da memória e manteve reflexões a partir do ponto de vista subjetivo.

Halbwachs rompe com essa tradição subjetivista e oferece uma compreensão da memória a partir de sua interação com o ambiente externo e tudo aquilo que dele pode advir ou influenciar. De acordo com Larry Laudan (1977), o avanço da ciência ocorre com o acúmulo de novas evidências e também com a resolução de anomalias conceituais advindas de teorias anteriores. No caso da memória, como veremos, a dimensão social da memória é uma anomalia para a tradição subjetivista, dado a dificuldade ou a impossibilidade de acomodá-la em bases puramente individuais. A existência dessa anomalia conceitual foi pela primeira vez abordada sistematicamente por

Maurice Halbwachs, quem inaugurou a tradição de pesquisa externalista da memória.

A memória passou a ser objeto de estudo sociológico e Halbwachs estabeleceu vários princípios básicos a serem contemplados em uma explicação sociológica da memória. Embora vários sociólogos tenham considerado o fenômeno memória em suas teorias, o legado de Halbwachs não foi suficiente para criar um campo subdisciplinar bem consolidado, a Sociologia da Memória, que teria a memória como objeto central de exploração. Talvez isso se deva ao fato de seus escritos não terem sido traduzidos por muito tempo para outras línguas, pelo caráter inacabado de suas obras e pela própria divergência de interesses da Sociologia que estava focada em compreender os fenômenos derivados da Segunda Guerra Mundial nos anos imediatamente posteriores a sua morte em 1945.

Ele deixou, contudo, um legado que permaneceu silenciado por algumas décadas, chegando, enfim, a influenciar amplamente vários trabalhos que surgiram na década de 1980, compondo o que se conhece como Memory

Studies, uma área que reúne estudos conceituais e empíricos sobre a memória

nas Humanidades. A teoria de Halbwachs gerou dois ramos interpretativos no interior dos Memory Studies, possivelmente porque seu conceito central “memória coletiva”, carrega certa polissemia:

“memória coletiva" […] indica dois tipos de fenômenos: memórias individuais socialmente enquadradas e representações comemorativas […] O problema é que Halbwachs não nos apresenta um paradigma unificado que identifica as particularidades das estruturas de cada um deles e da maneira como estão relacionados - embora nos apresente sugestões úteis sobre os dois assuntos. Halbwachs é um teórico do século XIX que vê o nível individual e o nível coletivo como problemas de diferentes ordens. O problema é que esses dois tipos de fenômenos aos quais a “memória coletiva” se refere parecem ser de ordens ontológicas distintas e que requerem estratégias teóricas e metodológicas diferentes (Ollick, 1999, p. 336 - tradução nossa).

Nesse sentido, há o ramo dos estudos da "memória coletiva" (collective

memory studies) e o ramo dos estudos da "memória coletada" (collected memory studies), de acordo com a terminologia de Jeffrey Ollick (1999). Ou,

version), de acordo com a terminologia de James Wertsch (1998). O ramo dos

estudos “fortes” ou “coletivos” agregam estudos que tendem a reificar ou hipostasiar a memória como um fenômeno de longo prazo ligado a uma estrutura social. Assim, “sociedades rememoram ou comemoram” sem precisar necessariamente das mentes individuais para tal, desconsiderando, assim, aspectos bio-psicológicos da memória.

Geralmente, tais estudos enfatizam o papel das organizações sociais e o poder que têm para materializar, organizar e perpetuar determinadas representações culturais. A investigação desses trabalhos está majoritariamente concentrada na análise de materiais físicos tais como monumentos, documentos, locais históricos, entre outras materializações independentes da criação subjetiva. Possivelmente, tais estudos tomaram a veia halbwachsiana presente em seu último livro completo escrito em vida La Topographie

Légendaire des Èvangiles en Terre Sainte (1941), no qual ele explora como o

Cristianismo constrói e destrói a paisagem da Palestina a fim de conformar uma determinada memória coletiva religiosa. Tais trabalhos, ao considerar a memória como "coisa", conseguem compreender como se dão as disputas pelo passado e como as comemorações são moldadas e deliberadamente organizadas em espaços e objetos. A obra de Pierre Nora, Lieux de la Mémoire (1984, 1986, 1992), é um dos grandes expoentes dessa linha de trabalhos. Ele entende que, os lugares da memória são lugares simbólicos que têm seus significados reconstruídos constantemente a partir de disputas que buscam criar versões mais legítimas do passado. Esses locais acabam se tornando o centro da história, que passa a ser múltipla, passível de interpretação e transmissão. Outro expoente dessa corrente de estudos é a investigação sobre as condições de produção e transmissão de textos elaborada Jan Assmann (1992) e denominada como “memória cultural”. Nessa chave, embora Assmann também aceite a ideia de reconstrução da memória, ele está focado em uma memória textual preservada por uma organização que impõe uma dimensão normativa à reconstrução e perpetuação dessa memória. Na mesma linha de abordagens macro, são relevantes os trabalhos de Barry Schwartz (1997; 2005) que aborda

o fenômeno da memória coletiva a nível institucional, como uma representação do passado incorporado e uma forma simbólica de comemorações. E s s a abordagem confere à memória um aspecto hipostasiado e objetificado potencialmente ligado a uma identidade de grupo e práticas específicas de transmissão pautadas em instrumentos de reprodução. Esse tipo de abordagem caracteriza o que denominam de uma “memória do grupo”, como algo que,

embora reconstruído, é unificado e atribuído a um conjunto de indivíduos. De certa forma, essa abordagem captura representações institucionais (no sentido de "organizações") sobre o passado, conflacionando a produção e a recepção do objeto cultural e abstraindo qualquer processo cognitivo que possa estar na base dessa produção da memória, por um lado, e da compreensão da mesma, por outro.

A vertente “distribuída” ou “coletada” (no sentido de “colaborativa”) trabalha com a ideia de uma rememoração colaborativa pautada nos processos mentais operados por alguém(éns), sendo necessários “agentes ativos e instrumentos que mediam a rememoração” (Wertsch, 2009, p. 119 - tradução

nossa). É dita como uma “versão fraca”, pois não toma a memória como coisa,

não há uma concepção hipostasiada da memória. Pelo contrário, entende-se que a memória em si não existe, mas sim processos de rememoração que podem ser colaborativos e distribuídos entre diversas pessoas e instrumentos e/ou objetos em interação, como, por exemplo, “calendários, registros escritos, em computadores, narrativas e outros” (Wertsch, 2009, p. 119 - tradução

nossa). Aqui, não se pressupõe uma concretude da memória, mas sim a

existência de suportes externos que colaboram/apoiam a reconstrução mental operada pelo processo de rememoração. Essa vertente tem relação com os primeiros escritos de Halbwachs sobre o tema (1925; 1923), nos quais ele enfatiza os aspectos sociais da memória individual, entendendo que ela é inscrita em quadros sociais da memória, que são categorias socialmente concebidas através das quais o passado é sustentado, organizado, ordenado e selecionado, verificando o que é plausível, realístico e coerente. Essa vertente advogaria, então, por uma memória no grupo, desfazendo a ideia de uma

memória desencarnada e afirmando-a como fruto de operações entre mente e ambiente social. Isso deixa deixa espaço para diálogos com outras áreas, como as Ciências Cognitivas - um passo que, como mencionamos no tópico anterior, consideramos importante.

A concepção de Halbwachs sobre a memória, tem um teor funcionalista. Isto é, para ele a memória é um fator de coesão do grupo. O inverso também é verdadeiro, “rituais e outros elementos de coesão que garantem a permanência temporal de uma memória” (Cordeiro, 2015, p. 33). Nesse sentido, quanto mais conteúdos mnemônicos um grupo compartilha, mais coeso ele tende a se tornar. Talvez seja este o “esse é o momento mais autenticamente durkheimiano na teoria de Halbwachs” (Ollick, Vinitzky-Seroussi & Levy, 2011, p. 19). O legado externalista e funcionalista que ele deixou e que desembocou nas duas vertentes apresentadas provê uma explicação sobre como a memória funciona

socialmente. Ou seja, seu foco está em explicar como ela é possível socialmente e se perpetua dentro de grupos. Quando ele fala em “memória familiar”, Halbwachs não está interessado em saber as idiossincrasias de uma determinada família, bem como seu contexto sócio-histórico. Partindo de uma leitura halbwachsiana, se considerássemos como uma família (como eles próprios se consideram), a maneira como eles atribuem sentido aos seus passados estaria mais ligada à estrutura e tradições familiares do que ao contexto sócio-histórico que precedeu essa “família” (que foi retraçado no capítulo 1). Assim, “família” aparece, aqui, como uma categoria transversal que guarda características comuns e que exerce funções determinadas em relação à memória.

Embora alguns comentadores cheguem até a apontar na obra de Halbwachs extra durkheimianas, e apresentando traços daquilo que os comentadores chamam de uma “incipiente sociologia fenomenológica” (Mucchielli, 1999; Coenen- Huther, 1994), ele explora pouco sobre como o processo de rememoração pode estar (e, certamente, está) fortemente pautado na atribuição de sentido. Como dito, Halbwachs sofreu forte influência de Henri Bergson e aceita sua noção de

À isso, ele incopora a noção de ser sensível para explicar que há algo na atenção e na percepção que é significativo. Como veremos no próximo tópico, sua noção de ser sensível é rudimentar e acaba encapusulada por sua noção de grupos. Não há, portanto, uma consideração sobre os aspectos compreensivos da experiência. Nessa esteira, quando Halbwachs estuda o caso empírica da Palestina, assim como quando a vertente forte apresenta vários trabalhos sobre memórias dos mais diversos grupos sociais, ambos estão lidando com a memória como uma representação objetiva, isto é, uma abstração coletiva. Ao lidar com essas representações coletivas, tanto Halbwachs quanto outros estudiosos da vertente forte não se debruçam sobre os nexos de sentidos dos indivíduos sobre como eles entendem o mundo.

Assim, enquadrar-se na vertente distribuída abre caminho para três passos que consideramos importantes na compreensão de processos de rememoração: (i) considerar aspectos bio-físicos da memória, (ii) considerar que rememorar é atribuir um sentido que implicará em uma ação posterior - e é papel do pesquisador desvendá-lo e (iii) considerar dinâmicas políticas, já que toda produção de conhecimento envolve alguma política em menor ou maior escala.

Nesse sentido, do ponto de vista teórico há uma dupla tarefa aqui: (i) entender como se dão os processos de rememoração e quais dimensões estão

neles envolvidas, e (ii) o que é rememorado (sentido) e por quê isso é

rememoração (motivação). Um processo de rememoração passa por diversas instâncias e em todas elas estão envolvidas dinâmicas de como esses

processos ocorrem, quais as condições para tal, quais elementos estão envolvidos, mas também o que está sendo rememorado, quais os sentidos

tecidos e validados. Assim, cabe a uma análise da memória mais do que explicar como acontecem os processos de interpretação, interpretá-los e compreendê-los.

Abordando a memória a partir de uma perspectiva relacional,

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