1.4. Caractérisation physico-chimique des surfaces bois
1.4.8. Mouillabilité des surfaces bois Facteurs d’influence
Como dissemos anteriormente, é o excedente de poder cognitivo inerente à certas formas de objetivação da vontade de viver, aliado à possibilidade da efetivação de um ato livre na esfera do fenômeno, além de outros elementos também importantes ( o amor e o prazer hauridos na contemplação estética do belo, a identificação com o sofrimento universal e a essência do mundo, a preponderância do intelecto sobre a vontade, bem como o advento do fenômeno da imersão total da consciência na fruição de uma obra de arte), que possibilitam a alteração de certos estados ou formas de apercepções inerentes ao intelecto, tornando-o apto a evadir- se, amoldando-o a nova realidade do universo estético, que é aquela inerente ao universo interno ou subjetivo de uma obra de arte, possibilitando, assim, com que o fenômeno do Nirvana estético se dê mais plenamente.
A maior ou menor predisposição do intelecto a tornar-se apto à fruir, plenamente, do prazer haurido da imersão absoluta na contemplação estética do belo não é somente inato, mas pode ser também desenvolvido paulatinamente; é uma questão pura e simples de “doutrinação” da consciência ou do intelecto, relacionada à maior ou menor capacidade ou predisposição que o mesmo pode adquirir de querer libertar-se, não só do jugo das formas de conhecimento inerentes ao princípio de razão suficiente, na sua forma de apreensão do fenômeno, como também de desligar-se dos interesses que determinam a cobiça e a avidez ao tentar se alcançar a satisfação dos desejos e das necessidades da vontade de viver individualizada e objetivada.
No estado estético, a consciência não encontra-se ainda completa e perfeitamente doutrinada, embora subtraia-se do jugo das formas de conhecimento inerentes ao princípio de razão suficiente, no fenômeno da contemplação artística, ao tornar-se puro sujeito que conhece e apreendendo o fenômeno independentemente de suas múltiplas e constantes relações. Tal subtração ou alheamento circunscreve-se apenas a um determinado instante, pois a consciência não é capaz de persistir e se manter indefinidamente na apreensão do objeto, independentemente de suas relações. Isto ocorre ou porque o sujeito ainda não pode evadir-se definitivamente, pois ainda está preso aos interesses e necessidades que regem a vontade de viver, ou ainda não adquiriu plena consciência do
verdadeiro caráter ou natureza da vida e do mundo. Apenas através do ato de revelação da identificação interna com todas as coisas e de que a vida é essencialmente miséria, sofrimento e dor, é que o sujeito puro do conhecimento pode buscar uma fuga por meio do ato de fruição de uma obra de arte: é o fenômeno do Nirvana estético e que será melhor compreendido quando analisarmos os estados subjetivos da consciência, no ato de imersão total dentro do universo subjetivo de uma obra de arte. Para isso, nos utilizaremos, no terceiro momento deste nosso estudo, como exemplo elucidativo no campo estético, do drama musical wagneriano, bem como as transformações ou verdadeira “redenção” que a ópera de Wagner possibilita àquele que se dispõe a tomar contato efetivo e total com o seu poder “transfigurador”.
Ao intelecto ainda não devidamente doutrinado graças ao conhecimento, ao amor desinteressado e apaixonado pelo belo, ao desejo de paz, de libertação e de redenção definitivas, e que não é portador daquele excedente de poder cognitivo, que é o apanágio do verdadeiro gênio estético por excelência, ocorre que num determinado momento, o tipo ou forma de conhecimento determinado pelas relações do princípio de razão impõe-se à consciência, na sua forma de apreensão do fenômeno, fazendo com que o sujeito puro do conhecimento passe novamente à condição de indivíduo preso ao jugo e as necessidades próprias ao tipo de conhecimento regido por relações, que determina a forma de apreensão típica do fenômeno pela vontade de viver individualizada e objetivada.
Quando, graças a um excesso ou a um excedente de poder cognitivo, o indivíduo desliga-se da forma de conhecimento determinado pelas relações, tornando-se de indivíduo comum à sujeito puro do conhecimento, claro espelho do mundo, a consciência estabelece, naquele instante em que houve a fusão entre sujeito e objeto, uma suspensão dos limites de duração que circunscrevem o fenômeno, na imersão absoluta do sujeito no objeto, ou seja, há uma espécie de letargia dos estados de consciência, que permitem com que, na interrupção de seu fluxo temporal, seu instante de duração se estenda “indefinidamente”. É quase como se a consciência, enquanto permanecendo imersa na contemplação total do objeto estético se desligasse temporariamente da sucessão intermitente que caracteriza o fluxo constante presente na divisibilidade infinita da forma de apreensão do tempo pelas formas puras da intuição sensível (espaço e tempo), que é determinada essencialmente pelo princípio de razão
suficiente (este desligamento pode estender-se mais que o normal, embora não indefinidamente, quando atuam elementos como o desejo de anulação, a liberdade de escolha e a força necessária para se romper com as relações que o intelecto estabelece com a Vontade). Enquanto não atua o conhecimento regido pelas relações, a consciência permanece desligada, por assim dizer, da forma de conhecimento regida pelo princípio de razão suficiente, transcendendo, graças ao seu excedente de poder cognitivo e sua necessidade de paz e libertação, para uma nova forma de apreensão temporal, a forma temporal imanente à obra de arte, a forma temporal “eterna” que estende os limites de duração dos instantes enquanto durar esta sua imersão, este seu desligamento face ao objeto que contempla artisticamente. Enquanto a consciência conhece por relações, ela somente capta o tempo em seu fluxo constante e intermitente de divisibilidade infinita; os instantes sucedem-se alternada e inexoravelmente, sobrepondo-se e aniquilando-se um após o outro, não sendo possível o estabelecimento de um limite de extensão indefinida aos instantes que se sucedem intermitentemente; não há a ocorrência do fenômeno da presença constante ou da duração eterna, não sendo possível a apreensão do conhecimento do objeto sob uma forma “eterna”, ou seja, fora deste modo fugaz, fugidio, onírico e, até certo ponto, “ilusório”, que caracteriza o modo de conhecimento e apreensão do todo pelas relações, ou seja, pelo princípio de razão suficiente.
Quando, imersa na contemplação do Belo, a consciência evade-se do modo de conhecimento por relações; há um alheamento, um desligamento dessa mesma consciência, que possibilita uma pausa no fluxo intermitente e sucessivo dos instantes, fazendo com que esse instante, que caracteriza este alheamento, este desligamento da consciência, fruto desta imersão absoluta da mesma no objeto, estenda-se enquanto durar esta imersão. Os limites de extensão deste mesmo instante podem, assim, prolongar-se durante um maior tempo possível (enquanto a consciência não descer novamente à forma de conhecimento por relações). A extensão prolongada dos limites do instante é o que caracteriza o fenômeno da presença ou duração e como conseqüência natural deste processo, a consciência passa a conhecer de uma forma “eterna”.
Não obstante, o grande problema é que, no estado estético, esta extensão dos limites do instante não é permanente; existe um momento em que o modo de conhecimento por relações impõe-se novamente à consciência. É
justamente isto que diferencia o artista, o gênio, do santo, do asceta: é a capacidade de permanecer indefinidamente fora das formas de conhecimento ditadas pelo princípio de razão suficiente. Mas e se buscássemos o arquétipo de um artista que não somente se limitasse a criar uma obra de arte, ou um esteta que não apenas fruísse, pura e simplesmente, uma manifestação artística qualquer, mas sim um indivíduo que, iluminado pelo mais puro e profundo conhecimento místico buscasse, como forma de redenção, a imersão total e absoluta numa obra de arte? Neste caso, o artista ou o esteta não seriam o sucedâneo do santo, do asceta místico? Sabemos que o santo ou o indivíduo que obteve sua redenção através da renúncia quietista ao mundo, no qual atingiu este estado de perfeição e plenitude, não mais é perturbado pelo chamado “conhecimento de relações”. Livre do conhecimento por meio das relações e, por extensão, do princípio de razão suficiente ele pode, se assim o desejar, estender o instante em que se efetiva este alheamento da consciência de uma forma um pouco mais extensa do que o normal. Este é o instante que caracterizaria não só o desapego, o desprezo, a renúncia quietista aos prazeres e solicitações do mundo, como também o mergulho no fenômeno que aqui denominamos de “Nirvana estético”. É neste estágio do fenômeno da anulação estética que o indivíduo ascende além das dores e dos sofrimentos obtendo, assim, uma certa forma de libertação, ainda que não seja definitiva e absoluta; há uma alteração nos estados de consciência como nós os conhecemos; em relação às formas ou modos de cognição, o indivíduo passa a conhecer as coisas de uma maneira “eterna”, ocorrendo uma parada naquele instante onde a consciência ascende em direção a esta libertação temporária das dores e aflições do mundo. No modo de consideração estético, os limites que circunscrevem o instante de imersão numa obra de arte poderiam ser mais extensos do que o normal. Por exemplo, se a consciência, de posse do pleno conhecimento de sua unidade absoluta com a essência dos demais seres (estado ético) sabe que a existência é um eterno e constante tormento e que o sofrimento infinito é o quinhão pago por todos os seres que tiveram a insensatez de aspirarem à vida, à existência (preâmbulo do fenômeno da resignação e da renúncia suprema da vontade de viver) pode, através ou por meio da arte, buscar uma “alavanca” para alcançar, por meio da contemplação do belo estético, uma primeira noção do que seria o estado da renúncia extrema.
Procuremos agora tentar realizar uma exemplificação de como se daria esta libertação da consciência por meio da contemplação estética, com o intuito de ajudar
assim a elucidar melhor a forma como o fenômeno da imersão total no belo, a contemplação estética no estado ascético, onde aquele que busca um lenitivo, uma solução, uma fuga às dores do mundo, não mais é o artista, mas sim o santo, o asceta (embora tal elucidação somente se torne mais clara quando nos utilizarmos da arte de Wagner como material de análise e de estudo).
Peguemos um indivíduo que passou, respectivamente, pelos três estágios do processo de purificação (estético, ético e ascético), mas que ainda não renunciou definitivamente a vontade de viver; ele encontra-se nos átrios deste momento belo, supremo e sublime, mas ainda não o efetivou. Ele sabe que pode evadir-se (ainda que temporariamente) na contemplação estética do belo e, ao mesmo tempo, adquiriu a consciência da unidade absoluta da essência íntima de todos os demais seres. Devido justamente a esta identificação e apropriação do sofrimento universal, ele passa a sofrer de um padecimento espiritual intenso, já que o nível de sofrimento que a consciência de cada indivíduo suporta é bastante pequeno. Devido a esta apropriação ele (o sofrimento) torna-se insuportável, excessivo, pois passa a se constituir numa dor permanente. O espírito, assim, constantemente atormentado, busca um fim (ou ao menos uma interrupção temporária) aos seus padecimentos na contemplação estética. Sabendo que a imersão no Belo é uma porta à anulação total do sentimento, da consciência da dor e do sofrimento universais, o indivíduo busca, assim, alguma obra ou manifestação artística na qual possa se perder em sua contemplação. Ele então se depara, por exemplo, com as célebres obras dos grandes mestres da pintura renascentista italiana dos séculos XV e XVI(Rafael Sânzio, Antonio Allegri), ou os artistas da escola flamenga do século XV Jan Van Eyck, Roger Van Der Weyden, Robert Campin); imbuído de toda esta dor e carregado de todo o sofrimento universal, desejando uma interrupção para todos os seus padecimentos, que pode ser alcançada através da suspensão temporária de sua consciência por meio da contemplação desinteressada da beleza, personificada nas obras daqueles grandes mestres, ele pode evadir-se durante alguns instantes. Imbuído de um tal estado de espírito e com tal predisposição, ele contempla a obra Martírio de São Plácido e de
Santa Flávia, de Correggio, ou a Madona Cistina, de Rafael Sanzio, ou o Desposório do Matrimônio Arnolfini, de Van Eyck; ele contempla então, nas expressões de
serenidade contidas nas feições e nos olhos daquelas figuras representadas nestes quadros, o reflexo do mais perfeito tipo ou forma de conhecimento; conhecimento
este que apreendeu perfeitamente a real essência e natureza do mundo e da vida; conhecimento livre não só de todo o tipo de relações, como também das coisas individuais; conhecimento este que, ao refletir-se sobre os interesses e necessidade da vontade individualizada, já não é capaz de excitar, na mesma, sua característica fome de satisfação de sua necessidades e desejos, mas que opera, nesta mesma vontade, como que um verdadeiro quietivo de todo o querer, donde surge o fenômeno da resignação, da renúncia; renúncia e resignação estas que, segundo as palavras do próprio Schopenhauer, se constitui no espírito mais interior do
Cristianismo, bem como da própria sabedoria hindu. (M1, p. 81)
O indivíduo então deseja alcançar aquela mesma serenidade deliciosa que ele agora contempla naquelas mesmas obras; ele sabe, pelos níveis elevados de consciência que atingiu, que deve sacrificar o seu próprio querer, por meio da supressão definitiva de sua própria vontade individualizada, pelo sacrifício total de todo o seu querer e, com ele, a renúncia absoluta e definitiva do mundo, a salvação do ciclo interminável de morte e renascimento, inerentes ao Sansara hindu.
Na sucessão infinita dos instantes que transcorrem e perdem-se no fluxo intermitente que caracteriza a passagem do tempo, a consciência detêm-se no instante em que se deu o momento da contemplação do quadro ou da obra de arte; devido ao êxtase causado pela imersão absoluta no Belo, a consciência salta da forma de apercepção intuitiva, para a forma de apreensão estético-transcendental, onde a forma de apreensão do fluxo do tempo como tradicionalmente conhecemos não mais existe. Como esta modificação se dá no instante em que ocorre o ato da contemplação estética, a consciência alarga os limites que determinam a permanência do instante que caracteriza o momento desta contemplação e, por meio do êxtase haurido nela, tal instante é prolongado além do normal e a obra é conhecida de uma maneira “eterna”, ou seja, atemporal. Seria desta forma que o fenômeno da evasão, no ato da contemplação estética, ocorreria. Devido não só ao êxtase haurido na beleza contemplada, da felicidade advinda da serenidade de espírito do indivíduo que não mais sente as dores do mundo, bem como da cessação da inquietação e do tormento freqüentes oriundos da ação incessante da “roda de Íxion”, na qual se constitui a cadeia de desejos e de necessidades do querer-viver, a consciência começa a não mais desejar a cessação deste momento de evasão e deste estado de bem-aventurança, demorando-se nesta forma de apercepção “eterna” e demorando a regressar à antiga forma de apercepção
cognitiva. Ela (a consciência) permanece num estado de suspensão temporária, onde a contemplação da Idéia representada numa obra de arte torna-se livre da ação perniciosa dos desejos, das inquietações, das necessidades, das paixões, dos tormentos, dos sofrimentos e das dores do mundo: é a obtenção da única forma real de felicidade, de paz, de redenção e de salvação: é o Nirvana oriental obtido por meio da contemplação estética do Belo. Não obstante, para entendermos melhor este conceito de “Nirvana estético” precisamos primeiro nos deter mais especificamente em alguns pontos importantes da estética de Schopenhauer; são eles: o conceito de gênio estético e as relações entre arte a ascetismo.