Martin Heidegger, em A questão da técnica, situou a técnica como um problema filosófico do mundo contemporâneo. O contexto histórico, o momento ou o espírito do tempo é tratado por Heidegger como a “era da técnica”. A técnica está para o homem ou para este tempo como destino:
A espetacular revolução que provoca o fato técnico no presente e sua apreciação crítica por parte do filósofo está exatamente no fato de que a realidade do presente é toda ela moldada, como nunca antes na história do planeta, pelas tecnologias. A técnica é o inevitável de nosso tempo, não se pode desistir, desviar-se dela, ao mesmo tempo que o homem, ou melhor, o pensamento, diante dela, especialmente diante de seu atual estágio de desenvolvimento, se atrofia. “O pensamento está em declínio, na miséria de seu ser provisório”, diz Heidegger no texto sobre a teoria platônica da verdade. A técnica é nosso destino, diz Günter Anders, na esteira de Heidegger, para quem ela é a mais plena realização da metafísica. (Ciro Marcondes Filho, O escavador de silêncios, p. 357)
A técnica é nosso destino contemporâneo, mas sempre esteve no destino do Ocidente: “No começo do destino do Ocidente, na Grécia, as artes elevaram-se às maiores alturas do desabrigar a elas consentidas. Elas permitiram que a presença dos deuses e o diálogo entre o destino humano e o destino divino brilhassem” (Heidegger, A questão da técnica, p. 395). Heidegger faz distinção entre a técnica grega antiga e a técnica manual, e a técnica moderna, identificadas como “...a moderna técnica das máquinas de força” (Idem, p. 381), cujo desenvolvimento é conhecido na Revolução Industrial. A técnica moderna possui outra fisionomia, pois “...repousa sobre a moderna ciência exata da natureza” (Idem, p. 381), a saber, a física moderna. Assim como a técnica moderna repousa na física moderna, também a física repousa na técnica: “...a física moderna, como algo que é experimental, depende de aparelhos técnicos e do progresso da construção de aparelhos” (Idem, p. 381). O ser da técnica é aquilo que se manifesta em sua instrumentalidade, nos aparelhos, nas máquinas, na fabricação. Para Heidegger, a técnica, em seu ser, é uma
instalação (instrumentum), “...ela é um meio e um fazer humano” (Idem, p. 376). O questionamento de Heidegger sobre a técnica não é sobre a coisa (ente) da técnica, mas sobre a sua essência, o que é da técnica (o Ser). Retomando a doutrina aristotélica das quatro causas, a saber: 1. a causa materialis (a matéria); 2. a causa formalis (forma); 3. a causa finalis (a finalidade); e 4. a causa efficiens (aquilo que efetua o efeito), estas quatro causas elucidam o ser instrumental da técnica; contudo, Heidegger se pergunta sobre o “comprometimento” ou a relação estabelecida entre as quatro causas e o que as unifica.
A técnica não se revela no que ela é quando observamos sua instrumentalidade, sua instalação. É no aparecimento de algo, quando algo surge, quando algo ganha existência, que isto é ocasionado. Algo ainda não se apresenta (não existe), o ocasionar é fazer algo existir, deixar vir ser presente. Portanto: “Os quatro modos de comprometimento fazem com que algo apareça” (Idem, p. 379). Assim, a técnica é ato de produzir : “Tudo se decide na questão de pensar o produzir em toda a sua amplitude...” (Idem, p. 379). A capacidade de produzir e o comprometimento do pensamento para isso é uma arte (thécne), o que implica o homem na técnica e a técnica no homem. Ao que Heidegger chama como destino técnico do homem, presente desde as origens gregas na vida ocidental. Assim: “Os modos de ocasionar, as quatro causas, atuam, desse modo, no seio do produzir. Por meio dele surge, cada vez, em seu aparecer, tanto o que cresce na natureza quanto o que é feito pelo artesão e pela arte” (Idem, p. 379).
O produzir não é somente o efeito de produzir algo, mas desocultar o que estava oculto, desabrigar, trazer à luz: “Nós dizemos ‘verdade’ e a compreendemos costumeiramente como a exatidão da representação” (Idem, p. 380). A técnica, portanto: “É um modo de desabrigar” (Idem, p. 380), e o desabrigar para Heidegger é ato de conhecer que implica a verdade: “Por um lado, a (thécne) não é somente o nome para o fazer e poder manual, mas também para as artes superiores e belas-artes” (Idem, p. 389). O produzir, que é um ato técnico, implica ter conhecimento, dominar a arte de produção, compreender a coisa produzida. A técnica, portanto, é um modo de desabrigar, desocultar, trazer à luz o ser. O modo de desabrigamento do ser moderno é perigoso, pois se assenta nas ciências exatas, como a física, a matemática e a geometria moderna, elevando potencialmente a vontade de dominação humana, agora instrumentalizada pela técnica, que desafia a natureza: “O desafiar imperante na técnica moderna é um desafiar ‘Herausforden’ que
estabelece, para a natureza, a exigência de fornecer energia suscetível de ser extraída e armazenada enquanto tal” (Idem, p. 380). A virada técnica moderna desafia a natureza, pois extrai (explora) e, com um mínimo de despesa, quer o máximo de proveito (armazenar): “Explorar, transformar, armazenar e distribuir são modos de desabrigar” (Idem, p. 380).
Heidegger utiliza a palavra subsistência (Bestand) e dá a esta um novo significado: “A palavra ‘subsistência’ eleva-se agora à categoria de um título. Ela significa nada menos do que o modo pelo qual tudo o que é tocado pelo desabrigar desafiante se essencializa” (Idem, p. 383). O desabrigar que desafia a natureza se essencializa de um modo técnico, essa é a forma moderna de conhecer. Na modernidade, o indivíduo é constituído como o centro, a razão23. Ao cultivar a técnica, o homem se cultiva, ao desabrigar o ser de forma técnica, o homem desabriga também a si mesmo de forma técnica. Heidegger retoma de Platão aquilo que “impera em tudo e em cada coisa”. Aquilo que é sensível e captado por nós em todas as coisas; contudo, há coisas que estão presentes em cada coisa e em todas as coisas e que “perfaz a essência” das coisas, a isso Heidegger dá o nome de armação: “Armação significa o modo de desabrigar que impera na essência da técnica moderna e não é propriamente nada de técnico” (Idem, p. 385). A técnica, em seu ser, é um instrumento, mas, em sua essência, é uma armação que se coloca como o fundamento (metafísico) do modo de desabrigar o mundo. O produzir é a forma moderna de expor o mundo, trazer o mundo à luz, cuja montagem é sustentada, unificada, pela técnica, que passa a ser o fundamento último (metafísica). O que está como fundamento último para Heidegger, seguindo Nietzsche é a vontade de poder. A armação é a montagem do mundo em suporte técnico. Esse tempo, Heidegger denomina-o de era da técnica. O homem da era técnica
23 Habermas ao compreender a modernidade na leitura de Hegel, destaque que o princípio desse novo tempo que é a modernidade se dá pela ideia de subjetividade. A subjetividade é uma “estrutura de auto-relação” é “a propriedade do espírito pela qual este está em si consigo mesmo”, a isto se dá o nome de razão. A razão produz a subjetividade que se expressa em quatro princípios:
A)individualismo: no mundo moderno, a singularidade infinitamente particular pode fazer valer suas pretensões; b) direito de crítica: o princípio do mundo moderno exige que aquilo que deve ser reconhecido por todos se mostre a cada um como algo legítimo; c) autonomia da ação: é próprio dos tempos modernos que queiramos responder pelo que fazemos ; d) por fim, a própria filosofia idealista: Hegel considera como obra dos tempos modernos que a filosofia apreenda a ideia que se abre a si mesma. (Habermas, O discurso filosófico da modernidade, pgs 25-26).
desoculta a realidade, produzindo a montagem do mundo (armação); a montagem do mundo é um processo técnico. Para Heidegger, a técnica não tem nada de técnico, mas sim de armação. Essa é a essência da técnica. A armação é a forma como o homem conhece e produz o mundo, na modernidade, apoiado nas ciências exatas e esta, por sua vez, na técnica. A realidade, portanto, que se desabriga, se desoculta, subsistirá, de forma técnica, na modernidade: “A armação é o que recolhe daquele pôr que o põe homem para desabrigar a realidade no modo de requerer enquanto subsistência. O homem, enquanto alguém assim desafiado, está situado no âmbito essencial da armação” (Idem, p. 387). O homem, portanto, é essencial no modo de armação do mundo, agora de forma técnica. O homem se coloca como artífice desta armação. Heidegger repetirá inúmeras vezes que “a essência da técnica moderna repousa na armação”, e quem realiza essa armação é o homem. O homem da era técnica não busca nada de técnico, mas, sim, metafísico, pois deseja desabrigar o ser último de todas as coisas pela produção. A armação é o desejo metafísico do homem de descobrir, desocultar todas as coisas, montando (armando) o mundo a partir de si mesmo. O desejo metafísico tem como fundamento conhecer a causa última de todas as coisas, agora, na era técnica, desabrigando o ser de forma científica, matemática e física.
Armar o mundo de forma técnica é exercer um domínio sobre as coisas, um poder que o homem nunca tinha experimentado: “A armação não é nada de técnico, nada de maquinal. É o modo segundo o qual a realidade se desabriga como subsistência” (Idem, p. 387). O que para Heidegger é “o” perigo: “O destino do desabrigar não é em si qualquer perigo, mas é o perigo” (Idem, p. 389). O homem da era técnica não arma o mundo somente de forma técnica, ele também se arma de forma técnica; em sua essência, o homem já é técnico, pois já se arma, se monta, de forma técnica: “A autêntica ameaça já atacou o homem em sua essência” (Idem, p. 390). A metafísica pensada por Heidegger, para descrever a essência da técnica, não é a metafísica do que é essencial. Exemplificada no modo de ser da casa ou do Estado, o que é universal ou entendido por universal em determinado gênero (Idem, p. 392); portanto, o estático e imutável. O sentido metafísico é o modo como a coisa se essencializa, a essência de uma coisa é aquilo que dura, aquilo que continua e que permanece em todas as coisas. O que continua permanente em tudo o que acontece é a essência da coisa. A metafísica, quando pensa a essência, pensa o fundamento último daquilo que permanece no acontecimento das coisas. O que permanece nas coisas é
o essencial: “Tudo o que é essencial dura” (Idem, p. 393):
Dura a essência da técnica no sentido da continuação de uma ideia que paira sobre tudo o que é técnico, de tal modo que, a partir daqui, nasce a aparência de que o nome “a técnica” designa uma abstração mítica? O modo como a técnica essencializa somente se deixa visualizar com base naquele continuar por onde acontece a armação enquanto um destino do desabrigar. (Idem, p. 393)
Os homens da era técnica consentem que o mundo seja armado de forma técnica; portanto, a essência da técnica se essencializa em um novo tempo, em um novo modo de fazer as coisas, em uma nova forma de percepção do mundo que é essencialmente técnico e que dura em tudo o que produzimos. Umberto Galimberti afirmará que a técnica é a essência do homem e que, na idade da técnica24, existe um homem pré-técnico e outro pós-
técnico, exigindo que se faça na idade técnica uma revisão de todos os conceitos e posturas humanistas desenvolvidos no mundo ocidental. A técnica provoca um deslocamento da condição humana; para Galimberti, o homem agora é funcionário da técnica:
O que será do homem num universo de meios que não tem em vista outra coisa senão o aperfeiçoamento e a potencialização da própria instrumentação? Lá onde o mundo da vida é todo gerado e tornado possível pelo aparato técnico, o homem se torna um funcionário desse aparato, e sua identidade se resolve inteiramente na funcionalidade, e por isso é possível dizer que, na idade da técnica, o homem está perto-de-si apenas enquanto é funcional a esse outro-de-si que é a técnica. (Umberto Galimberti, Psiche e techne, p. 17)
24 Entende Galimberti que a idade da técnica tem início quando:
Mas, na idade da técnica, que começa quando o universo dos meios não tem em vista nenhuma finalidade (nem mesmo o lucro), a relação se inverte, no sentido de que o homem não é mais um sujeito que a produção capitalista aliena e reifica, mas um produto da alienação tecnológica, a qual se organiza como sujeito e faz do homem um predicado seu. (Umberto Galimberti, Psiche e techne, pgs. 17-18)
Nesta nova condição do homem diante da técnica, Günther Anders ressalta que o homem torna-se inadequado e obsoleto, envergonhado de sua condição e, sofrendo um tipo de queda, torna-se matéria-prima para a era da produção técnica:
Nada neste “mundo artificial” criado pela segunda revolução industrial pode ser senão meio, cuja função é tão somente a de garantir a produção de outros meios. Mas o processo de medialização total do homem (homem = meio) continua ainda mais radical na “terceira e última revolução industrial”. Anders diz que, dentro dessa última revolução, ocorre uma “revolução interior”, que é a transformação do homem, ele mesmo, em matéria-prima da própria produção. O exemplo é o uso fascista de corpos humanos para a fabricação de tecidos, abajures etc. É o mesmo caso de Heidegger, que, antecipando-se à atual pesquisa genética de clones para a substituição de órgãos, fala, em Ensaios e conferências, que se pode contar que um dia “sejam montadas fábricas para a geração de material humano”. (Ciro Marcondes, O escavador de silêncios, p. 370)
A era técnica introduz uma nova condição no homem e este é o marco para a compreensão de um novo tempo: “...a situação em que o homem rola do centro para X” (Gianni Vattimo, O fim da modernidade, p. 3-4). Diante desta nova era técnica, resta-nos o pensar: “Quanto mais nos aproximarmos do perigo, de modo mais claro começarão a brilhar os caminhos para o que salva, mais questionadores seremos. Pois o questionar é a devoção do pensamento” (Martin Heidegger, A questão da técnica, p. 396).
III PARTE
O Contínuo Mediático Atmosférico
O fenômeno