A palavra mediático encontra sua raiz na língua latina, meditullium, meio, espaço intermediário:
I - O uso da palavra latina mais conhecida medium aplica-se a diversos sentidos. Sentido próprio: a1) meio, centro, espaço intermediário (sentido local e temporal), a2) lugar para onde tudo converge, praça pública, sociedade. No sentido figurado: b1) o público, b2) meio, lugar acessível a todos, à disposição de todos. O medium é o local onde se põe a coisa à vista de todos, onde se dá visibilidade à coisa. (Ernesto Faria, Dicionário escolar latino- português, p. 334)
II - Medius, a, um. A esta palavra, de mesma raiz medium, a língua latina reserva outras utilizações. No sentido próprio: a1) que está no meio, central, médio, intermediário (local e temporal); a2) Sentido moral, que não se inclina para lado algum, indiferente, indeterminado etc. No sentido figurado: a3) meio, cerne, coração; a4) medíocre, comum, ordinário; a5) de meia-idade, nem velho, nem moço, a6) neutro. (Idem, p. 334)
III - Medius – É o medianeiro, intermediário. (Idem, p. 334)
É esta palavra medium (medius) que dará origem à palavra meios (Torrinha, Dicionário latino-português, p. 509) e, em nosso caso
específico, é usada para denominar os meios de comunicação, como, por exemplo, a grande empresa que cuida dos processos de produção de informação, da implementação de novas tecnologias de informação. O uso da palavra mediático deriva não das mídias, mas dos medium de comunicação: “O contínuo é mediático porque sua energização é realizada diariamente, o tempo todo, com mensagens unidirecionadas, visando, pela repetição e pela insistência, debilitar o pensamento e as articulações contrárias”. (Ciro Marcondes Filho, Fake News, o contínuo mediático e a desconstrução do jornalismo na era dos robôs e das mensagens falsamente humanas, p. 3)
A produção do contínuo é cotidiana, em escala industrial e massiva, visando à ininterrupta energização dos indivíduos. Faz-se necessário, primeiramente, a existência de uma indústria com sua infraestrutura de produção, desde equipamentos técnicos, logística de distribuição, mão de obra qualificada, capital alocado para compra e lucro da indústria.41 Para que haja a energização, a indústria precisa atuar nas mais diversas frentes e meios de
41 Jürgen Habermas é um dos poucos filósofos contemporâneos que, ao compreenderem a modernidade, situaram a comunicação como um problema filosófico. Habermas observa que a modernidade fez-se entremeada por vários elementos, um desses é o capital e os meios de comunicação. Os modernos meios de comunicação constituem-se com o capital e conhecerão formas distintas de produção segundo o modo capitalista, primeiramente mercantil, depois industrial e hoje técnico-financeiro:
Acontece algo semelhante com a circulação de notícias, que se desenvolve em paralelo com a circulação de mercadorias. Com a expansão das trocas, o cálculo comercial orientado para o mercado necessita de informações mais frequentes e precisas sobre processos distantes. Por isso, desde o século XIV, a antiga troca de cartas comerciais foi organizada como um tipo de sistema profissional de correspondência. Os estabelecimentos comerciais organizaram para seus fins os primeiros itinerários de mensageiros, os chamados correios ordinários, que partiam em determinados dias. As grandes cidades comerciais são, ao mesmo tempo, centros de circulação de notícias. Quando a circulação de mercadorias e letras de câmbio se torna permanente, também essa permanência se torna urgente. Mais ou menos simultâneo ao surgimento das bolsas, o correio e a imprensa institucionalizam comunicações e contatos duradouros. (Jürgen Habermas. Mudança estrutural da esfera pública, p. 116)
difusão e propagação. Os grandes meios de comunicação, como a internet, a TV, os jornais, o rádio, possuem suas características na cadeia produtiva, contudo, no contínuo mediático atmosférico, não há uma centralidade para a ocorrência da produção do fenômeno comunicacional, pois o movimento pode iniciar em um único click fotográfico que ganhe viralidade no contínuo. O movimento do contínuo pode acontecer na escrita de uma carta ou mesmo em um corpo de um indivíduo anônimo. A grande indústria da comunicação leva vantagem42 na ocupação do contínuo mediático atmosférico, pois a classe dos proprietários e o capital ali alocado é de maior alcance.43
Em certos momentos críticos de uma sociedade, o interesse dos grandes meios, no contínuo mediático atmosférico, é fazer com que todos os meios de comunicação se
42 A indústria da comunicação, seja ela representada pelos grandes meios de comunicação ou empreendimentos de menor porte, assim como as transformações técnicas que alteram o modo produtivo da comunicação, seguem as leis do mercado:
A circulação de notícias não se desenvolve apenas vinculada às necessidades de circulação de mercadorias: as próprias notícias se transformam em mercadorias. Por isso, o noticiário profissional é submetido às mesmas leis do mercado, a cujo surgimento deve sua própria existência. Não é por acaso que os jornais impressos se desenvolvem muitas vezes a partir das mesmas agências de correspondência que já cuidavam dos jornais manuscritos. Toda informação epistolar tem seu preço; por isso, é natural querer aumentar o lucro pela ampliação das vendas. É por esse motivo que uma parte do material de notícias disponível já era impressa periodicamente e vendida anonimamente e, com isso, ganhava publicidade. (Idem, p. 126)
43 Para Habermas, na modernidade, a origem da esfera pública é um entrelaçamento entre o projeto de esclarecimento, a burguesia e o capital. A esfera pública burguesa, que são indivíduos privados reunidos, primeiramente como leitores esclarecidos, passam a discutir e utilizar a razão pública e universal. Esse grupo constitui uma das forças que atuam no contínuo mediático atmosférico:
A esfera pública burguesa pode ser entendida, antes de mais nada, como a esfera de pessoas privadas que se reúnem em um público. Elas reivindicam imediatamente a esfera pública, regulamentada pela autoridade, contra o próprio poder público, de modo a debater com ele as regras universais das relações vigentes na esfera de circulação de mercadorias e do trabalho social – essencialmente privatizada, mas publicamente relevante. O medium desse debate político é peculiar e sem precedente histórico: a discussão pública mediante razões. (Idem, p. 135)
alinhem, orquestrados para reproduzirem-se em um único corpo. A produção industrial de um único discurso, uma única voz, uma única sintonia, uma única visão de mundo uniformiza o corpo do contínuo buscando, assim, excluir outras vozes. Vejamos um caso exemplar citado por Marcondes Filho, como produção do contínuo mediático atmosférico:
O fechamento do universo discursivo pela criação de uma voz única, um partido único, uma verdade única ocorreu mais expressivamente – se bem que de forma totalitária – com o regime nazista. A ordem do Departamento de Propaganda, comandada por Joseph Goebbels, era a da Gleichschaltung, sintonia única, que deveria associar o noticiário, a produção cultural, cinematográfica, artística, literária, radiofônica, num único credo, o dos ideais do Partido. Isso deveria manter a coesão social e política durante os primeiros anos do regime, quando toda a Nação estava sendo abastecida com o entusiasmo publicitário e se preparava, com a guerra, para a realização dos ideais revanchistas dos que lideravam o III Reich. (Idem, p. 3)
A produção da indústria comunicacional, no contínuo mediático atmosférico, conhecerá dinamicidades das mais variadas formas, sendo potencializadas pelas novas tecnologias de informação e principalmente pela aplicação desse modelo às democracias ocidentais, mas também por outras formas, independentemente do regime político. A produção mediática será exacerbada no período da guerra fria, assim como na construção de movimentos ideológicos e políticos na Rússia, na China e nos EUA. A ação do contínuo mediático atmosférico encontra amplo terreno também no mercado,44 para formação de consumidores em massa.
44 Gilles Lipovetsky e Jean Serroy analisam o modo de produção estético, onde o capital atua na produção do belo, do espetáculo, da sedução e do emocional. O capitalismo artista é caracterizado por quatro lógicas: “1. A integração e a generalização da ordem e do estilo, da sedução e da emoção nos bens destinados ao consumo mercantil” (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A estetização do mundo, p. 47), “2. A generalização da dimensão empresarial das indústrias culturais e criativas” (Idem, p. 47). “3. Uma nova superfície econômica dos grupos empenhados nas produções dotadas de um componente estético” (Idem, p. 47). “4. O capitalismo artista é o sistema em que são desestabilizadas as antigas hierarquias artísticas e culturais, ao mesmo tempo que as
A indústria da comunicação, produtora de energia no contínuo mediático atmosférico, é uma poderosa indústria operada para a ação sobre o indivíduo e a sociedade na qual ele habita. De qualquer forma, o contínuo mediático atmosférico é um campo onde se encontram diferentes atores, nem todos posicionados ao lado do status quo. Há também as forças de oposição, que brigam por espaço no contínuo mediático atmosférico. Muitas vezes, como se viu nos movimentos de rua no Brasil em 2013, as oposições invadem o contínuo mediático atmosférico e fazem os grandes detentores do capital, a elite política, os proprietários de grandes meios de comunicação reverem suas estratégias e se reorganizarem.
Mas o contínuo mediático atmosférico não é tudo na sociedade, nem sequer o volume maior de trânsito informativo, que se localiza, nos dias atuais, no universo das redes. De qualquer forma, na sociedade enredada tecnologicamente como a nossa, todos estão sujeitos a um regime de submissão às formas tecnológicas, que definem nossos comportamentos, nossas ações, nos localizam, organizam nossos gostos, preferências e opções de consumo. Há algo como uma “colonização do indivíduo” onde ele estiver.
Conexão permanente, atualização obrigatória, constituição de páginas pessoais funcionam hoje sob o regime dos algoritmos, da web 3.0 (semântica) que passa a “pensar por nós”. Assim, hoje, um dos produtos da tecnociência é a Inteligência Artificial:
A inteligência artificial, iniciada com as descobertas matemáticas pioneiras de Alan Turing, é a disciplina mais importante do mundo contemporâneo. No século XX, todas as ciências passaram a esferas artísticas, econômicas e financeiras se interpenetram” (Idem, p. 47-48). O que está na base do capitalismo artista e que compõe o contínuo mediático atmosférico é o indivíduo, constituído em maioria, para o consumo, liberado para o prazer, o entretenimento, a diversão e o espetáculo:
Até pouco depois da Segunda Guerra Mundial, a massa da população só trabalhava para satisfazer suas necessidades fundamentais; e tudo o que era supérfluo, frívolo, fantasista, era considerado pelas classes populares como algo a proscrever, por ser sinal de desperdício condenável. Isso muda com o desenvolvimento do capitalismo artista, que vai se empenhar, com sua oferta estética, em incitar os consumidores a comprar pelo prazer, a se divertir, a dar livre curso a seus impulsos e a seus desejos, a descobrir o prazer de mudar seu cenário de vida, a se libertar de seus complexos puritanos de sobriedade e de economia. (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A estetização do mundo, p. 48)
depender da tecnologia da informação. A neurociência, que hoje desfruta de lugar de destaque na mídia, não teria se desenvolvido nas últimas décadas sem seus novos instrumentos de observação do cérebro em funcionamento, como é o caso da neuroimagem. Porém, esses instrumentos, por sua vez, só se tornaram possíveis graças ao desenvolvimento do computador digital e das tecnologias de informação que o acompanharam. (João de Fernandes Teixeira, O cérebro e o robô, p. 19)
Heidegger acreditava que a questão da ciência moderna não foi necessariamente a ciência em si ou o seu método científico, mas a virada na postura fundamental do homem, a forma de pensar acerca das coisas do mundo:
É apenas totalmente claro o facto de que a transformação da ciência se realizou tendo por base um confronto secular e duradouro com os conceitos fundamentais e os princípios do pensar, quer dizer, com a posição-de-fundo acerca das coisas e do ente em geral. (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, p. 72)
Essa mudança fundamental dos modos de proceder do indivíduo moderno, transforma-se: “1) na experiência-do-trabalho, quer dizer, na direção e modo de domínio e de utilização do ente; 2) na metafísica, quer dizer, no projeto do saber fundamental sobre o Ser, sob o qual o ente se estrutura, na ordem do saber” (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, p. 72). No contínuo mediático atmosférico, inaugura-se a transformação de tudo em um medium de comunicação, ativam-se todas as potencialidades dos entes e dos seres, a fim de que tudo seja energizado e passe a se conectar, vincular.
Giorgio Agamben estende a discussão, ampliando o conceito de dispositivo de Michel Foucault: “...chamarei literalmente de dispositivos qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar, e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes” (Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo? e outros ensaios, p. 40). Ele observa que, em nossa
sociedade, ocorre um ilimitado crescimento de dispositivos e, proporcionalmente, uma “disseminada proliferação de processos de subjetivação” (Idem, p. 41). Agamben amplia o conceito de dispositivo para além das prisões, escolas, as medidas jurídicas, para, de modo especial, as tecnologias de comunicação. A técnica é um elemento que, por um lado, trabalha como dispositivo disciplinador da sociedade, potencializando o caráter de produção e da própria ação mediática.
A percepção do mediático aqui não diz somente respeito aos meios de comunicação, mas a tudo aquilo que pode ser transformado em medium, que tem a potencialidade de fazer os corpos ganharem visibilidade, de poderem ser possuídos, toda materialidade que pode ser virtualizada. Um muro de uma cidade é apenas um muro separando um terreno privado da calçada pública; contudo, quando usado para o contínuo mediático atmosférico, nele se insere um símbolo que encarna parte do corpo do contínuo; portanto, um medium. O muro passa a ser um meio, um corpo que expõe a coisa pública, dá visibilidade. O muro é energizado e passa a energizar. A técnica está na base da produção mediática no contínuo; contudo, a técnica aqui não tem nada de técnico ou maquínico. É a nova postura do indivíduo calcado em dominar e utilizar os entes (coisas) e conhecer o Ser, esta é a nova atitude do estar-aí, a postura técnica (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, p. 72). Na era técnica, privilegia-se o domínio e a utilização das coisas, sua aparência se manifesta em imagens, sons, fagulhas. O modo técnico de estar-aí lança-se sobre os objetos, sobre os entes. Fecha-se nesse.
O contínuo mediático atmosférico possui seu assento no mediático, contudo não centrado nos meios de comunicação, mas, sim, no campo da comunicação. Habermas é um dos pensadores que centram o problema da comunicação na filosofia e no mundo moderno a partir da análise da esfera pública, um dos palcos de atuação da comunicação. A esfera pública burguesa constitui-se assentada mediante o uso público da razão, manuseada pelo homem burguês, que adere ao projeto do esclarecimento e, por outro lado, ao capitalismo. A imprensa moderna é o melhor exemplo do projeto realizado da esfera pública que discute mediante a razão, segundo Habermas. Contudo, Habermas aponta para as mudanças estruturais na esfera pública. O cerne da questão é o processo iniciado no século XIX com o declínio da razão. Com a industrialização, a urbanização, os novos modos produtivos capitalistas e a presença na cena econômico-política de um indivíduo médio que, produzido
tão igualitariamente, faz-se massa, muda profundamente o mundo contemporâneo. São essas forças que estão em jogo no campo do contínuo mediático atmosférico: o mercado, o Estado e as massas. Habermas, em seu estudo, apontou diversas transformações da esfera pública, seja por parte do Estado, que passa a oferecer bem-estar social à maioria, a prestar serviços e a administrar a vida privada, assim como por parte das forças econômicas privadas, que passam a atuar no campo público, ofertando educação, saúde e segurança (cf. Cap. V, parágrafo 16 de Mudança estrutural da esfera pública). A intimidade antes produzida e reservada ao ambiente familiar agora é socializada e produzida publicamente: “Esse esvaziamento dissimulado da esfera familiar íntima se expressa arquitetonicamente na construção das casas e das cidades” (Idem, p. 354), onde Habermas observa nas construções contemporâneas das residências privadas a ausência de salões e outros espaços para as recepções sociais ou as vivências entre os membros da família. As mudanças, segundo Habermas, estruturais na esfera pública aprofundam-se num público que não mais discute a cultura, mas passa à posição de consumidor dessa.
O problema central apontado por Habermas é o outro da razão, o inverso do projeto moderno. O contemporâneo conhece uma sociedade que não discute e muito menos articula-se mediado pela razão: “As tomadas de posição da redação cedem lugar às notícias das agências e às reportagens dos correspondentes. A discussão mediante razões desaparece por detrás do véu das decisões tomadas internamente sobre a seleção e apresentação do material” (Idem, p. 374). As forças que constituem a natureza da comunicação, deslocada da razão, assentam-se no outro da razão, que é o mito, o arcaico, o primitivo. Elementos até então atrelados ao projeto da razão como a verdade e o real veem-se desabilitados e sem sentido. Esse é o divisor que inaugura o contínuo mediático atmosférico:
O que dessa maneira apenas se insinua na imprensa diária já avançou nas mídias mais recentes: a integração dos domínios outrora separados do publicismo e da Literatura, ou seja, a informação e a discussão mediante razões de um lado, a beletrística de outro, produz um peculiar deslocamento da realidade, mais precisamente uma convolução de diferentes níveis da realidade. Sob o denominador comum do chamado human interest, surgiu o
mixtum compositum de um material de entretenimento ao mesmo tempo agradável e confortável, que tende a substituir a justiça da realidade por aquilo que está pronto para ser consumido, mais incitando ao consumo impessoal de estímulos relaxantes do que instruindo para o uso público da razão. Rádio, cinema e televisão fazem desaparecer gradativamente a distância que o leitor precisa observar em relação à letra impressa – uma distância que a privacidade da apropriação tanto requeria como possibilitava ela mesma a esfera pública de troca de razões. (Jurgen Habermas, Mudança estrutural da esfera pública, p. 375-376)
No contínuo mediático atmosférico, temos que ponderar um indivíduo e uma sociedade constituída em sua maioria que se ordenam por forças primitivas como as crenças, opiniões, emocionalidades, sensações conectivas, interações comunicacionais. A energia vital do contínuo é o mito, o outro da razão. Esse posicionamento não é admitido por Habermas:
A esfera pública torna-se, na verdade, a esfera da publicização de histórias da vida privadas, seja para que alcancem publicidade os destinos contingentes do assim chamado pequeno homem ou os star planejadamente construído, seja para que os desenvolvimentos e as decisões publicamente relevantes se travistam na roupagem privada e, por meio da personalização, se desfigurem a ponto de se tornar irreconhecíveis. A sentimentalidade em relação às pessoas e o cinismo correspondente em relação às instituições, que resultam daí com uma coercitividade sociopsicológica, acabam naturalmente por limitar subjetivamente, onde ele fosse ainda objetivamente possível, a capacidade para a discussão crítica mediante razões sobre o poder público. (Idem, p. 378)
Habermas salienta, em seu estudo, o rompimento que ocorre em camadas mais cultas da sociedade (Idem, p. 383), o esvaziamento de espaços que constituíam um público que discutia mediante razões e as transformações dessa esfera, que passa a ser ocupada por interesses econômicos privados e a constituição de um público que adere e aclama (Idem, p. 398). Os meios de comunicação são constituídos dentro da lógica do mercado, cujo objetivo é o lucro, assumem posições políticas prévias em cada redação, assim: “A história dos grandes jornais diários na segunda metade do século XIX mostra que a imprensa se torna manipulável à medida que se comercializa” (Idem, p. 402). A vinculação dos meios de comunicação com o capital, independente de sua técnica ou modo de produção, como na era digital, não supera essa característica de ser manipulável, ideológica e com posições pré-definidas.
Após a segunda guerra mundial, Habermas detecta profundas transformações na esfera pública, para nós a expansão do modelo do contínuo mediático atmosférico, onde os meios de comunicação transformam-se em meios que formam e moldam a maioria, ou seja, as massas: “...o público passa a ser formado sobretudo pelos meios de comunicação de massa” (Idem, p. 408). A opinião da maioria será produzida, treinada e encenada. O que é dito como “real”,45 via os meios de comunicação, são fatos calculados, produzidos para
mobilizar e ser aplaudido como espetáculo. Habermas salienta que o consenso passa a ser