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REEL MOTOR

Ao pensarmos sobre o termo ―pop‖, somos remetidos à palavra ―popular‖, característica que se dá àquilo que alcança um grande número de pessoas e que é conhecido por elas. ―Cultura pop‖ apareceu, primeiramente, na década de 1940, com a Pop Art de Andy Warhol. Objetos de uso cotidiano ganharam o título de arte e receberam significados diferentes de suas funções como mercadorias.

Esse movimento, inicialmente nos Estados Unidos, dava forma ao pós-modernismo e o apresentava como um estilo de vida. A produção cultural estadunidense tornou-se hegemônica, com sua cultura dos blockbusters, grandes sucessos, e o consumo retratado nos filmes.

Décadas depois, nos anos 1980, a cultura pop começa a surtir maior efeito sobre a América Latina, dando origem a formas de comportamento e de consumo, tendo como base elementos advindos dos Estados Unidos.

No Brasil, a cultura globalizada encontrou uma área que permitiu seu desenvolvimento. O país passou de uma ditadura para uma democracia e ―a nova economia está fundada no consumo da cultura pop‖ (CARREIRO, 2003, p. 89).

A cultura pop tem como concepção o entretenimento, é norteada pela lógica midiática, possui modos de produção, geralmente, ligados à indústria cultural (cinema, música, televisão etc.).

Mesmo sendo ligada fortemente às características da indústria cultural, a cultura pop também é um lugar que permite a expressão daqueles que recebem os produtos criados por ela e nela. Encontramos, pois, a valorização da expressão das pessoas e a criatividade compartilhada.

Produtos culturais como a história de Harry Potter, criada por J. K. Rowling, tornam-se parte da cultura pop, chegando a um grande número de leitores e espectadores, consumidores dos produtos ligados à saga, que internalizaram valores apresentados pela história que leram, viram e da qual se apropriaram, para formarem sua personalidade e seus gostos.

O consumo e o aproveitamento dos produtos da cultura pop passam perto da ideia de comunidade, de grupo, de pertencimento e compartilhamento de características em comum, pois as pessoas se sentem dentro de algo maior, de uma comunidade global.

Os consumidores da cultura pop são produtores e intérpretes da cultura. Eles se apropriam de histórias, de elementos, de comportamentos que são internalizados e inseridos em suas experiências de vida.

A sensação de pertencimento a algo em comum leva fãs a se unirem no meio virtual e a criarem diversos blogs, sites, fóruns e grupos de discussão sobre o produto cultural com o qual mais se identificam, o que permite, inclusive, a aproximação de pessoas de diferentes nacionalidades.

A internet oferece uma sensação de ser um lugar pertencente a um mundo mais participativo, o que permite a um fã fazer buscas constantes por informações sobre suas paixões e encontrar pessoas como ele, conectadas à rede pelo planeta todo e ter uma sensação de pertencer a um grupo, à mesma tribo.

Estabelece-se, inclusive, um respeito mútuo entre os fãs. Os mais respeitados são vistos como referência no assunto e recebem milhares de e-mails e comentários em seus blogs, sites e canais do YouTube. Eles se tornam ―compartilhadores‖, assim, espalhando seus achados, suas reflexões e seus desejos.

Essa ligação forte que é estabelecida entre produto midiático e consumidor ocorre devido à parte emocional, devido à identificação que acontece. De acordo com Henry Jenkins, produtores de mídia e anunciantes falam em capital emocional, ―referindo-se à importância do envolvimento e da participação do público em conteúdos de mídia‖ (JENKINS, 2011, p. 235). Ao consumir os produtos culturais, as pessoas se apropriam deles, dão a eles significados e os utilizam na formação de suas identidades. Há uma identificação forte entre consumidor e produto e a indústria pode se utilizar disso para oferecer aos consumidores mais produtos referentes aos temas que eles gostam e procuram constantemente.

Mais que um fã consumidor de cultura pop, o indivíduo é o responsável e principal formador de sua identidade cultural. Escolher produtos culturais e grupos de fãs dos quais pode fazer parte são ações naturais realizadas para conseguir eleger os valores que adotará como seus.

Mais que uma prática de apropriação cultural, eis que se trata de uma incorporação literal das narrativas midiáticas, atribuição de uma corporeidade a um imaginário criado pela mídia e que exerceu tal impacto sobre a paisagem cultural de um indivíduo que terminou por influenciar de forma determinante a sedimentação dos valores pessoais que compõem sua identidade cultural [...] (CARVALHO, 2011, p. 230).

A tentativa das empresas de criarem ações que cerquem os indivíduos de narrativas midiáticas, responsáveis por trazer a sensação de inserção e participação intensa de um universo ficcional de preferência, faz parte da cultura da mídia, analisada pelo autor Douglas Kellner, e também pela cultura da convergência, de Henry Jenkins.

Com o surgimento das ferramentas digitais, a cultura da mídia encontrou novos ambientes para se desenvolver e novos territórios para entrar e compreender seu funcionamento para melhor atingir sua meta: alcançar leitores, espectadores, internautas etc.

Dentro de seu estudo sobre a cultura da mídia, Kellner oferece, inclusive, sua definição de cultura e como o indivíduo pode participar ativamente dela, buscando encontrar suas características e papel dentro da sociedade por meio de sua participação.

A internet, apresentando-se como uma ferramenta que traz consigo uma grande gama de possibilidades, facilita a participação do indivíduo, que ganha mais um meio de se expressar e de levar suas opiniões e criações a outras pessoas.

A existência da internet acabou criando a cultura da internet, cheia de atividades características daqueles que utilizam o meio com frequência e a redescobrem constantemente.

Para Manuel Castells, autor de A Sociedade em Rede, a comunicação é algo pertencente à espécie humana, a qual sente a necessidade de se comunicar e desenvolve maneiras diferentes para realizar essa ação. Essa busca por novos meios de comunicação apresenta novas ferramentas e a tecnologia, as quais permitem ser reformuladas e transformadas pelo homem e por suas experiências com elas.

Poder transformar a ferramenta e adaptá-la às nossas necessidades são características que tornam a internet especial e que a transformam em um elemento causador de mudanças significativas na sociedade e nas relações interpessoais.

A internet permite que as pessoas a utilizem, usem as ferramentas disponíveis nela, e, ao aprenderem a usá-las, o homem pode modificá-las e, ao mesmo tempo, fazer com que elas evoluam e se mantenham em constante mudança e aprimoramento.

O ciberespaço é o local que possibilita a criação coletiva e é o ambiente em que o usuário pode personalizar seu relacionamento com a rede. É no mundo virtual que o

compartilhar é o combustível principal, juntamente com a participação, a interatividade e a

inteligência coletiva.

Pierre Lévy define o ciberespaço ―como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores‖ (LÉVY, 1999, p. 95).

[...] Essa definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos (aí incluídos os conjuntos de redes hertzianas e telefônicas clássicas), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização. Insisto na codificação digital, pois ela condiciona o caráter plástico, fluído, calculável com precisão e tratável em tempo real, hipertextual, interativo e, resumindo, virtual da informação que é, parece-me, a marca distintiva do ciberespaço (LÉVY, 1999, p. 95).

Os elementos do ciberespaço permitem que os usuários criem seus projetos para satisfazer suas curiosidades e necessidades de obter informações sobre os assuntos que os agradam. E é no ciberespaço que o relacionamento entre autor e leitor ganha novas proporções.

Os papeis de autor e leitor são trocados constantemente. O leitor, ao terminar de ler o texto, pode compartilhar com o autor do conteúdo suas impressões e interpretações (de forma educada e construtiva ou apenas descontando sua raiva com qualquer coisa sobre as pessoas presentes na rede).

Desse contato, podem surgir ideias para novos conteúdos, tanto por parte do leitor como do autor (inicialmente). Esse processo se mantém vivo e alimenta a internet, a qual também permanece viva, ativa e atualizada.

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