O sujeito é a grande questão apresentada por Michel Foucault em seu projeto que consistiu em ―criar uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser humano em nossa cultura‖ (Foucault, 1995, p. 321), sendo necessário ―livrar-se do próprio sujeito, ou seja, é chegar a uma análise que possa dar conta da constituição do sujeito na trama histórica‖, sendo isto que Foucault chama de genealogia, ou seja,
[...] uma forma de história que considera a constituição de saberes, dos discursos, dos
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domínios de objetos, etc., sem ter de se referir a um sujeito, quer ele seja transcendente em relação ao campo de acontecimentos, quer ele perseguido sua identidade vazia ao longo da história (FOUCAULT, 1999a, p.7).
Para Foucault a noção de sujeito é histórica, tendo diferentes usos em diferentes epistemologias. Influenciado por Nietzsche que falou da morte de Deus, Foucault fala da morte do sujeito, sendo esta expressão uma crítica ao sujeito como ele é entendido pela fenomenologia, pelo positivismo e pelo marxismo que, ao suporem um sujeito livre e universal teriam caído no ―sono antropológico‖. Logo, se o sujeito é constituído historicamente ―não é sobre o fundo de uma identidade psicológica, mas por meio de práticas que podem ser de poder ou de conhecimento, ou por técnicas de si‖ onde a subjetividade, ou seja, ―a maneira pela qual o sujeito faz a experiência de si mesmo num jogo da verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo‖ torna-se o ponto central (Revel, 2005, p.85).
Na obra O uso dos prazeres (2007a), Foucault apresenta o resultado dos estudos a respeito das tecnologias de si, desde a Antiguidade Clássica até os primeiros séculos do cristianismo, em textos que prescrevem estratégias relacionadas ao uso dos prazeres, onde propõe.
[...] analisar as práticas pelas quais os indivíduos foram levados a prestar atenção a eles próprios, a se decifrar, a se reconhecer e se confessar como sujeitos do desejo, estabelecendo de si para consigo certa relação que lhes permite descobrir, no desejo, a verdade do seu ser, seja ele natural ou decaído. (FOUCAULT, 2007a, p. 11).
Neste contexto, importa a questão do sujeito em relação com a sua ética, constituindo-se através das práticas de si, ou seja, a questão central é saber como o individuo constitui a si mesmo, como um sujeito moral de suas próprias ações na relação de si para consigo. Para tanto, Foucault efetua um deslocamento do eixo teórico do poder, substituindo o conceito de poder pelo de governo, tornando possível a temática do governo de si, objetivando dar voz à resistência e manter o poder sobre controle. Foucault justifica este deslocamento dizendo
[...] gostaria de mostrar, agora, de que maneira, na Antiguidade, a atividade e os prazeres sexuais foram problematizados através de práticas de si,
pondo em jogo os critérios de uma ‗estética da existência (Foucault, 2007a, p. 16).
Iniciando a problematização a partir da comparação de categorias gerais como paganismo, cristianismo, moral, moral sexual e acerca das oposições entre a moral sexual cristã e a moral sexual pagã, Foucault sugere alguns pontos de diferenciação: o ato sexual, que para os gregos antigos era algo revestido de significados positivos, para o cristianismo está associado ao mal e ao pecado; a delimitação do parceiro legítimo, já que diferentemente das sociedades gregas e romanas, o cristianismo só concebe, a conjugalidade monogâmica com finalidade procriadora10; por ultimo a relação entre pessoas do mesmo sexo que na cultura grega era exaltada e no cristianismo foi rigorosamente banida. Foucault acrescenta ainda uma oposição maior que seria ―o alto valor moral e espiritual que o cristianismo, diferentemente da moral pagã, teria atribuído à abstinência rigorosa, à castidade permanente e à virgindade‖ (Foucault, 2007a, p.17).
Foucault (2007a) alerta para que não tomemos como inferência de continuidade a moral sexual do cristianismo e do paganismo e que tenhamos em mente que a moral da Igreja cristã se constituiu de princípios universais, enquanto no pensamento antigo a moral era apresentada como um ―foco disperso‖, que não era imposto a todos da mesma forma.
É preciso não concluir dessas poucas aproximações que puderam ser esboçadas que a moral cristã do sexo estava de certa forma, ‗pré- formado‘ no pensamento antigo: deve-se antes considerar que, bem cedo, na reflexão moral da Antiguidade, formou-se uma temática – uma quadritemática – da austeridade sexual em torno e a propósito da vida do corpo, da instituição do casamento, das relações entre homens e da existência da sabedoria (FOUCAULT, 2007a, p. 23-24).
Assim sendo, o autor procura dar conta desta problemática, ou seja, do porque justamente os quatro grandes domínios ligados ao sexual, onde o homem livre das sociedades antigas não encontrava
10 Um dos exemplos citados acerca do modo de construção da virtude conjugal, utilizado por São Francisco de Sales a favor da doutrinação sexual, é sobre o mito do elefante virtuoso que tem apenas uma parceira a vida toda, nunca acasala diante dos outros da manada e só se reúne aos outros depois do banho (FOUCAULT, 2007a, p. 20).
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nenhuma proibição ou objeção, tornou-se o foco de cuidados, reflexões e estilização. Para responder a esta e outras questões referentes a ela, Foucault direcionou seu estudo para as formas e transformações da moral.
Foucault reflete sobre a ambigüidade da palavra moral, priorizando a discussão sobre a moral como ―um conjunto de valores e regras de ação propostas aos indivíduos e aos grupos por intermédio de aparelhos prescritivos diversos‖ que, por serem transmitidas de forma difusa, permitem escapatórias e anulação de certos pontos, e cujo conjunto prescritivo pode-se chamar de código moral. A moral foi tomada por ele como um ―comportamento real dos indivíduos em relação às regras e valores que lhe são propostos‖, ou seja, modos como os sujeitos se submetem, obedecem ou resistem, respeitam ou negligenciam certas prescrições (Foucault, 2007a, p.26).
A moral na Antiguidade Greco- Romana se orientava para a prática de si e não se dirigia para a codificação das condutas, nem para interdições quanto às relações. Nesse sentido, o conteúdo da lei tornava- se menos importante do que as atitudes que se destinavam a respeitá-las, sendo fundamental ―[...] Não se deixar levar pelos apetites e pelos prazeres, (...) permanecer livre de qualquer escravidão interna das paixões e atingir a um modo de ser que pode ser definido pelo pleno gozo de si e pela soberania de si sobre si mesmo‖ (Foucault, 2007 a, p.30).