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O projeto Ribeirão Anhumas na Escola como o próprio nome já indica, tem como o espaço privilegiado para a produção de conhecimentos aquele delimitado pelos contornos da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas. Esta abrange uma área de 150 km2 e está situada nos municípios de Paulínia e Campinas, localizados no interior do estado de São Paulo, concentrando neste último a sua maior parte.

Futada (2007), em sua dissertação de mestrado sobre fragmentos remanescentes desta bacia, destaca o município de Campinas e a sua região metropolitana em torno da mesma e nos oferece um primeiro vislumbramento da ocupação em torno da bacia por meio de representações verbal e não verbal. Em representação verbal, a autora escreve:

Campinas localiza-se no entroncamento de grandes e importante rodovias estaduais, como a Rodovia dos Bandeirantes (SP348), Rodovia Anhanguera (SP330), Rodovia D. Pedro I (SP065) e a Rodovia Adhemar de Barros (SP340), e faz divisas com os municípios de Jaguariúna (norte), Pedreira (nordeste), Morungaba (leste), Itatiba e Valinhos (sudeste), Indaiatuba e Itupeva (sul/sudoeste), Monte Mor e Hortolândia (oeste) e Sumaré e Paulínia (noroeste), apresentando extensa conurbação com os municípios de Vinhedo, Valinhos, Monte Mor, Hortolândia, Sumaré, Nova Odessa, Americana, Santa Bárbara d’Oeste e Paulínia. Hoje Campinas constitui o centro da Região Metropolitana de Campinas [...] institucionalizada pela Lei Complementar Estadual nº 870/2000 e constituída por 19 municípios, que abriga uma população de mais de 5 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 90% moram em áreas urbanas48.

48

E após esta descrição verbal podemos ter uma ideia da representação em mapa no trabalho da autora e que reproduzimos neste trabalho na figura 2.4.

Figura 2.4: mapa representando a delimitação da bacia hidrográfica do ribeirão das Anhumas situada

Segundo Briguenti (2005), a bacia do ribeirão das Anhumas tem 45,4% de sua área urbanizada/edificada, enquanto somente 5,1% equivalem ao somatório das áreas verdes, parques, lagos e represas. Ainda segundo o autor, as cerca de 285 mil pessoas que moram nesta bacia, residem próximas às áreas de nascentes do ribeirão das Anhumas como resultado do processo de urbanização que, seguindo as tendências do período colonial, estabeleceu ocupações e explorações às margens dos rios. Com o passar dos anos, culminou um modo de ocupação da cidade que reflete as disparidades sociais e econômicas entre as classes que a habitam, e refletem as “profundas modificações no âmbito físico da geomorfologia urbana, resultando em condições de degradação e impactos sócio-ambientais” (BRIGUENTI, 2005, p. 35) que levam muitos de seus moradores a sofrimentos constantes, principalmente com as enchentes, problema diretamente ligado ao escoamento das águas pelas regiões da bacia hidrográfica ocupada.

Muitos trabalhos se dedicaram a mapear os riscos socioambientais da bacia do ribeirão das Anhumas e de uma das suas sub-bacias, a do ribeirão das Pedras. Entre eles destacamos os trabalhos produzidos durante o projeto Anhumas – sob a coordenação do IAC –, pela equipe de Mapeamento de Riscos Ambientais coordenada pelo pesquisador Salvador Carpi Júnior (CARPI JR. et al., 2005), e as dissertações de Ederson Costa Briguenti (2005), e Ricardo de Sampaio Dagnino (2007). Uma característica importante dos trabalhos de Carpi Jr. e é a consideração das contribuições de moradores da região na definição dos riscos ambientais para a produção de mapas de risco. O trabalho de Carpi Jr. (2005), que se apresenta como um dos mais completos nesse sentido, permitiu um estudo mais detalhado tanto da ocupação nessas regiões quanto dos problemas socioambientais ao utilizar da metodologia de Briguenti (2005) de divisão da bacia em alto, médio e baixo curso, segundo critérios geográficos e procurando dar ênfase à dinâmica hidrográfica. Para Carpi Jr. (2005, p. 265):

A compartimentalização em setores distintos e a caracterização de cada um deles foi importante também como elemento facilitador para identificar as inter- relações entre os aspectos naturais e sócio-econômicos presentes na área da bacia, assim como saber em que condições ocorrem as situações de risco e quais as populações que estão mais vulneráveis frente aos riscos ambientais.

Briguenti (2005) propôs esta divisão em setores demarcando o alto curso (ou alto Anhumas) como a área mais ao sul da bacia e mais íngreme. Região em que se localiza a parte central da Cidade de Campinas, a mais densamente urbanizada, edificada e possui 80% da sua

ribeirão das Anhumas, conhecidos como córregos Proença e o canal do Saneamento ou da Orosimbo Maia. Estes córregos recebem o escoamento superficial e da rede de drenagem, ou seja, as águas pluviais e também o esgoto da área central e bairros vizinhos. O setor de médio

curso (ou médio Anhumas) tem 45% de sua área impermeabilizada e engloba a confluência dos

córregos Proença e Orosimbo dando início assim ao ribeirão das Anhumas. Esta confluência forma uma depressão degradada e poluída, que depois segue curso com margens sem vegetação ciliar e apresentando um grau acentuado de poluição com o despejo de esgotos. As suas margens são ocupadas por populações de diferentes classes sociais, entre condomínios e favelas, que sofrem o risco de inundações. O autor aponta com um aspecto marcante do médio curso, a grande quantidade de lixo, o que acarreta um aumento no risco de cheias. Já o setor de baixo curso (ou baixo Anhumas), que se localiza ao norte da bacia, é a região com a menor taxa de impermeabilização do solo, 30%, e também com a maior tendência de crescimento e desenvolvimento, em que os antigos bairros rurais dão lugar à construção de grandes e luxuosos condomínios.

A partir dessas informações é importante chamar atenção do leitor para a localização das escolas, já indicadas pelo esquema da figura 2.3, que ficam próximas ao limite entre o médio e o baixo anhumas e, portanto, convivem com um ribeirão, Anhumas ou das Pedras, poluído e apresentando os riscos socioambientais citados e que aparecem nas representações dos estudantes, o que veremos nas análises dos materiais no capítulo 5.

Em relação especificamente ao ribeirão das Anhumas, grande parte dos seus afluentes e às suas margens, Carpi Jr. et al. (2005) relatam que em sua pesquisa houve um grande número de citações de risco ambiental em todos os setores da bacia. Na região do alto curso foram identificados: desmatamento, ausência de mata ciliar, erosão, construções em áreas de risco, canalização inadequada, inundações, depósitos de entulho e lixo, o que faz com que os autores declarem que o rio já nasce morto. No médio curso há poluição por despejo de esgoto domiciliar e industrial, erosão, desmatamento de mata ciliar e alteração do curso do rio, aglomeração urbana sem infra-estrutura básica, ocupação urbana em área de várzea, áreas de inundações periódicas, erosão, assoreamento e deslizamento da margem do rio, desmoronamento de casas, extração ilegal de areia e argila, água parada com risco de dengue, violência, tráfico de drogas. No baixo curso, onde o Anhumas continua a receber esgoto principalmente ao passar pelo distrito de Barão

Geraldo – e o mesmo ocorre com o ribeirão das Pedras, um dos seus afluentes –, do Parque Dom Pedro Shopping e da Unicamp, dizem Carpi Jr. et al. (2005, p. 292):

Na construção do shopping, os impactos e eventos apontados foram: o uso de explosivos para bombardear as rochas; a drenagem de nascentes de água; erosão e compactação do solo; excessiva impermeabilização do solo, que passou a provocar aumento da vazão e da frequência de enchentes no ribeirão das Pedras.

Em relação ao perfil sócio-econômico dos moradores da bacia, também o projeto Anhumas realizou estudo por meio do trabalho de Costa et al. (2005): para o alto Anhumas, a população dos arredores do centro é constituída por sujeitos de classe média-alta e nos seus limites, com renda mais baixa; no médio Anhumas, encontram-se condomínios localizados próximos às suas margens que atualmente concentra classe média e alta assim como moradores de baixa renda em construções do tipo “barraco” em situações sem infra-estrutura; o baixo Anhumas é uma região onde predomina a construção de condomínios, constituída em sua maioria por uma população de média e alta renda, é região de urbanização controlada com medidas que discorrem em relação à verticalização e com diretrizes ambientais em relação aos corpos hídricos superficiais49. Costa et al. (2005) apontam que nas áreas mais densamente urbanizadas ocorre o predomínio de uma população em sua maioria alfabetizada, habitando áreas com infra-estrutura e que detém alta e média renda per capita, enquanto populações de baixa renda e alfabetização decrescente estão localizadas em áreas de infra-estrutura baixa ou ausente.

Outra contribuição vem do trabalho de Dagnino (2007), que investigou a bacia do ribeirão das Pedras, o lugar escolhido pela escola Adalberto Nascimento como estudo. Reproduzimos na figura 2.5 o mapa produzido pelo autor que apresenta a bacia do ribeirão das Anhumas e as suas sub-bacias, entre elas a do ribeirão das Pedras que possui uma área de 29,7 km2 e 36 mil habitantes distribuídos em média por uma relação de 1200 hab/km2. Neste trabalho, Dagnino (2007) elaborou um mapa de riscos da região (ver figura 2.6) utilizando 120 situações de risco identificadas, e entre elas, as maiores em área, estão relacionadas ao cultivo agrícola pela utilização de agrotóxicos, e dentre as situações de risco apontadas como especiais pelo autor estão a presença da Unicamp e do Shopping Dom Pedro, já citados anteriormente no trabalho de Carpi Jr. et al. (2005) pelos riscos que provocam.

Figura 2.5: representação em mapa da bacia do ribeirão das Anhumas e suas sub-bacias com

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