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Um dos objetivos de estudo desta tese é refletir sobre as imagens e o audiovisual de temática socioambiental e no campo da educação e ensino de ciências e da EA tendemos a ver trabalhos que concedem às imagens e aos audiovisuais um papel acessório, de ilustração do conteúdo verbal/textual. Entretanto, alguns trabalhos têm criticado esta abordagem concedida às imagens no ensino de ciências, como por exemplo, Compiani (2011), que procura explicitar o papel do visual nos trabalhos de campo no escopo do ensino de geociência; Gouvêa & Oliveira (2010) que consideram as categorias representação e memória para discutir o uso de imagens nos livros didáticos de física, e o trabalho de Souza (2010), que no âmbito da leitura de gráficos do ENEM, também esboçou sua crítica à abordagem conferida às imagens. Assim, tem destaque os trabalhos do Laboratório de Linguagens e Mediações – NUTES/UFRJ63, que com base em perspectiva crítica e pós-crítica procura refletir sobre as relações entre linguagens e educação em ciências e saúde. E em outro viés acadêmico, dentre os trabalhos com temática do lugar/ambiente, tem se destacado as propostas dos grupos OLHO – Faculdade de Educação/Unicamp e Tecendo – UFSC, que procuram refletir sobre o ambiente e as imagens, principalmente em relação ao audiovisual, o primeiro sob a perspectiva dos estudos de Roland Barthes, Gianni Vattimo e Gilles Deleuze, principalmente e o segundo, a partir de uma perspectiva pós-estruturalista64.

Contudo, considero ainda incipientes as reflexões acerca do papel da representação em dois aspectos: nas concepções de natureza e das relações sociedade e natureza, com intenção da explicitação dos problemas socioambientais locais em relação com o global e possíveis propostas de enfrentamento; e nos processos de produção de conhecimento. Sobre este último, considero que ainda há muito que refletir sobre o papel das imagens na educação e no ensino de ciências, em especial sobre as relações entre a percepção e o pensamento, o olhar e a representação do objeto/fenômeno estudado, e a importância do visual para a compreensão e intervenção no

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O Laboratório de Linguagens e Mediações – NUTES/UFRJ tem endereço eletrônico: www.nutes.ufrj.br/l.llm.html. 64

O Grupo OLHO - Laboratório de Estudos Audiovisuais tem sua página na internet no seguinte endereço:

http://www.fe.unicamp.br/olho/; e o Grupo Tecendo - Educação Ambiental e Estudos Culturais,

mundo (COMPIANI, 2011), ou seja, do papel da elaboração simbólica no processo de produção de conhecimento.

Assim, como maneira de indicar a necessidade destas reflexões optamos por denominar as

imagens e audiovisuais por representações não verbais65, pois poderíamos apenas dizer que nos interessa estudar os filmes ou os audiovisuais de temática socioambiental, contudo incorreríamos num equívoco se assim o fizéssemos, pois inscreveríamos nosso trabalho no campo consolidado e complexo de estudos do cinema e do vídeo, e o leitor mais a frente descobriria que não é isso que fizemos, a despeito do diálogo com um ou dois nomes respeitados neste campo. O que nos interessa, no entanto, é mais um processo do que um objeto, é a relação entre o arranjo de imagens em movimento e sons (em que priorizamos o conjunto das imagens) e aquilo que ele procura representar. Entre o imaginário/concebido e o real, ao ponto de sermos capazes de explicitar o processo de produção desta representação em particular e como ela produz significações e em interação com os sujeitos produz sentidos. Portanto, nessa busca inicial o termo “representação” se tornou para nós mais significativo do que “imagem”, “cinema”, “audiovisual” ou “filme”, termos que utilizaremos no decorrer do texto para designar obras nestas materialidades. E assim, de certo será preciso considerar, em algum momento, aspectos do estudo da produção cinematográfica, em especial como ela considera a relação da representação com o espaço e o tempo, assim como do processo de produção de sentidos.

Contudo, tanto a literatura dedicada ao estudo das imagens em movimento e dos sons, da qual destacamos Jacques Aumont e Ismail Xavier, quanto àquela dedicada ao estudo da produção histórica da imagem artística, como a pintura, por exemplo, com destaque para Ernst Gombrich, referem-se às imagens como representação somente. Nesta pesquisa, como já notado, utilizamos o termo representação não verbal para designar o mesmo elemento e justificamos, talvez excessiva descrição, pelo fato de considerarmos que a representação também pode ser verbal enquanto relação entre o imaginado e o real. Esta necessidade de especificação se deve, em muito, ao fato de assumirmos uma abordagem téorico-metodológica baseada na perspectiva sócio-histórica do discurso, elaborada por Mikhail M. Bakhtin – autor que se dedicou as estudo de obras literárias e à sua criação estética – tanto para a análise dos enunciados de sujeitos

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Mesmo não considerando este como o mais adequado, principalmente pelo complemento “não verbal” como já explicitamos na seção 2.2 quando falamos sobre as propostas de estudo dos campos do discurso da AD e sócio-histórico, esta tese é nossa reflexão

históricos em determinadas práticas educativas do nosso principal contexto de coleta de dados, o projeto Ribeirão Anhumas na Escola, quanto da elaboração de um filtro de análise ao considerarmos a representação não verbal do ponto de vista da sua produção enquanto obra criativa e produtora de sentidos.

Ao considerarmos o projeto Ribeirão Anhumas na Escola, esta diferenciação entre representação verbal e não verbal torna-se por demais interessante, pois a presença de ambas realmente ocorreu em diversas atividades educativas, e para exemplificar tomemos aqui um caso fictício, mas inspirado na temática principal do Projeto. Imaginemos que, a partir da questão “o que é um rio?”, elaborada por um dos professores-pesquisadores, alguns estudantes decidam respondê-la desenhando e outros escrevendo. Tanto uns quanto outros produziriam representações, não verbal e verbal, respectivamente, e ambas são a expressão da relação entre o que a/o estudante pensa/concebe de um rio e o que ele é na realidade. Então essa diferenciação, em um primeiro momento talvez considerada desnecessária, comporta uma sutileza que se traduz em diferença na produção de uma e de outra, e na forma final da sua materialidade, ou seja, na

significação específica de cada uma delas. Outro aspecto também interessante desta distinção se

refere à associação dos dois tipos de representação, pois se tomarmos a representação não verbal, com certeza ela se produziu no diálogo da(o) estudante consigo mesma(o) e com outros estudantes por meio da elaboração verbal, assim não há descolamento entre imagem e palavra para que o sujeito perceba o ambiente que o cerca e produza sentidos, assim como também o é para o sujeito que olha e interpreta aquela representação não verbal. Em contraponto, também é possível pensar que a(o) estudante que produziu a representação verbal dialogou com as imagens que tem na memória oriundas de todos os meios, inclusive do livro didático, que ela(e) considera que descrevem bem o que é um rio na realidade. Assim, palavra e imagem influenciam e são influenciados um pelo outro no processo de produção de sentidos sobre o mundo, ou seja, a elaboração simbólica faz parte da produção de conhecimentos. Contudo, muito se dedica ao estudo da palavra e pouco ainda à imagem.

Deste modo, em relação à representação não verbal de temática socioambiental, assim como Aumont (2008a, p. 15), estamos interessados em refletir “como ela representa? Quais são as formas e os meios dessa representação, como ela trata as grandes categorias de nossa concepção da realidade que são o espaço e o tempo? E também como [...] inscreve

significações?”. Entretanto, achamos importante iniciar nossa reflexão pelo entendimento do uso da palavra representação.

De fato, o termo representação é carregado de significados acumulados no decorrer dos anos pela diversidade de maneiras com que tem sido empregado. No cotidiano se faz presente na representação política, na fotográfica, na pictórica, na teatral (AUMONT, 2008a), mas foi e ainda é objeto da reflexão de diferentes autores passando pelo campo da história cultural e da história da arte, formando assim um arcabouço de conhecimento sobre esta atividade humana. Também pelo estudo de Dominique V. C. Santos (2011), que se intitula “Acerca do conceito de representação”, é possível perceber o grande destaque que este termo tem recebido no campo da historiografia atual, especificamente na história cultural. Contudo, para a autora, apesar da sua extensa utilização, persiste ainda uma dificuldade em sua conceituação, que se mantém pautada em uma abordagem pouco abrangente e por isso apresenta algumas implicações aos trabalhos nesta área. Discordamos, assim como a autora, que o termo tenha que receber uma definição fechada no tempo e no espaço de modo a servir para qualquer abordagem, pois o que se apresenta como mais problemático é que a maioria dos trabalhos no Brasil, ao utilizarem o termo representação, pouco ou nada se dedicam a uma reflexão conceitual mais abrangente sobre o mesmo, inscrevendo-o geralmente ou no campo da história cultural, com destaque para as contribuições de Roger Chartier e Carlo Ginzburg, ou da psicologia social em que os autores Serge Moscovici e Denise Jodelet se apresentam como articulador e disseminadora da Teoria das Representações Sociais, e tal configuração contribui para silenciar uma memória constituída por estudos que se dedicam a uma abordagem filosófica acerca do conceito de representação. Entretanto, conceder ao termo uma revisão conceitual mais abrangente não é tarefa fácil e para a qual tampouco nos dedicaremos, mas consideramos importante indicar como leituras iniciais o artigo de Santos (2011), já referenciado aqui, e de Sandra Makowiecky (2003) intitulado “Representação: a palavra, a idéia, a coisa”66

, em um periódico que se destina a divulgar os estudos dos pós-graduandos em suas linhas de pesquisa.

Para compor um quadro das inúmeras significações atribuídas à palavra “representação”, Santos (2011) inicia seu artigo com uma discussão etimológica e filosófica do termo, e assim nos diz que esta palavra latina, “oriunda do vocábulo “repraesentare”, significa “tornar presente” ou

“apresentar de novo” ”67

. Mesmo em sua origem sendo apenas empregada para designar a relação com objetos e não com pessoas, esta significação e a sua crítica ainda é muito presente, sobretudo quando a palavra representação está associada com o estudo das imagens, como fotografias, desenhos, pinturas. O geógrafo Wenceslao M. de Oliveira Jr., ao cunhar o termo “geografias de cinema”, se dedica a estudar o papel das imagens naquilo que nos educa os olhos acerca do espaço geográfico que elas mesmas “apresentam”. Para o autor que segue a linha de Roland Barthes, Gianni Vattimo e Gilles Deleuze a imagem “torna presente” um real que é irrepresentável, assumindo a crítica de que a imagem não pode ser tomada como o real. Para Oliveira Jr. (2009, p. 21–22) representar tem o

sentido de estar-no-lugar-de e não de ser-o-mesmo-que. No entanto, notadamente no que se refere às fotografias, aos filmes e às obras televisivas, esta distinção é quase sempre apagada, um sentido tornando-se outro, o “não é” tornando-se “é”. Isso porque o “não é” – estar-no-lugar-de – e o “é” – ser-o-

mesmo-que – andam juntos nessas imagens, pois elas remetem a certas coisas e

apresentam-nos essas tais coisas indiciadas visualmente (e também auditivamente, no caso dos produtos audiovisuais) com forte verossimilhança à naturalidade com que as vemos e ouvimos no mundo além imagem.

Embora o autor assuma o termo representação somente como aquilo que apresenta um real, concordamos com ele quando sugere que a relação entre imagem e real muitas vezes é esquecida, pois quase sempre a primeira nos arrebata em sua função de educar os olhos, e as imagens, mesmo não sendo o real “nos faz mirar o mundo da maneira como ela o apresenta”68

, e por isso deve ser vista essencialmente como um gesto na cultura. Para o autor, que muito dialoga com a obra “Pelo espaço: uma nova política da espacialidade” da geógrafa Doreen Massey, também os mapas têm especial influência na nossa maneira de entender o/e agir no espaço geográfico, para Oliveira Jr. (2009, p. 21):

Fotografias e filmes têm, em nossa cultura, esta aura de verdade irrefutável que algumas imagens nos trazem...tanto por manterem uma semelhança física – visual e auditiva – com o real que “representam” quanto por acreditarmos que essa correspondência entre o objeto fotografado ou filmado e a fotografia ou o filme desse objeto seja fruto de um processo inevitável, disparado no momento exato em que se aperta o botão da máquina de captura. Os mapas também carregam em si esta aura de irrefutável, mas não por verossimilhança ou processo ótico-químico instrumental, mas por credibilidade histórica nas fórmulas matemáticas que subjazem às obras cartográficas.

67

Idem, ibidem, p. 28. 68

Dessa relação mapa e objeto real, Massey traz outra contribuição e enfatiza o que se torna seu objeto principal de crítica, a enfática crença da equivalência entre representação e espaço. Para a autora “A representação – certamente a conceituação – foi concebida como espacialização. [...] não se trata apenas de que a representação seja equiparada à espacialização, mas que as características daí derivadas são atribuídas ao próprio espaço” (MASSEY, 2009, p. 43). Massey, ao tomar a realidade não apenas como algo espacial mas também temporal, assim como as sociedades em que todas as suas práticas estão inseridas nesse binômio sendo tão múltiplas quantas forem as formas que estas sociedades encontrem de produzi-las, diz:

Seria melhor reconhecer que “sociedade” é tanto temporal quanto espacial e deixar completamente de lado essa definição de representação como espaço. O que está em questão, na produção de representações, não é a espacialização do tempo (compreendida como a tradução do tempo como espaço), mas a representação do espaço-tempo. O que conceituamos (divida em órgãos, mas coloque-os como quiser) não é apenas tempo, mas espaço-tempo. [...] E “representação” é uma tentativa de apreender os dois aspectos desse mundo.69

Em ambos os autores – Oliveira Jr. e Massey – encontramos pontos de encontro e pontos de descaminho, os encontros serão apontados ao longo deste trabalho à medida que dialogamos com eles, mas em relação ao que procuramos no momento – uma abordagem mais ampla do conceito de representação – concordamos com ambos em relação à distinção entre imagem/mapa/representação e real, mas também com a histórica associação entre ambos, nos conduz a pensar nas categorias de tempo e espaço como elementos que exercem influência em separado em nossas concepções, de modo que estamos sempre a pender de um para outro e quase nunca objetivando ambos em simultaneidade. Ademais, concordamos que a representação é bem mais que uma imagem identificada somente com os índices visuais nela presentes, como diz Oliveira Jr. (2009), concepção muito comum inclusive no ensino de ciências que toma as imagens com suporte dos textos, por valor unicamente ilustrativo, deixando de considerar o seu papel nos processos cognitivos.

Consideramos que a representação deve ser concebida como a tentativa de apreender os dois aspectos desse mundo, como diz Massey na citação anterior, e por ser produzida em sociedade, ela já é um gesto na cultura, como diz Oliveira Jr. Para nós, ela é um produto dotado de símbolos visuais produzidos no âmbito da ação cultural, processo social e histórico, e que objetiva “dizer” do mundo, e ao “dizer” influencia e é influenciado. Percebemos já de início, que

a discussão filosófica em torno da representação é complexa, mas também ampla como nos dá a conhecer Massey (2009) no capítulo 2 da sua obra citada, portanto juntamente com o que concordamos de Oliveira Jr. e Massey, escolhemos nos dedicar a algumas reflexões do campo da história cultural, pois nele encontramos importantes contribuições para uma reflexão, mesmo futura, e optamos por complementá-las com alguns estudos do campo da história da arte.

Destacamos como principal fonte o artigo da historiadora Sandra Jatahy Pesavento (1995), “Em busca de uma outra história: imaginando o imaginário”, que em sua busca por discutir o tema do imaginário no campo da Nova História Cultural, necessariamente precisa antes discutir a noção de representação que alguns historiadores tiveram que trabalhar quando, ao migrarem da história social para a história das mentalidades, se viram “resgatando as complexas mediações entre a concretividade da vida real dos homens e as representações que os mesmos produzem de si e do mundo”70

. Para tanto, a autora articula a noção de “imaginário” com a “representação do real”.

Pesavento logo articula Le Goff e Bourdieu71 para especificar que a “crise da representação”, ou seja, que a representação em uma concepção clássica e racional, sofre crítica pela argumentação de que a sua definição tem de estar diretamente ligada à conceituação de realidade como algo que lhe é externo. Para Le Goff, o imaginário é expressão do pensamento e campo da representação que se manifesta, tanto em imagens quanto em discursos, para fornecer uma definição de realidade de tal modo que imagens e discursos não são expressões literais do real. E Bourdieu complementa com a afirmação de que existe uma diferenciação entre a concretude das condições objetivas e a representação que se faz da mesma, na qual os sujeitos, sociais e históricos, produtores das representações, precisam articular sua apreciação, percepção e conhecimento, de modo a investir seus interesses e sua bagagem cultural. Para Pesavento72:

[...] no domínio da representação, as coisas ditas, pensadas e expressas têm um outro sentido além daquele manifesto. Enquanto representação do real, o imaginário é sempre referência a um “outro” ausente. O imaginário enuncia, se reporta e evoca outra coisa não explícita e não presente.

70

Idem, ibidem, p. 14. 71

As fontes que a autora utiliza são: Jacques Le Goff, “O imaginário medieval”, Editora Estampa e Pierre Bourdieu, “A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer”, Editora Edusp.

72

Neste processo de representação do real estabelece-se uma relação entre imagens e palavras e seus significados numa dimensão simbólica, pois “[...] o imaginário, enquanto representação, revela um sentido ou envolve uma significação para além do aparente. É, pois, epifania, aparição de um mistério, de algo ausente e que se evoca pela imagem e discurso”73

. A representação, construída socialmente enquanto um sistema de ideias e imagens tem o objetivo de conferir sentido à realidade que serve de escopo para as nossas ações, portanto esta dimensão simbólica também participa do real, que é ao mesmo tempo, concretude e representação.

Para Ernst Gombrich, a relação entre real e concebido é uma noção central na questão da representação – para este autor, um termo que designa imagem, representação pictórica – e que também permeou a reflexão de Aumont (2008a, 2008b) e de Xavier (2005) conduzindo-os a estudos relativos à chamada impressão de realidade no cinema. Para estes dois autores, a então sétima arte é prática inserida em condições sociais e materiais específicas, pressuposto também assumido por Gombrich em todos os seus estudos sobre a representação.

Gombrich, em “Arte e ilusão” (2007), se propõe a realizar um estudo sobre a psicologia da representação com ênfase na percepção e busca entender o papel da ilusão que se faz presente quando, ao olharmos um quadro, reconhecemos um determinado lugar, situação ou mesmo um objeto sem que ele esteja ali. Dentre as reflexões deste trabalho, o autor toma o exemplo de John Constable e a pintura que fez da propriedade de um de seus clientes – Wivenhoe Park, cuja pintura recebe o mesmo nome – para Gombrich, o que o pintor “realmente” viu ao pintar foi uma casa do outro lado do lago, mas a sua pintura é mais do que a visão da propriedade, ela está repleta de várias outras interpretações que se relacionam com a ideia de uma propriedade no campo, entre elas aquelas constituídas pela memória dos quadros vistos pelo artista durante a sua vida e seu estudo enquanto pintor e como todas elas “ensinaram” a ver certos lugares. E que no campo da arte constitui a significação, apontada por Bakhtin. Dentre estas interpretações, está também aquela que Constable teve da propriedade, a qual Gombrich chama de “correta” para distinguir das outras, e indica a existência de uma ambiguidade da representação. Para o autor:

Ambigüidade não é algo que possa ser visto, de modo que ignoramos, com razão, as numerosas e estranhas interpretações que devem também emboscar-se por trás da superfície serena do quadro. Porque basta examinar os pigmentos planos em busca de respostas sobre o motivo “lá fora” pra que a interpretação compatível se sugira por si mesma e para que a ilusão se instale. Não – é preciso

dizer – porque o mundo pareça, de fato, um quadro chapado, mas porque alguns

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