ADAPTES POUR LES ELECTRODES SOLIDES
4. MONTAGES PARTICULIERS A CELLULES MULTIPLES
Figura 43: Oficina de fabricação de tijolos106
A fabricação de adobes (tijolos) seguiu também a dupla vertente que unia a necessidade do Instituto com a ergoterapia. Foi selecionado um grupo de pacientes de “hábitos rurais”, posteriormente treinados por um empregado especializado. Rodrigues (1930a) relata que inúmeros problemas atrasaram o processo da olaria: não havia recursos financeiros suficientes para a construção de um grande forno,
nem para a construção de abrigos para a produção, que se perdia frequentemente por causa das chuvas.
Nesse ponto Rodrigues (1930a) reclama novamente da inconstante presença de alguns insanos, que sob o julgo das autoridades policiais eram transferidos para a cidade de Barbacena, por exemplo:
Desde o inicio arvorou-se o plano para a organização de uma olaria. A falta de recursos, porém, que deveriam erigir o grande fôrno, preparar áreas, architectar os depositos, a falta de fixação dos pacientes, sujeitos ao
arbítrio da polícia e não do médico,e finalmente a falta de meios para ao
menos iniciar o movimento promissor, fizeram que se parasse no limite menos economico, mas, mesmo assim, utilíssimo do adobe”
(RODRIGUES, 1930a, p.133, grifos nossos).
Essa oficina era muito importante na conservação do prédio do Instituto Raul Soares. A partir de sua produção, foram erguidos trechos de parede melhorando a circulação, além da construção de um muro de 43 metros de comprimento para separar o lado feminino do masculino, “[...] afim de ampliar o mais possível o regimen de liberdade entre os doentes” (RODRIGUES, 1930a, p.133).
Figura 44: Oficina de Adobes (1929), no Instituto Raul Soares107
A visão do trabalho como um meio de exploração dos insanos mentais nessa época está presente em autores como MAGRO FILHO (1992), que ao descrever o trabalho dos doentes no Hospital Psiquiátrico de Barbacena comenta:
A visão de que seria necessário aumentar o trabalho no interior da Colônia segue ano a ano. Ainda em 1927, o Relatório da Secretaria de Segurança dizia que “maior teria sido a producção, si não houvessem sido numerosos asylados aptos para o trabalho empregados na construcção da estrada de rodagem que liga a Colônia ao Hospital Central, e outros na fabricação de tijolos, destinados às obras do Manicômio Judiciário e Hospital Central”. Os
próprios alienados tinham que construir o acesso a seu local de reclusão; eles próprios tinham que plantar para comer; eles próprios produziam os tijolos para se abrigarem! (MAGRO FILHO, 1992, p.42, grifos nossos).
O autor parece denunciar condições severas de exclusão social nessa época. No entanto, não concordamos com ele: na década de 1920, a ergoterapia estava substituindo a clinoterapia. A idéia de que um insano pudesse trabalhar se acompanhava de um forte caráter revolucionário nas concepções que tratavam os doentes como inúteis. Além do mais, a ergoterapia empreendida por Juliano Moreira e Lopes Rodrigues não pretendia apenas lucros para o estabelecimento. As vertentes de entretenimento e criação artística apontam outros horizontes, como veremos a seguir.
5.3.4. Diversões
Rodrigues destaca que a presença da diversão nos estabelecimentos para insanos mentais era cada vez mais comum na década de 1920. Ele cita experiências européias, principalmente alemãs e suiças:
Em Zurich havia reuniões musicaes todas as semanas, ás sextas-feiras, cinco grandes concertos e festas campestres, duas representações theatrais e quatro excursões por anno. Em Klosternenburg há dez festas por anno. Em Alt-Sherbitz os indigentes dispõem de dois bilhares. Para a leitura, o director do asylo de Dusseldorf chegou a installar na estação uma caixa, onde o público colloca os jornaes e revistas que offerecem aos doentes. No anno de 1891 o “asylo” de Vienna dispunha do credito de 2,060 francos para serem empregados nas diversões dos doentes. Deram- se alli, naquelle anno, 14 festas” (RODRIGUES, 1930a p.82).
Acreditando que o Instituto Raul Soares precisava de uma atmosfera mais leve, onde atividades de lazer pudessem acalmar doentes e promover melhoras no quadro mental, foi aberta inicialmente uma sala de música. Mesmo aqui, o diretor do Instituto demonstrava que esses gastos eram necessários, e como a lógica administrativa não dava trégua, Lopes Rodrigues (1930a) argumentava dizendo que a economia resultante do abandono do material de contenção mecânica, como manquitos de couro, pagava a conta da sala de música.
Assim, foi escolhida uma ampla sala, e lá “[...] installada uma victrola, distribuídos jogos de várias naturezas, violões, sanfonas, revistas, jornaes instructivos, livros de estampas e outros recursos capazes de distrahir os doentes.” (RODRIGUES, 1930a, p.81). As mesas da sala foram cobertas com bordados da oficina de costura. Era segundo Rodrigues (1930a), “[...] um ambiente original de conforto relativo, de repouso.” (RODRIGUES, 1930a, p.82).
Figura 45: Aspecto da Sala de Música. No centro, a “victrola”.108
Os aspectos de diversão interessavam muito Lopes Rodrigues (1930a), principalmente a partir do efeito que causavam no psiquismo dos pacientes. Ele insistia na diversão como um importante aliado ao regime aberto. Pensava que a linguagem artística era indispensável. Um aluno de Rodrigues na década de 1960 nos relatou que o diretor do Instituto Raul Soares tocava violino com os pacientes
nessa época, conforme teria lhe contado o próprio Lopes Rodrigues (1930a). Esses aspectos eram segundo ele, “[...] desconhecidos dos estudantes de medicina mineiros.” (RODRIGUES, 1930a, p. 86). Rodrigues (1930a) queria mostrar o poder da diversão na clínica.
Figura 46: Doentes usam seus instrumentos ao ar livre, no Instituto Raul Soares109
Figura 47: Mesa de Jogos, no Instituto Raul Soares, em 1929110.
109 Fonte: acervo do Centro de Memória do Instituto Raul Soares/FHEMIG 110 Fonte: acervo do Centro de Memória do Instituto Raul Soares/FHEMIG