A análise das metodologias aplicadas é importante para o auxílio a estudos futuros, para a compreensão dos resultados obtidos e para criar um sistema de monitorização contínua de mamíferos carnívoros na RFB.
Relativamente à identificação de espécies pelo método de pesquisa de indícios, este apresenta algumas dificuldades principalmente no que diz respeito aos dejetos, que apresentam muitas vezes diferentes graus de decomposição, o que dificulta a identificação. As variações climáticas e o tempo vão degradando os dejetos e a informação que deles pode ser retirada. Apesar de tudo permite-nos adquirir informação muito importante disponível na área de estudo e com baixo investimento monetário associado. Para além disso a pesquisa de indícios é um auxílio essencial na escolha do local a colocar câmaras de captura-fotográfica, outra das técnicas utilizadas neste trabalho.
Na pesquisa de indícios é importante a escolha de trilhos e caminhos para a realização dos transectos. Os mesmos têm como pontos positivos a diminuição do esforço de amostragem e a maior probabilidade de encontrar dejetos de animais territoriais, como são grande parte dos carnívoros, os quais usam estes locais para a marcação dos limites dos seus territórios. Contudo, torna-se mais difícil a observação de indícios de outras espécies importantes, como é o caso das espécies-presa, como o corço (Capreolus
capreolus) que deposita os seus dejetos em locais mais discretos para não ser localizado
pelos predadores. Existem também alguns mamíferos carnívoros que não utilizam normalmente estes locais para depositar as suas fezes, como é o caso da doninha (Mustela
nivalis) e da lontra (Lutra lutra) (Izquierdo, 2009).
O processo laboratorial de secagem em estufa dos dejetos recolhidos foi importante para pôr de lado algumas dúvidas e concluir com maior certeza a identificação a espécie. A maior alteração que se observou após a secagem foi a diminuição do diâmetro, algo que já estávamos à espera tendo em conta a perda do teor de água, bastante elevado na maioria das amostras recolhidas. Este processo torna-se decisivo na tomada de decisão sobre a espécie, pois a maioria dos guias de campo da temática apresentam ilustrações relativas a dejetos bem consolidados e secos. Apesar disso, a maior utilidade deste
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processo foi, na realidade, a criação de uma coleção de dejetos-tipo devidamente secos e esterilizados.
A captura-fotográfica apresenta como principais aspetos negativos ser uma técnica dispendiosa a nível económico e de tempo. Estes aspetos são rapidamente desvalorizados quando confrontados com a quantidade e qualidade de informação que nos permite reunir (Zamora, 2012). O tempo de colocação diminui com a experiência de trabalho com estes equipamentos, contudo existe uma fatia enorme de tempo despendido associado à seleção, observação e registo das fotos captadas. Para esta fração existem técnicas atenuantes, tais como a colocação exemplar das câmaras, com aumento da eficiência e a aquisição de software que auxilie a catalogação da informação/fotos. O aspeto económico é preponderante quando tentamos atenuar a questão do tempo despendido, sendo os equipamentos mais eficientes também os mais dispendiosos e o software acarreta custos muitas vezes elevados. Não podemos esquecer, também, o risco sempre iminente do roubo do equipamento, que para além da perda económica, leva também a perda de dados, tempo e trabalho.
Relativamente ao equipamento utilizado nesta monitorização, as câmaras Reconyx parecem ser mais eficientes que as BROWNING strikeforce, pois produzem um maior número de fotos com registo de presença em relação ao número total de fotos. Para além disso, as câmaras BROWNING strikeforce para além de captarem um maior número de fotos sem dados de interesse, originam diversas capturas noturnas que resultam em fotos queimadas, sendo impercetível e não-identificável o indivíduo capturado. Estas câmaras projetam uma série de luzes vermelhas, numerosas e bastante visíveis, quando detetam movimentos, o que pode provocar o afastamento das espécies mais esquivas/cautelosas. Alguns estudos demonstram que o barulho do disparo da foto e as luzes de flash/infra- vermelho podem ser tanto benéficas como prejudiciais, pois os indivíduos respondem de formas diferentes (Wilson et al, 1996). Apesar disso, neste estudo não observamos que as luzes projetadas pelas câmaras provoquem medo ou receio, por outro lado causaram curiosidade por parte dos animais relativamente ao objeto. O equipamento Moultrie PANORAMIC 150 foi utilizado uma única vez, apesar de ter um ângulo de captura muito amplo, este equipamento armazena a informação de forma extremamente fragmentada, o que dificulta a catalogação e análise das fotos capturadas.
Na aplicação da técnica de captura fotográfica foram utilizados iscos com o intuito de atrair para o campo de registo da câmara, os indivíduos que se aproximavam do local. Escolheram-se como isco atum e/ou sardinha enlatada, pois têm um odor bastante
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característico, sendo indicados noutros estudos para atrair a comunidade de carnívoros mamíferos e outros pequenos mamíferos. Em alguns dos locais, os iscos foram colocados debaixo de pedras, dificultando o seu acesso, obrigando os indivíduos a permanecer mais tempo junto à câmara, possibilitando fotos mais precisas e de melhor qualidade, a fim de facilitar a identificação da espécie e permitindo observar comportamentos do individuo. As desvantagens do tipo de atrativo utilizado incluem o risco da captação de fotografias na sua maioria de espécies generalistas e/ou menos tímidas, o que pode levar a resultados de abundância de espécies desajustados (Zamora, 2012).
Após a análise dos resultados obtidos, acreditamos que a técnica de captura fotográfica é a mais adequada para estudos de presença e abundância de espécies esquivas, mas curiosas e territoriais como os carnívoros. Tal parece não se aplicar às demais comunidades de mamíferos, como os lagomorfos e artiodáctilos, espécies que sendo presas, apresentam mais receio e timidez. A captura fotográfica deve apesar de tudo ser sempre auxiliada com a pesquisa de indícios, para a escolha dos locais mais adequados de colocação dos equipamentos, e para o estudo da presença de espécies-presa, importantes na compreensão do estado das comunidades de predadores.
6.2. ABUNDÂNCIA E DISTRIBUIÇÃO DAS ESPÉCIES NA RESERVA DA FAIA