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A aldeia tupinambá era composta geralmente de quatro a oito malocas, cujas dimensões alcançavam, muitas vezes, mais de cem metros de comprimento. Em apenas uma maloca, podiam residir até seiscentas pessoas. A aparência de cada casa era semelhante a um labirinto. Uns cantam, outros choram, outros fazem farinha e bebidas. Porém, predominava sempre a harmonia. A conformidade era tamanha entre eles que em um ano inteiro não ocorria nem ao menos uma só peleja. Como não havia portas ou trancas, não ocorriam furtos. Nenhuma nação europeia poderia viver da maneira que viviam. A aprendizagem da convivência e da sobrevivência era feita na reprodução do comportamento, a partir do modelo dos mais velhos, no fazer e no refazer. A autoridade, era exercida basicamente pelos morubixabas e sustentava-se nas suas atuações carismáticas, no comércio de pequenas dádivas e favores (Ribeiro, 1992).

Lembrando-nos de sua autoridade como testemunha ocular oitocentista, Couto de Magalhães passa a falar de sua observação da família indígena. Informa que conhecia, ao menos, trinta tribos espalhadas pelo Brasil de dez nações indígenas, algumas já em processo de transformação pelo contato com a civilização do homem branco, outras ainda praticamente intocadas. A cultura original estava preservada apenas naquelas onde a catequese ainda não havia chegado. Assim relata:

De minhas observações tem resultado sempre que na família indígena existem: desde as instituições rígidas e de uma severidade de costumes que excedem a tudo quanto a história nos refere, até a comunhão das mulheres. Referi-me ao índio que não está catequizado, porque este é, por via de regra, um ente degradado; ou seja, que o sistema de catequese

24 Refletindo uma época quando a chamada antropologia física estava em alta, o general Couto de

Magalhães reconhece superioridade de raças e atrela tal preeminência não exatamente às características físicas, mas aos conceitos que são encontrados na cultura de uma raça. Assim: “Não é a força física, a beleza, a gentiliza da forma, que constituem, como entre os irracionais, a superioridade de uma raça humana sobre outra, assim como não são as qualidades físicas que assinalam a superioridade de um homem sobre outro” (Magalhães, 1975, p. 75). Curioso são os laços que prendem esse autor à antropologia física, pois, de alguma forma, a aparência acabará por determinar ou limitar qualquer ideia de “superioridade”: “Há sem dúvida alguma, certos laços entre as perfeições das formas e os dotes morais, que não se podem contestar; sobretudo há certos limites que não podem ser excedidos impunemente: é assim que raras vezes um anão será um homem inteligente” (p. 75). Não seria porque os anões normalmente são excluídos na sociedade e, portanto, quase nenhuma oportunidade ou visibilidade têm?

é mau, ou seja, que o esforço dirigido especialmente para conseguir um homem religioso, se esqueça de desenvolver as ideias eminentemente sociais do trabalho livre, ou seja por outra qualquer causa, o fato é este: o índio catequizado é um homem sem costumes originais, indiferente a tudo e, portanto, à sua mulher e quase que à sua família. Os aldeamentos indo-cristãos não tem, pois, costumes originais; sua família é a família cristã, mais ou menos moralizada, segundo o caráter individual do catequista (Magalhães, 1975, p. 76).

Darcy Ribeiro argumenta que a liberdade sexual era grande. No entanto, corriqueiramente o adultério feminino acabava em espancamento. Isso não implicava casamentos indissolúveis, ou divórcios obrigatoriamente unilaterais. O fim do casamento, por iniciativa do homem ou da mulher era simples e sumário. Explica também que a homossexualidade era comum, sem a preocupação de fazer dela um segredo. A divisão de tarefa entre homens e mulheres era nítida, marcada desde a primeira infância. Havia “educação” diferente para o menino e a menina. Um menino tinha que ser formado para ser um índio, um caçador, um guerreiro. A menina, para outras tarefas. Tais definições iniciam-se tão precoce quanto simbolicamente. Ao nascer um bebê do sexo masculino, o orgulho do pai é colocar na beira da rede do filho um arco-e-flecha em miniatura, mais do que uma demonstração, verdadeiro desejo de que ele venha a ser um guerreiro, um caçador. Quando nasce a menina, de igual forma, colocam uma tanguinha. É para induzir a menina a ser uma tecelã, uma mulher trabalhadora. A organização do trabalho na aldeia também obedecia uma estrita divisão. Enquanto as mulheres cuidavam da roça, do preparo da comida e do cauim, o vinho que animava as festas tupi, aos homens cabia a fabricação de arcos, flechas, bordunas e canoas. Digno de nota é que, entre os indígenas, nunca houve uma delimitação clara entre trabalho e arte (Darcy, 1992).

Segundo Darcy Ribeiro, há algo marcante nos índios: cada coisa que eles fazem, desejam que seja perfeita. Aqui há um importante princípio, segundo o antropólogo: cada coisa os retrata. Nisso, argumenta, percebe-se a “vontade de beleza”. Essa é uma peculiaridade distintiva da cultura ameríndia. É nesse sentido que o referido autor afirma que há poucas coisas mais resistentes do que uma etnia, do que a identidade de um povo. Segundo ele, mais do que aço, mais do que qualquer material: “uma etnia é dura”. Argumenta que, se é possível aos pais criarem os filhos, se são criados na tradição dos pais, em sua língua materna, reproduz-se nele a identidade. Darcy Ribeiro pergunta: “Por que há quatro mil anos os ciganos são ciganos? Ou que o judeu é judeu? Por quê? Por

uma identificação íntima, secreta, interior. Ele sente que é judeu. E é essa convicção que faz dele um judeu. É a mesma convicção que faz dos índios, índios” (Ribeiro, 1992).

Dentre as liberdades e severidades quanto ao trato conjugal, Couto de Magalhães relata que conhecia tribos onde nem mesmo casamentos havia, como outras onde o adultério era pago com a morte na fogueira. O primeiro caso, aquilo que chama de “comunismo” é exemplificado nos caiapós. Apressa-se em esclarecer que o comunismo de mulheres está longe de se aproximar de qualquer conceito de prostituição como o denomina o homem branco. Entre os caiapós há a distinção clara entre os conceitos de comunismo de mulheres e de prostituição. Tão clara é a diferenciação que fazem, que aquelas que se prostituem são tidas em grande desprezo. Tal reação diante da prática do meretrício, argumenta o referido autor, jamais seria possível se os termos fossem equivalentes em sua cultura. Certamente, se se trata de “família”, tem que haver alguma ordenação nos relacionamentos entre os sexos, até mesmo para se estabelecer responsabilidades de sustento e guarda dos filhos. Escrevendo ainda no século XIX, é capaz de nos dar a localização exata originária das tribos. Assim, explica que se dividiam em poderosos grupos, reconhecidos sob vários designativos: Caiapós, Gradaús, Gorotirés e Caraós. Seus domínios se estendiam desde as florestas do Paraná, Mato Grosso, Goiás, Maranhão, alcançando o Pará ao norte, onde são conhecidos como Goratirés, habitando grandes faixas ribeirinhas do Xingú (Magalhães, 1975, p. 77).

Magalhães explica o comunismo de mulheres da seguinte forma: quando a menina atinge a idade estabelecida para ter relações sexuais, ela imediatamente procurará conceber daquele que quiser. No período de gestação e amamentação, o pai da criança tem a responsabilidade de sustenta-la, o que não raro o faz simultaneamente com outras a quem inseminou. Sendo esse o caso, as mulheres morarão na mesma cabana com o seu provedor. Quando a mulher se percebe em condições de trabalhar, pode continuar a prole do mesmo homem ou escolher outro, contudo, tendo o novo homem a responsabilidade de sustentar os filhos que ela já possui. Aos dez anos de idade o menino já começa a trabalhar para sua própria subsistência, mas é ajudado por parentes até que seja capaz de se autossustentar. Depõe o autor que os índios costumam mostrar grande generosidade aos meninos, até mesmo àqueles capturados de tribos inimigas. Certamente, esse modelo de “família” tem suas consequências, mas não pode ser enquadrado como “prostituição”: “é um modo de ser da família, que eles julgaram melhor, segundo suas ideias e meios de vida” (Magalhães, 1975, p. 77).

O modelo daquilo que chama exclusivismo das mulheres é exemplificado nos Guatós, da Bacia do Prata, e nos Chambioás do Amazonas. Os Guatós mostram, quanto a isso, um conceito exagerado dos direitos do homem sobre a mulher. Eles ocupam os campos do Alto Paraguai, São Lourenço e Cuiabá, alcançado o Gaíba. Trata-se de povo bastante numeroso, que dominam vasta área de terra. Os homens Guatós não são monogâmicos. O número de esposas que teria é limitado pela capacidade de suprir não apenas a elas, mas aos filhos que viriam. Assim, um homem poderá ter duas ou três mulheres conforme a habilidade que mostra na caça, pesca e coleta. Couto de Magalhães destaca o recato das mulheres daquela tribo. Relata que, se uma delas viesse até eles para lhes oferecer algum alimento, ou para cumprir algum mandato do marido, ou interessada em algum objeto, aproximava-se sempre com os olhos voltados ao chão ou, na presença do marido, sem desviar os olhos dele. Se um dos oficiais que estava com o grupo do general Magalhães entrava sem aviso em uma cabana, as mulheres presentes, geralmente assentadas ao chão, viravam de costas buscando ficar de frente para o marido, e continuavam o que estavam fazendo. Nem mesmo a curiosidade da visão de um grupo de canoas com homens armados subindo por região ainda virgem era suficiente para modificar tal comportamento. O decoro das mulheres Guatós era imediatamente notado pelos soldados, geralmente acostumados à libertinagem e à prostituição dos acampamentos militares. Por causa disso, expõe Couto de Magalhães, a ofensa que era mais grave nas aldeias Guatós era o desacato à família. Não é por acaso que um roubo de mulheres praticado pelos espanhóis havia, possivelmente, mais de um século, era ainda lembrado como se poucos dias se tivessem passado desde o acontecimento, bem como, presente a animosidade contra eles (Magalhães, 1975, p. 78).

Para os Guatós os paraguaios continuavam a ser espanhóis e os brasileiros continuavam a ser portugueses. Assim, quando o Dr. Carvalhal, médico do Exército, viu- se obrigado a refugiar-se com eles na batalha do Alegre em plena Guerra do Paraguai, tendo permanecido com eles não poucos dias, também testemunha “o singular recato, modéstia e honestidade da família Guató.” O outro exemplo de exclusividade da mulher é, segundo Couto de Magalhães, ainda mais severo. Trata-se do Chambioá, na Bacia do Amazonas. Formavam uma só nação junto com os Carajás, Carajaís e Javaés, constituindo sessenta a oitenta aldeias espalhadas às margens do Araguaia, cobrindo uma extensão de 580 a 605 quilômetros e uma população estimada entre sete e oito mil pessoas. De acordo com o citado autor, há dois fatos curiosos quanto às normas que

regulam o trato conjugal: “O primeiro destes é haver nas aldeias homens destinados a ser viri viduarum. Esses indivíduos não têm outro mister; são sustentados pela tribo e não se entregam, como os outros, aos exercícios das longas viagens e peregrinações, que todos fazem anualmente, embora revezando-se”. Explica o referido estudioso que a ele tal instituição não pareceu justa, ou seja, homens serem sustentados sem nada contribuir. Uma vez interpelado um chefe indígena que conhecia, a explicação que obteve é que a paz da tribo dependia daquela instituição. Não está claro qual era a sua real “função”, na verdade, o simbólico por trás da figura. Pelo que diz o depoente, trata-se de algo relativo à viuvez. Estaria tal viuvez ligada ao tratamento dado ao meretrício? As mulheres adúlteras, segundo afirmou o frei capuchinho Francisco a Couto de Magalhães, eram queimadas vivas (Magalhães, 1975, p. 79). Seriam os viri viduarum seus viúvos? Ou, talvez, sejam aqueles que simbolicamente assumem a viuvez relativa a cada adúltera? Talvez, a segunda ideia.

Couto de Magalhães afirma que há entre os índios grande cuidado para que não haja união entre os sexos antes que o jovem tenha alcançado a completa puberdade, especialmente, diz ele, a puberdade do menino. Embora a severidade para o desrespeito a essa norma varie, há tribos que retribuem com a morte. O referido autor, baseando-se no depoimento do Frei Francisco, argumenta que o homem se mantinha virgem até o casamento, o qual acontecia não antes dos vinte e cinco anos. No entanto, normalmente o matrimônio se dava após os trinta anos. Aparentemente, o principal motivo era a crença de que apenas por volta dos trinta anos é que se podia comunicar saúde e força aos filhos: A principal razão com que os selvagens justificam o fato é a força e energia da prole, e a força e energia da prole é coisa muito mais importante em uma sociedade bárbara e rudimentar, do que entre um povo civilizado, como é fácil de avaliar; a tribo que, por falta destas instituições, deixar a raça abastardar-se, é uma tribo vencida; sem armas de fogo, sem os diversos recursos que uma cultura mais adiantada pode trazer à arte da guerra, vence a tribo que dispuser de mais forças físicas: por aqui se compreende o papel importante que representa esse elemento em tais sociedades. Não é só isso. Entre nós, um menino fraco e mal conformado pode vingar à custa de cuidados, e em geral da ausência absoluta de privações a que está sujeito nessa idade. Numa sociedade bárbara, porém, onde não é conhecido o uso do sal, onde não se pode armazenar os alimentos – a fome, as intempéries de que não são protegidos, nem pelas roupas, de que não usam, nem por aquelas choupanas, verdadeiros rudimentos de morada; as peregrinações forçadas, ou pelas estações, ou pela necessidade de buscar alimentos, são outras tantas causas de eliminação a que não poderiam resistir os meninos fracos e mal conformados. O instinto, pois, da própria conservação, o orgulho, o amor paterno e materno vêm em auxílio do

sentimento de honestidade, para fazer do índio um homem, pelo comum, mais moral do que o cristão civilizado (Magalhães, 1975, pp. 79, 80).

É notável a atribuição de maior “moralidade” ao ameríndio do que ao branco e mestiço da época. Modernamente, percebem-se mudanças significativas, certamente resultantes de aculturações. Egon Schaden conta, por exemplo, que entre os Ñandéva e Kayová, antigamente, a iniciativa do casamento partia geralmente da mãe da noiva, às vezes, do noivo. Já no início do século XX era comum o rapaz pretendente tomar a atitude. Depois do aceite da moça, o jovem conversava com seu próprio pai para que intermediasse a união na tratativa com a mãe da “noiva”. Havia a possibilidade do “noivo” se dirigir diretamente ao pai da pretendida, neste caso, considerando que o entendimento de homem com homem é mais fácil. O pai, na verdade, geralmente pouco se interessa pela vida familiar de seus filhos, ao contrário da mãe, que zela e interage com a filha, dando-lhe conselhos. É também na casa de quem a filha casada passa o dia, se é que more perto da mãe. Segundo Egon Schaden, havia a possibilidade de recusa do casamento: “Entre os motivos de recusa a um pretendente indicaram-me, no Sul de Mato Grosso,25 o

ser ele cachaceiro, vagabundo, economicamente incapaz, membro de outro subgrupo da tribo, de origem paraguaia ou luso-brasileira, ou simples antipatia pessoal”. A palavra da mãe tinha muito peso: “Casos há, entre os Kayová e Ñandevá dessa região, em que a mãe sugere à filha um noivo – conhecido como ordeiro, trabalhador e possuidor, talvez, de animais de montaria, morada própria, roças, criação –, indo ela mesma, a mãe, entender- se com o rapaz” (Schaden, 1974, p. 66).

Couto de Magalhães conclui que “a família selvagem é tão respeitável como a cristã, dadas as circunstâncias de costumes, religião e meios de vida de nossos índios”. Argumenta que a prostituição só é encontrada em larga escala nas aldeias que foram implantadas pelos brancos, isto é, uma consequência danosa do aldeamento. Explica que os índios não estavam acostumados à vida sedentária. Não possuíam a arte necessária para esse modelo de vida, submetiam-se à cultura da terra para obterem alimento inferior. Na visão deles, alimento melhor alcançariam, e com menor esforço, na caça e na pesca, vivendo livremente na vida seminômade a qual estavam acostumados. Por isso, o desgosto, a preguiça e a ociosidade que fazem a tudo degenerar, incluindo aí o meretrício, a embriaguez dentre outros vícios (Magalhães, 1975, p. 80). A família indígena tinha que

ser versátil e prática devido às exigências da mobilidade. Eram poucos os utensílios e ferramentas, pensados para ser facilmente transportados. Tudo era concebido e adaptado visando a otimização da caminhada. A família indígena estava em linha com a trans- formação do Brasil.

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