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Connection States

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States and State Diagrams

3.4 Connection States

Couto de Magalhães argumenta que todos os brasileiros conhecem alguma coisa das lendas e tradições indígenas que, transformadas na sociedade em folclore e superstição, integram o imaginário popular brasileiro. Assim, no Brasil oitocentista:

Tempo houve, na vida de todos nós, em que o Deus dos cristãos foi tão venerado e tão temido quanto os deuses selvagens. Se nossas mães nos adormeciam muitas vezes com cânticos que recordavam a infância da Virgem Maria, ou o nascimento de Cristo, nossas amas-de-leite nos contavam a história do Saci Cerêrê, narravam-nos como um certo menino havia sido desencaminhado nos bosques pelo Curupira; como um velho tal, que caçava nos domingos, sem ouvir missa, fora impelido pelo Anhangá a precipitar-se em um abismo; como uma lavadeira de roupa tinha avistado no fundo dos poços o Unutara, e tantas outras histórias, que não são mais do que os fragmentos da teogonia aborígine, que desde pequenos, nos foi ensinada, e na qual, como disse, tempo houve em que todos nós acreditamos (Magalhães, 1975, pp. 80, 81). O referido autor informa que, em sua época, não havia um só caipira de São Paulo ou um bruaqueiro de Minas Gerais, para quem o Saci fosse algo imaginário. Ao contrário, atestará que o encontrou junto a uma porteira, ou que saltou sobre sua montaria, ou fez qualquer outra estripulia. Prosseguindo em sua argumentação, diz que as crenças indígenas passaram para o povo brasileiro de forma geral e “os deuses dos Tupis ainda eram reconhecidos bem reais nos campos e na vida real da exata maneira como o eram na vida dos ameríndios. Por isso, conclui o autor, “escrever, pois, a teogonia tupi, é quase que escrever até um certo ponto as crenças de nosso povo, aquilo em que cada um de nós

acreditou até os 10 ou 11 anos” (Magalhães, 1975, p. 81). Embora refletindo seu contexto do século XIX, certamente ainda em nossos dias tais crenças perduram.26

A lenda preferida de Couto de Magalhães é a que explica para o indígena a origem da mandioca, ou, a Lenda de Mani. É desnecessário afirmar a importância da mandioca para as comunidades indígenas. Dela se faz não apenas o pão de cada dia, o beijú, mas também bebidas fortes como o cauim, a muniquera, o puxirum e outros. Assim a lenda é conhecida:

Em tempos idos apareceu grávida a filha de um chefe selvagem, que residia nas imediações do lugar em que está hoje a cidade de Santarém. O chefe quis punir, no autor da desonra de sua filha, a ofensa que sofrera seu orgulho e, para saber quem ele era, empregou debalde rogos, ameaças e por fim castigos severos. Tanto diante dos rogos como diante dos castigos, a moça permaneceu inflexível, dizendo que nunca tinha tido relação com homem algum. O chefe tinha deliberado matá-la, quando lhe apareceu em sonho um homem branco, que lhe disse que não matasse a moça, porque ela era efetivamente inocente e não tinha tido relação com homem. Passados os nove meses, deu à luz uma menina lindíssima e branca, causando este último fato a surpresa não só da tribo como das nações vizinhas que vieram visitar a criança para ver aquela nova e desconhecida raça. A criança, que teve o nome de Mani e que andava e falava precocemente, morreu ao cabo de um ano, sem ter adoecido e sem dar mostras de dor.

Foi enterrada dentro da própria casa, onde era descoberta diariamente, sendo diariamente regada a sua sepultura, segundo o costume do povo. Ao cabo de algum tempo brotou da cova uma planta que, por ser inteiramente desconhecida, deixaram de arrancar. Cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros que comeram os frutos embriagaram-se e este fenômeno, desconhecido dos índios, aumentou-lhes a superstição pela planta. A terra afinal fendeu-se; cavaram-na e julgaram reconhecer no fruto que encontraram o corpo de Mani. Comeram-no e assim aprenderam a usar da mandioca (Magalhães, 1975, p. 86).

O fruto recebeu o nome de Mani-oca, que quer dizer “casa” ou “transformação” de Mani, que se corrompeu no português mandioca. Couto de Magalhães enxerga nesta lenda duas verdades centrais às religiões asiáticas: a) reconhecer o uso do pão como ensinamento divino; e b) concepção virginal (Magalhães, 1975, p. 86).As semelhanças com a história do Cristo bíblico são também notáveis: 1) Mani é concebida por uma virgem; 2) há a figura da morte como doação de vida ao povo, no alimento que é dado

26 Minha esposa cresceu na periferia da cidade de São Paulo ouvindo estórias de Sacis, mulas-sem-

cabeça, lobisomens, assombrações e coisas tais. Quem as contavam (e ainda contam) eram sua mãe e tios que nasceram e cresceram no interior paulista, meados do século passado.

para esse fim; 3) o “comer” o corpo como meio de apropriação da vida que é dada; 4) Jesus chamou a si mesmo de “pão vivo que desce do céu”, verdadeiro alimento para a alma, tendo como pano-de-fundo o maná do Antigo Testamento.

Berta Ribeiro fala sobre a importância da mandioca para os ameríndios, referindo- se a ela como “o pão da terra”. Destaca sua popularização pelo mundo:

Sua importância na hierarquia das plantas alimentícias americanas só cede lugar à batata e ao milho. A mandioca está hoje difundida por toda a zona tropical da África, Ásia e América, de onde é nativa, tendo sido domesticada provavelmente no Brasil. A tapioca é o produto industrializado. Dá-se bem em uma variedade de solos e resiste melhor que outras plantas a pragas e insetos (Ribeiro, 2001, pp. 92, 93).

De certa forma, embora não seja consumida e apreciada apenas pelos naturais da terra, a mandioca parece ter sido coroada, junto com alguns outros vegetais, como “alimentos dos pobres”, devido às suas características de resistência e facilidade de cultivo. Em visitas recentes a Guiné-Bissau, um dos países mais pobres do mundo, a mandioca está presente como alimento.

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