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Towards for Cavitation

6.4 Modified Reboud correction

Como exemplo desse interesse econômico por trás do aprendizado da língua geral tem-se o caso do conhecimento da língua guarani – que guarda parentesco genético e funcional com a língua tupi – como fator concorrente para o êxito do explorador português Aleixo Garcia, que mais tarde morreria assassinado pelos índios, em desvendar pioneiramente rota de comunicação entre o Paraguai e a região andina, por volta de 1522, conforme demonstra Cortesão (1955:35 e 1958:56).

De igual valia foi o conhecimento da língua geral por parte de Martim Soares, conforme relata Capistrano de Abreu (1963:88-90), que chegando de Portugal em 1602, foi incorporado à primeira expedição fracassada, liderada por Pedro Coelho, de avançar do leste para o oeste partindo da Paraíba. Nessa expedição, ele se familiarizou com a língua geral a ponto de tornar-se amigo confiável de Jacaúna, chefe dos potiguares, que lhe permitiu mesmo levar um de seus filhos à Bahia. Esse aprendizado da língua geral foi de importância capital em sua penetração prospectiva no Maranhão, então ocupado pelos franceses, que tinham como aliados os Tupinambá. Escapando da tentativa de captura que contra ele foi empreendida, acumulou informações que foram posteriormente de grande valimento na expedição comandada por Jerônimo de Alburquerque, de que resultaria, mais tarde, após a derrota dos franceses no Maranhão, o primeiro passo para a ocupação da Amazônia.

Destaque na história dos sertanistas brasileiros, Pedro Teixeira, em sua viagem de reconhecimento do Rio Amazonas, partindo de Cametá, no Pará, em direção a Quito, ainda sob a monarquia dualista regida por Felipe IV, deu lugar a um melhor conhecimento entre os Andes e o Atlântico, contribuindo ainda para o alargamento de fronteiras em favor de Portugal. Uma peça-chave de sua expedição foi o mestre de campo e coronel Bento Rodrigues de Oliveira, familiarizado com os costumes indígenas, escreve J. Lúcio de Azevedo (1930:33) no trecho em que registra que “no primeiro barco, como chefe da força avançada, ia o mestre de campo Bento Rodrigues de Oliveira. Natural do Brasil, onde vivera sempre, eram-lhe familiares os segredos do mato e os costumes dos indígenas”, e fluente em língua geral, como registra Arthur Cezar Reis (1998:59): “Maneiroso, falando a língua geral, o que lhe servia de chave nas aldeias, o Coronel Bento de Oliveira não encontrava embaraços”. Esse manejo da língua era um passe-partout para quem quisesse se embrenhar na Amazônia. O padre Cristóbal de Acuña, que acompanhou Pedro Teixeira na

viagem de volta ao Pará, tendo escrito o relato dela ao longo dos oitos meses de sua duração, ao descer o rio Madeira e encontrar tribos tupinambás, que, segundo ele, teriam saído fugidas de Pernambuco após terem sido derrotadas pelos portugueses, enfatiza a fluência dos portugueses com a língua geral (1946:92): “De estos tupinambás, como de gente más razón y que no necesitan de intérpretes, por correr, como ya dije, entre ellos lengua general, que muchos de los mismos portugueses hablan com eminencia”.

José Bessa Freire (1983) menciona também a expedição de Orellana (1541- 32) e a de Ursúa-Aguirre (1560-61) em que “o papel dos intérpretes foi de extrema importância, conforme documentam os relatos”. Desta última investida de exploração ele narra ainda que os expedicionários, quando os índios-intérpretes fugiram, “usando ‘señales y señas’ passaram muitas penúrias e privações, perdendo-se durante alguns dias no delta do Amazonas, conforme atestam os relatos de dois dos expedicionários: o soldado Francisco Vasquez (p 423-448) e o Capitão Altamirano (p. 386)”.

Coincidência ou não, num contexto muito diferente daquele em que dramaticamente morreu o famoso língua Pero Correia nas mãos dos Carijós, conforme narrativa de Anchieta (1988:91), entre os três sobreviventes, dois dos quais eram índios, do naufrágio ocorrido a algumas léguas da costa da Bahia em junho de 1556, em que pereceu uma centena de outras pessoas vítimas da antropofagia dos Caeté, entre as quais o Bispo Sardinha, estava um língua, relata Serafim Leite em notas às Cartas de Nóbrega (2000:279).

Atento, pois, à importância da língua da terra, Martim Afonso de Souza, comandando a expedição de 1530, ordenada por um D. João III motivado pela cobiça de ouro e prata que se noticiava haver em abundância na bacia do Prata e pela preocupação do aumento da invasão da costa brasileira por flibusteiros franceses (CORTESÃO, 1955:77- 87), fez-se equipar de dois excelentes línguas em sua missão também de caráter exploratório, de defesa e colonizador. Um deles era Enrique Montes, na condição de provedor da armada, “que habitara terras catarinenses durante doze anos” (CORTESÃO, 1955:51, 95-6, 101 e 111); o outro era o piloto Pero Anes (CORTESÃO, 1955:111 e 114). Com sua equipe de homens, entre os quais se incluíam esses intérpretes, Martim Afonso de Souza fundou, em 1532, a vila de Piratininga. (Jaime Cortesão na obra A fundação de São

Paulo – capital geográfica do Brasil (1955) ocupa boa parte dela a demonstrar a exatidão

monumental tratado investigativo de Serafim Leite (2004), precedido por Frei Gaspar da Madre de Deus (1975), em favor do papel de Manuel da Nóbrega vinte e um anos depois do capitão lusitano, tendo havido mesmo quem conjecturasse uma terceira localização para a povoação fundada por Martim Afonso de Souza, que se situaria no local da taba de Tibiriçá (TAUNAY, 2003:271). Hoje não resta dúvida de que o fundador do primeiro núcleo de povoação em Piratininga foi Martim Afonso de Souza, que aí chegou em 1532, movido pelo plano geopolítico de instalação de um avançado posto estratégico de expansão territorial e acesso ao Prata e às riquezas que aí se murmurava existir. É o próprio Nóbrega (2000:190-1) que o salienta em carta escrita da capitania de São Vicente em setembro- outubro de 1553: “E do mar dez léguas pouco mais ou menos, duas léguas de uma povoação de João Ramalho, que se chama Piratinim, onde Martim Afonso de Sousa primeiro povoou...”.)

A D. João III não era desconhecida a privilegiada localização geográfica de Piratininga, que dava acesso a um amplo espectro da região platino-amazônica, bastando seguir o Tietê para alcançar o Prata e transpor-se uma fácil garganta para estar no Rio Paraíba, “apontando o caminho do Norte”, pontua Capistrano de Abreu (1963:121). A sua importância é facilmente aquilatável quando se tem em mente que os afluentes de um e de outro rio formarão os limites ocidentais do Brasil.

A povoação fundada por Martim Afonso não teve longa duração nos planos políticos da Coroa, entretanto. Como mostra Cortesão (1955:173-4), a descoberta do ouro do lendário rei branco, Athaualpa – cuja existência os nativos anunciavam a ávidos exploradores e aventureiros europeus –, por Francisco Pizarro, que deu as boas novas ao rei espanhol Carlos V em 14 de janeiro de 1534, narra Cortesão (1955:173), arrefeceu D. João III em seus planos de expansão através de Piratininga, voltando sua atenção, naquele momento, às possessões do Oriente, que periclitavam e requeriam um redobrado contingente de homens, armas e navios, o que para Portugal, com uma população então em torno de um milhão e cento e vinte mil almas, segundo Capistrano (1963:45), número próximo àquele a que chega Cortesão (1955:22), significava o sacrifício do plano expansionista através do planalto da Serra do Mar.

Atirados à desatenção da Coroa, alguns dos colonos assentados por Martim Afonso de Souza trataram de refluir daquelas altitudes, retornando ao litoral, dissuadidos de

permanecerem pela dificuldade de adaptação naquele estranho mundo nativo, cuja língua não entendiam, não lhes podendo penetrar a cultura. As palavras de Cortesão (1955:174-5) são esclarecedoras a esse respeito:

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