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Depois da libertação da Índia, em 1947, o país encontrou em Vinoba Bhave a solução para o doloroso problema agrário. Ele havia prometido a Gandhi continuar sua obra, tornando-se então o místico-agrário.

Tinha grande aptidão para a matemática, e quando seu pai o enviou para o exame de admissão na Universidade de Bombaim, arquitetou uma fuga. Foi para Benares estudar o sânscrito e a interpretação das escrituras do hinduismo. Aos 21 anos já dominava o sânscrito como um mestre. Longe dos pais, tornou-se um asceta, impondo-se às privações e aos rigores da autodisciplina.

Conheceu Mahatma Gandhi em 1916; o próprio Gandhi trocou-lhe o nome de Vinyak Achary Narahari Bhave para Vinoba Bhave. Aderiu à causa de Gandhi, tornando-se seu discípulo.

Gandhi reconheceu-lhe os predicados de líder número um da Resistência passiva, em 1940, e a Jawahardal Nehru como número dois.

A campanha de Vinoba Bhave, conhecida como “Movimento Bhoodan”, tinha como legenda a frase: “A riqueza e a terra devem ser de todos”. Pretendia acabar com a idéia de propriedade privada, o que na Índia, desde tempos imemoriais já existia, pois prevalecia o sistema de trabalho comunitário, e cada aldeia era chefiada por um indivíduo que era responsável pela partilha, ou seja, depois da produção reunida, o coletor separava a terça parte correspondente ao Estado, o resto era distribuído igualmente para todos.

O novo Gandhi possuía aguda inteligência e extraordinária capacidade de armazenar conhecimentos. Falava correntemente dezoito das numerosas línguas existentes na Índia, além de dominar mais quatro idiomas estrangeiros: árabe, persa, francês e inglês.

Foi responsável por mudar a face da Índia rural, conseguindo terras de proprietários:140 “No final de 1958, o Bhoodan Yagna — ou Missão da Terra Doada — tinha recebido mais de 1.618.800 hectares quadrados de terra, doados por 250 mil grandes proprietários. Dessas doações, 22.663 hectares quadrados foram distribuídos a 14 mil famílias de agricultores.”

Suas idéias têm em Gandhi o mestre:141 “Há uma chama dentro de cada indivíduo e não pode ser extinta ainda que o desejemos. O bem de cada indivíduo está incluído no bem de todos.”

Cecília Meireles reconheceu “a chama viva” deste homem, dedicando-lhe, assim, um belíssimo poema:

“Já tivemos Gautama e Gandhi e hoje temos Vinoba Bhave. Não sei bem por onde se encontra: Mas está sempre em toda parte. Diz aos ricos: ‘Amai os pobres!’ Diz aos pobres: ‘Amai os ricos!’ Pede um campo como quem pede

140 ROHDEN, Huberto. Gandhi. 2006. p.148 141 ROHDEN, Huberto. Gandhi. 2006, p.148.

Um grão de arroz para um faminto. Sua sombra pelas estradas

É a sombra de um deus escondido. Nós trataremos desta terra

Tão velha, seca e abandonada: Os bois conversarão com ela Fábulas de semente e de água. Tudo será verde e luzente:

Mais grãos, mais leite, casas novas. Em nossos dedos de esperança, Muito trabalho desabrocha. Cantaremos com mais clareza, Dançaremos com outro brilho, Acendendo com luzes de hoje O perfume de óleos antigos. Quando os ricos amam os pobres, Quando os pobres amam os ricos, A roda do amor vai prendendo O céu e a terra no seu giro: Os demônios desaparecem E os homens são todos amigos. Já tivemos Gautama e Gandhi E hoje temos Vinoba Bhave. Procurai-o (não sei por onde): Ele está sempre em toda parte.”

(Poesia Completa. Vol.II. Poemas Escritos na Índia. Fala. p.1004,1005, 1006)

Vinoba Bhave aparece no poema como na verdade o foi em vida: uma mistura de místico e militante político. No entanto, sua práxis político-agrária glorificou-o.

A luta pela terra não é um fato restrito ao Oriente. Ao longo dos processos civilizatórios, a conquista territorial foi e continua dividindo a humanidade.

Esses processos de divisão que antes estavam restritos a tribos, com a formação das cidades (tribos agrupadas ou confederação de vários grupos), aos poucos, foram-se modificando. Lembrando que o fenômeno territorial tem suas raízes fincadas na religião doméstica que se foi expandindo, estabelecendo a nítida relação com o desenvolvimento da sociedade, assim, a religião deu origem ao Estado.

A realidade oriental é por natureza e índole diferente da ocidental. Quando Vinoba Bhave cria a Missão da Terra Doada traz a realidade social vinculada à realidade religiosa, pois a luta pela terra, ali, é também a luta pela dignidade e justiça cultural, daí ser uma missão sócio-religiosa.

O paradoxo entre Oriente e Ocidente, face às diferenças ideológicas, é profundo. Não há respostas absolutas para questões relativas. O que a história constata é um cenário em que o homo religiosus moderno vem-se mesclando ao homem a-religioso. As poucos liberta-se das superstições dos seus antepassados; mas, ao mesmo tempo, queira ou não, conserva vestígios do comportamento religioso.

A compreensão ampla sobre o Oriente para o Ocidente é conturbada. A Índia, especificamente, com sua grande diversidade, procura manter seu compromisso com os valores universais.

Em recente entrevista à Folha de São Paulo (2007), Sunil Khilnani, cientista político formado na Universidade de Cambridge afirma:142 “A Índia é, antes de tudo, uma idéia, um compromisso com valores universais de pluralismo, respeito às diferenças, crença na capacidade de argumentar e convencer e combate à injustiça e à opressão.”

A Índia vem procurando adequar sua grande diversidade a uma democracia efetiva. Os fundadores da Índia independente — Nehru e Ambedkar — desenvolveram uma política de ação positiva para as classes desfavorecidas. As inovações políticas como a mudança no sistema de castas devem-se a intelectuais como Tagore, Gandhi e Nehru. Ao rejeitarem as definições européias — que expõem uma nação em termos de uma única religião, língua, etnia ou mesmo território, esses homens conseguiram ver a diversidade como uma fonte de força.

Cecília Meireles conseguiu enxergar a dimensão humana destes intelectuais, transfigurando suas idéias, seus valores, suas crenças, em arte poética.