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A história de Buda é bastante conhecida. Os 80 anos de sua vida abrangem a maior parte do século V a.C., mas as datas exatas de seu nascimento e de sua morte são incertas. O príncipe Siddharta, filho único do rei Suddhodana do clã dos Sãkiya, e de sua esposa Mahâ

Mãyã, nasceu em Kapilavatthu, capital de Kosala, país que se estendia do Nepal meridional até o Ganges.

O príncipe foi educado na opulência da corte de Kapilavatthu; foi mantido na completa ignorância da velhice, da doença e da morte às quais todos os seres deste mundo estão submetidos por natureza.

Casaram-no com sua prima Yasodã, que lhe deu um único filho, Rãhula. Mas, foi em dos seus passeios que o príncipe viu passar a sua frente um velho, um cadáver e um monge- mendicante. Quando viu estes espetáculos, inteiramente novos para ele, e aprendeu pelo seu cocheiro Channa, que todos os homens estão sujeitos à doença, à velhice e à morte, ficou profundamente abalado.

Tentou logo procurar remédio a esta qualidade mortal que é inerente a todos os compostos, a tudo o que teve um começo e que deverá ter, conseqüentemente, um fim. Em outras palavras, dispôs-se a descobrir o segredo da imortalidade e dá-lo a conhecer ao mundo.

Regressando ao palácio, informou o pai de sua disposição. Como o rei não o pudesse dissuadir, tentou reter à força o filho, colocando guardas em toda parte do palácio. Mas, uma noite, após lançar um último olhar a sua esposa e filho, Siddharta chamou seu cocheiro e, montando seu cavalo Kanthaka, aproximou-se das portas e conseguiu fugir.

Nos recessos da floresta, o príncipe despojou-se de seu turbante real e de sua longa cabeleira e mandou de volta seu cocheiro. Encontrou-se com eremitas brâmanes e, sob a direção deles, dedicou-se à vida contemplativa. Praticou mortificações severas e pouco faltou para que se deixasse morrer de fome. Mas compreendendo que o enfraquecimento do corpo e das faculdades espirituais não o conduziriam ao Despertar (bodhi) pelo qual renunciara à vida mundana, retomou sua tigela de esmolas e foi mendigar alimento nas aldeias e cidades como os outros religiosos; vendo isto, seus cinco discípulos abandonaram-no.

Penetrando em planos de contemplação cada vez mais profundos, o Bodhisatta obteve sucessivamente o conhecimento de suas vidas anteriores, a sagacidade divina, a compreensão das origens pelas causas e, finalmente, pela madrugada, a plena Iluminação, o Grande Despertar que buscava.

Dispôs-se então a consagrar os quarenta e cinco anos que lhe restavam de vida neste mundo a “fazer girar a Roda da Lei”, isto é, a pregar a verdade libertadora, o Caminho que é

necessário seguir para atingir o fim último, a significação da existência, a “finalidade derradeira da humanidade”128.

Caminhou ao Parque das Gazelas, em Benares, junto dos cinco que tinham sido seus primeiros discípulos e lhes pregou a doutrina do Caminho do meio.

Cecília Meireles presenteou-nos com a crônica Grutas de Ajantá. Fala-nos sobre Buda numa linguagem que mistura história e fantasia: 129

Sentado sob o pipal, com o rosto voltado para o Oriente, Siddharta recebeu a revelação de suas encarnações anteriores, da causa dos renascimentos, e do meio de extinguir os desejos. Conheceu as Quatro verdades: a dor, a origem da dor, a libertação da dor, e o Caminho de Oito Ramos que conduz à libertação da dor. (...)

Siddharta não queria, a princípio, divulgar as revelações recebidas: quantos estariam em condições de recebê-las? E quem sabe não iriam perturbar os espíritos? — Mas o dever de quem sabe não é transmitir o Conhecimento? E cada um não aprende, apenas, segundo as suas forças? Até os limites de suas possibilidades próprias? Siddharta pronunciou um discurso.

(...)

Siddharta ensinou o Caminho de Oito Ramos que libera da dor: o ramo da criança correta, sem superstição nem ilusão; o da vontade correta, com fins nobres; e da linguagem correta, leal, benévola, verídica; o da ação correta, da conduta pacífica, honesta, pura; o dos meios de existência corretos, que não ofendam a nenhuma criatura; o do esforço correto, pela auto-educação e domínio de si mesmo; o da atenção correta, pela vigilância constante da memória e do espírito; o da meditação correta, que vem a ser o pensamento assíduo sobre o significado da vida.

Grande paixão por Buda, nosso poeta já havia confessado. Percorrer os caminhos de Buda, visitar os monumentos sagrados e olhar as cenas da vida indiana, mais uma vez, chegam até nós por uma prosa poética, infinitamente confessional:130

Sobre o meu amor por estas coisas que me rodeiam, passam grandes advertências sinistras: há todos os perigos — varíola, cólera, tifo... Doentes por toda parte... Mendigos sem fim. E a deusa Kali no seu templo, à espera de animais sacrificados... E o crematório, com os cadáveres a arderem nas piras, entre flores amarelas e fórmulas religiosas entoadas pelos parentes do morto e os ministros do culto...

O amor é um transbordamento de alma, sem limites nem lógica. O amor entende tudo, e sente na sua própria força defesa para todas as adversidades. Quem ama — seja uma criatura, seja um objeto, seja um país — não acredita em nada que possa diminuir o seu amor. Os verdadeiros amorosos não precisam nem ser correspondidos, pois o amor não tem nem essa mínima finalidade. Os verdadeiros amorosos não passam pelo mundo com os mesmos pés das outras criaturas: são aéreos, levitam como os sonâmbulos, pousam entre a varanda e a lua, caminham por escadas de nuvens.

128 COOMARASWAMY, Ananda. O pensamento vivo de Buda. 1961. p.20. 129 MEIRELES, Cecília. Crônicas de Viagem. Vol.3. p.193

A história do príncipe que abandonou seu reino para pregar a verdade libertadora, significação da existência e finalidade derradeira da humanidade, despertou no nosso poeta, ainda na adolescência, uma nova compreensão da existência.